Entrevista a Joana Rita
- Mar 18, 2014
- 9 min read
Updated: Sep 22, 2021
Entrevista à Ilustradora, dançarina, contadora de histórias -- e mais uma série de coisas – da multifacetada Joana Rita
1. Como descreves o processo de contares histórias à pequenada?
A criação e contação de histórias é uma actividade apaixonante. Contar histórias é sempre um momento único e mágico, que nunca se repete exactamente igual, e que traz sempre algo de novo e inusitado. Os adultos assustam-me (risos), e parece que as crianças me entendem melhor, são honestas e óptimos críticos. Faço sempre um processo de “impregnação da história”, isto é, a história tem de entrar dentro de mim para a contar com autenticidade, mas deixando sempre espaço para a improvisação. Aliás, acho que em tudo na vida eu gosto de deixar esse espaço para o que surgir no momento, parece-me que assim sou mais honesta comigo mesma e com os outros.
2. Como é que surgiu essa vontade de contares histórias?
Eu sempre gostei muito de ler e de escrever, tive o privilégio de ter uns pais que desde cedo me incutiram o fascínio pelos livros e o meu irmão, que era muito reguila, pedia-me para inventar histórias e fazer bandas desenhadas portanto, eu tinha de dar asas à imaginação para o entreter e convencer a fazer as coisas (risos)! Aos 10 anos comecei a fazer os meus diários, criei um alfabeto secreto para ninguém entender os meus escritos, e adorava fazer as composições para a escola pois a escrita, tal como o desenho, era um mundo de infinitas possibilidades. Diversas vezes as minhas poesias ou textos eram publicados no jornal da escola e cheguei a concorrer a alguns concursos onde fui premiada. A vontade de contar histórias não teve propriamente um dia e hora exacto de nascimento, mas o momento em que vi, em Coimbra, a maravilhosa contadora Helena Faria (a quem eu apelido de “a minha mãe das histórias”), foi sem dúvida marcante... Por outro lado, eu tinha uma série de personagens na minha cabeça e que transpunha para o papel, mas a quem faltavam histórias para adquirirem vida, para os corpos terem alma. Contudo, a minha timidez era um “bicho enorme” (ainda não totalmente extinto) e só mais tarde ganhei coragem para tirar os meus escritos da gaveta e me inscrever numa formação de contação de histórias na Associação Cultural Camaleão. A partir daí, aliei a contação de histórias às oficinas que já desenvolvia para crianças, e tudo o resto se foi articulando e crescendo.
3. Achas que saber ouvir é importante?
Saber ouvir é extremamente importante! E acho que cada vez mais as pessoas perdem a capacidade de escuta, escutar o outro, e escutarmo-nos a nós mesmos. Afinal de contas, a origem das histórias está na narração oral...
4. O que representa para ti as histórias, as histórias contadas, e porque é que consideras importante contar?
O que é a nossa vida, o que somos nós, se não um conjunto evolutivo de histórias, historinhas e historietas? As histórias são intrínsecas à necessidade de comunicação entre os indivíduos, à tentativa de compreensão do mundo, e de dar sentido e significado à vida. As relações humanas são uma espécie de histórias, em suma, contar histórias é um acto de partilha, é comunicar!
Além de arte de narrar ser tão antiga quanto a humanidade, e de antes da escrita a cultura ser mantida e transmitida oralmente, considero a contação de histórias extremamente importante porque as histórias encantam, falam ao inconsciente numa linguagem tantas vezes semelhante à dos sonhos... As histórias são uma ponte entre o real e o imaginário, isto é, fontes inesgotáveis de experiências, auxiliando as crianças na elaboração dos seus sentimentos, no entendimento delas mesmas e do mundo através dos olhos dos personagens, das emoções e situações que estes vivem nas narrativas. As histórias estimulam o pensamento e a criatividade, enriquecem a linguagem, trabalham a capacidade de escuta, de concentração e de interpretação, e favorecem laços afectivos.
5. O facto da tua mãe te ter cantado músicas quando eras pequena, influenciou o teu gosto pela leitura, pelas histórias e cantigas?
Sem dúvida! Tudo são narrativas, tudo são formas de expressão do ser humano. E tudo gira em torno dos afectos.
6. O que é que tens aprendido nas idas às aldeias, festivais, festas, e outros, com as bandas onde tens tocado e dançado, como os Gambuzinos, Roncos e Curiscos?
Acima de tudo relembro-me de como o ser humano é um ser social, que as coisas são para serem partilhadas, e que eu estou aqui para os outros. Trabalhei em diversos ramos artísticos, e em tudo o que fiz, eu estava a comunicar com o outro, a dar-lhe algo, a partilhar aquele momento, quiçá a despertar-lhe algo ou a deixar-lhe uma lembrança. Cada projecto foi ou é especial à sua maneira, permite-me conhecer pessoas e fazê-las sorrir, e todas essas vivências e experiências têm sido aprendizagens para procurar fazer cada vez melhor.
