<rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"><channel><title>projectovidaseobras</title><description>projectovidaseobras</description><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/blog</link><item><title>Entrevista ao Investigador Doutor Miguel Cardina</title><description><![CDATA[Referiu em entrevista à Revista Visão que "Reconhecer que Portugal foi tão colonial e tão violento quanto os outros faz parte do nosso dever" Para si o que falta para que haja este reconhecimento? E o que nos tem levado a promover um colonialismo não tão violento? É uma pergunta fundamental e que não é fácil de responder de forma simples, porque implica observarmos a forma como o próprio colonialismo português se estruturou, a forma como se deu o derrube do Império e o modo como, ainda hoje,]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/09/09/Entrevista-ao-Investigador-Doutor-Miguel-Cardina</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/09/09/Entrevista-ao-Investigador-Doutor-Miguel-Cardina</guid><pubDate>Mon, 09 Sep 2019 12:11:22 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Referiu em entrevista à Revista Visão que &quot;Reconhecer que Portugal foi tão colonial e tão violento quanto os outros faz parte do nosso dever&quot; Para si o que falta para que haja este reconhecimento? E o que nos tem levado a promover um colonialismo não tão violento? </div><div>É uma pergunta fundamental e que não é fácil de responder de forma simples, porque implica observarmos a forma como o próprio colonialismo português se estruturou, a forma como se deu o derrube do Império e o modo como, ainda hoje, determinadas concepções de matriz lusotropicalizante permanecem na sociedade portuguesa. Todos os colonialismos naturalmente contaram com conivências e se impuseram também por vias diplomáticas, mas a sua essência é a violência. Uma violência que destruiu de diferentes formas e que se baseou em mecanismos de desigualdade jurídica e socialmente construídos. Portugal, teve como é sabido, um papel fundamental nessa história que, sobretudo a partir de meados do século XX - com o lusotropicalismo e a necessidade de Portugal mostrar à comunidade internacional que era diferente, num contexto mundial de ascenso da vaga descolonizadora – veio a ser construída mais como uma história de encontro e miscigenação do que como uma história de conquista e violência. E isso permanece ainda hoje: nos discursos de políticos, nas ruas e nos monumentos que estão no espaço pública, nas representações difusas presentes no senso comum. </div><div>É também “autor ou co-autor de vários livros, capítulos e artigos sobre colonialismo, anti-colonialismo e guerra colonial; história das ideologias políticas nas décadas de 1960 e 1970; e dinâmicas entre história e memória.” Tem um vasto trabalho sobre estes temas. O que o motivou a conhecer a história colonial, a guerra? </div><div>Olhando em retrospetiva tendemos a encontrar um sentido para um percurso qualquer – biográfico ou de investigação – mas a verdade é que as coisas foram ocorrendo. O meu primeiro trabalho foi sobre o movimento estudantil em Coimbra durante o marcellismo – apanhando a crise de 69 e os anos seguintes – e quando foi necessário pensar num tema para a tese de doutoramento pareceu-me evidente estudar a extrema-esquerda no final da ditadura. A esses dois temas – ambos orientados por Rui Bebiano – se seguiu o estudo da guerra colonial, nomeadamente da sua contestação, na qual o movimento estudantil e essa nova esquerda emergente a partir de meados da década de 1960 também teve o seu papel. Entretanto, da história me interessei também pela memória, ou seja, pela forma como no presente se constroem representações e leituras sociais sobre os fenómenos do passado. É aqui que estou neste momento, agora a coordenar no CES, intitulado CROME, um projecto internacional sobre a memória da guerra colonial e das lutas de libertação em Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Estou com uma equipa fantástica, com gente muito dedicada e com quem aprendo bastante. E creio que um dos pontos essenciais do projeto – e que tem a ver com a primeira pergunta – é que confrontar estas narrativas desencontradas sobre este grande fenómeno histórico que ditou o fim do Império e a construção de novas nações em África é um passado fundamental para procedermos a um exercício descolonizador das imagens reconfortantes que ainda temos sobre o nosso passado.</div><div>&quot;Não Acredite em Tudo o que Pensa - Mitos do Senso Comum na Era da Austeridade.&quot; É uma forma de reflexão sobre a situação política que se tem vivido?</div><div>Esse foi um livro editado em 2013, no tempo da troika, com mais dois colegas, José Soeiro e Nuno Serra, e com o contributo de vários cientistas sociais que desmistificavam alguns dos tópicos recorrentes do senso comum dominante: sobre os serviços públicos, sobre a política, sobre a história, sobre a economia. Vários deles se manterão ainda operativos, como é óbvio. Mas hoje estamos numa conjuntura política completamente diferente. Olhando para o índice do livro e lembrando-me daqueles tempos isso era muito evidente. Parece que foi há muito tempo, mas não foi.</div><div>Escreveu também &quot;50 anos da Crise Académica de 1969: Crises, história e memória; GEFAC: das origens ao 25 de Abril [com Julieta Silva], in GEFAC (org.), Bico Bico Chão. 50 Anos de GEFAC.&quot; &quot;Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 30-43&quot;Como foi para si como investigador e activista trabalhar sobre a história dos 50 anos da Crise académica de Coimbra e como investigador e músico trabalhar sobre os 50 anos da GEFAC? </div><div>Enquanto aluno de licenciatura e mestrado na Universidade de Coimbra participei ativamente no GEFAC. É um grupo académico com um papel fundamental na história da recolha e da representação da cultura popular. O que fiz aí foi participar, com Julieta Silva, numa obra mais vasta que o GEFAC preparou, a propósito dos seus 50 anos. E nós tratámos dois anos iniciais, mostrando como essa história se cruza com a história política e cultural do país naqueles anos.</div><div>Trabalha sobretudo sobre história e sobre memória que importância é que tem a investigação sobre a história e memória?</div><div>A importância que a sociedade lhe quiser dar. E sociedade que são capazes de olhar criticamente o seu passado são sociedades mais auto-reflexivas e, por isso, com capacidade de lidar melhor com os seus problemas.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Não tendo a entender as nações como entes nos quais projecto sonhos. A quem vive neste país sim, desenho que contribuam para uma organização social mais justa e equilibrada.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Tiago Jorge</div><div>09 de Setembro de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Nuno Miguel Pedrosa – Atleta de Basquetebol, Andebol, Paraciclismo e Presidente da Delegação APD – Figueira da Foz</title><description><![CDATA[Sofreste um grave incidente quando tinhas um ano de idade, anos mais tarde para superares as dificuldades e para te manteres em forma, aderiste ao ciclismo, e mais tarde ao basquetebol e andebol.Em que é que estas modalidades te têm ajudado a enfrentar barreiras, o que é que essas modalidades te têm trazido e o que tens aprendido desde que começaste a praticar estas modalidades? O que nos podes falar sobre o incentivo que o desporto te tem dado?Olá Pedro,Antes de mais, convém colocarmos tudo]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/08/09/Entrevista-a-Nuno-Miguel-Pedrosa-%E2%80%93-Atleta-de-Basquetebol-Andebol-Paraciclismo-e-Presidente-da-Delega%C3%A7%C3%A3o-APD-%E2%80%93-Figueira-da-Foz</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/08/09/Entrevista-a-Nuno-Miguel-Pedrosa-%E2%80%93-Atleta-de-Basquetebol-Andebol-Paraciclismo-e-Presidente-da-Delega%C3%A7%C3%A3o-APD-%E2%80%93-Figueira-da-Foz</guid><pubDate>Fri, 09 Aug 2019 15:38:27 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Sofreste um grave incidente quando tinhas um ano de idade, anos mais tarde para superares as dificuldades e para te manteres em forma, aderiste ao ciclismo, e mais tarde ao basquetebol e andebol.</div><div>Em que é que estas modalidades te têm ajudado a enfrentar barreiras, o que é que essas modalidades te têm trazido e o que tens aprendido desde que começaste a praticar estas modalidades? O que nos podes falar sobre o incentivo que o desporto te tem dado?</div><div>Olá Pedro,</div><div>Antes de mais, convém colocarmos tudo sempre em perspectiva. Tenho a minha deficiência há cerca de 37 anos, parecendo que não a sociedade evoluiu imenso. Outra perspectiva é que fui nascido e criado numa zona extremamente rural em que a deficiência era visto como um bicho papão em que aquele que tinha uma deficiência era visto como um inútil e alguém que nunca iria conseguir nada da vida. Isto que digo parece ser bastante retrógrado, mas é algo que ouvi de forma recorrente. Na sociedade onde cresci o “normal” era que uma pessoa com deficiência passasse os dias em casa sem qualquer ocupação. O simples facto de ir estudar a 5 km de casa (ensino básico) levava a que pessoas dissessem abertamente que não valia a pena pois o garoto nunca iria ser ninguém na vida.</div><div>Felizmente, sempre tive a minha família que ajudou a rumar contra a maré e a pouco e pouco fui alcançando várias realizações e definindo novos objectivos.</div><div>Tudo isto para dizer que quando comecei a praticar desporto, já depois dos 30, estava a culminar uma fase muito importante da minha vida e não propriamente a iniciar. Foi a altura de consciência e aceitação plena da minha deficiência e de como lidar com ela.</div><div>No entanto, o desporto também me trouxe muita coisa. Trouxe essencialmente a consciência dos impactos que outras deficiências tinham na vida de cada pessoa e da forma como muitos conseguiam superar, ou não, essas limitações. Foi através do desporto que comecei verdadeiramente a conviver com outros cidadãos com deficiência e a verificar que muitos tinham vidas completamente integradas na sociedade e sem qualquer limitação de maior, mas também conheci e soube de muitos casos em que vivem marginalizados e à parte da sociedade, sem objectivos de vida e sem noção da forma como podem ter uma vida mais activa e dos benefícios que poderiam ir buscar por ter essa vida activa.</div><div>Mas além das modalidades que referiste tive ainda o prazer de ter sido convidado a participar em alguns campos de treino de Rugby em cadeira de rodas, o que se tornou também enriquecedor. Os atletas de rugby são em média cidadãos com deficiências mais limitativas que as dos atletas de BCR ou ACR. Essas experiências foram para mim muito motivantes porque me deram a oportunidade de conviver com estes atletas e ver como estes se conseguem manter activos no desporto e na sociedade e sempre com uma atitude positiva perante a vida.</div><div>A nível de saúde tenho tido ganhos consideráveis desde que comecei a praticar desporto, mas não só a nível de saúde. Comecei a integrar-me de outras formas na sociedade, não que estivesse mal integrado, mas acabamos por tomar outras opções e seguir outras direcções. Cada vez mais tenho vontade de ajudar outros cidadãos com deficiência a se superarem e a determinarem novos objectivos de vida.</div><div>O estar de forma quase diária em contacto com os meus colegas atletas na APD Leiria ajudou-me a relativizar cada vez mais as limitações causadas pela minha deficiência e a saber que os limites estão muito mais longe do que aquilo que o cidadão comum pensa. Foi por estes novos horizontes que começou, a certa altura, a nascer em mim a vontade de trazer uma delegação da APD para a minha cidade e assim nasceu a APD- Figueira da Foz que espero que consiga ajudar a mudar a vida de muitas pessoas com deficiência da região.</div><div>Teres aderido ao desporto através de várias modalidades, teres um mestrado de gestão e seres activo na APD mostra a tua visão aberta. Para ti qual é a importância que dás a essa visão aberta e positiva sobre as tuas limitações e disposição na superação de qualquer desafio?</div><div>Tudo isto que referes acaba por não ser nada de excepcional. Se pensarmos bem todos os cidadãos, sem excepção, deveriam praticar desporto/ exercício físico, todos os cidadãos deveriam ter uma formação, seja ela universitária ou mais técnico/ profissional e deveriam conciliar isto com uma actividade que os fizesse sair da rotina do dia a dia.</div><div>Repara, o exercício físico, seja federado/competitivo, ou não é cada vez mais importante numa sociedade tão sedentária. A formação, seja de que âmbito for, pode ajudar a que cada um de nós consiga alcançar objectivos mais exigentes na nossa vida profissional. O associativismo é uma opção. Uma forma de ocupar a nossa cabeça com algo diferente da rotina e que ao mesmo tempo pode contribuir para uma sociedade mais justa e igualitária. No fundo tudo isto é aquilo que todos os cidadãos poderiam/deveriam fazer, mas tendo à mistura a componente da deficiência.</div><div>O desafio é fazer uma vida o mais normal possível dentro das limitações que a deficiência possa limitar cada um, mas sempre sabendo que é possível fazer mais um pouquinho. E, novamente, ter cidadãos com deficiência activos e integrados na sociedade e cada vez mais ser mais fácil contornar essas limitações naturais de cada um.</div><div>A participação na APD visa precisamente ajudar a que se criem condições para que as limitações do dia-a-dia, das nossas cidades e edifícios sejam aos poucos minimizadas e que o cidadão com deficiência tenha condições para ser o mais activo possível.</div><div>Disseste para a Figueira na Hora “Seremos representantes de todas as pessoas com deficiência, mas também elos de ligação com os representantes do poder local, estando nós disponíveis para auxiliar a CMFF na medida do que nos for possível” O que te motivou a abraçares a presidência da delegação da APD Figueira da Foz? Que apoio esperam prestar e que condições e mudanças pretendem promover para quem tem mobilidade reduzida?</div><div>Como sabes existem muitos tipos de deficiência e a APD é uma associação que pretende ouvir e ser uma referência para todos os cidadãos com deficiência. Ao tomarmos seja que posição for teremos de ser o mais isentos possível, não beneficiando ou prejudicando este ou aquele tipo de deficiência.</div><div>Tendo isto em conta e o facto de a APD ser uma associação de carácter essencialmente reivindicativo dificilmente iremos ajudar de forma personalizada este ou aquele cidadão, mas podemos ajudar a criar as tais condições para que as limitações de cada um sejam mais facilmente minimizadas.</div><div>Dou-te um exemplo. Os passeios das nossas cidades.</div><div>Os passeios das nossas cidades gostam muito de ser enfeitados com calçada à Portuguesa. A calçada é, só por si, um factor que pode limitar em muito a mobilidade de um cidadão com mobilidade condicionada (outra forma de dizer cidadão com deficiência ou mobilidade reduzida e mais correcta no ponto de vista). Eu próprio já me “esbardalhei” em plena baixa da cidade derivado das armadilhas que a calçada trás. Muitos arquitectos são defensores da calçada portuguesa porque dizem ajudar a drenar àguas pluviais e outras, mas depois acentam as pedras de calçada em cimento ou soluções betuminosas. Deste modo impedem a tal drenagem de àgua, mas prejudicam em muito a nossa mobilidade. Existe uma solução que defendo que seria positiva para todos, que seria deixar uma faixa de 80cm a 1 metro de um piso mais suave. Todos ficavam satisfeitos e até pode ser esteticamente bastante agradável. Outra questão recorrente é a dos passeios. Eu ando uns dias de cadeira de rodas, mas outros ando de próteses. Basta esta alteração para ver de um modo completamente diferente as dificuldades que as cidades nos trazem. Posso passar dezenas de vezes por um local deslocando-me com as próteses e não me aperceber de dificuldades de maior, mas ao passar no mesmo local com a cadeira de rodas posso nem sequer conseguir passar e ter de fazer dezenas de metros extra para chegar ao mesmo destino. Finalmente os transportes públicos. Fora das grandes zonas urbanas é praticamente impossível um cadeirante andar de transportes públicos. A sociedade e os nossos governantes têm de pensar muito bem essa situação.</div><div>Não vamos ajudar directamente ninguém, mas se conseguirmos pequenas alterações a vários níveis podemos estar a ajudar muitos cidadãos com mobilidade condicionada.</div><div>Desde que começaste a prática desportiva que tens sido vice-campeão e campeão por diversas vezes, e como atleta da APD tens participado em sessões de apresentação e esclarecimento. Em que é que o desporto e estas vitórias, e estes actos de cidadania desportiva podem ser uma ferramenta para o teu contínuo processo de luta contra as tuas próprias limitações e que a sociedade impõe e uma aprendizagem para quem tem também limitações físicas?</div><div>As vitórias e os títulos de campeão e vice-campeão são o menos importante. O que mais importa é a mudança de mentalidades e formas de estar da sociedade perante as limitações físicas e dos próprios cidadão com deficiência.</div><div>Dou-te um exemplo.</div><div>Na figueira tenho dois rapazes (o Rúben de 18 anos e o Bernardo de 22) que desde há cerca de três anos me falam em como gostariam de praticar desporto. Nenhum dos dois tem condições para vir a Leiria ou a outro lado praticar desporto adaptado federado e na Figueira não existe nada que os puxe para fazer desporto. A maior vitória seria colocar os dois e outros a praticar desporto e através deles chegar a mais pessoas e mudar mais mentalidades.</div><div>Colocar mais pessoal em actividade seja desportiva, seja profissional é o verdadeiro desafio e depois cada um deles vai ajudar a fazer a sua mudança de mentalidades. Troco mais uma pessoa a praticar desporto ou empregada e realizada por 50 sessões de esclarecimento!</div><div>Como têm sido estas experiências para ti?</div><div>Existe sempre algo novo e é sempre bom sentir que tocámos alguém e aos poucos estamos mais perto dos nossos objectivos. Estamos mais perto de criar algo diferente 😊</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Acredito que ainda vou ver um Portugal verdadeiramente inclusivo e que muitas mentalidades se vão libertar de amarras e ver a pessoa com deficiência como uma válida e que apenas necessita de realizar cada tarefa de uma forma adaptada à sua limitação funcional, mas que a vai conseguir realizar.</div><div>Sonho que um dia deixemos de ter necessidade de apoios à contratação de pessoas com deficiência e que mesmo assim tenhamos uma taxa de empregabilidade semelhante às das pessoas sem deficiência.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Obrigado eu Pedro 😊</div><div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro Marque</div>s<div>Correcção: Aristides Duarte</div></div><div>09 de Agosto de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevistando: Marta Vidal – Jornalista</title><description><![CDATA[Fez uma reportagem para a Aljazeera sobre o racismo português contra a etnia cigana, onde refere que há "níveis de discriminação intoleráveis".O que a motivou a fazer esta reportagem e abordar a história cigana portuguesa, o racismo, o preconceito e a discriminação?Essa expressão, “níveis de discriminação intoleráveis” vem de um inquérito da União Europeia sobre a discriminação de comunidades ciganas. Em 2016, vi o filme “Balada de um Batráquio” de Leonor Teles, e foi o trabalho da Leonor que me]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/08/07/Entrevistando-Marta-Vidal-%E2%80%93-Jornalista</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/08/07/Entrevistando-Marta-Vidal-%E2%80%93-Jornalista</guid><pubDate>Wed, 07 Aug 2019 12:39:22 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Fez uma reportagem para a Aljazeera sobre o racismo português contra a etnia cigana, onde refere que há &quot;níveis de discriminação intoleráveis&quot;.</div><div>O que a motivou a fazer esta reportagem e abordar a história cigana portuguesa, o racismo, o preconceito e a discriminação?</div><div>Essa expressão, “níveis de discriminação intoleráveis” vem de um inquérito da União Europeia sobre a discriminação de comunidades ciganas. Em 2016, vi o filme “Balada de um Batráquio” de Leonor Teles, e foi o trabalho da Leonor que me fez querer explorar mais o assunto. Antes de ter visto o filme não sabia que os sapos de porcelana eram colocados à porta das lojas para afastar os ciganos. Comecei a reparar mais nas dezenas de sapos à porta de lojas no centro do Porto, e a sentir-me cada vez mais incomodada com o assunto. A ciganofobia é óbvia em Portugal, mas está tão enraizada que poucas pessoas se chocam quando ouvem comentários racistas ou insultos contra ciganos, este tipo de atitudes é considerada “normal”. Achei que falar sobre os sapos era uma forma diferente de abordar o tema e fazer mais gente pensar sobre porque é que se normalizam comportamentos que são extremamente racistas e ofensivos. Ler esse relatório da EU e falar com activistas ciganos fez-me perceber que o problema da ciganofobia era ainda pior do que eu pensava. De todos os países analisados, Portugal apareceu como o país onde a maior percentagem de ciganos se sente discriminada, com 71% das pessoas a sofrerem episódios de discriminação. O relatório também mostra como uma grande percentagem da população continua a não ter acesso a serviços básicos, a habitação digna. Os números deixaram-me aterrada, é impossível ficar indiferente. Mas o mais importante para mim foi falar com activistas ciganos, ouvir as suas histórias e experiências de discriminação, que são ultrajantes, e reconhecer a necessidade urgente de um debate sobre o racismo estrutural.