Entrevista ao Cantautor Carlos Clara Gomes
- Mar 5, 2014
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Um artigo sobre o seu monólogo – “Crónicas do Inverno” Jornal As Beiras –, na internet, refere que em Abril de '74 tinha 15 anos e que os seus medos transformaram-se em sonhos. Hoje esses sonhos cumpriram-se? Muitos sonhos cumpriram-se, com efeito… Muitos desses sonhos integraram um enorme quadro chamado Liberdade, composto por muitos detalhes. Mas a roda do tempo também se encarregou de substituir esses sonhos pelo pesadelo atroz em que vivemos hoje. Convém frisar que a roda do tempo não é a responsável por isso. A responsabilidade é das pessoas que o permitiram. Neste espectáculo que referes – CRÓNICAS DO INVERNO – faço um périplo por lugares e tempos duma geração, da minha geração, que um belo dia de ‘74 acordou e à qual disseram: «Toma lá isto. Chama-se Portugal. É o teu País. Vai reconstruí-lo». E hoje está um tanto ou quanto “na moda” a ideia de que essa mesma geração é responsável pelo actual estado das coisas. Em '99 com o projecto Maré Alta e com Aurélio Malva fizeram apresentações do espectáculo “Canções de Utopias – 25 Anos de Abril. Que significado teve isto para si? O Projecto Maré Alta começou em 1996 e foi uma confluência de várias vontades e estéticas: ali estavam presentes alguns elementos da banda com quem eu trabalhava na altura, alguns da Brigada Victor Jara, assim como dos projectos Amar Amargem e Baladas Bailadas. Até tínhamos uma organização interna horizontal que era dirigida pelo nosso Comité Central (de que todos, na realidade, fazíamos parte…). O Aurélio Malva, o Amílcar Cardoso e eu constituíamos aquilo a que chamávamos sarcasticamente a “Comissão Executiva do Projecto Maré Alta”. O Espectáculo “Canções de Utopias” foi um dos vários que construímos. Foi um período muito bonito em que trocámos experiências muito importantes. Para mim foram muito importantes, essas experiências, pelo menos. Como foi fazer uma homenagem ao Zeca Afonso com a Tuna do Instituto Superior Politécnico de Viseu e o Orfeão Académico de Viseu? Resultou de uma encomenda da Câmara Municipal de Viseu no sentido de assinalar os 20 anos da morte do Zeca. Construímos (a Companhia DeMente) o espectáculo tendo como matéria-prima 25 canções do Zeca. O meu amigo Viriato Teles, escreveu vários textos de ligação entre as canções. A participação da Tunadão surge de forma quase “natural” pois eu estava (e ainda estou) a dirigi-la artisticamente. O convite ao Orfeão Académico veio quase por “tabela”: tanto a Tuna como o Orfeão são formações de alunos do Instituto Politécnico de Viseu. Na reportagem, diz que o público que assistiu ao espectáculo não é um público habitual ao trabalho do Zeca. Isso fez com que fosse ainda mais importante a homenagem em si, o cantar aquelas palavras, aquelas letras, e a música tradicional? Obviamente. Embora não seja fenómeno único, a alegria de esse de cantar o Zeca para públicos que nem sequer souberam quem ele foi e o que significou. O Zé Mário Branco disse a dada altura que as canções do Zeca são “pedras preciosas”. E são, de facto, diamantes em bruto: por mais que alguém se queira esforçar para tal, nunca consegue estragar uma canção do Zeca. Há também outro fenómeno com isto dos emblemas: muitos emblemas há que apenas viveram para tal, para isso de serem emblemas. Tens a Marselhesa, o Amazing Grace, o Hino da Maria da Fonte. A Internacional, é só escolher. O Grândola poderia ter sido “apenas” uma dessas canções-emblema. Mas a Grândola confunde-se com a gesta do povo português. A Grândola sai desse estatuto para adquirir o estatuto de coisa tangível. E essa “coisa” tangível foi seguramente o Zeca: alguém que viveu aquilo que cantou e que cantou aquilo que viveu. “Um puto que teve o privilégio de ver um País a ser reconstruído, que assistiu impotente à sua destruição, mas que, apesar de tudo, espera que entre os escombros e a caliça, se erga uma geração de novos Mestres de Avis...”