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Entrevista à Cantora Cristina Massena

  • Jun 2, 2014
  • 5 min read

Como é que vê de um momento para o outro uma música sua tornar-se uma das músicas mais importantes e mais ouvidas na internet (“Acorda Portugal”), e uma música de protesto e de despertar quem não está ainda na luta activa?

Fiquei muito feliz por sentir que as minhas palavras tinham significado para muitas outras pessoas. Penso que todos estão em luta uns com mais evidência outros menos ! Mas é preciso ter força, objectivos e lutar!

Sentiu de certa forma uma obrigação em passar para o público músicas que despertassem e provocassem um despertar e acordar?

Não foi obrigação, foi um genuíno sentimento.

Acredita que será como a música do Fernando Lopes Graça, ou mesmo até a “Grândola” do Zeca Afonso?

Não, a velocidade de informação ou (des)informação hoje é veloz, tudo se torna um pouco imediato! E além disso o Zeca Afonso e o Fernando Lopes são únicos, incomparáveis e geniais!

Foi importante? Foi de certo modo uma surpresa, ou já era algo esperado?

Não foi importante, a canção foi o momento que foi marcante e importante para todos, não estava á espera de resposta, só dei a minha expressão !!!

“É lutando que a vida insiste” – é uma parte integrante da letra “Acorda Portugal”. Acredita que as pessoas ainda não se aperceberam que é possível lutando e insistindo concretizar esses objectivos? A construção desta letra, e a escolha dessas palavras foi para impulsionar as pessoas a virem para a rua lutar pela sua vida e de todos e por uma sociedade melhor?

É difícil responder, porque o acto de escrever é espontâneo, escrevo o que sinto, e esse é meu lema, insisto e luto, todas as pessoas têm que lutar pelos seus direitos, por uma vida digna, mas têm que se esforçar e dizer, não terem medo de se expor! Obviamente sem violência e de uma forma inteligente!

Trabalhar com o Pedro Abrunhosa foi muito importante para a sua aprendizagem? Trabalhar com o Pedro foi com certeza muito gratificante, foi como a escolha do Zeca Afonso em ter o José Mário Branco para as mesmas funções…

Não consigo comparar, no caso do “Acorda Portugal” não teve tempo sequer de ser produzido , foi imediatamente gravado 3 dias depois de ser composto!

Para si a partilha de histórias e falar-se de emoções é mais do que essencial? É necessário que as pessoas se juntem fora do computador e aprendam a conviver, a partilhar histórias, a pensar em conjunto, a discutir ideias…?

Para mim é essencial! De que vale a pena a vida sem testemunhas? Mas sinto que nem sempre é fácil viver sobre a verdade, seja ela uma história ou uma ideia, o refúgio é a via mais fácil numa sociedade que cada vez mais se tenta esconder expondo–se ironicamente com uma facilidade atroz sobre redes sociais etc...mas o assunto é longo!

O facto de ter começado cedo a estudar música acabou por ser uma ajuda para a elaboração deste disco?

Eu comecei a estudar música aos 7 anos, mas para mim as canções nem chegam a serem acordes, são emoções que procuro em sons e palavras, essa aprendizagem não está nas escolas, está no que escolhemos viver dia a dia, nos livros que lemos, nos filmes que escolhemos, nas pessoas que observamos... é o meu mundo, a minha expressão!

Para si as artes, a cultura, o pensamento, criatividade são básicos e fundamentais para a evolução da sociedade e de cada cidadão comum? Num momento em que as artes e a cultura são consideradas alvo a abater, como se pode primeiro não permitir isso, e se na sua opinião de facto são fundamentais como se pode e deve passar a mensagem da sua importância para que as pessoas fiquem convictas disso mesmo?

E quem foi que nos convenceu do contrário? Que mentes brilhantes arquitectam um outro futuro para a civilização cujas teorias desconheço? É nos contrastes , nas diferentes culturas que o mundo se pode encontrar. É nas visões diferenciadas do artista ou cientista que o mundo avança, É no esforço da bailarina ou do pescador que as aves ou mares têm encanto... É no fado á capela ou mesmo no padre que o espírito se reconforta, É no pedreiro ou arquitecto que o espaço nos abriga, É no escultor ou cineasta que se criam novas almas, É no escritor ou encenador que outras vidas se cruzam, É no músico ou poeta que outras lágrimas se alcançam... É no tudo que aparentemente não se vê, que se consegue Ser Pessoa , Sociedade ou País.

Foi curiosa a forma como escreveu as letras, inclusive uma vez fê-lo na porta enquanto esperava pelo seu amigo. Quer contar melhor a história? O facto de ter marcado estúdio porque se tinha proposto a fazer uma canção por mês, não a fez pensar “eu consigo, eu sou capaz”, e por outro lado encontrar uma forma e um método diário? Foi gratificante nesse sentido? Ou não se deu bem com esse novo processo?

Acredito na forma espontânea do FAZER combinada com muita disciplina, não no sentido da obrigação mas no desenvolvimento do acto do FAZER e não só da ideia eterna. Eu escrevo quase todos os dias tal ,como desenho, como registo sons, muitas vezes são registos sem importância, outras são páginas em branco, mas o processo do confronto é muito importante!

Projectou para o trabalho final de curso de arquitectura uma prisão. Voltava a repetir? Que importância teve para si este trabalho?

Voltava a repetir tudo! Tive o privilégio de o fazer sob orientação do Arq Souto Moura, durante um ano conversas semanais e guardo com muita saudade a dimensão simples e humana das suas palavras e pensamentos e da sua vanguarda!

Como vê o futuro da arquitectura, da cultura e do país?

Bom ...para os arquitectos não vejo grande futuro pois não existe muito trabalho a não ser na área da Reabilitação. O País/Cultura para mim indissociáveis, só poderá ter futuro quando afirmar a sua identidade, quando não tiver vergonha de ser PORTUGUÊS, dentro e fora do País, quando sem medo, formos SAUDADE, CRIAÇÂO, ESCRITA, CANÇÂO, MAR ,TASCAS, SARDINHAS, CHIADO, RIBEIRA, SAGRES, BAIRRO ALTO, ALENTEJO, DOURO.....enfim quando soubermos o que é nosso e quem somos. Precisamos urgentemente de Ser e não Parecer, a excessiva adaptabilidade é o principio da despersonalização.

Quais são os seus sonhos para Portugal?

Que eu, e todas as pessoas que se encontrem a viver fora do País, um dia possam voltar a ter a “oportunidade” de viver com dignidade em Portugal.

Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: J. M

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