</div><div>Na sua visão, era urgente tratar e mostrar toda a realidade cigana e a forma como a sociedade a vê? Acredita que pode despertar o público em geral para esta problemática?</div><div>Para mim é importante denunciar qualquer forma de discriminação, mas sim, a ciganofobia parece-me particularmente urgente. Não sei até que ponto o que eu escrevo pode despertar o público – especialmente porque já não vivo em Portugal há bastante tempo e escrevo maioritariamente em inglês – mas acho que o mínimo que posso fazer como jornalista é escrever sobre o assunto. O objectivo é fazer com que mais pessoas estejam dispostas a debater o racismo estrutural que não podemos continuar a ignorar em Portugal, porque não é um problema “dos outros” é um problema de todos nós. Mas o mais importante é que as pessoas que sofrem discriminação diariamente comecem finalmente a ser ouvidas.</div><div>Entre Março e Maio de 2018 trabalhou em pesquisa e organizou um projecto de arte com o patrocínio da Leiden University e a International Istitute for Asian Studies.</div><div>Entre conversas com activistas, pesquisadores de direitos humanos da Caxemira, e dessas sessões de filmes sobre arte, memória e direitos humanos com cooperação do Leiden International Short Film Experience que organizou, com visitas guiadas com foco na situação dos direitos humanos em Caxemira com o apoio da Aministia Internacional da Holanda.</div><div>Dito isto, como tem sido, para si, ter a possibilidade de abordar e trabalhar sobre os direitos humanos, quer através de projecto de arte, conversas, filmes e visitas guiadas?</div><div>O meu trabalho explora as intersecções da arte, política e direitos humanos. Interessa-me como a arte pode ser usada para lutar por um mundo melhor, mais justo – é algo que tenho vindo a explorar em vários países diferentes e em zonas de conflito como Caxemira, que é a zona mais militarizada do mundo, ou territórios ocupados como a Palestina. Não me interessa apenas ser testemunha de injustiça e violações de direitos humanos, quero perceber como é que as pessoas lutam contra elas. E interessa-me explorar o potencial de formas de criatividade, de coragem e resistência. Por exemplo, visitei um campo de refugiados no Líbano, e a situação lá era absolutamente desoladora: os residentes estavam enclausurados há várias gerações, viviam na pobreza extrema, não podiam trabalhar. Mas mesmo assim, pintavam murais incríveis nas paredes que os enclausuravam e faziam esculturas com o arame farpado que os rodeava e simbolizava a sua opressão. Interessa-me mais contar estas histórias, das pessoas que encontram força e esperança para fazer esculturas de arame farpado, do que falar só sobre os muros e a opressão. Uma amiga uma vez disse-me que o meu talento é encontrar beleza e esperança nos lugares mais tristes e inesperados. E depois de escrever tanto sobre o papel da arte em zonas de conflito e situações de opressão, acho que talvez ela tenha razão.</div><div>Como jornalista que é de profissão, o que a leva a abordar temas tão importantes e problemas tão graves na vida de tantas pessoas? </div><div>É esse o dever da profissão. Porquê perder tempo com futebol ou com o que fizeram as celebridades, quando estamos tão perto de catástrofes ambientais, quando há pessoas em Portugal que ainda não têm acesso a água canalizada, a condições de vida dignas? O mundo podia ser tão melhor se as pessoas se preocupassem mais com o que realmente importa.</div><div>Foi assistente humanitária em resposta a desastres como voluntária trabalhando com refugiados, desde 2015 até hoje, e pertence à Amnistia Internacional desde 2012.</div><div>Que importância dá ao seu trabalho na Amnistia e o seu trabalho de voluntariado?</div><div>O que tem aprendido com esta experiência?</div><div>Trabalhar com refugiados ajudou-me a perceber a dimensão da crise humanitária no Médio Oriente e na Europa. Tornei-me bastante próxima de várias pessoas que foram forçadas a fugir do país onde viviam por causa de guerras, violência e perseguição. E ouvir as histórias delas, perceber como são afectadas diariamente, permitiu-me ver um outro lado da experiência de ser refugiado. Também aprendi muito sobre mim mesma, sobre os meus vários privilégios: como o privilégio de ter um passaporte europeu, de poder escolher onde quero viver, de contar as histórias dos outros. O trabalho como voluntária ajudou-me a ter mais consciência destes privilégios, de como são injustos.</div><div>Na sua opinião, como se conseguirá quebrar estes atropelos aos direitos humanos?</div><div>Pessoas informadas e conscientes são um começo. Pessoas que se indignam, que dizem não, isto não pode acontecer. Depois, pessoas que agem, que se organizam. Mas começa tudo com o acto de querer saber, de questionar, de não ficar indiferente.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>São muitos: sonhos de um país de solidariedade, igualdade, justiça social. Mas podia resumi-los com um verso de Mário Cesariny:</div><div>“queria de ti um país de bondade e de bruma”</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mariana Dias</div><div>04 de Agosto de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Luís Farinha - Professor - Doutorado em História Política e Institucional do séc. XX</title><description><![CDATA[Entrevista a Luís Farinha - Professor - Doutorado em História Política e Institucional do séc. XXDirector do Museu do Aljube Resistência e Liberdade“Farinha, Luís (Coord.). Morte à morte: 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal / 1867-2017. Lisboa: Assembleia da República, 2017” O que o levou a estudar a abolição da pena de morte em Portugal e celebrar os 150 anos da sua abolição?A abolição da pena de morte é, em si, um problema existente no Mundo e de uma enorme atualidade: de forma]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/07/21/Entrevista-a-Lu%C3%ADs-Farinha---Professor---Doutorado-em-Hist%C3%B3ria-Pol%C3%ADtica-e-Institucional-do-s%C3%A9c-XX</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/07/21/Entrevista-a-Lu%C3%ADs-Farinha---Professor---Doutorado-em-Hist%C3%B3ria-Pol%C3%ADtica-e-Institucional-do-s%C3%A9c-XX</guid><pubDate>Sun, 21 Jul 2019 11:59:14 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista a Luís Farinha - Professor - Doutorado em História Política e Institucional do séc. XX</div><div>Director do Museu do Aljube Resistência e Liberdade</div><div>“Farinha, Luís (Coord.). Morte à morte: 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal / 1867-2017. Lisboa: Assembleia da República, 2017” O que o levou a estudar a abolição da pena de morte em Portugal e celebrar os 150 anos da sua abolição?</div><div>A abolição da pena de morte é, em si, um problema existente no Mundo e de uma enorme atualidade: de forma «legal» ou de forma brutal e incontrolada, a pena de morte é ainda hoje aplicada em muitos países e em situações de conflito e de guerra. A sua abolição constitui, para todas as organizações de Direitos Humanos, e para uma grande maioria de países e povos do Mundo, uma linha de separação civilizacional e um patamar de humanismo que se deseja que não volte atrás. Esta foi uma primeira razão, porque o historiador escolhe os «passados» que estuda em função do presente que vive.</div><div>A segunda razão teve a ver com o facto de um relance histórico sobre a abolição da pena de morte em Portugal poder ser muito instrutivo sobre as estratégias que foram delineadas pelos abolicionistas e que ainda hoje podem constituir uma forma de atuação para os homens e mulheres que, pelo Mundo fora, se empenham na sua abolição. A história da abolição da pena de morte em Portugal mostra que ela ocorreu por diferentes fases: começou por se promover a sua comutação ou perdão pelo Monarca e por restringir nos códigos e na lei em geral os motivos que podiam conduzir à pena de morte. Depois, passou-se à fase da doutrinação (que nunca deixou de estar presente desde o início do séc. XIX), mas que se intensificou em meados desse século, a par do que ocorria noutros países europeus e sul-americanos. Por fim, associou-se a abolição (ainda limitada a crimes não militares, em 1867) a uma reforma das cadeias, com a finalidade de combater os argumentos dos «mortistas», que viam na abolição um fator de desordem crescente da sociedade. Por fim, foi mesmo possível estender a abolição a todos os crimes, incluindo os militares. A abolição da pena de morte foi, historicamente, um processo de aquisições graduais, o que pode muito bem constituir uma lição para os dias de hoje. De resto, é o processo que tem ocorrido pelos sucessivos protocolos que a ONU tem conseguido propor e fazer aprovar a uma rede cada vez mais alargada de países.</div><div>Por fim, há uma outra razão, talvez mais difícil de estudar, mas também muito interessante e que motivou a minha curiosidade: Portugal foi um país pioneiro na abolição da pena de morte, a par da Venezuela e, no nosso caso, apesar de algumas tentativas ténues de reposição da pena de morte, isso nunca chegou a acontecer, ao contrário do que sucedeu noutros países, alguns até com abolição mais precoce, onde a pena de morte foi reposta anos depois da sua abolição. Este é um aspeto muito interessante que requer um ensaio muito mais desenvolvido do que as considerações que podem ser apresentadas nesta resposta breve, mas que merece estudo, em especial pelo que pode esclarecer sobre aspetos mais profundos da cultura e da sociedade em Portugal nos alvores da contemporaneidade.</div><div>Foi “Membro da Comissão Instaladora do Museu do Aljube Resistência e Liberdade (2014-2015);” e a par de Irene Flunser Plimentel e João Madeira escreveu o livro “Vítimas de Salazar”. O que podemos e devemos aprender sobre o fascismo/Estado Novo e sobre o sofrimento das vítimas de Salazar e Caetano?</div><div>O fascismo português foi uma experiência política constrangedora da modernização do país e um fator de retrocesso muito forte, tendo em conta as linhas de avanço democrático experimentadas (e também falhadas) da I República. O designado Estado Novo impôs uma ideia única aos portugueses, governou o país e o Império com recurso a enorme violência, restringiu de forma brutal as liberdades e as garantias públicas, deportou milhares de portugueses e limitou a sua liberdade de expressão em todos os domínios, da informação às artes. No final, conduziu uma guerra criminosa para a qual não pediu opinião aos portugueses, mas que obrigou muitos deles a interromper a sua vida normal e mesmo a sair dessa guerra flagelados ou mortos.</div><div>O conhecimento deste «passado-presente» permite a formação de uma inteligência histórica que alarga a nossa possibilidade de compreensão e que, inevitavelmente, impele a consciência individual e social a um maior compromisso cívico com a realidade que nos cerca. De facto, só o conhecimento nos permite criar ideias claras sobre a realidade que vivemos, evitando a indiferença que resulta da ignorância e do medo da mudança. Na verdade, essa imprevisão, baseada na ignorância dos factos foi, na maior parte dos casos, de efeitos dramáticos. A maior parte dos nossos avós e bisavós apoiaram as soluções ditatoriais que se sucederam à I Guerra Mundial Em Portugal, como na Alemanha ou noutros países europeus, nenhum deles imaginava que elas pudessem terminar na violência fascista ou no Holocausto. Hoje temos muito mais possibilidades de adquirir conhecimento sobre o Mundo em que vivemos e sobre as suas raízes e, por essa razão, não podemos ignorar o que aconteceu no século XX.</div><div>Mas é também sobre as «vítimas» que é necessário falar: pouco se conhece sobre as suas vidas e é ainda frágil o reconhecimento público sobre as razões que as moveram e também sobre os efeitos perversos da tortura e dos muitos incómodos que, por idealismo e coragem, se abateram sobre as suas vidas. No Museu do Aljube, para além de se fazer justiça à sua coragem e abnegação, faz-se eco dos seus percursos de Resistência, como o último reduto da Liberdade que desejaram recuperar e doar aos vindouros.</div><div>Participou no livro “Tribunais Políticos - Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura e o Estado Novo” com Fernando Rosas, Luís Farinha, Irene Flunser Pimentel, João Madeira e Maria Inácia Rezola. Como é para si poder abordar o que foram estes tribunais, da injustiça, da tortura, da privação da liberdade?</div><div>Esse estudo dos dois maiores arquivos da polícia política – o Arquivo da PIDE e o Arquivo do Tribunal Militar Especial (AHM) – permitem fazer o levantamento de uma parte muito significativa dos presos políticos da Ditadura – dos seus rostos, vidas, história prisional e mesmo sobre os efeitos perversos que se abateram sobre as suas vidas depois de uma ou de sucessivas prisões a que foram sujeitos. Estes arquivos não cobrem todo o universo de presos políticos, porque muitas vezes o seu espaço prisional ficou confinado a esquadras da GNR e da PSP; no entanto, constitui uma amostra muito significativa dos muitos milhares de presos políticos da Ditadura. Simultaneamente, permitiu compreender o funcionamento dos tribunais de exceção – o Tribunal Militar Especial e o Tribunal Plenário -, construídos sobre uma aparente legalidade, mas na verdade controlados inteiramente pelo poder político que, de forma discricionária, e através das polícias políticas, decidia sobre a vida dos presos, através de mecanismos administrativos como os que resultavam da situação de «deportados à ordem do Governo» ou a aplicação das designadas «medidas de segurança» que impediam a libertação dos presos, mesmo terminada a pena decidida em Tribunal.</div><div>Também os métodos da polícia política para obter informação são matéria que é possível esclarecer em muitos dos processos judiciais consultados, designadamente a forma como era obtida essa informação através de informadores, pela interceção da correspondência ou através de escutas telefónicas. Já o mesmo se não pode considerar quanto aos processos de tortura, que são, normalmente, omitidos, exceto quando extravasam o funcionamento cuidadoso de sonegação da informação, típico dos procedimentos da polícia política. Não são raras as agressões em pleno Tribunal e, aí, percebe-se de que modo os presos eram normalmente tratados pela polícia, tanto quando eram presos como quando eram sujeitos a prisões longas e a castigos.</div><div>Este é, pois, o resultado de uma primeira abordagem que não é definitiva nem completa, mas que permite abrir a novas abordagens, mais aprofundadas.</div><div>Transições políticas – Ditaduras e Democracia; I República e Ditadura Militar; Oposições políticas à Ditadura e ao Estado Novo; Políticas públicas de memória; Violência Política- O seu trabalho de investigação foca-se bastante nestes temas. O que o tem levado a trabalhar e estudar o Estado Novo, a oposição, a política de memória, as prisões, a I República e a Ditadura Militar? Acredita que pode ainda despertar as pessoas para o que se viveu?</div><div>Sem dúvida que a transição da I República para a Ditadura Militar é um período de grande interesse para a observação histórica: a questão central é perceber como pôde um regime soçobrar e em seu lugar surgir um outro, diferente e em muitos aspetos antagónico. Mas também perceber – e isso é muito importante –como e porque razão o regime cessante soçobrou. Na verdade, no caso português, como em tantos outros, o regime existente foi criando bolsas de cedência que desembocaram na Ditadura Militar e esta, por seu lado, foi reconfigurando o novo regime. Por outras palavras, o regime anterior foi criando no seu bojo as novas formas de organização do Estado que se lhe seguiu. É visível que a I República dos últimos anos foi introduzindo mecanismos de violência (de deportação, de censura, de intervenção de polícias políticas, de criação de tribunais de exceção) que foram, eles próprios, tornando naturais os comportamentos de violência. No fundo, o que aconteceu é que durante a I República essa violência existindo já, embora em menor grau, podia ser (e era) escrutinada pela imprensa livre e pelo Parlamento e opinião pública. Com a Ditadura, o estado de exceção tornou-se uma situação «legal» e constitucional, sem possibilidade de escrutínio pela opinião pública. E, nesse sentido, sem controlo social, a tendência foi para que a violência política se tivesse tornado irrestrita, continuada e, a partir de certo momento, fundamental para manter o próprio regime.</div><div>Por isso, estudar a I República, a Ditadura Militar e o surgimento do Estado Novo constitui uma lição imensa sobre a forma como os regimes soçobram (ou se deixam vencer) e a maneira como outros ocupam o seu lugar. E, igualmente, sobre o estado das elites que, em larga medida, se adaptaram à nova situação e com ela aprenderam a viver/conviver.</div><div>Nesse sentido, é muito interessante perceber como hoje os portugueses e o mundo perceciona a situação portuguesa - um regime duradouro, com fases de grande violência e com outras de maior estabilidade. De tal modo diferenciado no tempo, que temos muitas vezes dificuldade em classificar a sua natureza numa visão única do todo.</div><div>Como tem sido trabalhar estes períodos dramáticos da história portuguesa, o que nos pode dizer mais sobre o seu trabalho e como pensa que será importante a investigação sobre a memória, a tortura, a violência, a Ditadura… para estudantes e para quem desconhece a história e perdeu a memória?</div><div>O regime soube impor, pela opressão e pelo silenciamento, um clima de terror generalizado que favoreceu o indiferentismo, a despolitização e até uma aceitação por setores muito largos da população de soluções que, como a Guerra Colonial, constituíam crimes contra os povos dominados e um pesado encargo para o país de então e para as gerações vindouras. Nada se discutia, a não ser em setores muito estreitos das elites do poder instituído e, por isso, foi possível manter o regime numa aparente estabilidade durante quase meio século. A luta das oposições foi contínua e diversa - da luta clandestina às rebeliões e às greves operárias; porém, com o apoio do Exército e das forças repressivas, foi sempre difícil vencer a situação instalada e isso só aconteceu quando, a partir de 1969, um crescimento substancial do mundo urbano e um alargamento das elites rompeu o equilíbrio existente até aí. A entrada da Guerra Colonial num beco sem saída havia de conduzir o próprio Exército a derrubar o regime por golpe militar, em 25 de Abril de 1974.</div><div>Perceber como a ausência de democracia, de debate público e de alternativas políticas pode conduzir a situações dramáticas (ou mesmo trágicas, como aconteceu ao nosso país na parte final do regime) é um objetivo muito claro, entre muitos outros, que presidiu à criação do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Conhecer a nossa história do séc. XX, socializar e alargar o reconhecimento social desse período de vida do nosso país é, por isso, fundamental para todos os portugueses, sejam eles mais velhos ou mais novos. Os países necessitam de preparar-se com a participação de todos os cidadãos para as mudanças profundas e crescentes que o presente e o futuro nos apontam. Não precisamos de culpar a democracia dos males que nos apoquentam nem lamentarmos as nossas dificuldades – temos, isso sim, de aprofundar a qualidade da nossa democracia, com a participação de todos. E para que esse aprofundamento democrático aconteça, é preciso conhecer com profundidade as condições políticas e sociais em que vivemos em Ditadura e o que desse passado persiste e impede que avancemos com mais clarividência no presente e no futuro.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Um Portugal que integre todos os seus cidadãos e os que nos vão chegando de outras partes do mundo, pelo recurso à modernização das suas estruturas económicas, sociais e culturais. Que resolva as enormes assimetrias de desenvolvimento (por exemplo entre o litoral e o interior). Que tenda naturalmente, a promover um desenvolvimento equilibrado das suas populações pelo acesso aos meios de educação, ao trabalho, à saúde e à prestação de verdadeiros serviços sociais, especialmente aos mais desfavorecidos. Um país que consiga olhar para os verdadeiros desafios da atualidade, em conjunto com todos os humanos com quem compartilhamos os recursos da Terra, inevitavelmente findáveis.