Entrevista a Ana Bastos
- May 27, 2015
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Updated: Apr 3, 2021
Entrevista à Coordenadora do Grupo Local 35/Coimbra da Amnistia Internacional - Ana Bastos
Um dos projectos que estás a desenvolver com a Amnistia é sobre os direitos sexuais e reprodutivos, um dos pontos principais é sobre a mutilação genital feminina. Para ti em que é que este acto bárbaro pode prejudicar o normal funcionamento do órgão sexual da mulher?
Segundo a Organização Mundial da Saúde, a Mutilação Genital Feminina é uma forma de tortura, praticada por algumas comunidades como um ritual de passagem da mulher criança. Os rituais de passagem existem em todas as culturas, o problema é que neste caso está-se a mutilar um corpo. O mais macabro de tudo é que é feito para se “purificar” o corpo de crianças, e são as mães que lhes seguram nos braços, quando tentam, em vão, salvar o corpo. Respondendo à tua pergunta, sim, tem muitas sequelas no corpo da mulher, estas dependem da forma como é feita a mutilação, existem três formas mais comuns. Para além da morte, correm o risco de infecções variadas, dores durante o acto sexual, e claro, deixam de poder ter prazer durante o mesmo. Para além do corpo, que é mutilado, a cabeça destas mulheres nunca voltará a ser a mesma. Este é um ritual de castração, em que a mulher tem algo “mau”, esse “mal” tem de ser retirado, e duma forma inacreditavelmente dolorosa. Imagino que psicologicamente, e ainda mais para uma criança, seja traumático.
Na entrevista à Preguiça Magazine referes com a Filipa Santos, anterior Coordenadora do GAIC, que este projecto/luta que estão a desenvolver promove o objectivo de os jovens conhecerem o seu corpo, a sua sexualidade e respectiva reprodução sem qualquer controlo, medo, preconceito, discriminação. De que forma é que a vossa mensagem alerta a juventude para a importância de verem os direitos sexuais e a sua liberdade como algo importante e essencial para a sua vida?
A Campanha Meu Corpo Meus Direitos é uma campanha internacional da Amnesty International, cujo objectivo é alertar os jovens para os seus Direitos Sexuais e Reprodutivos, para a consciência de que os possuem e podem gozá-los em liberdade, sem qualquer tipo de constrangimentos. Chegamos aos jovens através da divulgação desta campanha em todas as acções de formação que fazemos, eventos que envolvam públicos mais jovens, e sensibilizamos através de casos concretos que a AI esteja a trabalhar dentro deste tema. Neste momento o grupo está a dinamizar várias páginas no Facebook, duas delas relacionam-se com este tema: “Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina” e “Dia Internacional da Mulher”.
A falta de direitos estende-se por muitos países. Na tua opinião qual é a melhor forma de consciencializar as populações para estes problemas, e permitir que se acabe com práticas que vão contra a liberdade e o bem-estar sexual?
A questão da educação para os direitos humanos é fundamental, acredito, como o nosso já falecido, embaixador da consciência Nelson Mandela, que a educação é realmente uma arma poderosa… Façamos então uso dela! Não basta proporcionar um leve olhar, através de módulos específicos que a AI ministra, pontualmente, em tantas escolas (mas ainda não em todas). Os direitos humanos devem ser trabalhados, desde cedo, e continuamente. É um jogo que se vai jogando, nas escolas, na rua, com os amigos e especialmente com a família. Julgo que todos nós sabemos a importância e impacto que por vezes um professor tem no estímulo (ou não) do pensamento crítico de um estudante. Temos de os fazer pensar… É importante passar a mensagem nas salas de aulas, mas também nos recreios, nas áreas interdisciplinares e nas áreas físicas de ponto de encontro da população escolar. Este trabalho deve ser responsabilidade de toda a comunidade escolar, e não só um diálogo entre aluno e professor (professor esse que cada vez mais se vê submerso em trabalho administrativo, faltas de consideração, respeito e outras que tais com que têm sido brindados nos últimos anos). Ora, tudo isto, implica a formação para os direitos humanos do pessoal docente e não docente, investimentos que, a longo prazo, surtiriam efeitos vantajosos, mas que não nos parece que sejam do interesse do ministro Nuno Crato, infelizmente, outros sombrios valores se “alevantam” para este governo.
Violações sobre crianças, gravidezes não desejadas por crianças e obrigação de as levarem até ao fim, prolapsos uterinos, entre outros, são alguns dos problemas que afectam as crianças e jovens. Como se pode alertar a sociedade para esta realidade atroz e, na tua perspectiva, qual é a melhor forma de se desenvolver uma sexualidade positiva, uma formação cívica, cultural e formativa para que as pessoas e sociedades em geral não cometam estes crimes perante crianças, principalmente mulheres?
