Entrevista a Beatriz Pereira – Mestre em Psicologia
- Jan 8, 2018
- 9 min read
Updated: Oct 3, 2022

Desde já agradeço a sua colaboração
Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite para esta entrevista, fico muito lisonjeada por ter visto valor naquilo que faço. Gostaria de salientar que me encontro no início da minha carreira e, portanto, não sou nenhuma expert nos assuntos aqui falados. Responderei sempre com a minha maior sinceridade, humildade e com base na minha experiência pessoal e, principalmente, profissional. Também gostaria de referir que nunca estamos sozinhos nas nossas realizações e, portanto, todos os projetos aqui referidos foram realizados com ajuda de pessoas incríveis que me têm ensinado muito e, por esse motivo, os méritos são também (e em muitos casos principalmente) dessas pessoas.
Em 2014, 2015, 2016 e 2017 participou no projecto “Coronado Em Férias” destinado a crianças dos 6 aos 14 anos. Nesta colónia de férias desenvolveu actividades lúdico-pedagógicas com as crianças.
1. De que forma considera importante para si ter desenvolvido estas actividades com crianças?
Entrei neste projeto criado pela Joana Viagem quando ainda era estudante do 2º ano de Psicologia com a missão de ocupar o meu tempo de forma útil, ajudando alguém. No entanto, foi devido a este projeto que descobri que o que eu queria fazer da vida era trabalhar com crianças, na educação das mesmas. Desenvolver estas atividades com crianças ajudou-me a perceber que podemos fazer a diferença no futuro delas como pessoas mesmo estando a “brincar”, porque, de facto, são ocasiões privilegiadas para trabalhar muitas competências importantes (sociais, cognitivas…). É incrível perceber que no espaço de semanas podemos ver evoluções muito positivas em diversos aspetos nestas crianças, porque aproveitamos o tempo delas com atividades com conteúdo educativo. Assim, acho mesmo que todos os campos de férias deviam ter uma lógica por detrás das atividades que se fazem com as crianças e não querer só ocupar o tempo delas, porque de facto podem fazer a diferença.
Trabalhou também como Monitora na Colónia de Férias de Trofa em 2015.
2. Descreva como todo o trabalho com crianças a tem feito aprender como Psicóloga e a faz adquirir melhores conhecimentos para avaliar e estudar melhor os comportamentos.
Vai muito ao encontro da questão anterior! Trabalhar com crianças faz-me compreender que todos podem mudar, aprender, evoluir… Algumas só precisam de mais um empurrãozinho, ou do empurrãozinho certo. Acho que acima de tudo, como psicólogos, temos de aprender a ouvir e observar sem julgar. Por exemplo, não podemos olhar para o comportamento de uma criança que não está atenta na aula e tirar de imediato a conclusão de que não está interessada ou não quer aprender! O que acontece quando tiramos essa conclusão precipitada? Desacreditamos na criança e não investimos nela. Assim, é importante procurar perceber o que levou ao comportamento e encontrar soluções.
“Projecto ProPsi – Observação de uma intervenção em grupo com pessoas com diabetes tipo II.” Participou nesta observação em 2015.
3. De que forma foi importante para si participar numa observação tão fundamental sobre esta doença que requer muita atenção e preocupação?
Primeiro, foi importante porque me ajudou a perceber que não é isto que quero fazer da vida (sim, porque para sermos bons profissionais temos de ser capazes de saber o que não queremos fazer ou ter a humildade de saber que não seremos assim tão bons nisso, e de facto trabalhar saúde com adultos não é o meu forte)! Por outro lado, foi muito importante porque percebi a importância das intervenções em grupo, não em específico para diabetes, mas para qualquer tipo de temática. A influência do sentimento de pertença e de suporte social é realmente muito impactante. Com crianças procuro sempre realizar dinâmicas de grupo porque esta partilha de experiências ajuda muito no processo de mudança, na motivação para a intervenção e na superação de barreiras.
Frequentou um curso webinário sobre o suicídio na adolescência.
4. Como Psicóloga considera fundamental estudar esta problemática?
Sim, com certeza. Mesmo não sendo a área de especialização, penso que todos os psicólogos de todas as áreas (educação, justiça…) devem perceber os fatores que envolvem esta problemática de forma a poder detetar sinais precoces e atuar ou reencaminhar para alguém que consiga atuar nesta área.
5. Como podemos avaliar esta “tragédia” e de que forma se pode reverter?
Frequentei este webinário para me enriquecer como profissional e poder saber reconhecer os sinais de uma possível ideação suicida e, assim, trabalhar multidisciplinarmente com alguém especializado nesta área. No entanto, não sou de todo a pessoa mais indicada para poder abordar esta questão de uma forma profissional. Mas há aspetos importantes, por exemplo, é importante ter atenção a sinais como alterações de humor, automutilação, isolamento, discurso de desesperança… e reencaminhar o caso para que se possa atuar o mais precocemente possível.