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: João Aristides Duarte</div><div>19 de Julho de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Ailton Krenak</title><description><![CDATA[Sobre a luta e o acto de ter pintado a cara de preto e ter declarado guerra aos congressistas refere em entrevista ao jornal português Expresso “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/06/07/Entrevista-a-Ailton-Krenak</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/06/07/Entrevista-a-Ailton-Krenak</guid><pubDate>Fri, 07 Jun 2019 17:10:32 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Sobre a luta e o acto de ter pintado a cara de preto e ter declarado guerra aos congressistas refere em entrevista ao jornal português Expresso “Na década de oitenta abrimos trilhas para as novas gerações buscarem o reconhecimento dos direitos das populações originárias, os indígenas, e para conscientizar a população da importância de continuarmos tendo rios, montanhas, paisagens, florestas como recursos capazes de se refazerem ao longo do tempo e como uma riqueza a ser partilhada pelas gerações futuras….” Como é que o enorme retrocesso que se tem verificado quer através do PT, quer com o Temer e agora com as enormes ameaças do Bolsonaro, como pensam que é possível resistir, mudar esse paradigma e consciencializar o povo brasileiro e o mundo das enormes adversidades, injustiças e etnocídio?</div><div>O que ocorre hoje no Brasil e todo continente americano é um assalto definitivo as últimas regiões naturais para sustentar a crescente globalização do capital. Mesmo os USA estão fazendo uso de suas reservas naturais- carvão, por exemplo. Nenhum lugar está a salvo do extrativismo predatório do antropoceno. Independente da ideologia que orienta a política dos governos regionais, estão subordinadas a dinâmica do capital financeiro global. Uma mudança de paradigma civilizatório seria a única maneira de mudar esta corrida para o desastre socioambiental. Começar a mudança localmente como ensina Gandhi, é o que cada um pode fazer enquanto a entropia não toma conta da vida no planeta.</div><div>Diz nessa entrevista que “...A Amazónia é a maior floresta tropical do planeta que ainda tem condição de ser reguladora do clima e o Brasil quer derrubar a Amazónia. Por que eu vou achar o Brasil grande? O Brasil é menor do que a Amazónia. Eu queria que ele fosse maior.”. Como é que pensa que é possível tornar o Brasil maior, maior que a Amazónia? Acredita que depois na nomeação do maior inimigo do povo indígena e do povo brasileiro, finalmente as pessoas se vão aperceber do que querem fazer ao povo indígena, e à Amazónia?</div><div>Para a maioria dos braseileiros, inclusive aqueles que não nomearam o atual governo, a amazônia é um ‘celeiro’ onde podem saquear indefinidamente, não têm ideia da sua ecologia e frágil equilíbrio climático, mesmo sendo um regulador do clima global é uma biosfera tão sensível que pode virar deserto em poucas décadas. Agora vivemos o risco real de disparar este gatilho para bancar a fantasia econômica de um país falido politicamente.</div><div>“A colonização que a Europa fez do resto do mundo desde os séculos XV e XVI imprimiu uma maneira de dominação que é como um vírus, é capaz de se auto-reproduzir, inclusive nas colónias” De que forma é possível o Brasil destruir esse vírus e como tem sido devastador para o progresso do país, para a liberdade e a sua soberania? Para os povos indígenas como tem sido ainda mais devastador? Em que medidas tem impedido os povos do Brasil de seguir livres e soltos de todas essas amarras?</div><div>O vírus do colonialismo já faz parte do organismo da vida brasileira, produz desigualdade e racismo. Vicia e cria dependência entre seus hospedeiros, ainda mais</div><div>em uma sociedade formada por indivíduos de todas as origens culturais e identitárias,com expectativas de mundos tão conflitantes e excludentes. Nem mesmo a ideia de ‘soberania’-</div><div>o grande contingente, de pessoas espalhadas pelo país afora consegue expressar, por ser uma construção que depende de identidade nacional, o que não foi construído até aqui, excepto a língua comum,sendo português. Povos indígenas nesse contexto histórico , nada têm de prioridade na vida brasileira em geral, por ser uma ínfima minoria dos aproximadamente duzentos milhões de brasileiros.</div><div>Tem dedicado desde os anos 80 ao Núcleo de Cultura Indígena, participou da Aliança dos Povos da Floresta. Como é que têm sido estes mais de trinta anos de luta quer pela Amazónia, quer pela defesa e promoção da cultura indígena e pelos direitos dos povos indígenas? E como vê o futuro da Amazónia e do Brasil se o Bolsonaro concretizar a ameaça de destruição dos mesmos?</div><div>Viver esta segunda metade do século XX, pois nasci em 1953 e sempre fui observador de nossa vida social,me faz acreditar que o futuro dos povos indígenas é indissolúvel da história do Brasil como país colonizado e subordinado ao sistema global,sem outra alternativa que servir de base extrativista para o mundo desenvolvido. A situação atual é grave, mas não determina nosso destino. Temos muita história atrás e a frente ainda, para definir os rumos da amazônia e do Brasil como país.</div><div>Quais são os seus sonhos para os povos indígenas e para o Brasil?</div><div>São mundos imbricados, mas com sonhos próprios e distintos entre sí, mesmo que habitando a mesma paisagem.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: João Aristides Duarte</div><div>07 de Junho de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>07 de Junho de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Patrícia Labandeiro do Projecto “Despertar”</title><description><![CDATA[Referiu-me que a “Despertar” é uma entidade formadora que, entre outras missões e ofertas formativas, tem respostas de qualificação e reabilitação para pessoas com deficiência. Trabalham desde 94 no concelho de Viana do Castelo. Como tem sido importante promover a qualificação e reabilitação e colmatar algo que hoje, em 2019, ainda está longe de estar 100% garantido? Enquanto promotora, o que considera o que falta para que a sociedade esteja preparada para dar respostas positivas para pessoas]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/05/29/Entrevista-a-Patr%C3%ADcia-Labandeiro-do-Projecto-%E2%80%9CDespertar%E2%80%9D</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/05/29/Entrevista-a-Patr%C3%ADcia-Labandeiro-do-Projecto-%E2%80%9CDespertar%E2%80%9D</guid><pubDate>Wed, 29 May 2019 17:13:25 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Referiu-me que a “Despertar” é uma entidade formadora que, entre outras missões e ofertas formativas, tem respostas de qualificação e reabilitação para pessoas com deficiência. Trabalham desde 94 no concelho de Viana do Castelo. Como tem sido importante promover a qualificação e reabilitação e colmatar algo que hoje, em 2019, ainda está longe de estar 100% garantido? Enquanto promotora, o que considera o que falta para que a sociedade esteja preparada para dar respostas positivas para pessoas com deficiência? A Despertar, sendo uma empresa de formação e serviços terapêuticos, tem como missão de base a promoção da igualdade de oportunidade e a contribuição para uma comunidade mais justa e equilibrada socialmente. Com esse “pano de fundo” (o desenho do mundo em que acreditamos, em que cada cidadão vê os seus direitos respeitados e tem acesso às mesmas oportunidades dos demais), uma das populações com quem mais trabalhamos (e gostamos de trabalhar) são as pessoas com deficiência. Sabemos que temos vindo a desenvolver um trabalho com impactos positivos e profundos no projecto de vida de quem até nós chega. Apostando em metodologias de formação muito activas e orientadas para os contextos reais de vida e para o mercado de trabalho local, temos atingido taxas de inserção profissional que muito nos orgulham e que nos asseguram que esse caminho e resultado é efectivamente possível. Há dificuldades mais genéricas na sociedade no que concerne à inclusão das PCDI, como a nossa baixa tolerância e elevado criticismo face à diferença. Mas especificando a dimensão que mais nos toca pelos objectivos centrais subjacentes ao nosso projecto (a inserção profissional), percebemos ao longo destes anos de intervenção que um obstáculo essencial é o funcionamento dentro de paredes das entidades especializadas de reabilitação. A criação de ambientes simulados e protegidos é um recurso útil e necessário mas apenas para pessoas com níveis de limitação que impeçam totalmente o ajustamento e adaptação ao mercado de trabalho (ou seja, uma baixa percentagem das PCDI). Este recurso pode ainda ser uma plataforma de preparação e uma intervenção de primeira linha, mas a passagem para os contextos reais e o movimento das entidades de reabilitação em direção ao mundo empresarial é premente e deveria ser uma exigência inerente a qualquer projecto que diz visar a inserção.Referiu-me igualmente que é muito raro estas pessoas atingirem um nível de integração socioprofissional digno e que permita uma vida autónoma. Para si, que mudanças nas estruturas e nas mentalidades são necessárias para se permitir uma abertura e para mudar este paradigma? Porque é que ainda há tanta dificuldade em haver progressão socioprofissional para pessoas com deficiência?</div><div> As mentalidades apenas mudam quando há confronto direto com experiências que invalidam essas teorias e perceções. Quando abordamos as empresas, não gastamos muito tempo e energia a “convencer” o empresário de que as pessoas com deficiência têm competências e capacidades funcionais que as tornam aptos para assumir postos de trabalho com um contributo válido para a empresa, na sua dimensão produtiva e na sua dimensão relacional. Pedimos apenas a abertura a um dia (ou apenas duas ou três horas) para receber um grupo de pessoas com deficiência e que atribuam uma tarefa para o grupo. Quase sempre, o grupo de formandos executa com eficácia a tarefa proposta em menos tempo ou com mais qualidade do que o esperado. É nesta experiência que coloca os empresários, os responsáveis operacionais e os colaboradores de uma X empresa em relação directa com pessoas com deficiência que aceitam, cumprem e executam com afinco e alegria uma tarefa profissional, que a mudança acontece… Poderíamos discorrer sobre os inúmeros obstáculos à progressão socioprofissional das PCDI, sobre os inúmero preconceitos que persistem e sobre o paradigma que não nos levou à inclusão por que ansiamos, mas preferimos apontar caminhos e soluções. A nossa experiência, já nos mostrou que as empresas estão, na sua maioria, abertas a conhecer e a explorar a hipótese de integração de PCDI nos seus quadros de pessoal. Não tomam por si a iniciativa, pois a dinâmica empresarial com todas as suas exigência leva a um foco nos mecanismos de produção e crescimento em que, por vezes, não “cabem” as medidas mais orientadas para a responsabilidade social. Contudo, quando são abordados e convidados a iniciar esse processo de forma estruturada e consciente, quase sempre, acedem a esse desafio. Se as entidades de reabilitação promoverem mais contacto dos seus utentes com as empresas e ouras organizações que podem empregar PCDI, estarão a promover essa mudança de mentalidade e de paradigma pela forma mais relevante e impactante em que pode concretizar-se: através da verificação de uma realidade que invalida a verdade anterior. O vosso trabalho também se foca na igualdade de género e na integração de populações vulneráveis. Fazem várias formações, actividades lúdicas, têm palestras e oficinas; de que forma estas actividades são essenciais para o ensino pela igualdade de género e pela integração? De que forma podem estes eventos ser transformadores para a vida das pessoas a quem dirigem o vosso trabalho?  A promoção da igualdade de oportunidades e da equidade social são valores e focos da missão que estão sempre subjacentes às actividades que desenvolvemos. Acreditamos que mesmo as intervenções ao nível da parentalidade, do acompanhamento terapêutico e do desenvolvimento pessoal são veículos para a construção de comunidades mais felizes e equilibradas. O sistema relacional base de uma comunidade ou sociedade, é a família. Famílias com dinâmicas saudáveis que consigam viver de acordo com princípios de solidariedade, integridade e sustentabilidade, ajudarão a criar comunidades mais coesas e mais abertas ao apoio mútuo e à empatia para com o outro. Para além das iniciativas que nós organizamos e desenvolvemos, como por exemplo os encontros “Pais à Conversa” que acontecem desde 2015 e que já versaram temáticas com o Mindfulness na Educação, Pedagogia Waldorf, Parentalidade Consciente, Filosofia para Crianças, Sono Infantil, Desenvolvimento da Linguagem, Nutrição Infantil, entre outros, somos também convidados a participar em palestras e acções formativas de outras entidades e parceiros sociais. Ao nível da Igualdade de Género os Meetups do movimento nacional Girls Lean In do qual somos representantes em Viana do Castelo, têm sido experiências muito enriquecedoras e inspiradoras. Neste Meetups convidamos mulheres que tenham histórias de vida e projectos de liderança ou transformação social para partilhar, demonstrando que os “obstáculos de género” são ultrapassáveis e que qualquer mulher pode e deve conceber o seu projecto de vida de forma independente das supostas limitações que por vezes nos são incutidas na educação, na comunicação social e nos ambientes mais tradicionalistas. Já realizamos 14 Meetups, com 25 convidadas e cerca de 400 participantes em plateia. Estes encontros, tal como acontece no “Pais à Conversa” resultam em partilhas que têm impacto no processo de desenvolvimento de cada pessoa, família, equipa de trabalho, comunidade… absorve-se a energia da acção e da progressão de outros, discutem-se pontos de vista, criam-se sinergias, lançam-se sementes para parcerias! Acreditamos sobretudo que esta experiência relacional “real”, em contacto próximo e focada na transformação que queremos para o mundo e nas soluções, geram comunidades mais pró-activas, optimistas e felizes! Trabalham numa lógica de parceria com outras empresas e organizações e desenvolvem projetcos e actividades em conjunto - como conseguem estabelecer estas ligações consistentes e qual o benefício desse trabalho em rede? Efectivamente somos uma empresa em constate simbiose com o nosso meio envolvente. Estamos atentos ao que acontece na nossa comunidade e procuramos dirigir ofertas que sirvam os reais interesse e necessidades dos Vianenses, com especial enfoque nas populações mais vulneráveis ou nas dinâmicas que podem pôr em causa o bem estar e equilíbrio social. Por exemplo ao nível do acolhimento e inserção de população migrante sentimos que teríamos um contributo a dar para potenciar a sua integração e para valorizar a solidariedade e tolerância cultural dos Vianenses. Somos parceiros da Câmara Municipal de Viana do Castelo no Plano Municipal de Integração de Migrantes e para além do desenvolvimento de formação para migrantes e para técnicos de entidades com responsabilidade nesta matérias, lançámos uma campanha de sensibilização que enaltece a dimensão positiva a experiência que os migrantes têm na nossa cidade. “Viana acolhe com Amor” é uma campanha em que migrantes agradecem aos vianenses a sua abertura e apoio. Em cada “problemática” social em que actuamos, gostamos de investir no reforço do que acontece de positivo e promover as boas práticas. Ora, se estamos em constante adaptação às dinâmicas sociais locais, só faz sentido que actuemos em articulação com as entidades de acção social, de educação e de saúde. Somos membros da Rede Social e da Comissão Social de Freguesias, que se constituem como organismos promotores do trabalho concertado e em cooperação sustentada. Esta forma de nos colocarmos na nossa comunidade e de unir esforços com outras empresas e instituições é o único meio através do qual conseguimos atingir resultados naquilo que é a nossa motivação base transversal a todos os núcleos de acção: a transformação social e o impacto na vida comunitária. Quais são os vossos sonhos para Portugal? Uma dos nossos princípios é o de pensar globalmente mas agir localmente. A Despertar actua em Viana do Castelo e temos uma forte ligação à nossa comunidade e até à tradição e identidade vianense. Assim, a nossa felicidade e missão concretiza-se com uma visão de acção local. Preferimos definir o que sonhamos para a nossa região, da qual temos um conhecimento intrínseco e abrangente do que equacionar objectivos globais que podem não corresponder às necessidades prementes e ao próprio ambiente identitário de cada região. Claro está que globalmente sonhamos com um País em que todos os cidadãos tenham oportunidade de criar e concretizar projectos de vida que levem ao bem estar integral (muito genérico, nós sabemos). A nível mais local esperamos que as famílias possam usufruir de todos os benefícios e riquezas da nossa região, que as pessoas com deficiência atinjam a conquista que mais impacto tem na inserção (posto de trabalho), que quem chega à cidade seja acolhido com tolerância e solidariedade, que quem vive em ciclos de pobreza e exclusão possa receber apoio institucional consistente que ajude a quebrar esse ciclo e a reconstruir uma vida digna, que se desenvolvam projetcos locais inovadores e que potenciem a qualidade de vida dos vianenses, que a mulher vianense nunca se veja limitada na sua independência e na sua carreira devido a preconceitos de género, que as nossas crianças cresçam em ambientes educativos que promovem o desenvolvimento integral, que a comunidade evolua nas práticas agrícolas e ambientais que contribuem para a sustentabilidade, que cada vianense saiba que em fases de vida mais desafiantes existem serviços e profissionais competentes e comprometidos com uma filosofia de trabalho em que não existe intervenção que não seja o resultado de uma relação humana genuína. O foco no nosso trabalho e do nosso sonho para a comunidade local poder-se-ia congregar em duas palavras/dimensões: inclusão e felicidade! Internamente, enquanto equipa, queremos continuar nesta linha de acção que também nos permite viver a nossa própria experiência de transformação, crescimento e busca da realização profissional e felicidade global. Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Jú Matias 29 de Maio de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Irene Pimentel – Investigadora – Doutorada em História Institucional e Política Contemporânea</title><description><![CDATA[O seu Pós-Doutoramento aprovado pela FCT é sobre «O processo de justiça política relativamente à PIDE/DGS, na transição para a democracia em Portugal».Sobre a PIDE escreveu também o livro “A História da PIDE”; “Os Cinco Pilares da PIDE” , “O Caso da PIDE/DGS” e “Biografia de um Inspector da PIDE”. Tem estes trabalhos sobre a PIDE, um inspector e os seus pilares.O que podemos e devemos aprender sobre a PIDE e sobre o fascismo/Estado Novo e sobre o sofrimento das vítimas de Salazar e Caetano ? O]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/05/08/Entrevista-a-Irene-Pimentel-%E2%80%93-Investigadora-%E2%80%93-Doutorada-em-Hist%C3%B3ria-Institucional-e-Pol%C3%ADtica-Contempor%C3%A2nea</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/05/08/Entrevista-a-Irene-Pimentel-%E2%80%93-Investigadora-%E2%80%93-Doutorada-em-Hist%C3%B3ria-Institucional-e-Pol%C3%ADtica-Contempor%C3%A2nea</guid><pubDate>Wed, 08 May 2019 17:16:57 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>O seu Pós-Doutoramento aprovado pela FCT é sobre «O processo de justiça política relativamente à PIDE/DGS, na transição para a democracia em Portugal».</div><div>Sobre a PIDE escreveu também o livro “A História da PIDE”; “Os Cinco Pilares da PIDE” , “O Caso da PIDE/DGS” e “Biografia de um Inspector da PIDE”. Tem estes trabalhos sobre a PIDE, um inspector e os seus pilares.</div><div>O que podemos e devemos aprender sobre a PIDE e sobre o fascismo/Estado Novo e sobre o sofrimento das vítimas de Salazar e Caetano ? O que a levou a fazer estes vários trabalhos de investigação sobre a polícia política do fascismo de Salazar e Caetano?</div><div>Enquanto pessoa activa politicamente durante a Ditadura de Salazar e, sobretudo, de Marcello Caetano, tive sempre a noção de que poderia vir a ser presa pela PIDE/DGS. Eu tinha ideias feitas – embora não o soubesse – sobre a polícia política do Estado Novo e, ao desistir de um tema que tinha inicialmente pensado estudar para o meu doutoramento em História Contemporânea, percebi que eu queria verdadeiramente perceber como essa instituição policial funcionava. Não só a nível da instituição, mas a nível da prática. O que me interessa sobretudo é ver de que forma essa política funcionava, quem eram os seus elementos, de que maneira servia a Ditadura e o ditador, quais eram os seus alvos e as suas vítimas, e que eficácia tinha essa polícia contra os seus principais inimigos políticos. Por outro lado, filosoficamente, politicamente e psicologicamente, interessa-me também saber como pode um ser humano torturar outro ser humano, ao contrário de todos os valores éticos e morais nos quais fomos educados. Uma das conclusões que tirei, ao caracterizar também a Ditadura portuguesa através da actuação da sua polícia política, foi o facto de a PIDE/DGS não ter sido um Estado dentro do Estado Novo, mas, sim, uma polícia que serviu directamente o ditador, especialmente Salazar, enquanto instrumento principal contra os adversários políticos deste último.