Entrevista ao José Mário Branco - Cantautor, Compositor, Produtor

Fez parte do grupo que acompanhava Zeca Afonso, esteve na criação do GAC, cantou em França, fez parte do Teatro Comuna, do Organon, como cantor, actor, compositor. E trabalhou no cinema, com Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Luís Galvão Teles. Com José Afonso, Amélia Muge, Janita Salomé, entre outros. De que forma estas vivências foram determinantes para o seu percurso e para a sua formação pessoal? Para além da imensa solidão que é o (curto) momento da criação artística, sempre tive necessidade, desde muito novo, de agir em grupo, de partilhar competências e paixões, revoltas e sonhos. De facto não sei dizer se foram essas vivências que determinaram o meu percurso e a minha formação pessoal, ou se foi exactamente o inverso. Possivelmente foi um permanente vai-vem entre esses dois pólos, o individual e o colectivo. Ao longo de 50 anos do seu percurso artístico tem trabalhado como compositor e produtor de cantores tão ilustres como José Afonso, Camané, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, João Afonso, Kátia Guerreiro, Samuel; vão estrear os filmes Alfama em si e A Portuguesa em que participou como compositor; editou o CD Inéditos (1967-1999) e a sua obra completa remasterizada e republicada. Como tem sido trabalhar com estes ilustres cantores, o que nos pode dizer sobre a sua participação como compositor nesses filmes, e como pensa que será importante esta abertura de toda a sua obra? Os cantores que tenho dirigido, são-no sempre em função das suas próprias personalidades; não faria sentido que o resultado final fosse mais meu do que deles... Não há mestres, só há discípulos; os mestres são apenas sinais de trânsito. Quanto ao resto, sempre gostei das “encomendas” do cinema e do teatro. Fiz muita música para filmes e peças. É uma característica que me tem ajudado muito ao longo da vida: a minha polivalência. Foi perseguido e preso político, e um cantor/activista político que lutava contra o sistema, esteve exilado. Para si como é fundamental dar a conhecer a forma como se vivia debaixo da ditadura, do exílio, da fome, miséria, da tortura? Claro que é preciso dar a conhecer, aos mais novos, as coisas más e boas do passado, como forma de eles poderem procurar caminhos, evitarem repetir erros e enganos, buscarem soluções para os novos problemas. Mas isso tem limites: o facto de se contar aos outros como foi não evita que eles precisem de passar pela sua experiência vivida. Tudo é igual e nada é igual. Fez várias músicas de cariz de protesto, sobre questões sociais e um CD dedicado ao povo timorense. Já escreveu e apresentou a obra “FMI” há muito tempo e mais recentemente criou o texto/espectáculo “Mudar de Vida”. O que é que esses trabalhos representam hoje para si? De que maneira foram fracturantes para a sua análise e crítica da sociedade e dos acontecimentos? São momentos de balanço e, sobretudo, de catarse, que têm mais a ver com o teatro do que propriamente com a música; são picos mais claramente autobiográficos na minha obra.

Referiu ao Blitz “O refluxo do PREC obriga-nos a meter os pés no chão e dizer assim: 'pá, vocês são uns sonhadores do caraças. Não têm jeito nenhum para isto. Houve aqui alguém que se enganou'. Mais uma vez, uma coisa tipo Maio de 68. Para mim foi uma espécie de repetição”. Como foi ter participado no PREC, ter vivido o 25 de Abril mesmo como refere, muito sonhador? Na sua perspectiva como é que a revolução e o PREC deviam ter triunfado e de que forma o fracasso foi o catalisador para o que vivemos hoje?

O Maio ’68 em França e, depois, o 25 de Abril em Portugal foram as duas grandes “festas libertárias” que tive o privilégio de viver. O verbo instrumental nessas situações não é o verbo “triunfar”, mas sobretudo o verbo “exprimir”. São descargas históricas que, não tendo um projecto político de poder, estão de facto votadas ao fracasso - ou melhor, a serem de curta duração. O mesmo foi acontecendo, ao longo da história, em todos os tempos e todas as partes do mundo, desde Spartacus à Comuna de Paris. Eu vivi esses momentos enquanto espaços-tempos de liberdade, porque o valor da liberdade é o fulcro da criação artística. Para mim foram muito mais revoltas culturais do que revoluções políticas. Nas discussões do PREC eu disse várias vezes aos companheiros: “Vocês estão na música porque são políticos; eu estou na política porque sou músico”.

Disse ao Blitz: “Pode ser que eu volte a cantar em palco. Agora não sei muito bem o que é que hei-de dizer. Esta coisa podre em que a gente vive agora, este mundo tão feio, faz com que eu não me sinta bem a ir para o palco cantar aquelas coisas do costume, a ‘Inquietação’, a ‘Eu Vim de Longe’, com as pessoas a acenderem isqueiros e telemóveis”. No entanto como vê que se possa mudar essa forma podre que vive agora e como marxista o que nos pode falar sobre a evolução mundial? Como se pode melhorar essa relação de que não gosta de público-artista? O que falta para que haja uma melhor educação e cultura musical?

O artista não é um líder que desencadeia e organiza as lutas. É apenas um testemunho do seu tempo, um possível dinamizador de forças sociais. Não é o artista que inventa o movimento, mas o movimento que inventa o artista - e assim lhe apresenta uma “encomenda social”. Que posso eu cantar agora, quando não há movimento? quando não há “encomenda social”? Comecei a sentir que as minhas cantigas em palco, mesmo sendo genericamente actuais, alimentavam - em mim e no público - uma nostalgia insuportável, um fechamento no passado, um simulacro de impulso sem projecto. Essa nostalgia é, de facto, uma forma de egoísmo. A atitude saudosista, que só se consegue agarrar ao passado, vem de certo modo substituir a necessária revolta contra o que está. É isso que me fez sentir mal no palco e suspender as actuações enquanto cantor. A nostalgia é uma arma poderosa da classe dominante para continuar a dominar.

Quais são os seus sonhos para Portugal? Os meus sonhos para Portugal são os mesmos sonhos que alimento para todo o mundo: a organização da sociedade em função dos grandes valores que persigo desde a adolescência - a Liberdade, a Justiça, o Amor. O capitalismo, ao globalizar-se como fez a partir do séc. XX, globalizou também os problemas sociais, e veio impor um desaparecimento do Estado-Nação. Esse parece ser o cerne dos problemas actuais. A exploração capitalista passou a ser global, e só poderá ser posta seriamente em causa com movimentos sociais globais. Quem está a tentar a sobrevivência dos Estados-Nação é, em geral, uma extrema direita fascizante e violenta que só quer o recuo histórico da humanidade para os tempos do poder autocrático. Mas é preciso cuidado com a palavra “sonhos” (as palavras também têm sentidos diferentes conforme quem as domina). Qualquer pequeno avanço da Humanidade, ao longo dos tempos, foi sempre o resultado de sonhos. Todos os dias realizamos uma pequena utopia qualquer. Sem sonhos só haveria entropia, e a Humanidade já não existiria. Como eu disse em A Noite, publicada em 1985, “Se soubermos ver nos sonhos o processo / Os passos para trás não são um retrocesso”.

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Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: João Aristides Duarte

25 de Novembro de 2018

#JoséMárioBranco

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