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Entrevista ao Cantautor Pedro Barroso

  • May 12, 2014
  • 8 min read

Updated: Oct 14, 2021

1 - Quais eram as suas influências quando começou há mais de 40 anos?

Sobretudo a música francesa de texto e obviamente o Zeca o Fanhais e o Adriano – o conceito era sobretudo que a canção interviesse na sociedade e fosse critica e civicamente e humanamente útil.

2 - O que mais gostou de fazer em todos estes anos todos de trabalho como artista?

Algumas viagens geográficas e humanas foram indescritíveis e nunca a poderia ter feito como simples professor.

3 - Como é que um rapaz que aprende piano e tem aulas de canto com um tenor, acaba depois a compor e a cantar músicas de protesto?

Acho que se reduz demasiado quando se diz música “de protesto”. Fanhais tinha curso de música dos seminários; Zeca e Adriano tinham timbres lindíssimos e eu quando começo, na altura ainda não poderia acompanhar-me ao piano, coisa que só acontece a partir dos trinta e muitos quando, muito timidamente, começo a acompanhar-me…; outra coisa - nunca me revi na canção de “mata e esfola” sempre me integrei num projecto humanista e de reconstrução da cidade e das relações entre as pessoas. Saber cantar infelizmente, hoje já não é tão necessário para se ser cantor. É pena.

4 - Como aconteceu a sua presença no Ziz Zip?

O Actor Luís Santos conhecia-me bem, (era pai duma colega minha no 7º ano) e integrava na altura o Teatro Estúdio de Lisboa (Luzia Maria Martins); tinha amizade com o Raul Solnado e falou-lhe em mim. Foi ele quem me indicou e eles já andavam com falta de baladeiros para encher os últimos zip… lá fui.

5 - Se não tivesse acontecido essa presença, o que teria feito para começar a conquistar o mundo da música e a promover o seu trabalho?

Não sei. Nem era prioridade. Punha e pus sempre o meu curso acima de tudo. Depois se veria…

6 - Quando começou, alguma vez imaginou que, passados mais de 40 anos, seria dos pouco cantores de protesto que iria fazer carreira e manter-se na ribalta?

Não por ser de protesto seguramente, mas por ter alguma qualidade musical e poética, espero eu. Mas a longevidade essa… nunca poderia pensar que chegasse sobretudo ao halo de respeito com que sou recebido em qualquer parte. Essa parte é muito comovente e acho que de certo modo…merecida. Sem falsas modéstias porque passei muito para chegar aqui.

7 - Acha que os projectos de cultura que se faziam no pós 25 de Abril deviam ter continuado? Se sim, que contribuição daria para esses projectos?

Foi um acto impulsivo perante um pais necessitado de tudo estradas electricidade auditórios cultura tudo… Fomos de terra em terra com uma generosidade impressionante e uma fadiga que escondíamos pela juventude… mas esse impulso não poderia perdurar muito tempo. Fui dos primeiros a dar recitais - isto é, concertos a solo que eram pagos…- entendendo que o improviso dessa muitas vezes cansativa generosidade não era o caminho.

8 - Quais as lembranças mais importantes que tem do antes e do depois da Revolução dos Cravos?

Antes fiz parte do TEC e foi inesquecível um dia em que actuamos à borla para os bairros pobres de Lisboa. Era a peça Fuenteovejuna e o pessoal que nunca tinha visto Teatro levou a coisa a sério e queria bater nos ditadores… impressionante! Depois sei lá… o 1º primeiro de Maio em Liberdade foi uma coisa inesquecível dantesca arrepiante…milhões de pessoas na rua, uma alegria colectiva…

9 - Foi certamente um privilégio e um orgulho ter participado no CD dos 100 anos de Maio com edição da CGTP e no CD 25 de Abril, 25 anos, 25 Canções. Que significado teve isso para si?

Na altura achei apenas natural sempre estive ligado a canção que lutou pela Liberdade e actuei muitas vezes sem condições para os Sindicatos e Uniões… seria sempre mais que justo que me convidassem.

10 – O que sentiu quando teve a experiência única de cantar com a Orquestra Gulbenkian e com o grupo de Ballet de Monte Carlo?