</div><div>Escreveu estes livros sobre Salazar, a oposição, a história política do fascismo português: “História da Oposição à Ditadura em Portugal; Salazar, Portugal e o Holocausto”; “Espiões em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial”; “Cardeal Cerejeira”; “A Cada um o Seu Lugar - A política Feminina do Estado Novo”; “Inimigos de Salazar”; “Vítimas de Salazar” Como é para si poder abordar a história do fascismo português, a luta, as vítimas de Salazar e as lutas dos inimigos de Salazar? O que a tem levado a trabalhar e estudar o Estado Novo, a oposição, a política de memória através do estudo da PIDE/DGS e a luta feminina do Estado Novo?</div><div>Após grandes explicações historiográficas gerais já terem definido o Estado Novo de Salazar, considerando-o fascista ou autoritário, muito semelhante a outros regimes ditatoriais ou totalitários ou, pelo contrário, bem singular e diferenciando-se do fascismo italiano, do regime de Franco em Espanha ou de Hitler na Alemanha, pensei que seria interessante caracterizar esse mesmo regime através de algumas das suas instituições específicas – as organizações estatais femininas e de juventude, a Igreja católica, ou a polícia política. A situação das mulheres sempre me interessou enquanto cidadã e, por isso, também enquanto historiadora. Sobretudo, interessou-me estudá-la durante a Ditadura portuguesa, comparando-a com a que vigorou noutros países europeus na mesma época. O facto de o regime português ser muito elitista e hierarquizado, sem mobilidade social e considerando que cada um teria o seu lugar e a sua função, fez-me analisar quais seriam o lugar e a função reservada às mulheres pela ideologia e a prática salazarista. Dado que estudei a acção da PIDE/DGS também me interessou depois de analisar os seus principais alvos – os seus adversários e inimigos políticos. O período da II Guerra Mundial e o nazismo – sou de uma geração que nasceu após o fim desta mas muito marcada pelos horrores do Holocausto – foram sempre assuntos que me interessaram muito. Pensei também que era essencial analisar o que foi a neutralidade portuguesa entre 1939 e 1945, o relacionamento do regime de Salazar com os dois lados beligerantes, com os refugiados que tentaram salvar-se através de Portugal, questionando se Salazar de alguma forma atenuou o sofrimento dos judeus às mãos dos nazis.</div><div>A História das mulheres faz parte das suas áreas de investigação. Que importância é que esta investigação e temática deve ter?</div><div>Penso que tenho caracterizado o regime através desse tipo de abordagens. Comecei aliás a minha – tardia – carreira de investigadora, analisando precisamente duas instituições salazaristas, que se relacionaram com as jovens e as mulheres portuguesas – A Obra das Mães e a Mocidade Portuguesa Feminina -, num estudo em que recorri à análise comparativa com instituições similares do fascismo italiano e da Alemanha nazi, entre outros.</div><div>Como já escrevi anteriormente, penso que é muito importante estudar especificamente a ideologia e as instituições da Ditadura relativamente às mulheres e de que forma a sua situação social e familiar evoluiu exponencialmente em Portugal. Não se pode esquecer que, após ela estar subjugada no seio da sociedade e da família, onde o marido era sempre o chefe ao qual ela devia obediência, durante a ditadura, as mulheres portuguesas, graças ao «25 de Abril de 1974», passaram a gozar na lei de uma das mais avançadas situações a nível europeu.</div><div>Na sua opinião, como se conseguirá quebrar a enorme desigualdade e ainda uma falta de valorização da mulher e da sua história?</div><div>Durante séculos as mulheres não existiam a nível histórico, pois eram raras as que puderam destacar-se nos campos político, social e cultural, salvo excepções de algumas rainhas e escritoras. Com a historiografia “a partir de baixo”, e - deve-se dizer - com o avanço mundial do feminismo, verificou-se que a própria ausência e desaparecimento do papel das mulheres era de carácter ideológico. E a História das Mulheres surgiu com grande importância nas últimas décadas do século XX. Neste momento, de subida dos populismos nacionalistas e de extrema-direita, não por acaso, os estudos sobre as mulheres e de género estão sob ataque. É certo que também a História sonbre as mulheres tem sofrido de algumas derivas essencialistas e identitárias, mas o que há a fazer é descobrir novos caminhos para esse tipo de estudos, defendendo-os dos ataques e procurando uma evolução onde seja central a luta contra a desigualdade entre homens e mulheres.</div><div>Desde que iniciou os seus estudos tem visto alguma mudança na discussão e aprendizagem da História?</div><div>Infelizmente, nos últimos tempos, como já disse anteriormente, a História enquanto disciplina de aprendizagem está também sob ataque. Aos elementos da extrema-direita que chegaram ao poder e têm uma metodologia populista, interessa eliminar todas as disciplinas que ajudam a pensar de forma autónoma. Veja-se o ataque aos intelectuais e às elites (e aos políticos) por parte de potenciais ditadores. Bolsonaro, Trump, Órban, Duterte ou Salvin que se dizem representantes do povo (bom) e combatem as elites e os intelectuais (maus e corruptos) perceberam as grandes vantagens de se ignorar a História, e, por isso, tentam eliminá-la, substituindo-a por um revisionismo anti-histórico e um negacionismo relativo aos regimes ditatoriais no passado ou ao Holocausto e a outros genocídios. Da mesma forma, o ataque à Filosofia e à Sociologia (caso concreto de Bolsonaro, no Brasil) é uma via ideológica de chegar a novos tipos de regimes ditatoriais e autoritários.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Que se mantenha uma democracia, cada vez mais aprofundada, com menos desigualdades. Que se mantenha e aprofunde também Estado Social, se possível numa Europa com o mesmo tipo de valores éticos, de solidariedade entre gerações e com uma preocupação cada vez maior pelo bem-estar das pessoas num planeta em perigo que há que salvar.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Aristides Duarte</div><div>08 de Maio De 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>08 de Maio de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Maria da Graça Marques Pinto – Resistente Anti-Fascista, Activista, Professora</title><description><![CDATA[Esteve na resistência anti-fascista e na clandestinidade, foi torturada. Hoje, como professora, activista e membro do Antifascistas da Resistência. Como foi combater a Ditadura Fascista? Que aprendizagens obteve dessa luta? Como é para si poder ensinar acerca da sua luta, a tortura, o fascismo?O meu processo de crescimento como pessoa é inseparável da luta pelo derrube da ditadura fascista e pela construção de uma sociedade, onde os direitos dos trabalhadores e o acesso, à educação, saúde e]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/04/27/Entrevista-a-Maria-da-Gra%C3%A7a-Marques-Pinto-%E2%80%93-Resistente-Anti-Fascista-Activista-Professora</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/04/27/Entrevista-a-Maria-da-Gra%C3%A7a-Marques-Pinto-%E2%80%93-Resistente-Anti-Fascista-Activista-Professora</guid><pubDate>Sat, 27 Apr 2019 16:21:32 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Esteve na resistência anti-fascista e na clandestinidade, foi torturada. Hoje, como professora, activista e membro do Antifascistas da Resistência. Como foi combater a Ditadura Fascista? Que aprendizagens obteve dessa luta? Como é para si poder ensinar acerca da sua luta, a tortura, o fascismo?</div><div>O meu processo de crescimento como pessoa é inseparável da luta pelo derrube da ditadura fascista e pela construção de uma sociedade, onde os direitos dos trabalhadores e o acesso, à educação, saúde e habitação sejam uma realidade.</div><div>O que podemos e devemos aprender sobre o fascismo/estado novo e o 25 de Abril? </div><div>Sou oriunda de uma família de democratas, sendo que desde cedo me apercebi da privação da liberdade e de direitos sociais no meu país e de que os jovens eram enviados para a guerra colonial ,onde morriam, ou sofriam sequelas ´físicas e psicológicas numa guerra injusta que tinha como objetivo perpetuar o colonialismo.</div><div>Frequentou a Faculdade de Direito em 1968, onde se tornou activista do movimento estudantil e onde colaborou com a secção cultural da Associação de Estudantes durante a denominada crise de 1969, aquando da luta dos estudantes por uma educação democrática, direitos de reunião, associação e manifestação reprimidos pelo regime fascista de salazar e caetano. Como activista e anti-fascista, considera estas lutas uma mais-valia para o seu processo como pessoa e activista? Como devem as pessoas olhar para estas lutas, a repressão, o estado novo?</div><div> Entrei na faculdade de direito de Lisboa em 1968 e a crise académica de 1969 veio reforçar as minhas convicções. O direito de reunião e associação eram fortemente limitados e a proibição de iniciativas, nomeadamente da secção cultural da Associação de Estudantes de que era colaboradora eram recorrentes. Os estudantes não tinham lugar em qualquer órgão de gestão universitária e nem sequer lhes era permitido tomar a palavra em sessões académicas. A luta estudantil de 1969, teve início com a recusa por parte do movimento associativo de acatar a proibição de um representante dos estudantes falar na sessão de abertura do ano letivo, em Coimbra. Sucedeu-se uma repressão violenta. Muitos estudantes foram alvo de processos disciplinares e enviados compulsivamente para a tropa. </div><div>Seguiu-se um período de protestos sob a forma de greves e manifestações ferozmente reprimidas que alastraram às academias do Porto e Lisboa. Desde a primeira hora escolhi o meu “lado da barricada”, participando ativamente nestes protestos e na luta por um ensino democrático .</div><div> Mas a luta estudantil não se circunscreveu, apenas, às questões académicas. Uma boa parte dos ativistas participaram em iniciativas pelo fim da guerra colonial e de solidariedade com o movimento operário vítima de repressão.. Neste contexto, sofremos várias cargas policiais quando tentávamos manifestar-nos (o direito de manifestação não existia). Muit@s estudantes foram detid@s.</div><div> O ativismo ensinou-me que a indiferença é pactuar com o que está mal, é desistir da construção de uma sociedade mais justa A prisão e a clandestinidade ensinaram-me a ser resiliente e persistente, a vencer o medo, na certeza de que não estava sozinha e que, para além dos afetos, tinha ao meu lado milhões de pessoas!</div><div> O meu percurso de hoje, no essencial, é a continuação desta caminhada. Ter consciência que o meu contributo individual é importante para o futuro , ser operária da construção de um Mundo melhor ajudou-me a dar sentido à passagem pela vida. Para além do apoio da minha família e amigos, foi essa convicção que me deu força quando fui sujeita à privação da liberdade, à tortura do sono, ou nas duras condições de luta na clandestinidade longe de todos os que me eram queridos. </div><div>É membro do SOS Racismo. Como acha que é possível reverter todo o preconceito e ignorância ainda totalmente presentes na sociedade portuguesa, como são exemplos como são exemplo as vítimas os residentes dos bairros nos bairros dos arredores de Lisboa? Como vê todo o racismo ainda existente, como se viu nos últimos meses? </div><div>Hoje, mais do que nunca, quando assistimos ao recrudescimento dos populismos de extrema direita que, cavalgando a insatisfação popular, tentam culpar os mais fracos pelas crises sociais e económicas, e apelam a posturas xenófobas e racistas, é vital não apagar a memória das décadas de ditadura por que passámos. No que respeita às gerações mais jovens que felizmente não viveram esse período cinzento da nossa História. essa memória é particularmente importante., para que não haja um grave retrocesso no que respeita a direitos conquistados</div><div>Como professora, como vê o estado do ensino em Portugal e a luta dos professores? </div><div>Os desafios no século XXI serão, em alguns aspetos, diferentes, desde logo o combate à intensificação da financeirização global da economia, a centralidade da luta por um novo paradigma económico e social capaz de travar as alterações climáticas que colocam em risco a vida no Planeta e a defesa da igualdade de género e dos direitos LGBTIl É nestas como em outras áreas que tento., como professora e ativista. contribuir para a consciencialização e intervenção cidadã..</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal e para Moçambique?</div><div> Por razões de coerência , continuo a colocar a energia de que disponho ao serviço de todas as causas em que acredito, em nome da esperança num futuro melhor, do aprofundamento da democracia no meu país, dos direitos sociais, animais e ambientais e ,à escala global, do fim da guerra e da exploração dos povos pelo império! e no combate às alterações climáticas que “penalizam” sobretudo os países menos desenvolvidos, os que menos contribuíram para este drama, como Moçambique atingido por tempestades de extrema gravidade.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Jú Matias</div><div>26 de Abril de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div> 27 de Abril de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Bruno Gascon – Realizador</title><description><![CDATA[“O que acontece quando estamos sós? Boy é um thriller psicológico sobre privação de liberdade e o que acontece quando a solidão se apodera do ser humano.” (http://www.cinept.ubi.pt/pt) Que importância dá a estes problemas da solidão e da privação da liberdade?Todos os meus filmes reflectem sobre o ser humano, psicologia e interacções sociais, por isso a solidão e a privação de liberdade fazem parte da lista de temas que me dizem muito. Na nossa sociedade, ou seja, no mundo actual, de uma forma]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/04/06/Entrevista-a-Bruno-Gascon-%E2%80%93-Realizador</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/04/06/Entrevista-a-Bruno-Gascon-%E2%80%93-Realizador</guid><pubDate>Sat, 06 Apr 2019 14:04:46 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>“O que acontece quando estamos sós? Boy é um thriller psicológico sobre privação de liberdade e o que acontece quando a solidão se apodera do ser humano.” (http://www.cinept.ubi.pt/pt) Que importância dá a estes problemas da solidão e da privação da liberdade?</div><div>Todos os meus filmes reflectem sobre o ser humano, psicologia e interacções sociais, por isso a solidão e a privação de liberdade fazem parte da lista de temas que me dizem muito. Na nossa sociedade, ou seja, no mundo actual, de uma forma ou de outra são sentimentos que existem em todos nós mesmo que nem sempre tenhamos noção disso. A minha intenção no &quot;Boy&quot; era mostrar precisamente isso e que muitas vezes somos nós que restringimos a nossa própria liberdade.</div><div>“New York, New York New York, New York is a small short film about dreams, hopes and about what truly matters in life: the journey you made and not the destination”. Continua a ser uma reflexão dos dias hoje?</div><div>De certa forma continua a ser uma reflexão actual. Cada vez mais vemos pessoas a arriscarem fazer os seus próprios projectos. Essa curta acaba por ser uma metáfora para a necessidade de cada um de nós lutar para conseguir tornar real aquilo com que sonhamos, no entanto eu acabo por nem considerar esse projecto como uma das minhas curtas pois foi algo feito de improviso com o actor e num contexto muito específico.</div><div>Realizou a curta Vazio que aborda os problemas de depressão e a Linha SOS Voz Amiga, a incompreensão, o desespero. O que o motivou a abordar este tema? Para si era um tema urgente a ser tratado e mostrado? O que nos pode falar sobre ter transmitido um pouco do trabalho da SOS Voz Amiga?</div><div>Na altura em que escrevi a curta vivíamos sob uma grande depressão devido à crise. O trabalho da SOS VOZ AMIGA era por isso mais necessário do que nunca, no entanto, tal como muitas outras instituições tinham falta de meios e de voluntários para darem resposta a todos os que deles necessitavam. Assim, a minha intenção era numa primeira instância mostrar a espiral de sofrimento que pode engolir uma pessoa que esteja a pensar em suicídio e mostrar o quão essencial e heróico é o trabalho da SOS VOZ AMIGA. Acho que ainda hoje este é um tema que precisa de mais atenção.</div><div>Realizou o filme Carga. Já falou várias vezes sobre o filme e sobre o foco do filme, o tráfico de seres humanos a partir duma máfia. Acredita que pode despertar o público em geral para esta problemática?</div><div>Acredito que conseguimos na verdade despertar as pessoas para este tema. Não só por termos sido um dos filmes mais vistos do ano passado, mas por toda a cobertura mediática que o filme conseguiu. Quando procurávamos financiamento para o filme, muitas portas foram mais difíceis de abrir e outras nem sequer se abriram porque diziam que este problema era um drama de terceiro mundo e que as pessoas não iriam querer ver algo tão pesado num filme. No entanto é com alegria que vejo que depois da estreia do filme vários projectos televisivos (novelas é séries) foram buscar este tema para os seus enredos. Gosto de acreditar que lhes abrimos portas para terem liberdade para focar algo mais pesado e que sem dúvida tem que ser falado. O poder da ficção pode ser de extrema relevância para a conscencialização, prevenção e combate ao tráfico de seres humanos.</div><div>O que aprendeu sobre o processo e o que tem aprendido até agora?</div><div>A &quot;Carga&quot; ensinou-me muito a todos os níveis tanto em termos de cinema, como em termos de humanidade. Graças ao meu primeiro filme encontrei o tema do meu próximo filme e pessoas com quem sem dúvida quero continuar a trabalhar. Mas a aprendizagem, claro, essa continua e vai continuar sempre todos os dias pois é a única forma de evoluir.</div><div>O facto de trabalhar os temas das migrações, dos problemas sociais, do tráfico de seres humanos, para documentários na RTP 1 e 2 de há 10 anos para cá, de que forma o ajudaram a concretizar o filme Carga?</div><div>O facto de ter estado em contacto com pessoas que passaram por este tipo de problemas fez-me decidir que a minha primeira longa metragem seria a &quot;Carga&quot;, deu-me também consciência do quão importante é existir um cuidado e um realismo extremo quando focamos estes temas tão sensíveis, pois fazer menos do que isso é desrespeitar o sofrimento alheio.</div><div>O que o leva a abordar temas tão importantes, e problemas tão graves na vida de muitas pessoas? </div><div>Fazer um filme é um processo doloroso. Desde a escrita à sua finalização. No meu caso, como escrevo os filmes que realizo gosto de abordar temas que me façam pensar e que me coloquem questões. Acho que existe muita coisa que tentamos colocar longe da nossa vista por ser mais fácil para continuarmos a viver, no entanto, eu acredito que só podemos evoluir enquanto sociedade se falarmos sobre todos estes temas, daí a minha escolha como realizador em focar-me neles.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Os meus sonhos são continuar a fazer mais e melhor seja em Portugal como em outra parte do mundo. Ainda tenho um longo caminho a percorrer e muita coisa para aprender. Quero e vou fazer mais filmes que me desafiem e desafiem o público. Acredito que os sonhos se podem concretizar se trabalharmos muito todos os dias para que isso aconteça.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: João Aristides Duarte</div><div>06 de Abril de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div> 06 de Abril de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Actor Cândido Ferreira</title><description><![CDATA[Esteve no exílio em França e iniciou aí o seu percurso no Teatro. Como é que foi esse tempo no exílio e o que aprendeu como actor no Teatro Operário?Aprendi a ter postura no palco e a comunicar com o público. E improvisar também. Aprendi a investigar a construção dramaturgica e alguns princípios da encenação.E mais tarde com a fundação do Teatro O Bando, na efervescência da Revolução do 25 de Abril?O rigor profissional. A evolução técnica e artística. A criação colectiva. Com o João Brites fiz o]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/03/22/Entrevista-ao-Actor-C%C3%A2ndido-Ferreira</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/03/22/Entrevista-ao-Actor-C%C3%A2ndido-Ferreira</guid><pubDate>Fri, 22 Mar 2019 19:54:43 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Esteve no exílio em França e iniciou aí o seu percurso no Teatro. Como é que foi esse tempo no exílio e o que aprendeu como actor no Teatro Operário?