Entrevista a Helena Sarmento
- Feb 28, 2014
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1 - O que é que a música significa para ti?
Significa estar viva. Não saberia viver sem música.
2 - Aos 13 anos quando entraste para a música, imaginaste que ias fazer carreira em paralelo com a advocacia?
Não. Ou melhor, eu dizia, quando era pequena querer, quando fosse grande, ganhar dinheiro a cantar e ser advogada “dos pobres”....mas imaginar, em concreto, não, não imaginava.
3 - A banda de que fizeste parte foi decerto importante para a tua aprendizagem. O que aprendeste? O que colheste tem-te servido para as músicas que cantas, seja fado seja música tradicional?
Os Clepsidra acima de tudo fizeram-me sonhar muito com a ideia de um dia fazer da música a minha vida.
4 - Como é que começaste a cantar fado? Foi ao descobrir a música de Amália Rodrigues que se acendeu em ti essa chama?
Foi a cantar fado que se acendeu a chama de cantar fado. Explico: eu ouço fado desde sempre – almoçava ao som de Amália, em casa dos meus pais – mas nunca pensei cantar fado até o cantar, pela 1ª vez, ao vivo.
5 - O que sentes e o que queres transmitir ao cantar Amália Rodrigues e Zeca Afonso? E quando cantas fado no geral?
São minhas referências incontornáveis. Como artistas e como Pessoas. Fazem parte de quem eu sou. Não posso por isso deixar de os cantar.
7 - Deve ter sido muito importante para ti teres cantado na Casa da Amália. Alguma vez sonhaste que um dia irias lá cantar? Que significado teve isso para ti?
Isso jamais poderia imaginar. Parecia quase irreal. Tudo, desde o vestir-me a ensaiar lá...e depois.. cantar naquela janela. Foi muito simbólico e emocionante.
8 - Como foi a experiência de cantar o FMI com a Ana Ribeiro e a Ana Afonso? O que é que este texto representa para ti? O que é que o 25 de Abril significa para ti?
Estive no palco com as Anas (Ana Ribeiro e Ana Afonso) por duas vezes em que elas disseram o FMI, completo (a 1ª vez, nas comemorações do 25 de Abril de 2011 e a 2ª na Manifestação Cultural Contra a Tróika - 13 de Outubro). Costumo fazer esta distinção – estar no palco ou dizer o FMI – porque a minha participação, das duas vezes (e em especial da 1ª), foi quase secundária ou simbólica. Mas uma honra e um privilégio estar no mesmo palco, com essas duas grandes mulheres, de quem gosto e a quem admiro muito, a dizerem um texto poderoso. E apreciar – a grande vantagem do papel secundário – o crescendo de entusiasmo no público. Inesquecível. Sempre tive “inveja” de quem viveu o dia 25 de Abril – um dia tão precioso e único na história. Sempre quis viver um dia Assim. Quem sabe...
9 - Que significado tem participar no Projecto “O Canto de Intervenção” e nas várias actividades promovidas pela Associação José Afonso – AJA?
Participei uma vez no Canto de Intervenção, em Aveiro, como convidada. Foi uma bela noite. Participei activamente no projecto “80 anos de Zeca”, em 2010, ano em que passei a fazer parte da AJA, designadamente do Núcleo do Norte. E participo, como cantora e como público, sempre que posso. A AJA tem tido um papel ímpar na divulgação da obra e da Pessoa do Zeca e é com muito orgulho que dela faço parte. Sinto-me em casa. O lema “seja bem-vindo quem vier por bem” pratica-se lá. Além disso, vim a encontrar lá alguns dos meus maiores Amigos, pessoas de Bem, solidárias como não há.
10 - “Que se Lixe A Troika – Manifestação Cultural” foi a Manifestação em que participaste no dia 13 de Outubro. Por que consideraste importante participar? Para ti é essencial lutar pela cultura? Por que razão?
Para mim é essencial lutar. Sempre foi. Cada vez mais é. Lutar pela dignidade das pessoas e pela plenitude dos seus direitos. O direito à cultura faz parte dessa plenitude. Citando Agostinho da Silva, “o Homem não nasceu para trabalhar; nasceu para ser Feliz”. O salário tem que ser uma contrapartida digna do trabalho das pessoas. E o lazer o descanso merecido. Nele deviam encontrar a Cultura, nas suas mais diversas dimensões.