Foi no meu Teatro fetiche o S. Luiz de Lisboa e encerrei com garbo e alguma imprudência deles em escolherem-me para fechar, acho eu, mas fui feliz, safei-me bem…

11 - Muitos dos músicos que estavam afastados, voltaram para as várias homenagens ao Zeca Afonso. Acredita que possam ter voltado para ficar?

Ninguém estava afastado por vontade – há o correr dos anos, o nosso cansaço, os outros valores que surgem, as rádios que nos excluem das play list, o preconceito com o tal rótulo de “intervenção” etc tudo isso que nos vai eliminando do leque de vozes mais ouvidas. Mas sempre continuamos a circular mais uns que outros. Ver agora esses bons e velhos companheiros sacudir a trouxa e andar é apenas natural; nós fomos uma geração de muita coragem e de muito coração e hoje sentimos muitas condições a assemelharem-se demais ao que já combatemos…

12 - No concerto que passou no Porto Canal, interpretou temas de muitos poetas, como Sérgio, Zeca, Adriano e José Mário e isso parece agradar-lhe. Por que razão considera importante partilhar essas letras e esses testemunhos?

São uma memória colectiva imprescindível, foi um acto de homenagem a tantos companheiros; muitos deles infelizmente já desaparecidos… foi um momento maior para todos… para mim e para um milhar de pessoas que estava na sala..

13 - No seu Manifesto Sobre o Estado da Música também aborda a cultura e a língua portuguesa. A dada altura, cita “a nossa Pátria é a nossa língua”. Como é que acha que a nossa língua está a ser tratada? Considera que está a viver dias felizes?

A começar por este acordo ortográfico imbecil a língua esta a ser estropiada e vilipendiada. Não há razão alguma para que as tendências ortográficas não possam conviver…

14 - Foi pensar que tinha que dar um murro na mesa e dizer “Basta!” que o levou à criação desse Manifesto?

Alguns músicos então como agora chegam ao desespero ao suicídio à total desistência de carreira etc. Como não intervir e dizer basta? Os artistas são ícones geracionais há que protegê-los.

15 - Que problemas é que vocês, músicos, enfrentam no dia-a-dia?

Se eu disser que o Carlos Paredes génio maior da guitarra portuguesa teve de ser arquivista de radiologia no Hospital de S. José isso basta para desqualificar totalmente a forma como os artistas portugueses têm sido tratados desde sempre a começar em Camões…

16 - E que problemas enfrentou enquanto Presidente do Sindicato dos Músicos?

Fiz parte da Direcção mas nunca fui Presidente. Os maiores problemas são a desagregação e dispersão da classe.

17 - Já fez muitas palestras sobre a nossa cultura. Pode dar um lamiré sobre o que dizia nessas palestras?

Sempre foram de uma forma ou outra sobre a portugalidade no mundo, a força e significado da cultura na libertação do homem, a função cívica do acto cultural e temas avulsos de carácter mais técnico, como a Etnomusicologia e outros.

18 - Como professor, o que era mais importante para si ensinar aos seus alunos para além da matéria propriamente dita?

O sentido da solidariedade, da visão colectiva, do entendimento entre as pessoas.

19 - Qual é a sua opinião sobre o estado da nossa cultura?

Estamos de mal com o poder… pois o poder desconfia de nós, homens de cultura e tem inveja talvez da nossa visibilidade, das palmas e do respeito que granjeamos uma vida; eles discursam e desafinam; nós sim, além de construirmos a idiossincrasia do país, construímos a memória do futuro…e somos símbolo maior da inovação e da diferença que ilustra. Todos os autores em todas as Artes, seriam dignos de protecção que não têm. Ao invés vivem e criam completamente desprotegidos e ignorados; é uma vergonha a falta de apoios que a cultura, a investigação, a criatividade, etc. estão destinadas entre nós.

20 - O que será preciso fazer para promover e enriquecer a cultura e para unir todos os que trabalham em prole dessa mesma cultura?