</div><div>Aprendi a ter postura no palco e a comunicar com o público. E improvisar também. Aprendi a investigar a construção dramaturgica e alguns princípios da encenação.</div><div>E mais tarde com a fundação do Teatro O Bando, na efervescência da Revolução do 25 de Abril?</div><div>O rigor profissional. A evolução técnica e artística. A criação colectiva. Com o João Brites fiz o curso e o mestrado.</div><div>Passou pela Companhia Teatro de Sintra, o TEP, Cornucópia, Escola da Noite, foi encenado e dirigido por Mário Viegas, Luís Miguel Cintra, Manoel de Oliveira, Joaquim Leitão, Raquel Freire, José Carretas entre outros... O que tem bebido ao representar em diversos grupos de teatro, de várias culturas diferentes, e com variadíssimos profissionais?</div><div>Foram tudo boas experiências. Do teatro que premeia a cenografia, a imagem, a mensagem (O Bando), do teatro que premeia a palavra e a realidade (Cornucópia), do teatro que premeia a comunicação e a empatia (com o Viegas). Com o Joaquim Leitão aprendi a trabalhar em cinema.</div><div>Em 2005 participou no filme “Até Amanhã, Camaradas” inspirado na Obra de Miguel Tiago (Álvaro Cunhal) filme de Tino Navarro, como foi representar a época do fascismo e entrar na vida clandestina de revolucionários do PCP? Foi bastante enriquecedor em termos políticos e históricos para si?</div><div>Foi uma bela aventura. Da história e da política eu já sabia, mas a forma apaixonada como toda a equipa abraçou o projecto e a explendida direcção do Joaquim Leitão, tornaram-se polos referenciais para a minha vida profissional.</div><div>Em 2010 representou nas curtas, de Raquel Freire, “Contra a Violência”. Trabalhar este tema da violência tem uma importância especial? Como actor é imperioso representar o papel com a premissa “para uma mudança de comportamentos”?</div><div>Toda a arte tem como premissa obrigar a pensar e ficarmos pessoas mais decentes.</div><div>Entrou no filme “Os Maias - Cenas da Vida Romântica”, baseado na peça de Eça de Queirós. O que significa para si representar e conhecer ainda melhor uma das maiores obras portuguesas de sempre?</div><div>É muito bom quando um filme tem como suporte dramaturgico uma obra de arte. É sempre um privilégio navegar nessas águas.</div><div>Representou “Comunidade” de Luiz Pacheco. Mergulhar nesta peça e na sua obra como actor e como pessoa fez-lhe retirar o quê para a sua própria experiência?</div><div>Foi o meu primeiro monólogo. Foi o meu primeiro prémio (Garrett). Foi um grande desafio e uma grande luta que ganhei. “Foi a nossa glória” (Luíz Pacheco)</div><div>Tem participado igualmente noutros trabalhos, com temas fracturantes, como a guerra em 20,13 Purgatório, Rasganço, Camarate, A Esperança Está Onde Menos se Espera, como actor o que sente por dar visibilidade a questões fracturantes como a guerra, as praxes, o abuso de poder...?</div><div>É também para isso que a arte serve. Tornar o mundo mais humano. Mostrar a crueldade de certos actos e os sentimentos de muitas pessoas</div><div>Quais são os seus sonho para Portugal?</div><div>Acabar com a exploração do homem pelo homem, a ignorância e a miséria. Material e espiritual.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>22 de Março de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>22 de Março de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Luís Pinheiro</title><description><![CDATA[(It Gets Better Portugal entre 2015 e 2017 Foi um dos fundadores e Vice-Presidente desta Organização Não Governamental (ONG) sobre os direitos LGBTI e agora está no projecto Gis – Centro de respostas para a comunidade LGBTI, que é um dos projectos da associação Plano I. Como têm sido estes trabalhos e este envolvimento nos direitos, na protecção e ajuda das pessoas LGBTI e que importância têm para si?Desde muito novo que penso que é necessário termos uma voz ativa na sociedade, de fazermos algo]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/02/27/Entrevista-a-Lu%C3%ADs-Pinheiro</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/02/27/Entrevista-a-Lu%C3%ADs-Pinheiro</guid><pubDate>Wed, 27 Feb 2019 14:10:41 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>(It Gets Better Portugal entre 2015 e 2017 Foi um dos fundadores e Vice-Presidente desta Organização Não Governamental (ONG) sobre os direitos LGBTI e agora está no projecto Gis – Centro de respostas para a comunidade LGBTI, que é um dos projectos da associação Plano I. Como têm sido estes trabalhos e este envolvimento nos direitos, na protecção e ajuda das pessoas LGBTI e que importância têm para si?</div><div>Desde muito novo que penso que é necessário termos uma voz ativa na sociedade, de fazermos algo por aquilo que acreditamos ser o mais correto, não sermos apenas os críticos de bancada. Neste seguimento, algures entre 2014/2015 recebi um convite para fazer parte de um coletivo de jovens que tinha como intenção transformar o projeto Tudo Vai Melhorar Portugal numa associação. Foi um período bastante importante na minha vida, primeiro porque foi o meu primeiro contacto com o associativismo LGBTI e depois porque tive a oportunidade de conhecer e de trabalhar com pessoas com visões muito dispares da minha. Constituiu-se como uma experiência muito enriquecedora tanto a nível pessoal como profissional. Foi no âmbito do Tudo Vai melhorar que fomos convidados para o segundo encontro anual da associação Plano I, nesse encontro tive oportunidade de conhecer o centro Gis e o trabalho que iria iniciar em Matosinhos. Passado alguns meses surgiu um concurso para psicólogo no centro Gis ao qual concorri e felizmente fiquei em primeiro lugar consequentemente encontro-me a trabalhar neste projeto. A luta pelos direitos LGBTI e a luta pelos direitos Humanos são exatamente a mesma. Quando discutimos estas questões temos a ideia que estamos a discutir para uma minoria e esquecemo-nos do quadro maior, dos direitos fundamentais independentes da orientação sexual ou identidade de género das pessoas.</div><div>Neste momento são vários os casos de psicólogos, psiquiatras, médicos e outros que fazem “tratamentos de cura”. Que danos pode causar o facto de se trabalhar em comunidades LGBTI, sobretudo com jovens?</div><div>Qualquer profissional tem de seguir a sua conduta com base no que é cientificamente validado, neste sentido, e visto que não existe validação científica nas terapias de reconversão ou de reorientação sexual, não me parece viável falar nessas abordagens. Apenas digo que qualquer intervenção psicológica que crie mau estar ao utente encontra-se proibida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Contudo é importante não nos esquecermos que a comunidade LGBTI foi e ainda é vítima de um estigma e discriminação muito grande, como tal, surgirem “profissionais” que defendem este tipo de abordagem apenas vai prejudicar os processos de aceitação que muitas vezes as pessoas LGBTI ainda estão a realizar.</div><div>Esteve entre 2015 e 2017 com o projecto” Tudo Vai Melhorar”, que trabalha para mostrar aos jovens LGBTI os níveis de felicidade, potencial e positivismo que as suas vidas poderão alcançar. O que nos pode dizer sobre a experiência deste projecto?</div><div>Como já tinha dito anteriormente a minha participação no Tudo Vai Melhorar foi muito enriquecedora, tanto pessoalmente como profissionalmente, conheci muita gente da comunidade LGBTI. A grande diferença do TVM para outros projetos era o prisma positivo que tinha, ou seja, transmitir a ideia que independentemente da orientação sexual e identidade de género cada jovem podia aspirar a ter os mesmos sonhos e objetivos da sociedade maioritária. Ainda utilizo muito material criado pelo TVM (It gets better Portugal) nas minhas formações, alias aconselho vivamente a quem ler isto a fazê-lo. Existem duas minisséries fantásticas (Já melhorou / Vamos falar?) totalmente gratuitas no youtube.</div><div>Que diferenças sentiu na vida dos jovens LGBTI?</div><div>Por ser um projeto online é muito difícil percebermos o impacto real existente do mesmo mas o que tenho a certeza é que as narrativas e as séries criadas pelo It gets better Portugal servem para moldar o pensamento sobre as questões LGBTI. Neste sentido acho que não afetou apenas a vida dos jovens LGBTI, afetou e continua a afetar a vida de todas as pessoas que tem contacto com o projeto.</div><div>Acredita que esse projecto pode ser uma mais-valia para tantos jovens LGBTI que ainda sofrem homofobia, transfobia, ou outro tipo de violência?</div><div>Existem vários projetos a nível nacional que servem como mais-valia para os jovens LGBTI e claro que o trabalho realizado pelo It gets better Portugal é um deles. Existem outras associações e coletivos que fazem um trabalho fabuloso, a associação plano i, a Ilga Portugal, a casa Qui, rede ex aequo, amplos, opus gay, portugalgay.pt, panteras rosa, blergh e tantos outros/as, cada um com os seus objetivos e método de trabalho, mas todos/as com um trabalho meritório na área.</div><div>Deu formação sobre orientação sexual e identidade de género e Violência Doméstica entre Pessoas do mesmo Sexo em Coimbra e Aveiro. Para si, como é trabalhar estas problemáticas tão delicadas?</div><div>Além de psicólogo sou formador e tive oportunidade de participar num projeto de capacitação da AKTO tendo realizado 2 cursos sobre orientação sexual e identidade de género e uma de violência doméstica entre pessoas do mesmo sexo para públicos estratégicos, foi uma experiência única trabalhar com outros/as técnicos/as estas questões, aprendemos muito a dar formação, aprendemos outras visões. Considero extremamente importante estes momentos de formação e reflexão sobre estas questões e espero num futuro mais próximo que seja algo mais generalizado. Discutir direitos humanos nunca é tempo perdido.</div><div>De que forma é que devemos estar alerta sobre estas problemáticas?</div><div>Todos/as nós temos uma responsabilidade com o próximo e com tudo que nos rodeia, temos o poder de intervir e mudar o meio em que estamos inseridos, por exemplo a violência domestica é efetivamente um problema de todos e de todas nós, todos/as temos a obrigação de denunciar, temos de ter uma intervenção mais ativa na sociedade e deixar de estarmos focado apenas em nós e nas nossas vidas.</div><div>Como formador e como psicólogo, como é possível combater a violência doméstica?</div><div>A violência doméstica é um problema estrutural multidimensional e multifatorial, não é só a psicologia que tem que dar resposta, mas sim um conjunto de áreas, temos de trabalhar em equipa para combater este flagêlo social. A VD é um fenómeno que sempre existiu na nossa cultura, só que antigamente era pouco identificado e estas realidades ficavam dentro ambiente familiar, com muito trabalho começou a ser trazido ao debate público … e ainda bem que o foi feito, não nos podemos esquecer que a base da violência de género é a própria desigualdade de género, a existência e manutenção dos estereótipos de género que dão ao homem uma supremacia sobre a mulher… basta olhar-mos para os dados para percebermos que a VD é um crime de género, no sentido Homem para mulher, não quer dizer que não existam mulheres agressoras nem homens vítimas… porque claramente existem, mas os dados apontam claramente um sentido na VD.</div><div>Como é que acha que a formação sobre orientação sexual e de género pode ser determinante para a sociedade?</div><div>A sociedade para evoluir tem de ter conhecimento, imbuir conhecimento especializados em técnicos que diariamente se confrontam com realidades tão diferentes é um grande passo. Não podemos culpabilizar os profissionais que não tiveram comportamentos mais corretos com as pessoas LGBTI quando muitas vezes nunca pensaram ou sequer estudaram sobre esta área de estudos. A formação profissional contínua é uma arma de mudança com um poder incalculável para a mudança da sociedade.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Espero que Portugal se torne um País de maior inclusão, onde independentemente da nossa orientação sexual, identidade ou expressão de género não nos seja vedada as oportunidades. Que uma criança que nasça na Foz (Porto) tenha as mesmas oportunidades de vida que uma que nasça no Cerco (Porto). Que o estado se torne cada vez mais social, e que deixe de ver as pessoas como números. Que o nosso sentido de comunidade cresça, que aceitemos os outros como iguais… Que sejamos responsáveis em ajudar os refugiados e todos que procuram no nosso país um porto seguro. Acima de tudo que sejamos mais humanos.</div><div>Obrigado e continuação de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista por: Pedro Marques</div><div>Correcção por: Fátima Simões</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>27 de Fevereiro de 2019</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Ana Barradas</title><description><![CDATA[Publicou textos sobre o reformismo e sobre euro-comunismo no facebook, e https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/. Que opinião tem acerca destes dois temas, como têm sido trágicos para o progresso do comunismo e para o combate total ao capitalismo e fascismo? Os partidos de esquerda que existem entre nós têm trabalhado para uma acumulação de forças não revolucionárias, com métodos de luta que não dispensam a colaboração de classes e o apoio às reivindicações da pequena burguesia. Conjugada]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/02/19/Entrevista-a-Ana-Barradas</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2019/02/19/Entrevista-a-Ana-Barradas</guid><pubDate>Tue, 19 Feb 2019 12:44:01 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Publicou textos sobre o reformismo e sobre euro-comunismo no facebook, e https://bandeiravermelhablog1.wordpress.com/. Que opinião tem acerca destes dois temas, como têm sido trágicos para o progresso do comunismo e para o combate total ao capitalismo e fascismo?</div><div>Os partidos de esquerda que existem entre nós têm trabalhado para uma acumulação de forças não revolucionárias, com métodos de luta que não dispensam a colaboração de classes e o apoio às reivindicações da pequena burguesia. Conjugada esta táctica com a invisibilização dos proletários, dos marginalizados e dos discriminados, fica posta de lado a luta directa contra a exploração capitalista, substituída por campanhas basicamente mediáticas em prol de lutas sectoriais que, ainda que importantes, em nada abalam os poderes da classe dominante. Só servem para desarmar o ânimo dos que, para se libertarem da exploração, precisam de uma política abertamente anti-sistema, que golpeie o capitalismo no seu âmago. Esta é a tragédia dos dias de hoje, que abre o caminho para regimes mais autoritários e para a perda gradual de direitos conquistados no passado por meio de combates radicais, como aconteceu no período revolucionário de 1974-75.</div><div>A política eleitoralista das candidaturas de “esquerda”, que tudo subordinam a favor de obtenção de posições no contexto do sistema social-democrata, é puro reformismo, sem qualquer veleidade de radicalismo. São estes os lamentáveis frutos podres desta nossa época.</div><div>Desde o desaparecimento físico do comunista Francisco Martins Rodrigues que tem promovido o trabalho político que deixou, a obra escrita e o pensamento comunista. Para si, trabalhar e mostrar a sua obra, como é que pode ser uma aprendizagem em termos políticos, humanos, culturais e marxistas?</div><div>Esforçar-me por tornar mais conhecido o pensamento avançado de FMR é trabalho paciente, feito a pulso, sem resultados espectaculares nesta fase de ascenso da direita e deslizamento do reformismo para posições cada vez mais rebaixadas. Mas é muito gratificante, porque vai sempre produzindo novas ideias e novas interacções, uma disposição renovada para encarar de frente a falência das fórmulas que levaram ao soterramento do marxismo-leninismo e a necessidade de recomeçar tudo numa base de princípios. E sobretudo porque, passados estes 11 anos sobre a morte do Chico Martins, aquilo que deixou pensado, feito, dito e escrito continua a ser de extrema actualidade, sem perda de fulgor.</div><div>“Ministros da Noite - Livro Negro da Expansão Portuguesa”; “Dicionário Incompleto de Mulheres Rebeldes/ Dicionário de Mulheres Rebeldes”; “As Clandestinas”, “O Império a preto e branco”. Tem estes livros sobre o colonialismo, a luta das mulheres na ditadura do Estado Novo, como é importante abordar o colonialismo, a luta das mulheres, as agruras do Estado Novo, o esquecimento e deturpação da história do Estado Novo e do colonialismo? Hoje como vê as mulheres na UE?</div><div>A repressão, o racismo, a xenofobia, a discriminação, o neocolonialismo e a opressão da mulher… tudo isso é o produto incessante do desenvolvimento capitalista, que só se extinguirá com o surgimento de um novo sistema de produção. Para aproximarmos esse momento de sublevação total contra as taras da nossa sociedade tão atrasada, há que estar sempre em crítica, em luta e em oposição, encontrando novos caminhos, buscando novas energias nas pequenas vitórias que se podem ir alcançando. O feminismo é uma faceta dessa ampla frente de batalha, e também aí impera, na EU em geral e também em Portugal, uma abordagem reformista, com várias cambiantes, velocidades e objectivos, mas sempre dentro da ordem estabelecida. É preciso contrapor a esta onda que reforma, mas não transforma, uma postura intransigente de defesa dos interesses e necessidades das mais exploradas, esses que estão no olho do furacão da opressão e exploração capitalistas e que só se poderão libertar de tutelas se se guiarem pelos seus interesses próprios.</div><div>http://cemflores.blogspot.com/2016/06/o-caminho-e-para-frente-ha-que-retoma.html Nesta sua carta ao Colectivo Cem Flores fala sobre a forma como o capitalismo controla os governos, de como pode destruir o ambiente, do espezinhar dos direitos, que como diz ”reina o medo, o desânimo e a descrença na capacidade de mudança.” Na sua perspectiva o que falta para uma maior clareza, união e combate perante o capitalismo? Como é que estes controles, ataques a direitos, entre outros, podem prejudicar os trabalhadores, os povos, os pobres?</div><div>O que falta é trabalhar para acabar com esta organização social no seu todo. Excusarmo-nos a essa necessidade é desperdiçar o sentido da vida. A militância por esta nobre causa liberta-nos de sermos joguetes dos que nos oprimem. Têm sido muitas as derrotas e desastrosa a actual fase de dispersão. Mas a revolução é um longo processo ininterrupto e é por aí que vamos encontrar o caminho.</div><div>Tem várias publicações sobre a Revolução de Outubro e várias transcrições que fez do Francisco sobre Stalin. O que significam para si, o que podemos aprender com Stalin que liderou a Ex-URSS e a Revolução? Para si o que tem falhado na aprendizagem sobre a União Soviética, para que hoje a realidade esteja envolta de reformismos, euro-comunismos, revisionismos e oportunismos? Para si, de que forma é possível quebrar com esta realidade?</div><div>Mais que exaltar ou não o controverso papel de Staline, acredito que o importante é chegarmos a entender como superar o fracasso das primeiras experiências socialistas (na Rússia, na China, etc.) de que maneira novas tentativas, mais avançadas, poderão influenciar positivamente o processo histórico, agora com perspectivas tão negras. É preciso remar contra a maré, manter pé firme, agrupar um núcleo revolucionário, acabar com a rendição e a passividade, ter um programa de acção que faça sentido. Sem isso, estaremos entregues à barbárie imperialista e aos dúbios e tíbios reformismos de todos os matizes que prolongam a existência do capitalismo.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Tenho sonhos para o mundo, com Portugal lá dentro. Sonho com um mundo em que os produtores possam por fim apropriar-se do que produzem e, com a maior das liberdades, estejam à altura de distribuir por todos a riqueza que geram, de acordo com as necessidades de cada um. Para finalmente “podermos viver como seres humanos”, como dizia o Chico. Não é muito, é o mínimo que se pode desejar.