. É por isso que compôs a música para a Manifestação “Que se Lixe a Troika”? Esta música não foi feita especificamente para esta Manifestação. Estreei-a em 25 de Abril de 2012, em Viseu. Mais tarde resolvi – e os companheiros do “Que se Lixe a Troika” – aproveitá-la. As coisas deixam de ser nossas, a partir do momento em que nos saem para a rua. Quando um filho nos sai porta fora para ir estudar para outro lado, está, de facto, a sair-nos do ninho. Para voar. Com as canções não é muito diferente. Não se cansa de lutar? Não nego que, por vezes, o desencanto me assalta... Há momentos em que apetece pousar a espada. Mas, depois, olho para a espada ali encostada e considero que não tenho o direito de a abandonar. Até porque não fui eu quem forjou essa espada: foram muitos outros homens e mulheres que ma deixaram como herança. Abandonar a luta seria traí-los. Não sei o que me custa mais: ser vencido pelo cansaço de lutar ou sentir-me desaprovado por toda essa gente… Acabo sempre por me decidir pela gente… Qual deve ser a forma que as pessoas devem olhar para a sociedade, e aquilo que podem fazer por ela e pelas suas vidas? A tua pergunta já contem a própria resposta: as pessoas devem olhar para a sociedade e para aquilo que podem fazer por ela e pelas suas vidas… Nas informações do seu Facebook diz que não devemos pagar a dívida. Porque é que diz isso? Há várias razões para isso mas as principais advém do facto de eu considerar que nada nem ninguém pode por em causa a legitimidade soberana de um povo. Não faz sentido nenhum que os ditames dos chamados “mercados” – na prática, um imenso jogo de Monopoly jogado por meia dúzia de poderosos e no qual nós somos os peões – possam fazer titubear direitos fundamentais conquistados pelos Povos. Entre os quais a essência da própria Liberdade. Outra das razões está relacionada com a situação imoral de cobrança duma pretensa dívida que não contraímos. Pelo menos, eu não a contraí. Tu contraíste-a? Em resposta à minha dúvida sobre se era a favor ou contra este acordo ortográfico disse veementemente que era CONTRA e que se não gostassem que o prendessem, e que até no xelindró enfeitaria o espaço duvidoso com o acordo oficial AO45. Disse-me também que violava a identidade imaterial do povo português. É só por isso que é contra? E achas pouco?... Um dos muito ricos bens imateriais que temos enquanto povo é justamente a nossa Língua. É um alto capital de que dispomos mas que permitimos diariamente que seja violado. Por exemplo, usando um vocábulo de outro idioma mesmo quando existe a correspondente palavra em Português. É um acto de imperialismo consentido pelo dominado. Por exemplo: o conceito de cowork, recentemente instalado no dia-a-dia não surgiu agora. Já no passado existia em Portugal. Chama-se Colaboração, indo directamente ao étimo. Pode não ter o mesmo sentido. Tudo bem: vamos, então, passar a dar-lhe também esse sentido. Há que usar a vasta riqueza vocabular que temos. E há que exportá-la! E há que defendê-la: o facto de ser um valor imaterial torna a Língua ainda mais frágil, ainda mais violável. Defendamo-la. O Português somos Nós. Faz parte do nosso ADN. E cantemos em Português! Não sou contra muitos artistas emergentes (e até já instalados e consagrados) cantarem em Inglês, por exemplo. Trata-se duma opção deles. Cabe-me apenas considerar que poderiam estar a prestar um melhor serviço ao seu povo usando os seus talentos. Lembro-me que antes de Abril de ’74 havia uma certa vergonha em cantar em Português. Tal era associado ao chamado nacional-cançonetismo. Havia que fazer autênticos malabarismos para conseguir arrostar com a censura fascista. E depois havia o problema de conseguir quem editasse os discos. E, mesmo assim, havia editores que arriscavam o pescoço nesse sentido. E depois, havia o problema de conseguir ser passado nas rádios. Mas também havia alguns profissionais de rádio que heroicamente passavam essas excepções. Hoje vivemos uma situação de censura-self-service nesta ditadura-take-away. O dominante já nem precisa de impor os seus valores! Programou o dominado tão eficazmente que já é este último quem procura as suas próprias ferramentas de colonização. E não me contradigo ao usar aqueles termos no contexto em que os uso. Todo o texto, é claro, depende do respectivo contexto. Disse-me igualmente que não é a favor dos grupos reaccionários que acham que os restantes países devem usar a norma portuguesa. Para si qual é o melhor caminho a tomar? As diferenças são importantes? Não sou um fundamentalista, daqueles que acham que o nosso idioma não deva incorporar termos de outros povos! Isso seria a negação da própria essência do Povo Português, povo mestiço por excelência: consequentemente, a nossa Língua também acaba por ser a casa-comum de todas essas culturas que nos enformam e informam. Defender isso seria o mesmo que um mulato