Entrevista a Elisabete Figueiredo
- Jul 13, 2014
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Entrevista a Elisabete Figueiredo, Socióloga e Professora no Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro.
O que é que o 25 de Abril significa para si? Quando se deu a revolução, tinha sete anos. Mas o que é que os seus pais lhe transmitiram, e o que é que aprendeu mais tarde sobre a revolução, a ditadura, e os erros do MFA, do povo...?
O 25 de Abril significa para mim, acima de tudo, sempre e para sempre, a Liberdade. O tal ‘dia inicial, inteiro e limpo’, como o descreveu Sophia de Mello Breyner. Significa igualmente o dia que marcou notáveis transformações sociais e económicas que, com maior ou menor intensidade, marcaram os últimos 40 anos. Entre estas destaco as mudanças em termos de valores sociais, correspondendo a uma abertura da sociedade portuguesa em muitos domínios (especialmente no dos valores culturais); as mudanças no papel da mulher e na perceção social da condição feminina. Destaco igualmente as alterações demográficas, traduzidas crescentemente em baixas taxas de natalidade e no envelhecimento; as mudanças no mundo do trabalho, não apenas em termos dos setores de atividade predominantes, como nas próprias relações laborais. Também a escolaridade da população portuguesa aumentou bastante em consequência da democratização do ensino. Saliento também a melhoria generalizada das condições de vida, observada ao longo destas quatro décadas e que, lamentavelmente, agora parece estar a sofrer um retrocesso. Finalmente, acho que é também importante sublinhar a desmilitarização do país, o fim da guerra colonial, nos anos seguintes ao 25 de Abril de 1974 e o fim do serviço militar obrigatório, mais recentemente. Claro que nenhuma destas mudanças ocorreu sem contradições e sem causar ou agravar desequilíbrios e desigualdades de vários tipos, como por exemplo o acentuar dos processos de ‘desruralização do país’ e o correspondente acentuar das assimetrias regionais entre o interior e o litoral e o aumento das desigualdades sociais e económicas (estas sobretudo mais recentemente). Mas penso que devemos ter sempre presentes sobretudo ‘As Portas que Abril Abriu’, para citar Ary dos Santos, de forma positiva, em muitos domínios, sobretudo na emergência da democracia.
Efetivamente tinha sete anos quando se deu a revolução do 25 de Abril. Tenho poucas memórias próprias do antes e mesmo do imediatamente depois. As minhas memórias são, digamos assim, ‘em segunda mão’, decorrentes das leituras que fiz (muitas, sobretudo na adolescência) sobre a revolução e tudo o que antecedeu e precedeu. Os meus pais foram agentes ativos na construção dessas memórias, evidentemente, particularmente pelo relato da sua juventude, em aldeias do interior do país, marcada pela pobreza, pela fraca escolaridade, pela grande desigualdade entre pobres e ricos. É a este país que, por vezes ou cada vez mais nos últimos anos, receio que estejamos a regressar. Não quero falar dos erros do MFA nem do povo, nem sequer dos erros dos políticos que se cometeram na altura e ao longo destes anos. Sobretudo porque esses erros foram cometidos por homens livres, num país livre, em liberdade e democracia e, na minha opinião, é isso o que mais importa. A liberdade e a democracia.
Escreveu um artigo sobre a praxe, referindo que durante a altura das praxes os veteranos: “se cobre de negro, de mandões e mandados, de pessoas que são passeadas atadas por uma corda, enroladas em papel higiénico, que se ajoelham, de cabeça no chão, que entoam cânticos com músicas militaristas e letras inqualificáveis” enquanto professora para si escrever este texto, e falar neste tema é importante e urgente? De que forma é que se pode levar a que estudantes caloiros e veteranos vejam o que estão a fazer através das praxes existentes?
Enquanto professora do ensino superior é evidente que o tema das praxes é importante. Aliás, é um tema importante para mim há muitos anos. Esse texto que refere não foi o primeiro (e eventualmente não será o último) que escrevi sobre o assunto. Nem uso apenas os blogues como veículo de transmissão da minha posição relativamente à praxe, sendo muito frequentes conversas com os meus alunos – em contexto de aula e em contextos mais informais – sobre o assunto. Estou ciente de que existem múltiplos tipos de praxe e que nem todas terão os mesmos aspetos e/ou consequências negativos. No entanto, todas elas têm como denominador comum a existência, o exercício e a aceitação de relações desiguais de poder.