Dar a prioridade ao Conhecimento; aos auditórios e não aos estádios; fazer com que os dinheiros para a cultura cheguem de facto aos agentes culturais; apoiar produção literária e musical e teatral etc subsidiar os artistas com mínimos que lhes permitam criar sem estarem dependentes de outros empregos libertar de impostos os produtos destinados a usos culturais como os livros, os discos, os instrumentos musicais, as telas, as tintas etc

21 - Há quanto tempo já não participa em programas de rádio e em peças de teatro? Tem saudades?

Foi a rádio, sim, num início e depois talvez uns dez anos de Teatro sinto saudades sim mas quando estou em palco seja no que digo entre temas, seja pela humanidade de certas canções isso leva-me a que as represente quando as canto, portanto não ando tão longe assim…

22 - As artes, a música e a cultura fazem parte da sua vida. Sem isso o que seria?

Hum…Chef? Viajante? Arqueólogo? Já sei! Trabalhava em reconstrução de castelos e palácios – tenho a sedução das velhas pedras…e das velhas técnicas de reconstrução.

23 - O que é que falta hoje a Portugal e aos portugueses?

Coragem de dizer não à Europa tecnocrata e ao Oriente invasor. Prosseguir um caminho próprio de vocação atlântica e mundial como sempre. Sermos os poliglotas que sempre fomos e tão bem sabemos ser. Gente de paz e exemplo. E reforçar o emprego interno, a cultura, o sorriso, a interajuda, a vida nos campos… tanta coisa. Depois sim exportar, invadir o mundo com a nossa arte, os nossos produtos e a nossa simpatia.

24 - Para terminar, gostaria de lhe pedir que partilhasse connosco um episódio seu que ache interessante.

O episódio ocorreu na linda Amsterdam, uma das muitas vezes que ali me desloquei. Convém dizer que, naquele dia, éramos nós a pagar o jantar, pois não havia concerto, portanto, não estávamos por conta de ninguém... E as massas, como sempre compete a músico que se preze, eram curtas. E o nosso benjamim, o Fragoso, era especialmente poupado. A mesma nota de cinco mil que guardava fundo num bolso das calças, foi seguramente das mais viajadas do país e arredores pois, era sabido, regressava sempre ao local de partida. Teríamos que optar entre os restaurantes chineses ou os italianos. Lá escolhemos o que tinha aspecto de mais baratucho e entrámos. Oriental. A primeira surpresa foi deparar com a família dos proprietários deleitada a ver a versão na sua língua da célebre “Gabriela”, a telenovela baseada no romance original de Jorge Amado. E como era estranho ver a Sónia Braga a falar em vietnamita! E eles riam-se como uns perdidos com o “Tonico Bastos”. Afinal, tal como nós, que o génio de Amado foi, é, e será sempre, um valor universal. Trouxeram-nos a lista em holandês e em vietnamita. Ficámos completamente elucidados, como calculam! Restava-nos perguntar por gestos que pratos eram aqueles e, com muito improviso, tentar comunicar o melhor possível, pois o inglês daquele pessoal era mesmo miserável. Até que o Fragoso, salvador, decidiu com toda a segurança do mundo, apontar para um prato. Era o mais barato da lista, claro... E a família inteira de vietnamitas explodiu de riso, “- Não! Não podia ser!” - explicaram... Razão? É simples: - é que eram dez da noite e ele acabara de encomendar... o pequeno almoço ! Mas talvez o episódio mais politicamente incorrrecto foi eu ter assinado o livro de honra da Universidade de Budapeste, a convite do Reitor, após um grande concerto na sua inesquecível Aula magna. Porquê? Porque isto aconteceu uma semana antes de Cavaco Silva, então 1º Ministro, fazer a sua visita oficial à Hungria! Imagine-se! Pura coincidência, claro. E ele, mais do que provavelmente, ter de escrever qualquer coisa, muito contrariado, numa folha em que ainda se lia bem claro Portugal passou por aqui. E assinado Pedro Barroso. Com data e tudo. Caramba dessa vez…cheguei primeiro. Daquela vez, pelo menos, a cultura tinha ganho aos homens do poder…

Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.

Projecto Vidas e Obras Entrevista por: Pedro Marques Correcção por: Fátima Simões/j amadora

20 de Setembro de 2013


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