Entrevista a Carla Carniça
- Feb 27, 2014
- 9 min read
Faz reutilização de material usado, é formadora, escreve, é Técnica Superior de Educação Social e fez o mestrado em Reiki Magnificado com Rodrigo Romo, para além disso, estudou também violino e canto lírico no Orfeão de Leiria.
Já fizeste voluntariado para associações de solidariedade, porque te tornaste voluntária?
Eu tornei-me voluntária de várias associações tanto em Leiria como em Lisboa, porque senti necessidade de ganhar experiência em terreno e de partilhar também todos os meus conhecimentos na práctica com outras pessoas de quem também absorvi conhecimento e experiências enriquecedoras.
Como é que foi essa experiência?
Conheci imensas pessoas com ideias muito semelhantes às minhas, com ideais parecidos e vontades idênticas de fazer algo pelo estado actual do nosso país e do nosso planeta. Tornei-me aquilo que desejo ver, ou desejava ver à minha volta, uma cidadã com cidadania activa e consciente, sem olhar e diferenciar a credos, etnias, cores, religião ou política. Na minha forma de ser, tentei ser sempre neutra e receptiva a conselhos, críticas e reconhecimento, aprendi a filtrar o que senti fazer nexo para o meu crescimento como Ser Humano, como profissional e Ser Espiritual. Aprendi que os três em separado não funcionam. Faço o meu melhor sempre que me é permitido e sou adepta da responsabilização ou consciência social em cada um, pois cada um é um ser individual e com história de vida diferente. A realidade de cada um é vista da forma que viveram e absorveram a cultura ao seu redor, logo, são seres conscientes dos seus actos.
Como é que surgiu a vontade de reutilizares materiais usados? O facto de ficares desempregada foi um incentivo para criares este projecto?
O “Reutilizar com Arte” surgiu como um projecto socioeducativo com base na educação ambiental mas de cariz artístico/ocupacional. Foi realizado no âmbito do meu estágio curricular na "Junta de Freguesia de Marrazes" no departamento do Ambiente do qual fiz parte durante 3 meses. Para a realização das exposições e implementação das oficinas "Reutilizar com arte" no salão social de Marrazes, onde ocorreram as mesmas na práctica, pudemos contar com doações de materiais, que foram entregues por algumas empresas contactadas para o fim, às quais deixamos o nosso eterno agradecimento, pois graças a elas, pudemos realizar estas oficinas de forma gratuita para os seus participantes. Neste caso, o público-alvo eram pessoas reformadas, desempregadas e com tendência ao isolamento social. O objectivo seria entre outros, capacitar estas pessoas para desenvolverem e partilharem técnicas em trabalhos que pudessem vender posteriormente e angariar uns extras. Na realidade, transformei este projecto, num projecto auto-sustentável patrocinado por empresas locais em forma de materiais de pintura e etc… apelando para a tal responsabilidade colectiva e social. A reutilização, veio ao encontro de tudo isso e foi planeada com esse mesmo fim. Entretanto, acabei o estágio, acabei o curso e fiquei desempregada. Eu trabalhava de dia e estudava de noite, muitas vezes não podia ir às aulas, mas não desisti. Até ao momento, estou desempregada mas não sou pessoa de estar parada, sem actividade benéfica para mim e para os outros e comecei a (re) moldar o meu projecto de forma a chegar a outros públicos e de forma a o aplicar em mim mesma enquanto desempregada e para evitar o meu próprio isolamento e depressão. Posso dizer que funcionou tudo menos a parte monetária. Pois não consegui que me contratassem, mas ganhei muita experiência e sou grata por isso, diverti-me imenso, conheci pessoas lindas e sinto-me realizada profissionalmente, mas por amor à camisola. O nosso país está a profissionalizar e a educar para nos obrigar a ser voluntários, mas o voluntariado deveria ser voluntário.
Embora seja um projecto importante para ti, o que pensas do desemprego, principalmente jovem e do facto de teres estado nessa situação?
Neste momento enquanto jovem, terei de recorrer à minha própria resiliência e adaptação às circunstâncias, pois terei de trabalhar num restaurante como empregada de mesa para me sustentar e deixar aquilo para que estudei como um hobbie em part-time, se tiver tempo! Não entendo porque continuam a abrir cursos sem reconhecimento social, sem oferta, mais do que superlotados de profissionais desempregados e em lista de espera, não entendo porque têm de ser pagos se não há oferta, não entendo porque é que a educação é considerada um luxo para aqueles que pretendem alimentar o conhecimento, independentemente da idade, não entendo porque os estatutos e competências não são reconhecidos pelas entidades empregadoras. Não entendo porque os estágios profissionais só abrangem os mais novos. Para mim, o conhecimento não ocupa lugar, deveria ser gratuito, ser universal e estar ao alcance de todas as classes sociais. Os técnicos e outros profissionais não deveriam ter de trabalhar de graça por gostarem da profissão para a qual estudaram. Tudo me serviu para me aperfeiçoar, aprender e adaptar. Voltaria a fazer tudo de novo.