Sou contra a praxe pelo que ela tem de hierarquizante, de humilhante e de reprodução de códigos arcaicos e repressores da afirmação da criatividade, da liberdade e da diferença. Mais ainda, não posso deixar de me manifestar relativamente a atos ilegítimos (regulados por códigos sem qualquer validade legal mas que ninguém parece contestar) que ocorrem (com muita frequência) dentro das instituições de ensino superior que, assim, ignorando-os ou aceitando que no seu interior eles possam ocorrer, os legitima. As Universidades deveriam ser (isto é sobretudo cada vez mais discutível nos tempos que correm, bem o sei, mas daria outra entrevista) contextos de liberdade e de criatividade. A praxe é a antítese disto. Surpreende-me sempre, em quase 25 anos como docente, que, na praxe, os estudantes reproduzam práticas que criticam noutras esferas, designadamente no contexto do ensino-aprendizagem. Surpreende-me igualmente sempre a barbárie, a selvajaria até em alguns casos, com que os mais velhos, através da praxe, se impõem aos mais novos. E, claro, surpreende-me ainda que estes aceitem essa imposição como uma inevitabilidade e, parece que principalmente, como uma ‘lição de vida’. Associado a tudo isto e ao aumento das praxes mais violentas nos últimos tempos, há um decréscimo acentuado da participação estudantil na vida política e cívica que, essa sim, importaria motivar.
Parece-me, no entanto, que a maior parte dos estudantes que participa nas praxes, seja na qualidade de ‘praxador’ ou de ‘praxado’ sabe exatamente o que está ali a fazer, qual é o seu papel e, deve dizer-se, o aprecia. Talvez seja aqui que a intervenção me parece mais necessária. Mas não sei honestamente de que modo é que se pode desincentivar a prática da praxe. Se por um lado me parece que as Universidades, como instituições, se deveriam desvincular claramente delas, através de regras que limitem as praxes dentro das suas instalações e campus, por outro não estou segura de que as mesmas regras sejam suficientes para acabar com as práticas de praxe e promover uma verdadeira integração dos novos estudantes. Ou de quais seriam as consequências de tirar as praxes de dentro das instituições.
Num artigo sobre as mulheres, diz que nasceu no lado menos mau, naquele sem preconceitos, ou violência, no entanto em Portugal o progresso e a igualdade para as mulheres, não chegou totalmente com o 25 de Abril e neste momento está longe de existir. Pergunto como é que é possível alertar, e conquistar as mulheres para a luta? O que a levou a estudar o tema das mulheres, as desigualdades, a violência sobre elas? Os números que fala no texto são absolutamente assustadores e por demais alarmantes - 40 milhões de mulheres que sofreram mutilação genital, mais 150 mulheres menores que foram sexualmente agredidas... o que é necessário para que se abram os olhos para este horror?
Começo por dizer que não estudo a questão das mulheres. Interesso-me por essa questão como cidadã, como mulher. Sou feminista. E como cidadã, mulher e feminista estou muito atenta a todas as questões de desigualdade de género que permanecem, desde as mais ‘suaves’ por assim dizer até aquelas que se expressam de forma mais violenta, quer em Portugal, na Europa e no mundo. Considero que a questão das mulheres é uma questão de direitos humanos. O feminismo – ao contrário daquilo que muitas mulheres que se declaram ‘femininas e não feministas consideram – não é querer ser igual aos homens, mas tão só (isto é-me tão evidente que muitas vezes tenho dificuldade em compreender os arautos do anti-feminismo) lutar para que os direitos humanos das mulheres sejam assegurados, para que que sejam criados mecanismos eficazes de garantia desses direitos. Ter igualdade de direitos não significa ‘ser igual aos homens’, mas apenas ter as mesmas oportunidades.