Legislação que proteja os Direitos Sexuais e Reprodutivos de todo@s; instituições públicas, privadas; entidades patronais que os efectivem através do seu cumprimento e escolas que passem a mensagem, porque a escola, será sempre veículo de mensagem, temos, é de ponderar qual a mensagem que queremos passar.
Dia 21 de Abril participaste no Debate “Amnistia Internacional Portugal e o 25 de Abril”. Que ideias se trocaram no debate e como podem o 25 de Abril e a Amnistia impulsionar Portugal para o Progresso, para a Liberdade, para a Democracia? Como podem os ideais do 25 de Abril voltar a florescer e como pode a Amnistia contribuir para esse florescimento?
A Amnistia começou por causa de dois casos portugueses. Dois jovens, que brindaram em público à liberdade, foram presos e despertaram a revolta de um jovem advogado britânico, Peter Benenson. Este jovem não ficou pela revolta, não havia facebook, mas escreveu um artigo no The Observer “The Forgotten Prisioners” que seria a sua primeira campanha mundial (Apelo para Amnistia 1961). A partir daqui estava aceso o rastilho da nossa vela. Vários casos de prisioneiros políticos do regime português foram adoptados pela AI, por exemplo o Agostinho Neto. O ano passado realizámos uma sessão de formação em Coimbra, e um senhor que foi assistir, tinha estado exilado e tinha sido a AI a ajudá-lo, aquelas palavras eram realmente agradecidas e aquele olhar disse mais que mil palavras, esclareceu-me quanto à importância da Amnistia na luta pela liberdade em Portugal. Na conferência, as ideias foram muitas e lindas, apercebi-me ao falar com Manuel Martins Guerreiro, que é de ideais que nascem as asas, que se derrubam muros e se fazem revoluções, e isso é tão bom. Ao ver de longe, sob a lupa do tempo, é fácil julgar muitas acções tomadas pelos capitães, mas ouvir as ideias por detrás das acções que marcaram o passo da História recente de Portugal, é importante para sentirmos que as grandes mudanças, e revoluções não se fazem com heróis, mas com todas as pessoas. Somos nós os engenhos de mudança, por vezes esquecemo-nos, e é bom ter alguém que nos lembre. Esta conversa, foi mesmo isso, um relembrar, recordar a força que temos, quando estamos “para aí virados”. Assim também te respondo à segunda parte da pergunta, os ideais, florescem dentro de nós, é preciso saber descobri-los e canalizá-los. Temos mais força do que pensamos.
Está-se a celebrar agora o quadragésimo primeiro aniversário da Revolução, em que é que esta revolução contribuiu para o teu processo enquanto activista na Amnistia, enquanto mulher, e enquanto cidadã?
Vou incluir o mulher no cidadã, porque não os consigo separar. Quando era miúda, lembro-me de acordar e sentir que era dia de festa, tínhamos direito a cravos vermelhos, ouvia-se Zeca em todo lado e os meus pais tinham um especial brilhozinho nos olhos. Os valores de Abril sempre estiveram presentes, foram-me transmitidos pelos meus pais e pela minha irmã, todos dias, em todos os contextos. Acho que, a primeira vez que tive consciência da importância das pessoas, como alavancas de mudança, foi nas comemorações dos 25 anos da crise académica de 1969. Tinha 12 anos e achava a política uma chatice. Nesse dia, 17 de Abril, fomos a Coimbra, encontrarmo-nos com uma data de amigos dos meus pais, o ponto de encontro era na praça da república, e aí começou toda uma viagem a um passado que eu sabia que existia mas nunca tinha ligado muito. Naquele dia, ao vê-los a falar, com aquele mesmo brilhozinho nos olhos, sobre acontecimentos que, realmente, tinham abanado a História (e que foram o início do fim do regime autoritário português), pensei, espera aí que eles não viveram tempos fáceis, tiveram mesmo de fugir à polícia, ouvir rádio às escondidas e, especialmente, tiveram de lutar pela sua própria liberdade. Penso que foi aqui o clique para mim, para a consciencialização que os direitos que temos como garantidos, não o estão, é necessário mantê-los e, por vezes defendê-los. Desde miúda que me lembro da minha mãe dizer que todos devemos votar, pois é uma forma de nos manifestarmos, mas também porque muita gente morreu e lutou para que tivéssemos esse direito. Não sei porquê o último argumento ficou sempre em mim, fez sentido, aliás, continua a fazer. A 1ª mulher a votar na Europa foi Carolina Beatriz Ângelo, em 1911, era cabeça de casal e licenciada, por isso conseguiu contornar o sistema eleitoral republicano. As mulheres lutaram lado a lado nas trincheiras republicanas, e um ano depois são esquecidas. Por estas mulheres e por muitas que ainda não podem decidir por si, devemos usar o direito ao voto, uma questão de dever cívico, mas também uma questão de respeito por quem lutou e por quem não pode usufruir dele.
