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Entrevista ao actor António Olaio

  • May 6, 2015
  • 10 min read

Updated: Feb 26, 2021

Nas suas notas, partilhou um texto do Prémio Nobel da Literatura, José Saramago – “PRIVATIZE-SE!” Pergunto-lhe que relação tem com este texto e com a realidade de hoje do país e, sendo que o mesmo foi partilhado por si há 4 anos, as pessoas não deveriam já ter aprendido alguma coisa com ele desde então?

Recordo-me de no final dos anos 70 ir acampar para o Algarve num terreno que ficava perto da praia da Rocha, ou então em Porto Covo, também perto da praia, ou no Gerês. Com o tempo todos esses espaços foram delimitados com cercas, foram “privatizados” e hoje esta experiência do chamado “campismo selvagem” foi praticamente proibida. Ou seja, a privatização significa na verdade o cercear da liberdade, significa a fascização da sociedade. Por outro lado, penso que uma sociedade justa, solidária e desenvolvida, só pode existir numa verdadeira democracia, democracia onde sejam realmente os cidadãos a dirigir os destinos colectivos da nação e não os grandes grupos económicos de oligarcas. Para que isso possa acontecer o Estado necessita de controlar os principais sectores da economia; a energia, transportes, comunicação, bancos, indústria pesada, etc. Só controlando os sectores estratégicos da economia o Estado pode ser verdadeiramente democrático, caso contrário, se são os oligarcas a tomar conta deles, como acontece hoje em Portugal com as consequências que infelizmente todos percebemos, o que acontece é cada vez mais desemprego, mais pobreza, mais dificuldades para jovens e velhos, menos saúde, educação, menos liberdade e cada vez mais voltamos ao passado, a uma ditadura dos oligarcas. No entanto penso que desde que este pequeno texto do José Saramago foi tornado público, a retórica neoliberal de defesa das privatizações já não colhe tantos defensores, hoje começa a ser claro para a grande maioria dos portugueses, que a privatização não nos favorece enquanto nação e que é um esbulho dos bens públicos, levado a cabo pelos oligarcas portugueses e estrangeiros em conluio com os seus agentes políticos do PS/PSD/CDS no governo.

Encenou “O Libertino Passeia Por Braga, a Idoláctrica, o Seu Esplendor”, obra de Luíz Pacheco. Que significado teve para si mergulhar numa das maiores obras do erotismo e da crítica social e que aprendizagem obteve da encenação desta obra e do conhecimento do trabalho do autor?

A encenação do texto “O Libertino passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor” do Luiz Pacheco, correspondeu para mim a mais um passo num processo de conhecimento deste escritor e do movimento surrealista, principalmente do surrealismo em Portugal e vem na sucessão do meu interesse por outros escritores ligados a este movimento, nomeadamente daqueles que ficaram conhecidos como o grupo do “Café Gelo”, do qual gostaria de destacar Virgílio Martinho, escritor muito ligado à Companhia de Teatro de Almada, que tive o prazer de conhecer, aliás é através do Virgílio que acabei por conhecer pessoalmente o Luiz Pacheco, personagem carismática, alegre, truculenta e com um sentido critico muito acutilante e sempre presente. Desde que li o texto do Libertino, fiquei com a ideia de que é um dos melhores textos da literatura portuguesa do séc. XX e que tinha todas as condições para ser transposto para o palco, dada a riqueza da descrição que se faz sobre a realidade do país no antes do 25 de Abril, com o seu atraso, onde o medo e a ignorância se misturam com a ingenuidade do povo, com a presença constante da moral, da igreja, da PIDE, da guerra colonial, tudo misturado com a vontade de transgressão, de provocação e liberdade do Libertino. Acabei por fazer duas versões do Libertino, ambas com o grande actor André Louro, na primeira para além do André entrava mais seis actores que encarnavam as diversas personagens que o Pacheco descreve no texto, a segunda versão é um solo do André. Se a primeira versão era um espectáculo mais divertido a segunda ganhava em consistência e intensidade. Digamos que aquilo que apreendi do contacto com este texto e obra do Luiz Pacheco, pois acabei por tomar conhecimento com quase toda a sua obra publicada, foi um percepção mais profunda da natureza humana e da sua riqueza, uma maior abertura às diferentes maneiras de se estar em sociedade, da liberdade e uma visão menos sorumbática do mundo.

O António faz parte do “Manifesto pela cultura – 1% para a cultura”. O que o levou a fazer parte deste manifesto em prol da cultura e de passar a mensagem às pessoas? Que contribuição acha que este projecto pode dar para melhorar o país e para proporcionar o enriquecimento de cada pessoa que tomar contacto com o vosso trabalho?