Integrou uma oficina sobre “Género e comunidades ciganas”, participou numa apresentação oral sobre o tema “Despertar para aprender: envolver alunos ciganos na escola“ integrado no grupo GUIA (1) e desenvolveu e defendeu a dissertação do seu mestrado uma investigação "Mudanças de atitudes acerca da etnia cigana em crianças do 4º e 5º ano".
6. O que a motivou a conhecer melhor a etnia cigana e a sua integração nas escolas?
Aqui sim, começou um dos meus temas de paixão e a minha paixão pela investigação. O interesse pela etnia cigana acho que cresceu por vários fatores e quando surgiu a oportunidade de trabalhar com esta temática foi quase como instintivo e eu soube que queria seguir por aqui. Foi a curiosidade pelos valores e costumes muito peculiares e vincados e pelas questões de discriminação em todos os aspetos. Dizemos que somos um povo muito inclusivo, mas quando nos deparamos com algo “estranho” à nossa forma de viver, algo que não compreendemos, repelimos sem sequer conhecer ou tentar perceber. E quando toca à educação, eu acredito, sei com certeza até, que todos temos o direito à educação. Mas não acredito na igualdade na educação, mas sim na justiça social na educação, na equidade. Se uns estão num patamar e outros noutro, faz sentido darmos a mesma quantidade aos dois grupos? Não, porque continuarão em patamares diferentes, certo? É a mesma lógica. Não podemos dizer que integramos as minorias na escola simplesmente colocando-as lá. É necessário realmente fazer uma integração, e isso requer trabalho por parte de todos, dos alunos, dos professores, dos diretores, dos órgãos decisores… Por isso, é aqui que se encontra a minha motivação, em tentar fazer a diferença na verdadeira integração da etnia cigana nas escolas. Até porque é esta integração na escola que vai servir de ponto de partida para integração no mercado de trabalho e na sociedade por parte desta minoria.
7. O que aprendeu desde a oficina em que participou?
Tenho aprendido muita coisa! Que são uma etnia muito rica culturalmente e que vale a pena conhecer a sua história. E aqui entra outra coisa que aprendi, que um dos grandes motivos para as pessoas discriminarem é não conhecerem, julgarem sem saber ao certo o que estão a julgar (porque quando pergunto o porquê de “não gostarem de ciganos” as respostas são “porque não”, sem fundamento). Que a não inclusão nas escolas se deve a questões culturais (o casamento, as feiras…) mas também em grande parte à discriminação sentida e a falta de sentimento de pertença. Sim, imaginem que toda a vossa vida diziam que a vossa família era suja, roubava, entre outras coisas. Como reagiam? Eu com certeza que reagiria mal e também não iria ter a melhor resposta comportamental. É um efeito bola de neve… As pessoas excluem-me, eu ponho-me de parte, as pessoas não conhecem e voltam a excluir, e eu coloco-me ainda mais de parte! Também tenho aprendido que somos realmente todos iguais. As crianças ciganas gostam de brincar, querem aprender, têm sonhos. É, com certeza, frustrante quando uma rapariga cigana vai contra a sua cultura, esforçando-se para terminar o 12º ano e quando nas entrevistas de emprego percebe que a sociedade não quer saber e que afinal não valeu a pena a luta! E, portanto, aprendi que há um longo caminho a percorrer nesta caminhada da inclusão.
8. De que forma o seu estudo no mestrado a tem ajudado a compreender este povo, suas vivências, formas de estar e pensar?
Mais do que ler sobre o assunto, é a interação com a realidade que me tem ajudado a compreender a etnia cigana. Foi muito importante envolver a comunidade cigana na construção do próprio estudo e não me colocar numa posição de expert que sabe exatamente o que está a fazer. Assim, integrei-me na comunidade cigana do Bairro da Biquinha e interagi com as crianças e fui mostrando os materiais do estudo para me darem feedback (diziam se estava de acordo com a realidade deles ou não). Foi uma experiência muito rica e importante para mim como psicóloga e investigadora. Também a implementação do próprio projeto nas escolas tem-me ensinado muito, sobre as perspetivas das outras crianças acerca desta comunidade, de forma a perceber o que podemos fazer para contribuir para a integração.
No seu Estágio Curricular, o ano passado na Unidade de Internamento Pediátrico do Hospital de Braga, ao abrigo do projecto cresCIMENTE. Este projecto abrange diversas actividades educativas e de promoção de auto-regulação nas crianças.
9. Através do estágio, o que espera desenvolver e que conhecimentos pretende adquirir de modo a melhorar o seu trabalho e o desenvolvimento das crianças?