Os dados existentes – mesmo não estudando esta temática na minha vida profissional (aliás como relativamente a outras questões) gosto de documentar as minhas opiniões e posições (sim, talvez por ‘deformação profissional) – são eles próprios alertas suficientes e mobilizadores suficientes para a ação das mulheres e dos homens. A questão dos direitos humanos das mulheres não é apenas exclusiva destas últimas. Se as pessoas conhecem esses dados e ainda assim creem que não vale a pena fazer nada contra a situação, então não sei exatamente o que fazer ou como fazer para que ‘se abram os olhos para o horror’. Isto é verdade em relação a esta questão das desigualdades de género e é verdade para um conjunto (infelizmente cada vez mais amplo) de outras questões sociais. Desde cedo militei em movimentos (ecologista, anti-militarista, feminista, por exemplo) porque tive sempre a dimensão (que muitas vezes parece escapar à maior parte das pessoas) de que se não estou numa situação de desfavorecimento é apenas por uma questão ‘de sorte’. Ou seja, tenho a dimensão de que poderia ser, neste caso concreto, uma dessas mulheres violentadas, que veem os seus mais básicos direitos desrespeitados. Por outro lado, procuro em todos os contextos, chamar a atenção para as desigualdades de género (e de outra natureza).
Escreveu que aos 18 anos começou a colar cartazes, e a militar em partidos políticos. O que leva desta experiência de 29 anos na luta? E como professora o que tem aprendido e ensinado?
Sim, comecei a ser militante de um partido político – o PSR – aos 18 anos. Desde os 15 que sentia essa necessidade. O PSR, pelas suas características e pelas minhas próprias, pareceu-me o partido mais adequado. Lembro-me de ter ido pela primeira vez à sede das Palmeiras, em Lisboa. Não fui ‘aliciada’ digamos assim, fui lá porque queria saber mais sobre aquele partido (tal como antes, uns anos antes fui à sede do PCP, não tendo ficado convencida de que era ali que queria militar). Militei no PSR entre os 18 e os 20 e poucos anos, altura em que vim morar para Aveiro, para lecionar, como Assistente Estagiária, na Universidade, após a conclusão da minha Licenciatura em Sociologia. Durante esse período tive uma militância muito ativa e empenhada e participei em diversos grupos de trabalho. Com a mudança para Aveiro, naturalmente aproximei-me dos (poucos) militantes do PSR que cá viviam. Mas com o aumento das exigências profissionais deixei de estar tão empenhada na militância. Na política, evidentemente, continuei interessada. Entretanto formou-se o Bloco de Esquerda, mas apenas há uns anos resolvi ser aderente deste partido político. Não tenho hoje em dia o mesmo grau de militância que tinha aos 18 anos. Não apenas devido a outros afazeres, mas também devido às próprias características do BE e à sua evolução. Digamos que sendo o partido político do qual ideologicamente me sinto mais próxima, aos 47 anos as minhas certezas e convicções – as poucas que tenho – não são exatamente as mesmas que aos 18 anos. Nessa idade tinha a certeza de poder contribuir para ‘mudar o mundo’. Hoje tenho a noção de que o mundo é que nos muda a nós e que a nossa contribuição para a mudança do mundo se faz melhor no quotidiano, nas relações com as pessoas e menos enquadrada em instituições. De qualquer forma, sempre tive (mesmo aos 18 anos, embora nessa idade não fosse tão evidente como hoje) a dimensão de que não me adapto bem a estruturas e a regras de funcionamento demasiado rígidas. À institucionalização das ideias e das ações, se quisermos pôr assim as coisas. Se calhar defino-me mais como libertária do que como comunista ou socialista. Não tenho bem a certeza e creio até que morrerei sem a ter. Não me incomoda.
Da experiência de luta e da experiência de professora, até agora, levo basicamente e cada vez mais o que já disse: um respeito profundo pela liberdade; a negação da arrogância moral (que constato existir entre tantos camaradas ‘de esquerda?); a dimensão de que o que mais importa são as pessoas, a vida das pessoas, as necessidades e os desejos das pessoas. Também a honestidade e a humildade intelectual acima de tudo, são coisas que aprendi como militante e, sobretudo como professora e como investigadora. E, claro, a certeza (uma das poucas) de que há muitas maneiras de ver e de que a diversidade – em tudo – é o que acrescenta beleza ao mundo, à vida, às ideias e às pessoas. Acho que não é pouco.
Acredita que o rumo certo, se poderá alcançar através de uma nova revolução? O que é que falhou com o 25 de Abril?