A minha ligação ao Manifesto tem a ver primeiro que tudo, com a consciência de que a Cultura é um pilar fundamental da sociedade e a seguir, com a consciência de que perante o agravar da situação económica do país, com a chamada crise do capitalismo em que nos encontramos, o poder que sempre tratou a cultura como coisa menor, um mero adorno da sociedade, ainda ia piorar as coisas neste campo, como de facto se verificou, simbolicamente com o desaparecimento do ministério da Cultura neste governo. Tornava-se pois necessário tomar uma posição activa na defesa da cultura, uma posição que não fosse isolada mas que procura-se unir todos aqueles, artistas, técnicos, trabalhadores, ou simples fruídores, na defesa da Cultura. Chamando a atenção para a sua importância na construção de uma sociedade saudável e do seu imenso valor sem preço, da defesa do serviço público de Cultura, tal como vem expresso na Constituição portuguesa, que tivesse a consciência de que a luta pela defesa da cultura se integra num âmbito mais vasto que é o da luta do povo português por uma outra política, contra o desemprego e a precariedade, contra a exploração, por salários dignos, pelo trabalho com direitos, pela igualdade, pelo desenvolvimento e a soberania nacionais. Três Anos passados desde o seu surgimento, Julgo que o Manifesto tem prestado um enorme contributo para a percepção junto da sociedade dos problemas que afectam a Cultura, tais como a desarticulação dos serviços do estado que davam apoio administrativo e técnico às estruturas artísticas e culturais, ou o insuficiente apoio financeiro do Estado e a importância de se concretizar o lema de 1% do Orçamento de Estado para a Cultura, actualmente esse valor está pouco acima dos 0,1%. Por outro lado o Manifesto tem sido um espaço de discussão e aclaramento de determinados conceitos acerca da Cultura e de desmontagem de certos chavões de quem tem uma visão economicista e desumana da sociedade, como seja conceitos como subsidiodependência, sustentabilidade económica da cultura, cultura de excelência ou meritocracia. Julgo que o Manifesto tem todas as condições para crescer ganhar apoios e se transformar num elemento fundamental para a definição de uma verdadeira política cultural para o país.

Em tempos idos, fez, com o Bibi Gomes, a Ana Nave, entre outros, uma incursão a um festival em Nantes. O que apreendeu da vivência com outras culturas, com outros teatros e outras gentes e mentalidades?

Foram várias as incursões a Nantes ao Festival Carrefour de L’ Europe, com a Companhia de Teatro de Almada, um festival que juntava companhias de teatro de vários pontos da Europa. Da primeira vez que lá fomos apresentámos a peça “Jorge Dandin” de Molière, foi uma experiência muito enriquecedora, estava no início da minha ligação ao teatro e poder tomar conhecimento com outras estéticas e outras culturas foi muito interessante e gratificante. Nessa altura a Companhia tinha um grupo de actores muito novos e com uma grande motivação, estas viagens foram uma forma de acentuar e cimentar as relações entre nós todos. Estas viagens não podem ser separadas de uma outra actividade que a Companhia levava a cabo regularmente, que era a descentralização teatral e que nos levou a conhecer um pouco de todo o Portugal, experiências que eram muito positivas tanto para o nosso desenvolvimento enquanto grupo, como para o desenvolvimento pessoal de cada um enquanto actor, pois obrigava-nos a constantes adaptações às condições dos novos palcos, com tudo o que isso implicava de recriação e adaptação do espectáculo a novas marcações.

Tem um álbum dedicado a uma manifestação, “Paz Sim, NATO Não”. Que importância tem, para si, esta luta pelo fim da NATO?

A NATO sempre foi uma estrutura militar agressiva dirigida pelos EUA. A princípio para conter o avanço das forças populares na Europa após o final da 2ª Guerra Mundial, depois para conter os novos países socialistas que surgiram no Leste europeu. Hoje, depois do colapso momentâneo do socialismo na Europa, a NATO transformou-se numa espécie de polícia do mundo, ao serviço dos interesses da União Europeia, EUA e das grandes companhias de armamento ou petrolíferas. Recordo a agressão criminosa da NATO à antiga Jugoslávia, ou mais recentemente à Líbia, intervenções que se saldaram em centenas/milhares de mortos e na desagregação desses países, no caso da Líbia contribuíram ainda para o desenvolvimento do fundamentalismo islâmico não só nesse país como por todo o mundo árabe. Ou seja, mais que no tempo da guerra fria, a NATO é hoje uma estrutura iminentemente agressiva, ao serviço dos interesses capitalistas e prejudicial à paz no mundo, deixando um rasto de barbárie por onde passa. É por um mundo de paz, livre e democrático, de estados independentes, que defendo o fim desta estrutura militar.

Iniciou-se com o encenador Joaquim Benite e trabalhou com o António Assunção. Em que é que o trabalho com estes dois profissionais lhe permitiu evoluir enquanto pessoa activista?