Com o trabalho que desenvolvi no meu estágio na Pediatria tive contacto com uma realidade que até então nunca tinha parado para refletir. De facto, as crianças internadas estão afastadas de todas as suas rotinas diárias e, principalmente, da escola. Este internamento pode prolongar-se por dias, semanas ou meses, sem que as crianças tenham contacto com a escola e sem que encontre uma medida que faça face a este afastamento. Assim, estas crianças podem perder certos estágios de desenvolvimento fulcrais e tornar a reintegração na escola difícil. O projeto CresciMENTE vem colmatar esta lacuna, tornando o Hospital num local de aprendizagem e aproveitando o tempo de internamento para que seja uma oportunidade de aprendizagem. Assim, foi possível trabalhar com estas crianças: questões de ansiedade relacionadas com a escola ou com o próprio internamento (os enfermeiros e os médicos já têm tantas tarefas que muitas vezes não conseguem explicar a situação de saúde à criança ou prepará-las para a cirurgia); problemas de aprendizagem; competências transversais, como a memória e a concentração, indispensáveis para o quotidiano; entre muitas outras coisas. Foi possível compreender que este trabalho da psicologia no internamento se torna indispensável, uma vez que melhora a experiência de internamento das crianças (não se torna algo traumático) e facilita o regresso à escola, para que não se note um desfasamento tão grande relativamente aos seus pares.
10. Neste momento é investigadora no GUIA onde está a desenvolver um projecto de alimentação para crianças do ensino básico com estratégias de auto-regulação de aprendizagem. Sabendo do seu grande interesse por crianças, em prol de um desenvolvimento livre e saudável, de que forma sente a importância de abraçar este projecto? De que modo estas estratégias poderão mudar a realidade das crianças na maneira como se alimentam? Como pretende levar este projecto a mais crianças? A obesidade e o excesso de peso são um cenário cada vez mais assustador na sociedade. De facto, esta problemática aumentou mais do que o dobro nos últimos anos e as pessoas só pensam realmente nela quando começam a aparecer as consequências mais graves. No entanto, o excesso de peso nas crianças tem um impacto no domínio não só da saúde, mas também no psicológico e social. Uma criança com excesso de peso não acompanha as mesmas brincadeiras, não tem o mesmo nível de concentração nas aulas, é estigmatizada, entre outras coisas com muito impacto no dia-a-dia. A boa notícia é que esta problemática pode ser modificada, na maior parte dos casos, com alimentação saudável e exercício físico. Já têm sido implementados vários programas neste sentido, o problema é que muitas vezes se focam apenas em transmitir conhecimento declarativo acerca da alimentação saudável e já está comprovado que apenas o conhecimento não chega. Uma criança pode saber que deve comer fruta, mas se lhe aparece um bolo à frente como é que tem capacidade para optar pela melhor escolha? Aí é que entram as estratégias de auto-regulação da aprendizagem: dotar as crianças de competências de criação de objectivos, de planeamento, de superação de obstáculos. Assim, a criança não sabe apenas quais são as melhores opções, como também tem as estratégias adequadas para enfrentar os distratores que a impedem de conseguir seguir um estilo de vida mais saudável. Estas estratégias são muito importantes porque a criança sente que tem controlo nas suas escolhas e que é eficaz a cumprir os seus objectivos. Quanto à expansão do projecto, este tem uma componente online, que para além de ajudar na motivação das crianças para se envolverem no mesmo, também permite que acedam à distância. Isto no futuro irá ajudar-nos, espero, a chegar ao maior número de crianças possível. 11. Contou-me que continua a dar seguimento ao seu projecto sobre a etnia cigana. Depois de vários trabalhos, da sua tese de mestrado concluída, e de compreender melhor a comunidade cigana, estando familiarizada com os seus hábitos e cultura, o que lhe permite desenvolver uma melhor aproximação e inclusão? Quais são os novos objectivos? O que pretende ainda aprender e proporcionar à comunidade cigana? Vou começar pela questão do aprender. Aprender ainda tenho muito que aprender, há sempre mais para aprender. E só aprendendo mais e compreendendo melhor a cultura desta comunidade é que podemos desenvolver uma melhor aproximação e inclusão. Quando a abordagem de “inclusão” é tentar a aculturação da etnia cigana para que tenham os mesmos valores e costumes que a cultura dominante, está logo tudo errado! É importante que se valorize e respeite os valores da comunidade cigana para que seja possível a sua integração no meio escolar e na sociedade em geral. Quanto aos objectivos, continuam a ser trabalhar com os dois lados, tanto com a comunidade como com os mainstream, para que se promova cada vez mais a inclusão e a aceitação da diferença.
12. Por último, quais são os seus sonhos para Portugal?
Eu acredito muito no meu país e nas pessoas do meu país e, por isso, acredito que os meus sonhos se tornem realidade! Sonho com uma educação que valorize mais a individualidade de cada um, sonho que realmente se invista nas nossas crianças porque são mesmo o nosso futuro e sonho que o país acredite mais nos ganhos que a psicologia pode trazer em todas as áreas!
- GUIA (Grupo universitário de investigação em autor-regulação)
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Vidas e Obras
Entrevista: Pedro Marques Correcção: Vanessa Monteiro
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12 de Fevereiro de 2018


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