11 - Tanto o Fado Intervenção, como a Caldeirada (Poluição) são poemas que falam sobre a nossa sociedade, mas também escolheste a Canção do Desterro do Zeca. Consideras que é importante tocar na ferida e passar mensagens importantes? A Canção do Desterro fala sobre a emigração. Por que achas que volta a ser um tema actual? É possível mudar esta situação? Como?
Considero fundamental fazê-lo. Também por isso o Zeca é tão importante na minha vida: foi depois de o começar a cantar que comecei a ficar insatisfeita com determinados temas que dantes cantava, irreflectidamente (alguns deles belos, mas que nada dizem de substancial). Não excluí nenhuma temática da minha vida (Que cante um fado de guerra/ que cante o do coração /é sempre de intervenção /se a voz me sabe a terra). Mas não tenho tempo para o supérfluo. Cada vez tenho menos tempo para isso. [Do Fado Azul, destaco também o Respiração, um grito contra a indiferença e um apelo à mudança]
12 - O Fado da Caldeirada fala sobre a poluição e a importância de preservar o ambiente. Por que razão há tanto desrespeito pelo ambiente e pela natureza? Como se podem mudar as mentalidades para que se comece a preservar e tratar melhor da natureza?
Há desrespeito pela natureza pelos mesmos motivos que há desrespeito pelo Homem.
13 - O que é que os animais representam para ti? Achas que em pleno Século XXI já se respeitam os animais ou ainda é preciso mudar muito as mentalidades? De que forma é que achas que isso é possível?
Eu gosto muito de animais e de os apreciar. Podem aborrecer-nos, chatear-nos, irritar-nos – refiro-me aos animais de companhia – mas nunca nos desiludem…se o Homem está menos desperto para respeitar o próximo é natural que esteja ainda mais atrasado para respeitar os animais.
14 - Tens uma foto idêntica às fotografias do Zeca e do grupo que o acompanhava (só não é a preto e branco). Achas que atravessamos uma fase idêntica ou é mesmo só a fotografia que é parecida?
É verdade, gosto muito dessa foto J. Acho que vivemos um período negro da história da humanidade; assistimos a um verdadeiro retrocesso civilizacional um pouco por toda a Europa; esses valores porque o Zeca lutou são diariamente postos em causa.
15 - Dizem que o Fado faz parte dos 3 Fs do sistema (Fado, Futebol e Fátima). Acreditas que ainda existem estes 3 Fs? E acreditas que o Fado pode transmitir outras mensagens?
Acho que esses 3 Fs tinham um peso maior quando estávamos de costas voltadas para o resto do mundo; hoje os Fs, creio, são invocados com uma outra conotação. E do único que sei falar – o F de Fado – acho que só nos prestigia, cá dentro e lá fora.
16 - Que responsabilidade trouxe aos fadistas o facto de o Fado ter sido considerado Património Imaterial da Humanidade?
A responsabilidade acrescida de o respeitarem como música tradicional que é. Se fosse uma música de moda não teria ganho esse título, certamente. Por isso acho que cabe a todos os que estão ligados ao mundo do fado, em especial aos intérpretes (cantores e instrumentistas) e compositores, preservarem a sua essência.
17 - Em 2011 partilhaste no facebook a frase "Os que mais arduamente trabalham acabam sempre por ter mais sorte." com uma imagem da natureza e disseste que te deu ânimo para continuares a trabalhar. Acreditas que as pessoas que têm trabalhado arduamente têm tido essa tal sorte?
O Picasso dizia “espero que quando a inspiração apareça me encontre a trabalhar”. Podia ter publicado antes esta frase pois era, no fundo, o que queria dizer. Isto é: referia-me concretamente ao meu trabalho no mundo das artes. Infelizmente sei que a sorte está quase sempre mais longe dos que mais trabalham. E a vida é demasiadas vezes demasiado curta para fazer justiça a muitas pessoas.
18 - O que podemos esperar deste teu novo trabalho?
Eu espero que gostem e se identifiquem com o FADO DOS DIAS ASSIM.
19 - Quais são os seus sonhos para Portugal?
Que os valores de Abril se cumpram. Como é possível termos andado tanto para trás?
Obrigado pelo seu tempo! Votos de bom trabalho!
Projecto Vidas e Obras
Entrevista: Pedro Marques Correcção: Fátima Simões
14 de Setembro de 2013
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