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>19 de Fevereiro de 2019</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Isabel Silva - Artesã d'Estórias</title><description><![CDATA[Em que altura da tua vida descobriste que a tua paixão era a arte e porquê as histórias, as marionetas e o artesanato? R: Não existe uma data certa, desde que me lembro de mim que a criatividade estava lá. A minha paixão é a vida e a vida é feita de Histórias. A paixão pelos Bonecos começa cedo com os Robertos, os Amigos de Gaspar, a História Interminável… daí a começar a criar e trabalhar com marionetas vão muitas histórias.Foi fácil tomares a decisão de arriscar num Movimento de Artes, o]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/12/23/Entrevista-a-Isabel-Silva---Artes%C3%A3-de-Hist%C3%B3rias</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/12/23/Entrevista-a-Isabel-Silva---Artes%C3%A3-de-Hist%C3%B3rias</guid><pubDate>Sun, 23 Dec 2018 18:50:47 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Em que altura da tua vida descobriste que a tua paixão era a arte e porquê as histórias, as marionetas e o artesanato? R: Não existe uma data certa, desde que me lembro de mim que a criatividade estava lá. A minha paixão é a vida e a vida é feita de Histórias. A paixão pelos Bonecos começa cedo com os Robertos, os Amigos de Gaspar, a História Interminável… daí a começar a criar e trabalhar com marionetas vão muitas histórias.</div><div>Foi fácil tomares a decisão de arriscar num Movimento de Artes, o Macapi? </div><div>Foi, criar o MACAPI era uma fusão de vontades e sonhos. Era o veículo de produção independente porque era um Movimento. </div><div>Como foi teres falado com os teus pais e informá-los que ias viver da arte e para a arte? </div><div> Foi uma aventura! Na adolescência não foi fácil mas por fim correu bem. </div><div>Como surgiu a ideia de criares o teu filho Macapi em 2006? Foi muito pensado?</div><div> Não. Foi macerado em sonhos e vontades e de um momento para o outro estava a publicar o blog e a criar a minha primeira Animação do Conto com Marioneta : Tobias e As Lendas. A ideia de criar o MACAPI veio da vontade de ter uma plataforma para trabalhar, eu queria contar histórias com marionetas para a infância e assim juntei os nomes - Movimento Animação Cultural Artes Para Infância.</div><div>Em todos os grupos de teatro, companhias, escolas, o que é que tens aprendido?</div><div> A valorizar o sorriso das crianças, bem como as suas lágrimas. Não é fácil ser criança! Mas é a cereja da vida! É um privilégio oferecer sementes de crescimento. </div><div>Como foi trabalhares na Rua Augusta como Artista de Rua? </div><div> Foi uma Experiência divertida onde criava uma Lisboa colorida em aguarelas com um pequeno duende negro escondido. Conheci muita gente diferente, outros artistas...entre eles o &quot;Marionetas&quot; a quem comprei a minha primeira marioneta!</div><div>Tens alguma história engraçada como artista de rua, ou nos outros trabalhos?  Muitas! Momentos especiais, momentos presentes, mas cada vez é mais difícil escolher uma história. Nem todas são divertidas mas todas são histórias do meu caminho e todas me têm feito amadurecer.</div><div>Consideras muito importante para a divulgação e promoção do teu trabalho o teu percurso na Festa do Avante com e sem Macapi?</div><div> Considero todas as apresentações públicas muito importantes. O palco do Avante tem um abraço especial. </div><div>Foi importante para ti e para o grupo terem participado numa Festa onde se divulgam e promovem os artistas como é a Festa do Avante? Sim, foi importante e especial. No Avante estive 3 vezes, primeiro com Hansel e Gretel, depois com o Conta-te Abril e por fim Alfanui e o Eco dos Montes. A programação do Avanteatro é uma maravilha! </div><div>Como aconteceu a primeira participação no Festival Andanças e na Festa do Avante, foram convidados ou enviaram alguma proposta? </div><div> Em ambos enviei propostas sim.</div><div>O que aprendeste de mais importante nestes últimos anos com todos os projectos em que estiveste envolvida?</div><div> Que tudo na vida está sempre em constante movimento, aceitar a impermanência e fluir como um rio!</div><div>Foi fácil ser artista de rua? O que fazias? A Rua Agusta era uma casa onde me juntava com colegas da António Arroio e Chapitô a fazer malabarismo. Quando quis ser Artista de Rua escolhi Pintar, mais tarde voltei algumas vezes e fazia Estátua Viva com Marioneta. A Rua pode ser nua e crua, é por vezes um palco difícil, mas ensina bastante!</div><div>Hoje em dia é fácil viveres do mundo do espectáculo?</div><div> Viver do Espectáculo, da Arte, do Artesanato...não é fácil, é um constante desafio na corda bamba, em termos de segurança financeira, mas em termos de satisfação profissional e pessoal é do melhor!</div><div>Como é que conseguiste ter de pé o Movimento Macapi? Custou-te terminar este projecto?</div><div>Eu comecei o MACAPI em 2006 e durante 7 anos juntei muitos amigos e colegas para dar vida a Histórias, era um Movimento em movimento. Depois aconteceram mudanças...eu vim para o Alentejo, a Ana Mendes foi para Angola, a Sofia para Ourém...e a Casa de Madeira tinha sido invadida, muito espólio perdido, roubado, destruído... Por isso em 2010 mergulhei em Residência Criativa e no fim do processo percebi claramente que o MACAPI tinha chegado ao fim da sua história e era altura de criar algo novo, assim nasceu como Artesã d'Estórias.</div><div>Que balanço fazes do teu trabalho no projecto Macapi e de todo o trabalho desenvolvido?</div><div> Um balanço positivo sem dúvida, aprendi, experimentei, arrisquei, explorei...foi muito bom!</div><div>Trabalhaste com o Encenador José Teles, estiveste na Escola António Arroio, estudaste no primeiro ano no curso Ofícios do Chapitô, o que é que aprendeste? O que ficou de importante?</div><div>Passei por tantos sítios bons! Na AA aprendi que a Arte não tem limites, no Chapitô aprendi que conceber um espectáculo é uma harmonia de 7 Ofícios! O José Teles, querido amigo, companheiro, camarada ensinou a sentir o teatro de corpo e alma! Ficaram valiosos ensinamentos que aplico em cada trabalho.</div><div>Ficou o Cine Vídeo, a Fotografia, o modelar, a cor, a cenografia... Muitos Ofícios!</div><div>Fala-me das histórias sobre a aldeia, a tua ida para aldeia e o projecto que andavas desenvolver sobre isso.</div><div>Ó d'Aldeia!  Sempre quis viver no campo, perto da natureza. Em 2010 encontrei a Aldeia das Amoreiras onde o Centro de Convergência dinamizado pelo Gaia Alentejo trabalhava o projecto Aldeia de Sonho, com isto aparece o projecto Terra das Crianças e em 2012 Terra d'Abundância. </div><div>Quais são os teus projectos para o futuro? Voltar a fazer teatros de marionetas é algo que pretendes volta a fazer?</div><div>Depois de uma grande pausa para viver a Maternidade e ler muitas histórias aos meus filhos, sim claro que sim! </div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal? </div><div>Um país à beira mar plantado! Que acorde! Seja justo! Um exemplo de dignidade é sustentabilidade! </div><div>Obrigado e continuação de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista por Pedro Marques</div><div>Correcção por Albertina Ramos</div><div>23 de Dezembro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>21 de Dezembro de 2018</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao José Mário Branco - Cantautor, Compositor, Produtor</title><description><![CDATA[Fez parte do grupo que acompanhava Zeca Afonso, esteve na criação do GAC, cantou em França, fez parte do Teatro Comuna, do Organon, como cantor, actor, compositor. E trabalhou no cinema, com Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Luís Galvão Teles. Com José Afonso, Amélia Muge, Janita Salomé, entre outros. De que forma estas vivências foram determinantes para o seu percurso e para a sua formação pessoal? Para além da imensa solidão que é o (curto) momento da criação artística,]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/25/Entrevista-ao-Jos%C3%A9-M%C3%A1rio-Branco---Cantautor-Compositor-Produtor</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/25/Entrevista-ao-Jos%C3%A9-M%C3%A1rio-Branco---Cantautor-Compositor-Produtor</guid><pubDate>Sun, 25 Nov 2018 17:08:58 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Fez parte do grupo que acompanhava Zeca Afonso, esteve na criação do GAC, cantou em França, fez parte do Teatro Comuna, do Organon, como cantor, actor, compositor. E trabalhou no cinema, com Jorge Silva Melo, Paulo Rocha, Alberto Seixas Santos, Luís Galvão Teles. Com José Afonso, Amélia Muge, Janita Salomé, entre outros. De que forma estas vivências foram determinantes para o seu percurso e para a sua formação pessoal? Para além da imensa solidão que é o (curto) momento da criação artística, sempre tive necessidade, desde muito novo, de agir em grupo, de partilhar competências e paixões, revoltas e sonhos. De facto não sei dizer se foram essas vivências que determinaram o meu percurso e a minha formação pessoal, ou se foi exactamente o inverso. Possivelmente foi um permanente vai-vem entre esses dois pólos, o individual e o colectivo.Ao longo de 50 anos do seu percurso artístico tem trabalhado como compositor e produtor de cantores tão ilustres como José Afonso, Camané, Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge, João Afonso, Kátia Guerreiro, Samuel; vão estrear os filmes Alfama em si e A Portuguesa em que participou como compositor; editou o CD Inéditos (1967-1999) e a sua obra completa remasterizada e republicada. Como tem sido trabalhar com estes ilustres cantores, o que nos pode dizer sobre a sua participação como compositor nesses filmes, e como pensa que será importante esta abertura de toda a sua obra? Os cantores que tenho dirigido, são-no sempre em função das suas próprias personalidades; não faria sentido que o resultado final fosse mais meu do que deles... Não há mestres, só há discípulos; os mestres são apenas sinais de trânsito. Quanto ao resto, sempre gostei das “encomendas” do cinema e do teatro. Fiz muita música para filmes e peças. É uma característica que me tem ajudado muito ao longo da vida: a minha polivalência.Foi perseguido e preso político, e um cantor/activista político que lutava contra o sistema, esteve exilado. Para si como é fundamental dar a conhecer a forma como se vivia debaixo da ditadura, do exílio, da fome, miséria, da tortura? Claro que é preciso dar a conhecer, aos mais novos, as coisas más e boas do passado, como forma de eles poderem procurar caminhos, evitarem repetir erros e enganos, buscarem soluções para os novos problemas. Mas isso tem limites: o facto de se contar aos outros como foi não evita que eles precisem de passar pela sua experiência vivida. Tudo é igual e nada é igual.Fez várias músicas de cariz de protesto, sobre questões sociais e um CD dedicado ao povo timorense. Já escreveu e apresentou a obra “FMI” há muito tempo e mais recentemente criou o texto/espectáculo “Mudar de Vida”. O que é que esses trabalhos representam hoje para si? De que maneira foram fracturantes para a sua análise e crítica da sociedade e dos acontecimentos? São momentos de balanço e, sobretudo, de catarse, que têm mais a ver com o teatro do que propriamente com a música; são picos mais claramente autobiográficos na minha obra.</div><div>Referiu ao Blitz “O refluxo do PREC obriga-nos a meter os pés no chão e dizer assim: 'pá, vocês são uns sonhadores do caraças. Não têm jeito nenhum para isto. Houve aqui alguém que se enganou'. Mais uma vez, uma coisa tipo Maio de 68. Para mim foi uma espécie de repetição”. Como foi ter participado no PREC, ter vivido o 25 de Abril mesmo como refere, muito sonhador? Na sua perspectiva como é que a revolução e o PREC deviam ter triunfado e de que forma o fracasso foi o catalisador para o que vivemos hoje?</div><div>O Maio ’68 em França e, depois, o 25 de Abril em Portugal foram as duas grandes “festas libertárias” que tive o privilégio de viver. O verbo instrumental nessas situações não é o verbo “triunfar”, mas sobretudo o verbo “exprimir”. São descargas históricas que, não tendo um projecto político de poder, estão de facto votadas ao fracasso - ou melhor, a serem de curta duração. O mesmo foi acontecendo, ao longo da história, em todos os tempos e todas as partes do mundo, desde Spartacus à Comuna de Paris. Eu vivi esses momentos enquanto espaços-tempos de liberdade, porque o valor da liberdade é o fulcro da criação artística. Para mim foram muito mais revoltas culturais do que revoluções políticas. Nas discussões do PREC eu disse várias vezes aos companheiros: “Vocês estão na música porque são políticos; eu estou na política porque sou músico”.</div><div>Disse ao Blitz: “Pode ser que eu volte a cantar em palco. Agora não sei muito bem o que é que hei-de dizer. Esta coisa podre em que a gente vive agora, este mundo tão feio, faz com que eu não me sinta bem a ir para o palco cantar aquelas coisas do costume, a ‘Inquietação’, a ‘Eu Vim de Longe’, com as pessoas a acenderem isqueiros e telemóveis”. No entanto como vê que se possa mudar essa forma podre que vive agora e como marxista o que nos pode falar sobre a evolução mundial? Como se pode melhorar essa relação de que não gosta de público-artista? O que falta para que haja uma melhor educação e cultura musical?</div><div>O artista não é um líder que desencadeia e organiza as lutas. É apenas um testemunho do seu tempo, um possível dinamizador de forças sociais. Não é o artista que inventa o movimento, mas o movimento que inventa o artista - e assim lhe apresenta uma “encomenda social”. Que posso eu cantar agora, quando não há movimento? quando não há “encomenda social”? Comecei a sentir que as minhas cantigas em palco, mesmo sendo genericamente actuais, alimentavam - em mim e no público - uma nostalgia insuportável, um fechamento no passado, um simulacro de impulso sem projecto. Essa nostalgia é, de facto, uma forma de egoísmo. A atitude saudosista, que só se consegue agarrar ao passado, vem de certo modo substituir a necessária revolta contra o que está. É isso que me fez sentir mal no palco e suspender as actuações enquanto cantor. A nostalgia é uma arma poderosa da classe dominante para continuar a dominar.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal? Os meus sonhos para Portugal são os mesmos sonhos que alimento para todo o mundo: a organização da sociedade em função dos grandes valores que persigo desde a adolescência - a Liberdade, a Justiça, o Amor. O capitalismo, ao globalizar-se como fez a partir do séc. XX, globalizou também os problemas sociais, e veio impor um desaparecimento do Estado-Nação. Esse parece ser o cerne dos problemas actuais. A exploração capitalista passou a ser global, e só poderá ser posta seriamente em causa com movimentos sociais globais. Quem está a tentar a sobrevivência dos Estados-Nação é, em geral, uma extrema direita fascizante e violenta que só quer o recuo histórico da humanidade para os tempos do poder autocrático. Mas é preciso cuidado com a palavra “sonhos” (as palavras também têm sentidos diferentes conforme quem as domina). Qualquer pequeno avanço da Humanidade, ao longo dos tempos, foi sempre o resultado de sonhos. Todos os dias realizamos uma pequena utopia qualquer. Sem sonhos só haveria entropia, e a Humanidade já não existiria. Como eu disse em A Noite, publicada em 1985, “Se soubermos ver nos sonhos o processo / Os passos para trás não são um retrocesso”.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: João Aristides Duarte</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>25 de Novembro de 2018</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Já São Sete Anos de Entrevistas</title><description><![CDATA[Serve esta publicação conjunta. O que é raro, pois não gosto de misturar os projectos. Escrevia eu, esta publicação serve para dizer que já são 7 anos de entrevistas. Sete anos que tudo começou. Quero agradecer a todas as pessoas que me corrigiram as perguntas, que me traduziram textos e mensagens, que me partilharam as entrevistas, que passaram a palavra, que me ajudaram com as perguntas, que me sugeriram pessoas. A Albertina Ramos, Beatriz Gonçalves, a Fátima Simões, o Mário Martins, a Ana]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/19/J%C3%A1-S%C3%A3o-Sete-Anos-de-Entrevistas</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/19/J%C3%A1-S%C3%A3o-Sete-Anos-de-Entrevistas</guid><pubDate>Mon, 19 Nov 2018 20:45:20 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Serve esta publicação conjunta. O que é raro, pois não gosto de misturar os projectos. Escrevia eu, esta publicação serve para dizer que já são 7 anos de entrevistas. Sete anos que tudo começou. Quero agradecer a todas as pessoas que me corrigiram as perguntas, que me traduziram textos e mensagens, que me partilharam as entrevistas, que passaram a palavra, que me ajudaram com as perguntas, que me sugeriram pessoas. A Albertina Ramos, Beatriz Gonçalves, a Fátima Simões, o Mário Martins, a Ana Bastos, a Su Gomes, a Jú Matias, o Artur Santos, a Mariana Dias o António Dias, a Joana Bonita, Cláudia Sousa, Carla Carniça, Diogo Baena, a Joana Borges Correia, foram alguns dos que me ajudaram, mais propriamente, os principais. E para além de me terem ajudado. Aturaram-me imenso. Estou sinceramente muito grato, sem eles isto não teria sido possível. Igualmente grato estou com todas as pessoas que responderam às minhas perguntas. São o essencial de tudo isto e para quem eu trabalho. Dedico, todos os dias, o meu tempo para que se conheça melhor o trabalho de todas as pessoas que convido e que respondem às minhas perguntas. Não são projectos brilhantes, nem tenho feito um percurso sem erros. Toda a gente comete erros, uns mais e outros menos. Deixei passar algumas pessoas para trás por falta de coragem ou por falta de organização. Peço desculpa a essas pessoas. Nem sou especialista em perguntas. Contudo desde a dança à música, à poesia, ao teatro, à psicologia, à antropologia, à sexualidade, ao tantra, à investigação sexual, à violência doméstica, aos direitos humanos, dando ênfase aos da comunidade LGBT, até outros tantos, têm tido um grande foco da minha parte. Nem sempre consegui levar as entrevistas ao maior número de pessoas possível. Mas pelo menos tento e sinto-me muito feliz e muito grato por todos estes anos de tentativas e de ter chegado a muita gente. Entre 170 entrevistas. Do Vidas e Obras já passou por muitos seguidores da Amnistia, do Teatro - dos directores que já entrevistei, ou de outras actrizes e actores, de vários clubes, de muita gente ligada à investigação. Do de Sexualidade já tenho tido visitas de inúmeros países e tenho sido seguido por inúmeras pessoas nos estados unidos. Longe de ter conseguido alcançar todos os objectivos, ainda assim, consegui ir furando, e consegui dar espaço a muita gente. E espero continuar a dar. Espero promover ainda mais e que possamos conhecer melhor estes projectos, possamos aprender e que eu consiga um dia destes conseguir ganhar dinheiro com isto. Grato a todas as pessoas que contribuíram com isto, ao António Cova que fala imenso sobre o meu trabalho, ao Cláudio Garcia que um dia quis falar comigo e promover-me. E o Diogo Baena que tem estado sempre na sombra mas que me construiu os blogues e tem posto sempre tudo bonitinho e deixado as entrevistas à maneira E peço desculpa se me esqueci de alguém. Beijinhos, abraços, cumprimentos, Pedro Marques Vamos Falar de Sexualidade e Vidas e Obras</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Guilherme Antunes</title><description><![CDATA[Foi actor e é um estudioso da pintura e das artes em geral, num tempo em que se discute e se luta por 1% para a cultura, em que há graves problemas com os apoios através da DGARTES, do Estado, e com os apoios ao cinema, e ainda com a pouca programação cultural na TV. Como se pode mudar este paradigma e como se pode lutar pela igualdade e para se ser mais constante para quebrar este acérrimo ataque à cultura?Como resposta imediata à primeira questão, apenas com um governo de esquerda se atingirá]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/02/Entrevista-a-Guilherme-Antunes</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/11/02/Entrevista-a-Guilherme-Antunes</guid><pubDate>Fri, 02 Nov 2018 19:04:55 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Foi actor e é um estudioso da pintura e das artes em geral, num tempo em que se discute e se luta por 1% para a cultura, em que há graves problemas com os apoios através da DGARTES, do Estado, e com os apoios ao cinema, e ainda com a pouca programação cultural na TV. Como se pode mudar este paradigma e como se pode lutar pela igualdade e para se ser mais constante para quebrar este acérrimo ataque à cultura?</div><div>Como resposta imediata à primeira questão, apenas com um governo de esquerda se atingirá aspectos benéficos de desenvolvimento cultural. Por governo de esquerda, quero significar uma fatia determinante sob influência do PCP. Portugal não tem tido nenhuma tradição cultural no sentido de dar às novas gerações perspectivas de desenvolvimento intelectual e artístico nos mais diversos campos da História da Arte. É tudo aos repelões, não há um programa concebido para acautelar uma política dos saberes.</div><div>Repara que até o fascismo televisivo manteve uma noite de teatro semanal (que recordo muito bem), por exemplo, que ao longo de anos criou um público interessado. A tão falada exigência mínima de 1% para a cultura (é manifestamente pouco) é uma meta abaixo da qual a indigência marca pontos de desconstrução iminente de uma aprendizagem que, não se fazendo, cria guetos intelectuais que podem, perigosamente, derivar para extremismos elitistas, gerando sabedorias ínvias que facilmente não permitirão a clarividência necessária para distinguir o trigo do joio. Esta é a realidade medonha que se vive em Portugal há décadas, piorando sempre, apesar da Revolução e por causa da contra-revolução.