7. Como é que têm sido essas experiências, dessas viagens, histórias contadas, músicas tocadas e dançadas, desenhos feitos e outras coisas?
Tem sido uma opção de vida bastante agitada, com altos e baixos, linhas rectas e outras mais circulares, mas da qual não me arrependo minimamente. É uma vida pobre de euros mas rica de muitas outras coisas (risos)! Não me consigo imaginar estagnada num só projecto, nem quieta num só sitio. A ilustração é uma actividade muito solitária, que condiz perfeitamente com a minha personalidade. Contudo, há uma outra faceta minha que também precisa de viver, de se expressar, de querer chegar ao outro, e o convívio com outros artistas e de outras áreas reveste-se aqui de um papel crucial. Para mim, muitas vezes a riqueza de um bom projecto está exactamente nesse conjugar de diferenças e de diversas habilidades, juntos fazemos melhor do que sozinhos, crescemos mais como pessoas, aperfeiçoamo-nos como artistas, e o público também recebe muito mais.
8. Que histórias é que se têm construído e que gostarias de partilhar?
Ui, há tantas! As histórias mais especiais têm sempre uma boa dose de “acaso” ou “coincidência”. Uma história curiosa é a do fio de seda bordado. Em Lisboa conheci uma das mulheres mais belas da minha vida: Najma Saiyad, nascida na Índia, com uns olhos de uma profundidade incrível, com idade para ser minha avó, e que me ofereceu uma bolsa bordada indiana. Poucos dias depois, fui visitar a minha avó que, assim que viu a bolsa, comentou: “Oh, bordado indiano, tão semelhante com o nosso Bordado de Castelo Branco!”. Aqueles segundos foram como uma iluminação, a “peça do puzzle que faltava”, e assim surgiu o fio condutor para o projecto Histórias aos Retalhos, onde cada pedacinho de tecido contém uma história dentro, histórias essas que unem pessoas de diferentes tempos e de distantes lugares...
9. É importante fazeres o que gostas? Como consegues fazer isso?
É extremamente importante para mim seguir o que sinto e fazer o que gosto. Se não o fizesse com amor, não faria sentido. O que faço sai de dentro de mim, seja a ilustrar ou a dançar, logo, se eu não estiver a gostar e a ser verdadeira, quem vai apreciar ou acreditar?
10. Como é que foi ilustrares o livro da Lurdes Breda “Mundo Barnabé” e depois contá-lo às crianças? Como é que aconteceu tão grandiosa parceria?
Eu tinha acabado a licenciatura, soube que a escritora Lurdes Breda estava à procura de um ilustrador para a colecção de livros do Mundo Barnabé, enviei-lhe o meu portfolio, e ela gostou, foi fantástico! A criação do personagem foi um processo bastante partilhado entre as duas e por isso ainda mais interessante e frutuoso. Criou-se um grande à vontade entre as duas e a partir daí tudo foi natural e fluido. Contar as aventuras do Duende Barnabé às crianças era sempre especial, pois além da narração oral da história, no fim de cada livro havia uma canção escrita pela Lurdes e musicada por Lina Carregã, o que tornava as apresentações ainda mais interactivas e divertidas. E depois claro, o objecto livro, que permitia que as crianças ficassem com o Barnabé perto delas quando nos íamos embora, o que era gratificante.
11. “De pequenino se torce o pepino”, neste caso de pequenina. O teu gosto pelos desenhos, acabou por se manter até hoje. Ainda guardas esses desenhos? Como os recordas?
Desde que me lembro de mim o desenho e a dança sempre estiveram presentes e os meus pais guardaram uma série de pastas com desenhos que fiz na minha infância. Eu aprecio marcar os momentos e costumo brincar dizendo que a minha vida é feita de pequenas histórias registadas em diários gráficos, que vou guardando em caixas, que empilho em cima do armário. Assim, caso um dia me falhe a memória, terei histórias para contar a mim mesma e me lembrar de quem sou. Na verdade, eu tenho a sensação que os meus desenhos andam espalhados e guardados por todo o lado, pois recorrentemente os meus amigos de diversas proveniências comentam: “Ainda lá tenho guardado aquele desenho que fizeste, não sei quando, não sei aonde”. É como se houvesse um pedacinho de mim em cada sitio e com cada pessoa, o que me enche o coração!
12. Em adolescente tinhas a vontade de trabalhar também com desenho e pintura?
Desenhar e pintar sempre fizeram parte de mim e comecei muito cedo a desenvolver oficinas de expressão plástica para crianças. Sempre soube que queria seguir artes, o que eu não sabia era definir o que queria especificamente dentro da área das artes.