Como já referi na resposta à primeira questão não acho interessante debater-se (como o fazem alguns partidos, de forma exaustiva e quase exasperante) o passado. O 25 de Abril pode ter sido um fracasso, como muitos referem, mas eu apenas o vejo como um sucesso. Já expliquei porquê. Se tenho a dimensão que houve erros, que houve coisas menos conseguidas, ou não conseguidas de todo? Sim, claro. No 25 de Abril terá sobretudo falhado aquilo que falha em todas as revoluções conhecidas: foram feitas por homens. E mulheres. Por pessoas com interesses diferenciados, com agendas diversas, com emoções e ideais também diferentes. Por pessoas que tinham poderes igualmente distintos e que os exerceram de forma diferenciada. Basicamente com as revoluções, aquilo que acontece depois é a vida a acontecer. Ou a realidade, como se queira. Lembrei-me de outra coisa que aprendi com a militância e com a vida e que está relacionada com a diversidade: a perfeição não existe. Em nada. Nem os paraísos. E ainda bem, acrescento. Portanto, não sei exatamente e o que o ‘rumo certo’ a alcançar com uma eventual nova revolução. Sei qual não é o rumo certo, ou melhor sei que aspetos gostaria que fossem eliminados da sociedade portuguesa atual: as desigualdades sociais; a pobreza; a exclusão social. Sei que gostaria que houvesse a garantia de que todos os cidadãos tivessem as mesmas oportunidades; os mesmos meios de realização dos seus sonhos, das suas capacidades e para satisfazerem as suas necessidades. Que todos pudessem expressar as suas ideias e vontades. Que a liberdade e a democracia prevalecessem. Sei isto apenas.
Tem uma ligação enorme, e afectiva com os burros, como vê a forma que têm sido tratados? Tem uma ligação com a associação AEPGA, colabora com a associação, ou é só mera simpatizante? O que lhe apraz dizer quando chamam de “burros” às pessoas comuns e políticos para os ofender?
Gosto muito de burros, é verdade. Não sei se posso dizer que é uma ligação ‘enorme’, dado que infelizmente não tenho nenhum burro nem desenvolvo nenhuma ação em particular em sua defesa ou em defesa da sua preservação e proteção. Não sou membro da AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino – que desenvolve um trabalho extraordinário na proteção e cuidado do burro de Miranda. Temos colaborado em algumas iniciativas, sim, quer da Universidade de Aveiro, quer da própria AEPGA. O meu avô Alberto tinha uma burra. Lembro-me de ser pequenina e de gostar daquele animal, de o ver quando ia visitar a aldeia da minha mãe. Acho que foi essa a raiz do meu amor aos burros. O burro foi um animal de trabalho sobretudo e sobre ele recaiu sempre uma visão utilitarista. À medida que as explorações agrícolas, por um lado, foram adotando algumas ferramentas e instrumentos que dispensavam a força animal e, por outro lado, que o espaço rural se foi despovoando e que a própria atividade agrícola foi perdendo dimensão económica e social, a utilização do burro conheceu um decréscimo e o animal corre risco de extinção. É por isso que o trabalho de associações como a AEPGA e a Burricadas, por exemplo, é muito importante. Para a preservação e valorização deste animal, promovendo novas utilizações do burro (por exemplo no turismo, na saúde, no desenvolvimento de produtos a partir do leite de burra) e atribuindo-lhe, paralelamente, um novo significado e importância social.
Quais são os seus sonhos para Portugal?
Já referi alguns numa resposta anterior. Basicamente gostava que o retrocesso social e económico, o retrocesso do Estado Social, que se observa atualmente fosse ativamente contrariado. Que existisse maior consciência cívica e política entre os portugueses. Que se empenhassem mais ativamente no contrariar daquele retrocesso e na construção de um país mais igualitário, sem pobreza, sem exclusão social. Onde os direitos básicos de todos estivessem garantidos, independentemente da sua condição económica e social, da sua orientação sexual, da sua origem. De um país em que, como disse antes, todas as pessoas tivessem oportunidades de realização das suas capacidades e dos seus sonhos, em liberdade e em democracia. De um país em que as pessoas fossem o que mais importa.
Obrigado pelo seu tempo. Votos de bom trabalho.
Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: BT
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