advogar a eugenia e a pureza da raça. E isso seria intrinsecamente contraditório!... E sou português logo sou mulato… Importa perceber que esta formatação imperialista já chegou a atingir níveis primários: a deontologia da manada, traduzida na obrigatoriedade da praxe académica (pretensamentenão-obrigatória) é disso um exemplo. O extermínio do acto individual, a aniquilação da opção do indivíduo, aquele que pretende aportar com as suas diferenças uma mais-valia ao todo, traduz bem essa formatação de teor fascista. No ensino superior perdeu-se o aporte crítico, a confrontação com o dogma, o colocar em causa os conceitos impostos, o uso do «por que é que tem que ser assim?». Quando entras para a maior parte das Universidades, tens que te declarar anti-praxe… Ou seja: por defeito terás que aceitar a praxe. Deveria ser ao contrário. Se assim fosse, quantos «clientes» teriam esses mussolinis de campus? Não sou contra a praxe mas, obviamente, não posso ser a favor. Não é coisa que eu queira para mim. E, assim sendo, também não é coisa que eu deseje para os outros. A pretexto da integraçãodos caloiros, é exercida neles uma humilhação e uma repressão intensa, ambas escoradas na pretensa preservação das tradições. Mas, de entre esses tradicionalistas não há quem investigue a história das lutas académicas do início do Século XX, quando os estudantes de Coimbra gritavam «Abaixo a Universidade Fradesca, Abaixo a Universidade-Inquisição»? Por que não investem esforços na defesa dessa tradição? A tradição deve servir como catapulta para o futuro e não como nossa sepultura em vida. Há línguas portuguesas, todas elas válidas e dignas. Refere isso por ser igual à Língua Inglesa ou outra língua que tenha a mesma origem latina? Porque é que a língua não tem a mesma força que a língua inglesa? Não sou um linguista nem um filólogo. Não me quero meter por veredas que desconheço. Isto para te dizer que não sei se, de facto, há Línguas Portuguesas. Eu sinto que há. Mas isso é um sentir meu, nem sequer é uma certeza baseada numa sistematização. Quanto à talforça do Inglês: não se trata duma força mas sim dum valor para o qual estamos formatados. O capitalismo pós-moderno edificou um mito, uma religião com ícones diversos como a Coca-Cola ou o MacDonalds. E, como todas os cultos, também este possui a sua língua sagrada. É o Inglês. O dominador impõe sempre os seus códigos ao dominado. E fá-lo por duas ordens de razões: por um lado, de natureza mercantilista, para que o dominado consuma os seus valores, para que sinta necessidade de consumir os seus valores; por outro lado, por uma questão de formatação, visando promover a normalização das diferenças. É irónico porque, afinal, a normalidade é sermos todos diferentes. Repara no seguinte, pois estas coisas não são inocentes: experimenta escrever, no Word (versão portuguesa), a palavra merkel. Dá espaço. Hás-de ver que o corrector ortográfico automático te coloca a palavra em maiúscula. Não o faz, porém, com o nome boris ou luandino. E, apesar de a Frau Merkel não ser inglesa nem estado-unidense, convém que saibamos ocupar o lugar que nos compete, respeitando a identidade de quem de facto manda em nós. A palavra cristo, por sua vez, já pode ir em minúscula. O que revela que, as religiões são apenas um habitat, um meio para que o poder económico e financeiro consiga chegar a mais dominados. Quanto ao resto, não acho que haja uma fraqueza do Português (ou de outra língua latina): o Castelhano, por exemplo, é uma prova viva de que uma língua latina tem força. Vê bem a quantidade de pessoas que o falam. Como o Português, aliás… Mas também isso faz parte do quadro geral: na América Latina (a hispânica e a lusófona) o Inglês ainda encontra muitas resistências no falar popular. É certo que no Brasil, expressões inglesas são metabolizadas no falar quotidiano. É comum ouvires sinuca para dizer snooker, por exemplo. Ou xerocar(procedente da marca Xerox) para fotocopiar. Mas, se o imperialismo não penetra através do idioma, vai penetrando através de relações e trocas de duvidosa moral. A imposição doamerican way of life para a América Latina é disso um exemplo. Na sua opinião como é que surgiu este acordo? Não sei, na verdade. Parece-me ter saído duma espécie de conselho de sábios sem ligações concretas ao dia-a-dia das pessoas, sejam elas o cidadão comum, sejam elas os profissionais do ensino do Português, sejam elas os próprios miúdos