13. Como é que foi esta nova viagem/experiência em Lisboa, no Centro em Movimento?
Estou muito grata à formação/investigação que fiz no Centro em Movimento, coincidiu com uma fase de muitas interrogações interiores e mudanças na minha vida, em muito contribuiu para uma viagem interior, (re)descoberta da minha relação com o meu corpo, e possibilidades de abordagem ao outro, o que se repercutiu no trabalho de campo que desenvolvi posteriormente.
14. Nas fotografias de trabalhos teus, mostram que elaboraste trabalhos sobre o Ser Feminino, entre outros. Quais foram as motivações para trabalhares estes temas?
O tema do Feminino, da igualdade de género, igualdade de oportunidades, opção de escolha, o erotismo, sempre me interessou. O tema do feminino é muito abrangente e ainda tenho muito para explorar. Além de gostar bastante de desenhar o corpo feminino, fiz a colecção “Ser Feminino”, um conjunto de imagens em que abordo especialmente a capacidade da mulher de ser criadora de vida, gerar no útero, nutrir, embalar... No projecto Histórias aos Retalhos debruço-me sobre o poder criador da mulher, já em outras facetas para além do ser mãe, questionando algumas mulheres enquanto artistas. As oficinas que comecei a desenvolver com mulheres têm sido um óptimo “laboratório” de experimentações e partilha de saberes, e espero continuar a aprofundar o assunto.
15. Vi também imagens tuas de Desenho Científico. Quando é que te surgiu o gosto por este tema e vontade de trabalhar nele?
Como sou muito dedicada ao pormenor, o Desenho Científico era uma área que me causava curiosidade, mas também algum receio por ser tão realista e eu ter tendência para a estilização. Quando vivi em Guimarães tive a oportunidade de me inscrever em aulas de Desenho Científico na ESAP – G (Escola Superior Artística do Porto - Guimarães), foi surpreendente, e muito o devo ao fantástico professor Marco Correia.
16. Achas que é importante falar-se sobre o que é ser feminino, a importância da mulher e a liberdade que necessita?
Acho que muitas vezes ainda não parece que estamos no século XXI. Sim, a liberdade da mulher é um assunto, entre outros também emergentes, que merece ser abordado.
17. O feminino é um assunto que tens curiosidade em retractar ou pelos quais tens algum interesse em especial?
O tema do feminino, da sensibilidade e da liberdade são questões que para mim vão para além do género e continuam a suscitar-me muito interesse, especialmente a possibilidade de escolha que cada “um” ou “uma” deve ter sobre o que o faz sentir realizado.
18. Como é que foi a experiência de criares cenários para uma peça de teatro?
Aliar a ilustração a adereços cénicos foi um desafio muito agradável. Fez-me lembrar os primeiros anos de faculdade, em que ainda não estava focada em ilustração editorial, e andava mais interessada na pintura em tridimensionalidade.
19. O facto de trabalhares na dança, ilustração, de tocares, e afins, deve-se ao facto de seres alguém inquieta pela aprendizagem, pela vontade fazer e partilhar pelos outros a cultura e genialidade que tens dentro de ti?
Estou sempre com sede de fazer e aprender mais, como se tivesse uma curiosidade cá dentro, uma energia que precisa de extravasar, um questionamento que não silencia. Por outro lado, desde criança sempre tive outras formas de me expressar que não a voz. Por exemplo, a cor, o ritmo, são muito fortes em mim, se calhar daí a expressão através das mãos, a gestualidade, a dança, a percussão...
20. Como surgiu esse gosto pelas tradições, das danças, das suas músicas e a tua vontade – já és um pouco nómada?
Para mim, arte, cultura e vida são indissociáveis e imprescindíveis. Talvez tenha contribuído para isso o facto de ter crescido numa família apreciadora de cultura e que me incentivava a fazer actividades extra-curriculares, e em Coimbra, uma cidade universitária onde sempre tive contacto com teatro, dança, música, participei em organismos autónomos, associações, etc.
Se calhar sou um pouco nómada sim, adoro viajar, conhecer novas gentes e lugares, e quando estou fisicamente num sitio, a minha mente pode estar bem longe, algures no mundo da imaginação (risos)...
21. Que opinião tens sobre a situação actual do país? Como achas que devemos ultrapassar esta situação?
Portugal é um país com uma enorme riqueza natural e cultural que deveria ser muito mais preservada e valorizada. Focando na áreas artísticas abordadas na entrevista, a arte de contar histórias, a ilustração, a literatura para crianças e a música e dança tradicionais têm vindo a conquistar mais espaço, todavia, ainda há muito por fazer, especialmente na criação de possibilidades para se fazer, porque bons profissionais e artistas e com vontade de fazer coisas, existem, existe é muito pouco apoio, incentivo, e a devida valorização.
22. Quais são os seus sonhos para Portugal?
Que mude e que sejam criadas circunstâncias que nos permitam ficar cá e sermos tratados com dignidade. Projecto Vidas e Obras Entrevista por: Pedro Marques Correcção por: Sílvia Dias
18 de Março de 2014


Comments