Entrevista a Ailton Krenak
- Jun 7, 2019
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Updated: Sep 23, 2022

Sobre a luta e o acto de ter pintado a cara de preto e ter declarado guerra aos congressistas refere em entrevista ao jornal português Expresso “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações futuras….” Como é que o enorme retrocesso que se tem verificado quer através do PT, quer com o Temer e agora com as enormes ameaças do Bolsonaro, como pensam que é possível resistir, mudar esse paradigma e consciencializar o povo brasileiro e o mundo das enormes adversidades, injustiças e etnocídio?
O que ocorre hoje no Brasil e todo continente americano é um assalto definitivo as últimas regiões naturais para sustentar a crescente globalização do capital. Mesmo os USA estão fazendo uso de suas reservas naturais- carvão, por exemplo. Nenhum lugar está a salvo do extrativismo predatório do antropoceno. Independente da ideologia que orienta a política dos governos regionais, estão subordinadas a dinâmica do capital financeiro global. Uma mudança de paradigma civilizatório seria a única maneira de mudar esta corrida para o desastre socioambiental. Começar a mudança localmente como ensina Gandhi, é o que cada um pode fazer enquanto a entropia não toma conta da vida no planeta.
Diz nessa entrevista que “...A Amazónia é a maior floresta tropical do planeta que ainda tem condição de ser reguladora do clima e o Brasil quer derrubar a Amazónia. Por que eu vou achar o Brasil grande? O Brasil é menor do que a Amazónia. Eu queria que ele fosse maior.”. Como é que pensa que é possível tornar o Brasil maior, maior que a Amazónia? Acredita que depois na nomeação do maior inimigo do povo indígena e do povo brasileiro, finalmente as pessoas se vão aperceber do que querem fazer ao povo indígena, e à Amazónia?
Para a maioria dos brasileiros, inclusive aqueles que não nomearam o atual governo, a amazônia é um ‘celeiro’ onde podem saquear indefinidamente, não têm ideia da sua ecologia e frágil equilíbrio climático, mesmo sendo um regulador do clima global é uma biosfera tão sensível que pode virar deserto em poucas décadas. Agora vivemos o risco real de disparar este gatilho para bancar a fantasia econômica de um país falido politicamente.
“A colonização que a Europa fez do resto do mundo desde os séculos XV e XVI imprimiu uma maneira de dominação que é como um vírus, é capaz de se auto-reproduzir, inclusive nas colónias” De que forma é possível o Brasil destruir esse vírus e como tem sido devastador para o progresso do país, para a liberdade e a sua soberania? Para os povos indígenas como tem sido ainda mais devastador? Em que medidas tem impedido os povos do Brasil de seguir livres e soltos de todas essas amarras?
O vírus do colonialismo já faz parte do organismo da vida brasileira, produz desigualdade e racismo. Vicia e cria dependência entre seus hospedeiros, ainda mais
em uma sociedade formada por indivíduos de todas as origens culturais e identitárias,com expectativas de mundos tão conflitantes e excludentes. Nem mesmo a ideia de ‘soberania’-
o grande contingente, de pessoas espalhadas pelo país afora consegue expressar, por ser uma construção que depende de identidade nacional, o que não foi construído até aqui, excepto a língua comum,sendo português. Povos indígenas nesse contexto histórico , nada têm de prioridade na vida brasileira em geral, por ser uma ínfima minoria dos aproximadamente duzentos milhões de brasileiros.
Tem dedicado desde os anos 80 ao Núcleo de Cultura Indígena, participou da Aliança dos Povos da Floresta. Como é que têm sido estes mais de trinta anos de luta quer pela Amazónia, quer pela defesa e promoção da cultura indígena e pelos direitos dos povos indígenas? E como vê o futuro da Amazónia e do Brasil se o Bolsonaro concretizar a ameaça de destruição dos mesmos?
Viver esta segunda metade do século XX, pois nasci em 1953 e sempre fui observador de nossa vida social,me faz acreditar que o futuro dos povos indígenas é indissolúvel da história do Brasil como país colonizado e subordinado ao sistema global,sem outra alternativa que servir de base extrativista para o mundo desenvolvido. A situação atual é grave, mas não determina nosso destino. Temos muita história atrás e a frente ainda, para definir os rumos da amazônia e do Brasil como país.
Quais são os seus sonhos para os povos indígenas e para o Brasil?
São mundos imbricados, mas com sonhos próprios e distintos entre sí, mesmo que habitando a mesma paisagem.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: João Aristides Duarte
07 de Junho de 2019
07 de Junho de 2019


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