</div><div>Se por comparação com a Itália ou com a Espanha, para não se avançar mais no território europeu, são povos habituados há muito a conviver com tempos fascinantes de erudição, como seja o famoso “Século de Ouro” espanhol, mas também o Grande Goya ou Picasso, o génio dos génios, por um lado; Dante e Petrarca, o “uomo universale”, o magnificente Renascimento, a estonteante arquitectura do Barroco, etc, permitem, apesar dos pesares, que haja um viajar imagético que pode ajudar a consolidar um colectivo compreensivo e amante do conhecimento minimamente estruturado.</div><div>Do meu ponto de vista, as realidades actuais nos diversos países da Europa jamais mudarão alguma coisa que seja, no sentido de maior desafogo para as massas. Tudo piorará porque tudo tem vindo sempre a piorar, não obstante os cantos de sereia e as ofertas de bolos com bolor com que o neo-liberalismo/fascista nos mimoseia através da troica nacional do P”S”, do PSD e do CDS.</div><div>Partilhou vários textos sobre o reformismo europeu e mundial e sobre o euro-comunismo. O que nos pode dizer sobre estes dois temas e como têm sido trágicos para o progresso do comunismo e para o combate total ao capitalismo e fascismo?</div><div>A questão histórica da traição de revolucionários que se deixaram corromper pelo excesso de passadeiras vermelhas que calcorrearam, deve obrigar os marxistas a uma vigilância constante e por serem acérrimos defensores da discussão nunca acabada no interior do Partido. Se da questão central do Comunismo é a formação ideológica dos seus quadros mais destacados, em especial, e de todo o Partido em geral, é bom de ver que a ausência desse formato organizativo trouxe ao MCI a tragédia da implosão soviética.</div><div>Foram os PCs latinos os inventores do famigerado euro-comunismo, que não é mais do que a proposta burguesa da consolidação de classes. Oficialmente foram os revisionistas franceses quem deram o pontapé de saída no abastardamento dos ensinamentos leninistas e na consolidação do Partido proletário, de classe, e sempre atento sob a liderança de Stalin. Em boa verdade, o “euro-comunista” Khrutchev já tinha dado o mote quando caracterizou a URSS como uma “sociedade socialista de todo o povo” e por conclusão elementar, já não a pátria do proletariado e do campesinato. Carrillo foi um bandoleiro das ideias e um pirata cobarde (basta que se leia, pelo menos, o livro de H. Lister). Berlinguer foi um cavalheiro elegante, de esmerada educação, um aristocrata vermelho qb., que propiciou ingloriamente a destruição completa do mais poderoso Partido comunista da Europa Ocidental.</div><div>Considerando o que sabemos hoje devido à possibilidade de consulta dos arquivos soviéticos, aprendemos que a diabolização de Stalin começou no interior do PCUS, através da canalha burguesa que se foi instalando após a morte do Grande marechal. A historiografia marxista é abundante em desconstruir o edifício anti-estalinista e anti-socialista que, já abertamente, critica a liderança politico/ideológica do próprio Lenine. Quando não, mesmo, a de Marx. Também já não são poucos os historiadores que nada tendo que ver com a Revolução Socialista de Outubro e muito menos perfilham proximamente esses ideais, acolhem com honestidade académica a grande realização soviética da sociedade.</div><div>Os dias de hoje obrigam os PCs a duas componentes essenciais, a meu ver. A primeira, é que deve retomar com a urgência para ontem uma formação ideológica exaustiva, sistemática, culta e dada por alguém melhor do que um mero funcionário papagaio da cassete conveniente. A segunda, não pode prosseguir com discursos para o povo desfasados da prática objectiva com que se compromete com outros sectores não democráticos e anti-revolucionários, numa visão despropositada de uma frente política inventada e mesmo reaccionária, já que está longe de liderar o processo de resistência.</div><div>É um cronista diário e activista político. Como vê os vários golpes no Brasil, na Venezuela, este enorme ataque dos Estados Unidos e Israel? E todos os passos dados pelo capitalismo através do negócio de armas, as guerras, os domínios nas sementes, no controlo através da internet, TV, golpes em governos? Como é que as forças comunistas e anti-capitalistas podem duma vez acabar com este enorme ataque ao progresso do mundo, da natureza, da liberdade?</div><div>Este terceiro ponto é fundamental. Naturalmente, que não sei qual a solução para erradicar os avanços notados da extrema-direita por todo o mundo, em total conluio com a chamada social-democracia, que em boa verdade é, nem mais nem menos, que o neo-liberalismo por excelência. Sei, porém, que esta deriva humana será derrotada, inevitavelmente, pelas forças produtivas unidas em moldes do Socialismo/Comunismo.</div><div>Evidentemente que estamos a assistir ao estertor, cada vez mais notório, do capitalismo, que por via disso mesmo desenvolve organicamente a sua radicalidade consubstanciada na ineficácia da sua dialéctica e que recorre historicamente ao fascismo e ao nazismo.</div><div>Penso na inevitabilidade de uma guerra mundial nos moldes mais clássicos, mais mortífera e que pode descambar a todo o momento. Nenhum império se vai abaixo sem luta, a tirania jamais se rende sem aumentar o caudal sanguinário da sua acção opcional. Imaginar que a sociedade socialista pode dar passos seguros de conquista sem sangue é uma desonestidade do circo de pseudo-comunistas que grassa pela Humanidade. Em nenhum momento da história as classes subalternas se rebelaram sem violência e jamais venceram sem levar a missão até ao fim; extirpar a classe opressora, destruir-lhe o poder exercido maleficamente, erradica-la da face da Terra.</div><div>O acontecimento recente no Brasil com a eleição do bolso-coiso é trágico. Já se fala numa coligação ideológica entre os Estados fascistas do Brasil e da Colômbia contra a Venezuela. Esta é uma possibilidade concreta do desencadeamento de guerra mundial que falei atrás. A dar-se esta envolvência de três importantes Estados regionais, faria disparar o internacionalismo cubano ali à porta.</div><div>É fundamental que todos os comunistas especialmente, mas todos os homens e mulheres de esquerda se empenhem na luta pela Humanidade, pela salvação da vida no planeta. A militância de cada um é vital se analisarmos a discrepância entre as possibilidades da nossa intervenção e o poderio, jamais igualado, da propaganda do império, que detém 90%, pelo menos, das notícias que correm pelo mundo a velocidades supersónicas. Penso que a ferramenta do feissebuque deve ser usada com critério denunciador e deveria acautelar-se uma melhor resposta organizada no âmbito partidário dos Partido comunistas.</div><div>Tem dedicado muita pesquisa e leitura a Stalin. Como foi e é importante o papel de Stalin para a URSS, o caminho do Marxismo Leninismo, o caminho para o socialismo? Hoje ainda muitos militantes comunistas e partidos comunistas odeiam Stalin. Como se criou este fantasma do horror a Stalin e o que podemos e devemos aprender sobre ele e a sua obra? E como se pode mudar essa visão de criminoso?</div><div>A cobardia e o arrastamento da falsidade contra-revolucionária iniciada com Khrustchov “y sus muchachos” deu início no seio do Partido bolchevique através da traição mais abjecta e jamais travada na sua totalidade, até à chegada do cão-traidor vindo do interior do PCUS, o lacaio burguês da gorbatchoviana 5ª coluna estadunidense, é um dado mais que conhecido e estudado que coloca o anão Gorbatchov como uma das mais repelentes criaturas sub.humanas em contacto com os terráqueos.</div><div>O analfabetismo com décadas de que são vítimas milhões de camaradas em vários Partidos comunistas, que têm do camarada Stalin uma visão diabolizada, religiosamente por Partidos rendidos aos princípios da traição e da ignomínia, devem vir a ser responsabilizados pela sua contribuição para o reforço da contra-revolução em que se insere de forma insofismável o PCP e a sua recusa sistemática de ousar, sequer, fazer a discussão que o obriga ao revolucionário marxista mais consequente que a História do Socialismo reclama da Humanidade progressista.</div><div>A central repugnante anti-estalinista tem início, com naturalidade, na propaganda alemã do nazismo. É transferida de armas e bagagens na linha da traição de Trotsky (excelentemente assassinado) e na conquista ideológica dos serviços secretos estadunidenses. Não há rigor histórico, não há comprometimento com a verdade conhecida mesmo por elementos capitalistas ao serviço do grande irmão. As realidades extraordinárias como o Socialismo respondeu à destruição inimiga, abundantemente documentada por Churchill ou por Roosevelt, por exemplo, dá uma ideia tresloucada da mentira erigida em fonte sacrílega e imutável.</div><div>A herança nazi foi retomada pelo grande irmão imperialista e anti-comunista estadunidense, irmão gémeo do ódio contundente que fez da guerra-fria o combate “templário” da cruzada religiosa contra os infiéis. A imensa superioridade da sociedade socialista impunha-se pelos números da produção quinquenal, em comparação pobre com os resultados menores (os possíveis aquela organização de sociedade) da maior mentira planetária com orientação capitalista.</div><div>Só o estudo da história acompanhado da exigência revolucionária marxista pode aquilatar consequentemente da capacidade histórica e da construção da consciência proletária e socialista, como uma resposta erecta e corajosa de fazermos afirmar os ideais superiores pelos quais tantos de nós, os melhores de nós, deram a vida. Sejamos nós dignos dessa herança e estejamos receptivos a arredar toda a espécie de canalha golpista e anti-comunista que se encontra instalada no interior dos nossos Partidos comunistas reformistas e anti-estalinistas.</div><div>Esteve na UDP. Como vê o declínio da UDP, do PCR e de outros pequenos partidos que foram criados durante o PREC como partidos revolucionários e a criação de partidos reformistas desde o declínio destes partidos?</div><div>Nunca estive na UDP. Simpatizei, contudo, com esta força política até à eleição de Otelo, em quem lamentavelmente votei. Com a excepção da UDP, todos os outros inúteis partidos prejudicaram profundamente o desenrolar do processo revolucionário, nomeadamente na influência perniciosa que conseguiram junto de alguns sectores militares; despolitizados, esquerdizados e na sua consequência, comandados pela CIA via P”S”/Soares e toda a reacção portuguesa, tiveram o seu desaparecimento quando o capital deixou de precisar dos prestimosos serviços de combate contra a Revolução socialista que se tentava construir no nosso país e, muito especialmente, no combate privilegiado feito ao PCP.</div><div>Com naturalidade e sem originalidade, toda essa gente, na sua imensa maioria, rumou a outras vidas, largaram essas “criancices próprias da idade” e lá foram para as carreiras burguesas para que estavam fadados, no cumprimento classista das suas origens. Pequeno-burgueses da província, uns, com algo de seu; intelectuais de pacotilha, outros, intrinsecamente anti-comunistas com “uma vida tão bonita à sua frente” e a burguesia mais estúpida da Europa, como alguém lhe chamou, pronta e ávida por realizar o assalto às prebendas que estavam mesmo ali à disposição, para quem não tivesse nenhuma relação com a dignidade, para quem apenas o que contou foi a noção rigorosa que o Estado estava a saque e que corrompendo tudo o que fosse preciso, meteoricamente chegariam ás principescas fortunas que hoje são um dado inalterado da “democracia” nacional.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>O sonho que quero que aconteça em Portugal, provavelmente sem eu o ver, é a vitória da Revolução socialista e a implantação de um governo marxista que honre e compreenda todo o glorioso passado das conquistas inigualáveis do movimento comunista internacional, na referência incontornável da Grande Revolução Socialista de Outubro.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: J.M.</div><div>01 de Novembro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a ISABEL CASTRO HENRIQUES - Historiadora</title><description><![CDATA[Entrevista a ISABEL CASTRO HENRIQUES - Historiadora. Doutorada em História (História de África) pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne (1993). Professora de História de África na FL-UL (1974-2009). Investigadora do CEsA/ISEG-UL (desde 2013).Foi presidente do Centro de Estudos Africanos da FLUL desde a sua fundação em 2002 até à sua extinção em 2009 e é investigadora do Centro de Estudos sobre África (CESA) do ISEG - Universidade de Lisboa. Foi igualmente membro de 1995 a 2005 do Comité]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/10/31/Entrevista-a-ISABEL-CASTRO-HENRIQUES---Historiadora</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/10/31/Entrevista-a-ISABEL-CASTRO-HENRIQUES---Historiadora</guid><pubDate>Wed, 31 Oct 2018 14:09:17 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista a ISABEL CASTRO HENRIQUES - Historiadora. Doutorada em História (História de África) pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne (1993). Professora de História de África na FL-UL (1974-2009). Investigadora do CEsA/ISEG-UL (desde 2013).</div><div>Foi presidente do Centro de Estudos Africanos da FLUL desde a sua fundação em 2002 até à sua extinção em 2009 e é investigadora do Centro de Estudos sobre África (CESA) do ISEG - Universidade de Lisboa. Foi igualmente membro de 1995 a 2005 do Comité Científico Internacional do Projecto UNESCO &quot;A Rota do Escravo&quot; (UNESCO/Paris) e fundadora e presidente do Comité português do mesmo projecto , desde a sua fundação 1998 até à sua extinção em 2015. Co-directora das colecções &quot;Tempos e Espaços Africanos&quot; e &quot;Rota do Escravo – Estudos e Fontes&quot;, é autora de vários estudos consagrados à questão da escravatura e do tráfico de escravos, como o livro A Rota dos Escravos: Angola e rede do comércio negreiro (Lisboa, 1996, com João Medina), e outros textos que abordam a questão na perspectiva da história de África.</div><div>Foi também Coordenadora Científica do Programa Museológico do Museu da Escravatura de</div><div>Lagos – Núcleo do Mercado de Escravos (2014-2016) e Coordenadora Científica do Programa</div><div>Museológico do Memorial da Escravatura e do Tráfico Negreiro de Cacheu, Guiné-Bissau</div><div>(2015-2016) (1).</div><div>PM: Que importância tem para si o facto de ter desenvolvido este projecto e a coordenação científica de um tema tão delicado e fulcral como a escravatura através dum Museu?</div><div>O que a tem levado a dedicar-se a estes vários estudos sobre a escravatura e as suas rotas, e as redes de comércio negreiro? Para si de que forma é determinante dar a conhecer esta história terrível - a escravatura - que se verificou em África?</div><div>ICH: Há várias décadas que uma das questões históricas que me tem ocupado e preocupado é o fenómeno da escravatura e do tráfico de escravos levado a cabo pelos Europeus em África e que envolveu, durante cerca de quatro séculos, milhões de homens, mulheres e crianças africanos, escravizados em África através de um sistema de comercialização organizado pela Europa, que os reduzia a mercadorias e os transportava sobretudo para as Américas, onde eram utilizados como escravos nas mais diversas tarefas organizadas pelos colonizadores europeus, destinadas à exploração das riquezas americanas e ao desenvolvimento das economias europeias. Este fenómeno histórico que teve uma enorme amplitude cronológica</div><div>(vários séculos), geográfica ( três continentes - África, América, Europa) e socio-cultural ( a organização de sociedades inéditas americanas e a persistência dos marcadores culturais nas Américas dos nossos dias, mas também repercussões na Europa e graves consequências sociais e políticas em África ) tem uma importância histórica de enorme relevância que marca não só a actualidade, nomeadamente com a forte e interventiva presença dos Afro-descendentes, mas também devido aos vestígios culturais que permanecem um pouco por tudo o mundo, já que as migrações africanas tiveram continuidade em vários espaços do mundo, em outros contextos históricos que se seguiram ao fim do tráfico esclavagista.</div><div>A dimensão e a importância deste fenómeno histórico marcado pela violência, nas várias</div><div>sociedades do mundo que o viveram e que o reflectem, impõem o seu estudo, a sua difusão, o</div><div>seu ensino : o fenómeno faz parte das suas Histórias e o seu rigoroso conhecimento constitui,</div><div>para além do saber sobre o passado, um factor fundamental para a desmontagem de ideias e</div><div>de preconceitos que se foram fixando, criando leituras de desvalorização e de inferiorização</div><div>dos Africanos, que mesmo em situação de dominação desenvolveram estratégias de</div><div>sobrevivência física e de preservação de valores culturais, hoje presentes nas sociedades</div><div>actuais. Os Museus podem e devem ser espaços de conhecimento, de ensino, de educação e de</div><div>divulgação cultural transmitindo a História, dando a conhecer de forma dinâmica os muitos problemas históricos do passado, apontando soluções necessárias no presente e traçando caminhos do futuro: este foi o objectivo que presidiu aos projectos levados a cabo nos dois espacos museológicos referidos, situados em contextos históricos e culturais diferentes. Um em Portugal (Lagos), outro na Guiné-Bissau (Cacheu), ambos ligados ao fenómeno da escravatura e do tráfico de escravos africanos revelam, naturalmente de forma diferente, passados que marcaram a história portuguesa e a história das populações africanas, em geral, guineenses, em particular.</div><div>No caso português, a questão da escravatura e do comércio de escravos, que marcou a história das relações dos Portugueses com os Africanos durante vários séculos, foi objecto de um silêncio quase generalizado dos historiadores durante muito tempo, apenas quebrado momentaneamente no século XIX pelas opções abolicionistas de Sá da Bandeira e dos seus seguidores, que denunciaram o sistema esclavagista e aboliram o tráfico e a escravatura nas colónias portuguesas. Mas os tempos oitocentistas trouxeram as ideias e teorias que fixavam</div><div>'cientificamente' a inferiorização dos Africanos, remetendo-os para um espaço infra-humano, sem história, sem escrita, sem civilização, confortando assim o passado esclavagista europeu e a conquista e a exploração coloniais europeias organizadas a partir dos finais do século XIX. Neste processo de desvalorização dos Africanos, que alimentou as teorias e as ideologias legitimadoras do colonialismo do século XX - até quase ao século XXI, no caso português -, assumiu um papel importante pelos seus escritos e pela sua influência no espaço intelectual português a figura de Oliveira Martins que, nas décadas de 1880-1890, anunciava &quot; ...abundam os documentos que nos mostram no negro um tipo antropologicamente inferior, não raro próximo do antropóide, e bem pouco digno do nome de homem&quot;. De mercadoria e escravo, no passado esclavagista, a selvagem e indígena, na actualidade colonial novecentista, o Africano viu recusadas a sua inteligência e a sua humanidade.</div><div>Quanto à questão da escravatura e do comércio de escravos em África tem vindo a ocupar um papel relevante na investigação histórica africana, depois de um longo silêncio hoje ultrapassado graças ao desenvolvimento de uma historiografia africana cada vez mais preocupada em esclarecer os fenómenos históricos que marcaram o seu passado e que foram ignorados ou muitas vezes deturpados pelas historiografias coloniais. Hoje, as investigações sobre a escravatura e o tráfico de escravos sublinham sobretudo a singularidade e a violência de um sistema europeu imposto às populações africanas, que as escravizava, des-socializava, des-territorializava, escamoteando ainda por vezes a participação dos chefes africanos no negócio dos escravos com os europeus instalados no litoral. Estes temas são hoje estudados com mais rigor, inserindo-os nos diferentes contextos políticos regionais (reinos, impérios, Estados africanos da época) trabalhando sobre as redes comerciais internas e sobre as relações inter-africanas, e procurando reflectir sobre a especificidade das formas de escravatura ou, dizendo com mais precisão, de dependência africanas, desde sempre existentes nas sociedades de África.