Qual é a importância para ti da reutilização?
Para mim, a reutilização de resíduos domésticos seja de forma artística ou não, é uma resposta válida e eficiente, viral a longo prazo à problemática do excesso de lixo daqui a uns anos no nosso planeta. Se cada um fizesse a sua parte, o planeta seria aliviado de excessos. Se dermos o exemplo às nossas crianças, estas estarão preparadas para criar outras soluções num futuro em que estejam e sejam estimuladas, consciencializadas para o fazer. Não como uma obrigação, mas como um dever de responsabilidade colectiva. Começa nas crianças que serão o futuro mas também nos adultos que são o exemplo.
Através do teu trabalho de reutilização estás como voluntária no Novo Mercadinho de Leiria. Como está a correr? O que tens aprendido com os outros artistas e o que tens ensinado? Tem sido muito enriquecedor?
Elaborei algumas oficinas pedagógicas pontuais para divulgação do projecto, sensibilização e activismo em feiras, criei o “Clube Reutilizar com Arte” em conjunto e com o apoio da Associação Verde Narrativa em Leiria. Neste clube, tenho vindo a mediar várias oficinas para todos os públicos e com vários materiais e técnicas. Correu bem, serviu para crescimento pessoal, integração e trabalho de grupo. Tem sido principalmente uma partilha constante, muito gratificante. Agora que irei trabalhar noutra área, será num formato em que estarei menos disponível mas com toda a entrega possível. É bom ser estimulada para o que gosto de fazer e para aquilo em que acredito, senti-me apoiada e integrada sem ser julgada por ser diferente.
Depois de muitos anos em que o Mercado Santana deixou de ser o Mercado de antigamente, enche-te de alegria poderes contribuir com os outros companheiros e companheiras para darem um novo alento àquele espaço e ressuscitar uma actividade em vias de extinção (a venda em mercados)?
É sempre benéfico e enriquecedor que a cultura e a educação independentemente do formato que tenham, estejam ao alcance de todas as classes sociais.
O teu gosto também pelas trocas surgiu agora por esta experiência da Andresa Salgueiro? Eras capaz de viver só de trocas?
A Andresa foi uma inspiração para mim e para muitas outras pessoas, mas na realidade as trocas só funcionam se o interesse e oportunismo das pessoas deixar de ser interesseiro e egoísta para com os outros. Ainda existe muito aquela sensação de lucro e não da verdadeira partilha por necessidade ou excesso, que é o verdadeiro conceito das trocas da Andresa e o conceito no qual eu acredito que com boa vontade as pessoas comecem a valorizar a oportunidade de não viver só do sistema monetário existente, de dar a oportunidade a quem não possui dinheiro de também ter uma vida digna e poder adquirir alguns bens necessários. Uma óptima forma de integrar toda a sociedade e aliviar a pobreza envergonhada, apelar/preparar mais à igualdade.
Julgas que seria melhor se a sociedade em geral vivesse assim, de trocas?
Só o futuro o dirá… eu só sou um agente de mudança e influência.
Nesta altura de “crise” acreditas que o teu papel de artista, educadora e sensibilizadora é importante para partilhar mensagens? Se sim, quais?
Claro que sim, eu sempre vivi na dita “crise” e tenho sobrevivido, penso que partilhar a minha vivência e auto inspiração é um bem adquirido para qualquer um para que não cometa os mesmos erros, ou que inspire uma luz criativa na resolução de outras situações que surjam. Atenção, que não me considero nenhum exemplo a seguir, longe disso, mas pelo menos que a minha capacidade de adaptação, recriação e perseverança inspire os outros. Se eu sou capaz porque não poderão os outros ser capazes de o ser? Afinal sou um Ser Humano como qualquer outro. A capacidade de ser feliz está dentro de nós e do que alcançamos e aprendemos, seja com os altos como com os baixos da nossa vida.
Teres participado nas comemorações do aniversário dos 500 do Francisco Xavier organizado pela Tokyo Opera Association e pelo Coro de Câmara de Setúbal, foi importante para ti? Foi gratificante? Gostavas de voltar a participar em Óperas? Porque deixaste de tocar?