Com os últimos governos o direito à habitação, o direito ao ensino e à saúde de qualidade e gratuitos, o direito à segurança social, o direito de todo e qualquer cidadão em Portugal a ser respeitado por raça, cor, religião ou outro, muitos têm sido os abusos policiais perante ciganos, negros, e outros. Como vês o futuro tendo em conta este retrocesso e estes ataques aos direitos?
O país está um pouco parado em termos de manifestações, mas as greves estão a fervilhar, as associações culturais mexem-se, e muitos manifestos, petições e outros estão a acontecer, no entanto o que é que é preciso para haver mais luta pelos direitos humanos?
Sinceramente, enquanto Ana, não consigo vislumbrar bem o futuro, de uma coisa tenho a certeza. Enquanto continuarmos a ser considerados números, de tabelas de Excel infindáveis, enquanto continuarmos a ter, em cargos de poder político, técnicos recolhidos e, com grandes currículos em juventudes partidárias e empresas manhosas, o futuro nunca será risonho, porque estamos perante uma classe política que, provavelmente, nunca leu a Constituição da República Portuguesa de 1976 ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e portanto, não sabe bem o que são isso, direitos e liberdades individuais. Para haver mais luta pelos direitos humanos, penso que a união seria um belo início. Tivemos uma visão dela há uns tempos atrás, lembras-te? Infelizmente as cisões dentro dos movimentos que se criaram, a multiplicidade de movimentos que se criaram, acabaram por dissipar essa união que, já de si, era tão frágil. Como se viu, após Junho de 2013 acabaram as manifestações sociais. É irónico e triste ver que, quando os partidos políticos não têm tempo, as manifestações não acontecem. Para mim, foi uma mensagem clara, afinal não foram movimentos assim tão sociais, que fizeram brotar a indignação popular, mais uma vez…
A violência sobre pessoas LGBT e a violência doméstica está cada vez mais presente, recentemente a Sara Vasconcelos foi agredida por ter beijado uma mulher à frente do taxista, as mortes e as agressões a mulheres por namorados, ex-namorados sucedem-se e o tráfico de mulheres e humano está bem presente também. Estes ataques à dignidade humana, e à dignidade da mulher, como podem ser combatidos, denunciados? Com o sufoco da violência física e psicológica constante com que vivem estas pessoas?
Tem de se quebrar com a tradição da legitimidade e banalização da violência. Como o fazer? Temos instituições políticas e judiciais para o efeito. Os agentes policiais têm de ser formados para a inclusão e diversidade, porque muitas vezes os processos não vão para a frente porque as forças policiais em específico não actuam, e pior, muitas vezes pactuam com o agressor, na medida em que são permissivas. Podia-te contar algumas histórias que conheci, de pôr os cabelos em pé, porque as autoridades descredibilizaram as vítimas, por serem alcoólicas, prostitutas. Cabe a estas defender tod@s @s cidad@s, e não fazer julgamentos sumários.
Enquanto activista na Amnistia Internacional, o que tens aprendido e conquistado através dos projectos que tens desenvolvido?
Tanto, assim é difícil, resumir em palavras, aprendi muito sem dúvida, continuo a aprender, o bom disto é que estás sempre em constante aprendizagem. E tens cada vez mais consciência que sabes pouquíssimo. O mundo é enorme, as ideias também, e dentro da Amnistia tive e vou tendo oportunidade de conhecer pessoas com mentes bonitas, ideias interessantes e com vontade de agir. Todas as acções que realizámos ensinaram-me alguma coisa, o grupo com quem trabalho, está sempre a ensinar-me, e muito. Penso que, assim de repente, aprendi a importância de ouvir os outros. Apercebi-me que muitas vezes não ouvia. Por vezes estamos tão preocupados em contra argumentar, que nos esquecemos de ouvir. Ouvir, discutir, conciliar. Vim para Amnistia numa altura em que precisava de acreditar. A esperança é importante, acreditares em alguma coisa é, por vezes, essencial. E comigo a fé sempre foi uma coisa complicada, não gosto de futebol, sou ateia e não me identifico com nenhum partido político português… Conquistei isso mesmo, esperança e também, um olhar diferente, um olhar mais atento, ponderado. É impossível voltares à mesma forma depois de tudo o que vês, conheces e percebes. Tens acesso a muita informação que não podes ignorar, virar os olhos e fingir que não é contigo. Porque é, desde o momento em tomas conhecimento da mesma, adquires uma responsabilidade ética sobre aquele problema.
Quais são os teus sonhos para Portugal?
Serviço Nacional de Saúde, universal e tendencialmente gratuito; acesso à educação igual para tod@s; um sistema de segurança social eficaz, não discriminatória, e que, especialmente saiba a diferença entre solidariedade e caridadezinha. Direito ao trabalho e segurança no mesmo para tod@s. Basicamente, o cumprimento da Constituição de 76, para mim estava bem, sou pouco ambiciosa.
Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: J.M.
27 de Maio de 2015


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