da primária. Isto teria que ser debatido profundamente em sede própria: na Assembleia da República. Trata-se, afinal, dum dos nossos símbolos. E um povo sem símbolos é um povo sem alma. Em resposta sobre o espectáculo “A Formiga no Carreiro”, falou-me sobre o Zeca Afonso e explicou-me – evidentemente com muita amabilidade sua. Para si quem é o Zeca Afonso? Qual é a sua importância para si? Qual é que devia ser a importância para o país? O Zeca, para mim, é uma referência. Quando somos jovens estamos cheios de certezas. Porém, a roda do tempo vai-nos trazendo cada vez mais dúvidas. E essas dúvidas rumam à sabedoria. Considero mais sábio aquele que sabe colocar perguntas a si mesmo e aos outros do que aquele que sabe responder a tudo. O Zeca, entre muitos outros, encheu-me de dúvidas. E quando falo do Zeca não me refiro só ao cidadão José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos. Falo também da sua obra. Obra essa que se confunde com ele próprio, com a sua vida, com a sua postura e sentido ético. A importância do Zeca para Portugal continua viva. Resiste às provas do tempo. Não há patine que assalte as suas canções. O Cantigas do Maiotem soluções musicais e técnicas que ainda não foram ultrapassadas! O Zeca teve contra si o facto de ter nascido antes do seu tempo. Foi um visionário. Foi um guerrilheiro. Para além do trabalho musical do Zeca, que trabalhos pensa que tenham urgência, como me dizia, em ser cantados? Não te sei responder a isso com exactidão: há tanta gente boa que correria o risco de ficar de fora duma qualquer lista que te enumerasse. Acho que tudo deve ter todo o relevo necessário, toda a exposição merecida. Em 2012 criou o tema “Nós o Povo” para a Manifestação Que se Lixe a Troika. Que importância tem para si a luta? E que importância tem para si esta música, e a música em si – continua ainda a ser um suporte base para passar mensagens e fazer as pessoas pensar e mobilizá-las para a luta? A luta é a essência das coisas. Tudo o que de maravilhoso e belo temos foi conseguido com luta, com a afirmação de vontades várias, com tenacidade, com obstinação. O próprio acto de nascer é violento. Aproveito, obviamente, o facto de ser cantautor para passar mensagens, utilizando a tua expressão. Mas todos os autores fazem isso: todos os autores passam as suas mensagens. Estas, porventura, poderão ser mais incómodas. Sinto, porém, que é um dever que me cabe. Sinto que é uma atitude que advém da cidadania. Não me importa que a tal roda do tempo venha mais tarde a classificar uma ou outra canção minha como datada ou até panfletária. Isso não me incomoda. Até será um bom sinal: significa que tais canções perderam actualidade, que deixaram de ser necessárias porque muita coisa má já mudou para bem. É lamentável, por exemplo, que Uma Cantiga de Desemprego, do Fausto, essa bela canção gravada pela primeira vez em 1977, ainda esteja tão actual. É mau sinal. Por outro lado também existe uma genuína inquietação: se tantas canções socialmente comprometidas ainda não transformaram o mundo, por que é que continuamos a escrevê-las e a cantá-las? Não sei. Talvez porque em todas as multidões haja sempre alguém – uma pessoa apenas, que seja – em quem a canção X ou a canção Y operaram alguma transformação. O trabalho com as Bandas Filarmónicas, as Tunas, Orquestras e Coros é importante? O que aprendem, e o que transmitem quer entre vocês músicos, artistas e de vocês para o público? Sintetizas muitas perguntas numa simples pergunta. Obviamente que o trabalho com essas formações é importante. Já quanto ao resto, não é fácil responder-te pois as dinâmicas geradas dos palcos para as plateias, apesar de igualmente ricas, são diferentes das estabelecidas entre os artistas performativos. E até entre os criadores (compositores, encenadores, etc.) e os núcleos performativos. São todas riquíssimas porque sempre aprendi algo. E ainda no âmbito da formação. Garanto-te que, como professor, se aprende muito com os que ensinas. Com 10 anos de Companhia DeMente o que é que aprendeu? Tem histórias para contar? Como tem sido esta experiência? Já respondi parcialmente à primeira pergunta. E aprendi não só com os dez anos da Companhia como durante os meus 42 anos de carreira como músico. Trabalhei com vários grupos de Teatro, inicialmente como músico de cena ou compositor de cena. Mais tarde como dramaturgo e encenador. Até concebi desenho de luz e também fiz