Esta experiência foi talvez a melhor da minha vida, pois aconteceu numa altura em que necessitava de me sentir bem comigo mesma e foi o auge daquilo que um dia desejei a nível musical para mim neste contexto específico. Claro que não é o mesmo que cantar a solo, pois interagi com um coro de Câmara e com a companhia, foi trabalho de grupo, mas cantar encanta a alma e foi o que aconteceu, fui angariar e acreditar forças para mim mesma e resultou. Conheci pessoas extraordinárias, foi muito divertido, cantei em japonês e português, os ensaios eram igualmente gratificantes e achei todos os elementos da Ópera extremamente humildes. Cantámos no Castelo de Sines entre outros sítios e foi maravilhoso, tal como toda a cumplicidade entre todos os elementos envolvidos. Amava poder participar em mais óperas, mas não se proporcionou até agora. Participei noutros projectos de outras linhas musicais diferentes mas foram todos trabalhos esporádicos como freelancer e em estúdio, ainda não tive a oportunidade de ter a minha banda e mostrar o meu trabalho como cantautora, mas nunca se sabe quando poderá acontecer e em que moldes, estou receptiva a este género de arte. Há uns anos atrás, também participei com a classe conjunto do Orfeão de Leiria na inauguração do Órgão de tubos da Sé de Leiria, foi um trabalho excelente e contou com a presença do então Presidente da República Jorge Sampaio. Também foi uma experiência única. Fiz parte do coro da Samp nos Pousos, quando era muito mais nova e cantei em diversos sítios, ajudou-me imenso a trabalhar a minha voz. Existem as boas e as más experiências musicais e eu deixei de cantar, nunca cheguei a tocar, devido a essas mesmas más experiências. No entanto nunca deixei realmente de o fazer aqui e ali de vez em quando. E tudo serviu para crescer enquanto pessoa.
Fizeste teatro de sombras, jogos didácticos e pedagógicos e através deles passaste pela pediatria do Hospital de Leiria e Lares de terceira idade, através do teu trabalho como Auxiliar Acção Educativa. Gostavas de ter continuado? O que aprendeste ao fazeres estes jogos e estes teatros? O que aprendeste com as crianças e idosos?
Aprendi que um dia eu fui criança, fui jovem, sou adulta e serei idosa, logo faço aos outros o que gostaria de fazer para mim ou que fizessem por mim. Sim, gostaria de ter continuado a trabalhar com todas as pessoas com quem trabalhei e aprendi imenso nesta altura e com a Dra. Ana David que me marcou e valorizou imenso, me incentivou a investir e aperfeiçoar o meu autoconhecimento para ser cada vez melhor no que faço. Assim o senti e assim o fiz. Sou-lhe muito grata e admiro-a imenso. Tanto como pessoa como profissional.
Gostavas de voltar a trabalhar com as “crianças mais velhas” e com a pequenada?
Gosto de trabalhar com qualquer público no geral, mas gostaria especialmente de vir a desenvolver algum projecto com crianças autistas ou com deficiência profunda.
O que é que as artes representam para ti? E a cultura?
As Artes para mim são o testemunho que fica do sentir colectivo, é a nossa memória, é a nossa identidade em determinada época, determinada altura em determinada situação ou sitio. Deslocam as nossas emoções, percepções e trazem mensagens que nos lembram que não estamos sós e que já outros sentiram, viveram, foram felizes e sofreram da mesma maneira mas de formas e em alturas diferentes. A cultura é tudo o que nos rodeia, tudo o que nos permite construirmo-nos enquanto Seres Humanos inteiros, é o nosso pilar de exemplos. A cultura falha, falha tudo. Deixa de existir a nossa identidade e passamos a divagar em vazios, a melhor forma de destruir a identidade de um povo é negar-lhe a sua cultura.
Pousaste em Leiria depois de teres estado em Beja, Pombal, Setúbal, Lisboa. Porquê?
Eu passei mais tempo nos outros sítios onde vivi e não disfrutei o suficiente do que a terra onde cresci teria para me oferecer, tanto em espaço como conteúdo, na realidade, passei a maior parte do meu tempo a trabalhar para sobreviver e pagar as minhas contas. No final, descobri a grande beleza de Leiria e lembrei-me que bebi um dia, da água da fonte das três bicas por saber da lenda, o que é certo é que me apaixonei por ela… e que acabei por voltar, e voltarei sempre que for preciso e sempre que sentir essa saudade e necessidade, não posso perder o “nosso” castelo de vista por muito tempo, sinto um amor especial por ele. E é onde estão as pessoas que conheço e que me conhecem a mim…
De que maneira é que cidade te encantou, fazendo-te pousar e dares largas à tua imaginação, na escrita, na reutilização e na criatividade?
Além de ter uma excelente energia, tem romantismo, tem geometria sagrada, tem luz, património maravilhoso, tem pessoas únicas e apaixonantes, sítios lindíssimos e tudo isso é um turbilhão de inspiração, de cores… Leiria é a minha Musa, fez-me sonhar, chorar, sorrir, renascer e amar…
De reutilizadora, música, educadora social, de poetisa entre outras coisas, qual é que mais te enche a alma?
Eu amo escrever, mas amo mais ainda cantar e sentir o que canto, cantar sem alma e sem sentimento não é música. O resto já faz parte de mim.
De tudo o que já deixaste de fazer, o que voltavas a agarrar?
Gostava de voltar a aprender a tocar violino e trocava o violino pelo violoncelo que nunca toquei.
Quais são os teus sonhos para Portugal?
Os meus sonhos são para que Portugal não desista de ser Portugal e de brilhar, nação valente e imortal como sempre foi. Grata pelo vosso interesse na minha história. Carla Carniça
Obrigado pelo teu tempo!
Projecto Vidas e Obras
Entrevista por: Pedro Marques Correcção por: Sílvia Dias
27 de Dezembro de 2014


Comments