Digamos que o Joaquim Benite é o meu grande mestre do teatro, ou seja, posso afirmar que se não tivesse conhecido o Joaquim a minha carreira no teatro teria sido completamente diferente, ou provavelmente nem teria existido. Era uma pessoa extremamente culta, com conhecimentos profundos da vida e do teatro. Os seus ensaios eram autênticas aulas sobre a natureza humana, ou sobre a história da humanidade, um encenador extremamente rigoroso, que não tinha qualquer receio de dizer o que pensava por mais contratempos e conflitos que essa sua actitude lhe pudesse trazer. Era um apaixonado pelo teatro, que tinha o sonho de construir uma grande sala de teatro em Almada e de realizar em Portugal um grande Festival de Teatro, sonho que nunca abandonou e que conseguiu concretizar com a construção do actual Teatro Municipal Joaquim Benite, obra do arquitecto português Manuel Graça Dias, sem dúvida uma das melhores salas de teatro do país e com a realização em Almada do maior Festival Internacional de Teatro que se realiza em Portugal e um dos mais importantes da Europa. Infelizmente o Joaquim Benite deixou esta vida bastante cedo, quando ainda muito tinha a dar ao teatro português, o que representou quanto a mim, uma grande perda para o país e para a cidade de Almada. O António Assunção era um grande actor e um grande colega, muito divertido e sempre pronto a dar a sua ajuda aos mais novos. Com ele aprendia-se que a arte de representar podia ser uma actividade extremamente simples, tal a forma como ele se “passeava” pelo palco, num à vontade estonteante. Tive a sorte de representar várias peças com ele e de assistir a actuações suas extraordinárias em peças como “Hughie e antes do pequeno-almoço” de Eugene Oneill, ou “Dona Rosinha a solteira” de Garcia lorca, entre muitas, muitas outras. Infelizmente foi daqueles que também nos abandonou muito cedo, curiosamente vindo a falecer num palco da Broadway, numa altura em que se encontrava de férias em Nova Iorque a fazer uma visita a um teatro.

Actuou numa peça cómica chamada “Feras Amestradas” que retratava a realidade consumista, globalizada, informatizada e modernista. Uma vez que se trata de uma reflexão sobre a sociedade, que conhecimentos é que esta peça lhe permitiu adquirir?

Digamos que essa peça retratava um pouco da realidade actual das sociedades ditas ocidentais, consumista, globalizada, controlada e com as populações completamente amestradas. Uma das coisas que me apaixona no teatro é que cada peça é sempre uma oportunidade de aprendizagem e uma reflexão sobre um determinado tema humano ou social, as “Feras amestradas” foi um momento de reflexão sobre a sociedade actual, a “sociedade do espectáculo”, com os seus clichês, as suas modas alienadoras e indutoras de um consumismo acéfalo, gerando entre outras coisas o isolamento dos indivíduos e contribuindo para confronto entre eles, acabando por os transformar numa espécie de manada dócil nas mãos do poder, manada que cinicamente é conduzida para o matadouro. Por outro lado, essa peça representou para mim um retorno ao teatro depois de um breve período de afastamento e o encontro com alguns magníficos colegas que ainda partilham comigo o palco.

Para além de representar também recita poesia. Como surgiu este gosto?

Sempre me deliciei a ouvir poesia dita por grandes actores como foram João Villaret ou Mário Viegas e sempre fui um apaixonado pela poesia de José Gomes Ferreira, Fernando Pessoa, Camões, Sophia de Mello Breyner, Pablo Neruda, Brecht, entre muitos outros. Um espectáculo de teatro é sempre um acto um tanto ou quanto complicado, pelos meios que requer e por envolver diversos intervenientes tais como actores, encenadores, cenógrafos, figurinistas, etc… houve uma altura em que por razões pessoais me afastei um pouco das actividades teatrais, mas como o teatro é uma espécie de bichinho que se nos entranha e que quando não é alimentado incomoda, acabei por sentir a necessidade de voltar ao palco. Sempre fui um apaixonado da obra de Mário de Sá-Carneiro e da sua faceta existencial e inconformista, como em tempos tinha encenado o espectáculo “Como eu não Possuo” a partir de um conjunto de poemas da sua obra “Rastos de oiro”, com os actores Ana Saltão e André Louro, espectáculo que era basicamente um monólogo e que eu conhecia bem, resolvi então, dadas as circunstâncias em que me encontrava, arriscar colocá-lo de novo e pessoalmente em palco. A verdade é que gostei da experiência e principalmente ganhei o gosto de dizer poesia em palco e pronto foi assim que comecei.

Quais são os seus sonhos para Portugal?

Bem o que eu gostava e quero para Portugal, é que se acabe com este ciclo político de alternância sem alternativa em que nos encontramos e que tem conduzido o país para à miséria. Que se acabe com esta inevitabilidade da desumanização em que tudo é sacrificado para sossego dessa entidade mítica que são os mercados. Quero um Portugal com um governo que tenha um projecto patriótico e de desenvolvimento para o país, que respeite a Constituição e onde a Cultura tenha o papel que merece, o que entre outras coisas significa ter do Orçamento de Estado 1% do PIB. Quero um Portugal onde todos tenhamos acesso à saúde e educação em pé de igualdade, onde o trabalho tenha direitos e os trabalhadores seja respeitados como os grandes criadores de riqueza. Quero um Portugal onde as falcatruas, os jogos de corrupção e de esbulho dos bens públicos não fique impune e onde os prevaricadores paguem bem caro os crimes que cometem. Quero um Portugal verdadeiramente livre, solidário e democrático num mundo de Paz.

Obrigado pelo seu tempo. Desejo-lhe a continuação de um bom trabalho.

Projecto Vidas e Obras

Entrevista: Pedro Marques Correcção: Nuno Russo

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