produção. Sobre as estórias, as melhores são sempre aquelas de que não nos lembramos. Mas há estórias fantásticas, cromos que trocamos quando nos encontramos anos passados sobre essas mesmas estórias: elas são, afinal, grande parte do combustível que nos faz andar nisto. A Peça de Teatro “A Formiga no Carreiro” é uma forma de homenagear a vivência e o engenho do José Afonso Cerqueira? Como tem sido encenar esta peça e o que tem aprendido? Mais do que homenagear José Afonso, A Formiga no Carreiro serve para o termos connosco no palco. Este espectáculo tem contactado vários públicos. E, em cada lado, normalmente, temos tocado também com formações locais com diferentes vidas e experiências. Essas experiências também me têm contagiado. A mim e aos restantes companheiros do elenco fixo do espectáculo. Já palmilhou muitos palcos por este mundo fora. Que culturas é que tem bebido? Tem sido uma coisa muito vasta e rica. Sou fortemente marcado pelas culturas populares do mundo. E não me refiro necessariamente a alguns festivais de músicas do mundo que parecem ser de músicas do outro mundo. Quero dizer com isto que ser português não é serdo mundo. Felizmente, a coisa tem mudado um pouco nos últimos anos. Pena é que tenha sido por razões da conjuntura económica. Ou seja: se, para procedermos à contratação de portugueses é preciso estar em crise, pois então que viva a crise! Quais foram os concertos que mais lhe gozo deram? Ter ido à Festa do Avante foi importante para si? Sou do tempo em que um concerto na Festa do Avante era uma experiência única e irrepetível. Hoje não é. O público mudou, os artistas mudaram, muita coisa mudou. E nem tudo para melhor. Hoje, o meu registo de ir à Festa já não passa necessariamente por ir ver concertos. Encontro lá amigos que só ali encontro, por exemplo. E isso também é Festa. Vejo um ou outro debate, como um ou outro petisco do meu país ou da Cidade Internacional. E divirto-me. Por isso se chama “Festa”. Ganhou vários prémios, porém, se pudesse, trocá-los-ia por alguma coisa que julgue mais essencial para si e algo que faça parte dos seus sonhos? Quem iria aceitar trocar algo por um prémio que eu ganhei? Os prémios são sempre uma coisa subjectiva. A maior parte dos prémios são ancorados num conceito injusto por tão subjectivo: o gosto. Prestigiam mas não lhe dou muitos calores. Está há 10 anos a dar teatro à cidade de Viseu. Tem conseguido partilhar o espírito do teatro, o gosto por ele e pela cultura? É fácil trazer novos públicos? Dar teatro é a expressão mais aproximada do que tenho feito. E não me refiro só àquilo que eu faço nem aos meus companheiros da Companhia DeMente. Refiro-me também a todos os que, em todo o mundo, entregam a alma a quem os rodeia nesta actividade tão apaixonante mas tão madrasta. Entre encenador, músico, autor, monitor/professor, o que é que lhe dá mais gosto fazer? Nunca consegui estabelecer fronteiras entre essas actividades. É-me muito difícil pensar numa encenação sem já me estar a soar a música na cabeça, ou a surgir-me um texto, um diálogo… E mesmo no contexto das aulas, tenho dificuldade em deixar de ser o músico ou o encenador ou o dramaturgo… Vejo todo este universo criativo como um plano geral, uma espécie de aldeia onde habitam todas essas invenções. E onde eu também habito. Porque essa aldeia chama-se Vida. Não temos cá o Zeca, mas mesmo assim julga que é possível voltar a reunir em palco aqueles músicos que o acompanhavam e/ou voltar a ter aquelas sessões de canto livre juntando vários artistas? Primeiro: temos cá o Zeca. O seu legado é ele. Sobre os músicos que o acompanhavam: essa é uma questão que terás de lhes colocar a eles. No entanto, muitos e muitos deles e muitos outros novos talentos têm sabido responder “Presente!” à voz de chamada, quando há alguma iniciativa à volta da figura do Zeca. O espectáculo Terra da Fraternidade, da ACERT, em Tondela, em Julho passado, foi disso um cabal exemplo. Tenho outra dúvida, nos vídeos carregados da Companhia que é Director Artístico, está um vídeo da Marcha Mundial pela Paz e a Não Violência Viseu, estiveram presentes nesta Marcha? Obrigado Sim, estivemos. Fizemos parte da organização local da Marcha. Quais são os teus sonhos para Portugal? Portugal… Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Vidas e Obras Entrevista: Pedro Marques Correcção: Sílvia Dias
03 de Fevereiro de 2013


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