</div><div>Ao longo da sua vasta carreira, a sua área de investigação tem abrangido diversos temas sempre ligados à África, entre eles - para além da &quot; Rota dos escravos&quot; e da escravatura -, o colonialismo e a situação colonial, a história de Angola e da África central, a presença africana em Portugal e outras problemáticas ligadas à história da África, que se reflectem em várias publicações. Entre elas, salientam-se: Percursos da Modernidade em Angola. Dinâmicas comerciais e transformações sociais no século XIX, Lisboa,1997; São Tomé e Príncipe. A invenção de uma sociedade, Lisboa, 2000; O Pássaro do Mel. Estudos de História Africana, Lisboa, 2003; Os Pilares da Diferença. Relações Portugal-África - Séculos XV-XX, Lisboa, 2004; Território e Identidade – A Construção da Angola Colonial, Lisboa, 2004; A Herança Africana em Portugal, Lisboa, 2009; Os Africanos em Portugal, História e Memória, séculos XV-XXI, Lisboa, 2011; “Colonialismo e História”, in Dicionário de Historiadores Portugueses, Lisboa, 2014; &quot;Classificar o Outro: historização e flutuação dos conceitos&quot;, in Reis Negres, Cabells Blancs, Terra Vermella, Barcelona, 2016; “Os Africanos em Portugal: integração e africanidade”, in História Geral da África, 9, Paris, UNESCO, no prelo; “ Modalidades da ‘escravatura’ no centro-sul de África ”, in História Geral da África, 9, Paris, UNESCO, no prelo. Também ao longo de quase 40 anos se dedicou a leccionar História de África, que introduziu em 1974-75 na Faculdade de Letras de Lisboa, e História das relações afro-portuguesas na mesma Faculdade, criando e coordenando os Programas de Mestrado e de Doutoramento em História de África, bem como a Licenciatura em Estudos Africanos na Universidade de Lisboa, entre 1999 e 2009.</div><div>PM: O que a tem levado a incluir esta vasta área temática nos seus estudos? Tem sido gratificante poder aprender sobre a história da África, sobre a história colonial, sobre a história dos Africanos em Portugal e sobre as suas relações? Que experiências tem tirado daí? Que tratamento, visão e atenção devem ser dados a estes estudos e qual a relação que temos com esta parte importante da nossa história portuguesa?</div><div>ICH: Se o meu interesse pela África vem de longe, da adolescência e de um contacto difuso através de imprensa estrangeira com as realidades marcadas pela violência vividas por Africanos ou seus descendentes, quer em África, quer na América do Norte nos anos Sessenta, foi sobretudo a universidade francesa que, no início da década de Setenta me permitiu estudar e compreender a História da África que, em Portugal, era não só inexistente no quadro universitário e naturalmente em todo o ensino da História, como recusada era a sua presença no âmbito da história universal: a África e os Africanos eram considerados povos sem uma história autónoma - eram, quando muito, uma espécie de apêndices da história dos Portugueses em África, servindo para alimentar a heroicidade portuguesa -, tal como não tinham religião, cultura, sistema político e território organizados, antes da chegada e da colonização levada a cabo pelos Europeus, em geral, e pelos Portugueses, em particular. Em Portugal, os tempos eram ainda os do colonialismo que haveria de durar até 1974 e as ideias de desvalorização dos Africanos e do seu enselvajamento, de recusa da sua autonomia histórica associadas às ideias de valorização da secular presença portuguesa em África e das benfeitorias para os povos africanos daí resultantes, legitimavam a dominação e a guerra colonial portuguesas, num momento histórico em que se assistia de uma forma generalizada ao fim dos impérios e à independência dos povos colonizados. Durante vários séculos, os Portugueses, instalados em alguns pontos do litoral do continente africano estabeleceram relações com inúmeros Estados e povos africanos, mantendo preferencialmente contactos de natureza comercial, marcados sobretudo pelo comércio de escravos e pela violência esclavagista, seguindo-se, na segunda metade do século XIX, um comércio de mercadorias africanas, como o marfim, a cera, a borracha, as oleaginosas, produzidas pelos Africanos, que gerou em África um período de mudança revelador das capacidades políticas, técnicas, culturais das sociedades africanas, pondo em evidência uma apropriação selectiva de propostas inovadoras europeias. Esta situação oitocentista marcada por dinâmicas africanas originais, viria a ser destruída pela ocupação e colonização portuguesas, a partir dos finais do século XIX, que alteraram de forma violenta os territórios existentes, os sistemas políticos e as estruturas africanas seculares, impondo um sistema de dominação e de exploração, generalizado pelos Europeus em África.</div><div>Esta é uma longa história que, se pertence à história africana, constitui também uma parte muito significativa da história portuguesa que deve ser valorizada, revista, estudada e ensinada, com o rigor necessário a um conhecimento que permita compreender o positivo e o negativo de relações seculares, marcadas por várias formas de violência sobre as populações de África.</div><div>&quot;EU SOU HISTORIADORA&quot;</div><div>&quot;Peço-te que me recomendes um psicólogo e tu mandas-me um preto?”, dizia alguém a um amigo a quem tinha pedido uma sugestão de um psicólogo para a sua empresa. O preconceito, a discriminação, a recusa da diferença e da igualdade dos homens, atitudes forjadas ao longo da História, fundamentam a minha investigação, que procura esclarecer o hoje, interrogando o passado e traçando caminhos do amanhã.&quot; (2) Refere ainda neste vídeo https://edupreconceito.wordpress.com/2013/04/19/isabel-castro-henriques/ que é impossível compreender o preconceito sem recuar no tempo.</div><div>PM: Como acha que é possível reverter todo este preconceito e ignorância ainda totalmente presentes na nossa sociedade portuguesa como são exemplo os bairros nos arredores de Lisboa? Quais são os seus sonhos para Portugal e para África?</div><div>ICH: A construção do preconceito em relação aos Africanos resulta de um longo processo histórico, continuado e alimentado por diferentes situações e contextos históricos que se foram sucedendo durante vários séculos, sobretudo desde o século XV, com a presença crescente de homens e mulheres negros introduzidos como escravos em Portugal e depois com as políticas e ideologias da dominação colonial portuguesa em África estabelecida nos finais de Oitocentos e durante um longo século XX, agravado pela violência da guerra. A mudança, isto é, a reversão do preconceito, é certamente uma dura e demorada tarefa que implica eliminar a ignorância, estudar os fenómenos históricos em África, centrados nos Africanos e nos processos seculares internos de transformação social, política, económica, religiosa, e divulgar o conhecimento histórico da África e dos Africanos, através dos vários níveis do ensino, das diferentes formas possíveis de educação e de formação de jovens e menos jovens, das muitas possibilidades e domínios que a actividade cultural oferece, da organização de acções destinadas a reflectir sobre a diferença que caracteriza a humanidade, sobre o respeito para com o Outro, sobre o dever de solidariedade entre os homens....</div><div>Quanto aos sonhos…certamente muitos. Para além do fim dos vários tipos de pobreza e das várias formas de violência, o fim do racismo, do preconceito, da discriminação.... que existem um pouco por todo o mundo. </div><div>Outubro 2018</div><div>1- https://pascal.iseg.utl.pt/~cesa/index.php/menucesa/equipa-de-investigacao/379</div><div>2- http://www.cienciaviva.pt/mulheresnaciencia/index.asp?id=212</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>30 de Outubro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>31 de Outubro de 2018</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Sociólogo e Investigador Miguel de Barros</title><description><![CDATA[Criou o artigo "RAP KRIOL(U): O pan-africanismo de Cabral na música de intervenção juvenil na Guiné-Bissau e em Cabo Verde" com o sociólogo Redy Wilson Lima. O que o levou a fazer esta investigação? Para si, que importância tem este retorno à invocação de um homem de acção, da revolução? Tendo escrito este texto e tendo investigado sobre o papel de Amílcar Cabral no rap, de que modo sente que o mesmo é motivador, e o que tem levado o rap a despertar consciências e a fazer agir?R: A nossa]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/08/13/Entrevista-ao-Soci%C3%B3logo-e-Investigador-Miguel-de-Barros</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/08/13/Entrevista-ao-Soci%C3%B3logo-e-Investigador-Miguel-de-Barros</guid><pubDate>Mon, 13 Aug 2018 14:41:55 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Criou o artigo &quot;RAP KRIOL(U): O pan-africanismo de Cabral na música de intervenção juvenil na Guiné-Bissau e em Cabo Verde&quot; com o sociólogo Redy Wilson Lima. O que o levou a fazer esta investigação? Para si, que importância tem este retorno à invocação de um homem de acção, da revolução? Tendo escrito este texto e tendo investigado sobre o papel de Amílcar Cabral no rap, de que modo sente que o mesmo é motivador, e o que tem levado o rap a despertar consciências e a fazer agir?</div><div>R: A nossa preocupação não foi estudar o papel de Cabral. O nosso enfoque foi sobre a condição dos jovens nos/dos dois países que partilharam um processo histórico e revolucionário comum e nessa perspectiva ver como as ideologias estão a ser recriadas num contexto social diferente e adverso. Nesta base, procuramos sobretudo tentar apreender como os jovens fora do espaço de protagonismo político-partidário, nas periferias e nas diásporas guineenses e cabo-verdianas que não tiveram nenhum contacto com formação ideológica durante o seu processo educativo, resgatam e reconstituem um novo espaço de afirmação cultural e identitária africanista e que lhes empoderam enquanto produtores da sua própria consciência social, cívica e política. É isso que encontramos através de intervenção desses MCs na música RAP.</div><div>Essa intervenção constitui, por um lado, um manifesto cultural e político mobilizador baseada na contestação da governação incapaz de superar o subdesenvolvimento devido à corrupção e ao autoritarismo que os relega para “transições incertas”, por outro, o RAP é a base da unidade da sua acção construtiva para conquistar o espaço público. Figuras como Cabral, Nkrumah, entre outros... são ícones com quais dialogam para não só captarem atenção, mas também para tonar o debate mais endógeno a partir de uma agenda local africana, isso é transversal tanto nos jovens que encontramos em na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde como nos contextos das suas diásporas.</div><div>Tem um artigo sobre “Participação Política Juvenil em Contextos de “Suspensão” Democrática: a música rap na Guiné-Bissau”. O que aprendeu e como é que o papel do rapper e o seu estudo podem ser essenciais para que possamos agir?</div><div>R: o estudo foi feito no quadro de um projeto de investigação “Missões Exploratórias sobre Juventudes no contexto transnacional dos países da CPLP: processos de identificação, expressões culturais e mediações” no qual estavam presentes investigadores de Brasil, Portugal, Cabo-Verde e Guiné-Bissau, cujo objectivo era explorarem os dilemas das juventudes contemporâneas, as múltiplas formas de expressividades e agências juvenis, bem como as representações sociais elaboradas sobre as juventudes e por elas, envolvendo ainda as relações sociais e de poder, numa perspectiva que cruza experiências locais, nacionais, transnacionais.</div><div>Na altura, a Guiné-Bissau estava viver um regime de golpe de estado altamente impopular e que cujo regime utilizava todos os meios para fazer silenciar as vozes críticas. As estruturas públicas e formais estavam bloqueadas dentro das suas burocracias e discursos de pouca consistência e até de alguma conivência sem capacidade de se impor perante os militares. Foram os rappers em articulação com as rádios, em particular os produtores de programas culturais que conseguiram fazer emergir com maior impacto a onda contestatária e que permitiu denunciar os golpistas e desconstruir a sua narrativa de medo e de imposição de uma vontade não democrática sem base legal e de legitimidade.</div><div>A coragem dos rappers em abordar de forma crítica a ausência de reformas públicas e a possibilidade do país não só se estabilizar mas conseguir, igualmente, enveredar-se pela via do desenvolvimento, responsabilizando os políticos e militares, ganhou eco junto da população como se fosse uma espécie de auto-representação de um recalcamento que se liberta. Ou seja, o momento acabou por servir como uma importante base de afirmação de uma sociedade civil alternativa que protagonizou acções de mobilização num formato novo e impactante em termos de despertar consciências que conseguiu ampliar a potência cívica da população guineense.</div><div>Publicou os livros “A Participação das Mulheres na Política e na Tomada de Decisão na Guiné-Bissau: da consciência, perceção à prática política” (2013) e “Manual de Capacitação das Mulheres em Matéria de Participação Política com base no Género” (2012), ambos em co-autoria com a escritora Odete Costa Semedo. O que vos motivou a escrever estes livros, e de que forma foi e é determinante para vocês darem este impulso, e publicarem este manual de conhecimento e de incentivo? Do desenvolvimento deste livro até à sua apresentação e divulgação, o que aprenderam e como contribuíram para a mudança da consciência das mulheres? Como pode este livro ser essencial para a consciência da falta de direitos, da violência e da falta de igualdade para com as mulheres?</div><div>R: Ao contrário dos outros estudos, este foi uma solicitação da representação das Nações Unidas na Guiné-Bissau que pretendia compreender as causas da desigualdade de género, que segundo os dados da ONU Mulheres, colocava o país na 148ª posição num ranking de 155 países em 2010 (apenas 13% de representação no parlamento) e ao mesmo tempo trabalhar na definição de uma estratégia de reforço de capacidades das organizações de mulheres com vista aumentar a sua capacidade de influência e deste modo aumentar o seu protagonismo e representação nas esferas de decisão.</div><div>Mas para além de analisar o papel das mulheres na política-partidária, Governo e Assembleia Nacional Popular, este estudo olha para o papel das mulheres na estrutura do poder tradicional, nos tribunais, no sector privado, nas organizações da sociedade civil, quer sejam vocacionados para a defesa dos direitos das mulheres ou não, e nas diversas redes femininas. Olhamos ainda para algumas “agências” das mulheres como as Mandjuandades, bideiras e grupos de “abota” que têm permitido a afirmação não só de sociabilidades como a construção de alternativas de emprego, geração de rendimentos e até influências na governação comunitária.</div><div>O estudo foi desenvolvido numa base metodológica de investigação-acção, com a formação em simultâneo e implicou a realização de dinâmicas de desconstrução da representação social das mulheres e o estímulo ao despertar de consciências de situações do quotidiano proporcionadas pelas mulheres que concorriam para o seu desempodramento desde o espaço doméstico até ao espaço público. Daí que o Manual foi construído com base na experiência formativa e de educação não formal fruto do trabalho com as mulheres.</div><div>A partir dessa experiência, pude trabalhar no apoio à Plataforma Política das Mulheres e à a Rede das Mulheres para a Paz e Segurança na elaboração do seu plano estratégico, e também, na assistência para a elaboração e implementação acompanhada da Estratégia de Lobbying e Advocacia com vista à difusão, conhecimento e apropriação do Anteprojecto de Lei de Quotas, que foi usada para a sensibilização de diferentes instituições públicas e privadas, partidos políticos, líderes comunitários e outros, que e culminou com uma adopção histórica pelo parlamento em Agosto deste ano, afixando em 36% (dos 40% reclamados pelas mulheres) a representação das mulheres na esfera de decisão.</div><div>Desenvolveu os trabalhos “Economia Informal e Estratégias Juvenis em Contexto de Contingência”, “Associativismo juvenil enquanto estratégia de integração social: o caso da Guiné-Bissau”, e o seu último livro (2015) versa sobre as relações entre a “A Sociedade Civil e o Estado na Guiné-Bissau: dinâmicas, desafios e perspetivas“, para além de outros estudos sobre política e processos de construção democrática e mobilização social. O que o levou a estudar a política social, as estratégias e integrações do associativismo juvenil, e de que maneira têm sido fundamentais para a sua aprendizagem e decisivas para um país melhor?</div><div>R: Desde os meus 14 anos de idade estive envolvido com o movimento associativo. Faço parte da geração que protagonizou a emergência do associativismo juvenil, mas sobretudo na sua fase de afirmação enquanto principal espaço de integração social dos jovens nas cidades guineenses, superando as relações de convivialidade criadas nas escolas ou de grupos de futebol, na sua maioria masculinizados ou ainda de espaços de prática religiosa no qual há um controle forte das manifestações e de produção de sentidos emancipatórios.</div><div>igrejas</div><div>O estudo sobre associativismo juvenil constituiu a minha primeira iniciativa de pesquisa independente, através do no qual procurei explicar o que foi o processo de associativismo juvenil na primeira década de experiência da vigência da democracia num país cuja maioria da população era analfabeta e numa altura em que não existia nenhuma universidade, mas mesmo assim os níveis de criminalidade e violência urbana eram os mais baixos de toda a África Ocidental. Era importante demonstrar do ponto de vista científico o que foi um modelo virtuoso, deixar memória escrita produzida e reconhecida sobre esse processo, mas também sinalizar os efeitos perniciosos do contexto de fragilidade que levou à falência do modelo. Neste particular, o estudo demonstrou que a ausência de espaços de formação ideologia ideológica ao nível dos partidos com vista à integração dos jovens associada à institucionalização precoce do movimento reivindicativo juvenil por parte de agências internacionais de financiamento tiveram um carácter reflexivo inibidor, na medida em que contribuíram para obstaculizar a formação de verdadeiros movimentos sociais, assistindo-se a uma degradação do ímpeto inicial, transformando-os num espaço de disputas, monotonias, alienação político-partidária através de recrutamentos para funções oportunistas.</div><div>É deste modo que me interessei em aprofundar, estudando sempre de forma independente, dois elementos essenciais: - como é que os jovens estavam a produzir iniciativas que aportam formas de inventividade e criatividade nas estratégias autónomas de sobrevivência (estudo sobre a “Economia Informal e Estratégias Juvenis em Contexto de Contingência”) e como o Estado estava a percepcionar e adequar as demandas sociais (estudo sobre “A Reconstrução do Estado no Contexto dos Estados Frágeis-o caso da Guiné-Bissau”).</div><div>Foi o acumular de toda essa experiência que me levou a iniciar a construção de equipas de pesquisa aplicada e fundamental especializadas e que me tem permitido compreender melhor a estruturação social e institucional da Guiné-Bissau, em particular sectores mais vastos e complexos ao nível nacional, como é o caso da relação entre as Organizações da Sociedade Civil e do Estado, bem como a nível africano e da América do Sul sobre processos de emancipação social e desenvolvimento sustentável e endógeno.</div><div>Quais são os seus sonhos para a Guiné-Bissau?</div><div>R: Acredito muito no meu país e na capacidade dos guineenses. Por isso, sonho e luto com e por uma sociedade justa, capaz, autónoma, próspera e solidária na forma como se constrói e se reinventa, baseada na equidade entre povos, géneros, espaços e gerações. Para concretizarmos esse sonho em projecto de sociedade, o nosso investimento público e colectivo na educação, cultura, produtividade e criação de tecnologias sociais de convivência deverá ser os mais qualificados, de modo que possamos enfrentar os desafios do presente e do futuro, reconhecendo-nos como um povo coeso e mobilizado para a transformação estrutural que todos almejamos. </div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: António Chagas Dias</div><div>16 de Agosto de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Mariana Violante do Grupo 32/Leiria da Amnistia Internacional</title><description><![CDATA[Foste recrutadora do projecto “Face to Face” e já tens contribuído depois disso para o próprio projecto. Como tem sido estimulante dar a cara pelo mesmo? Através deste projecto, que ideias/ colaborações têm surgido?1- O Face to Face foi a melhor porta de entrada que poderia ter tido para a minha participação na Amnistia Internacional. É um projecto exigente que nos obrigada a saber tudo, ou quase tudo, sobre o trabalho da Amnistia, para poder responder às dúvidas das pessoas que procuramos]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/08/12/Entrevista-a-Mariana-Violante-do-Grupo-32Leiria-da-Amnistia-Internacional</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/08/12/Entrevista-a-Mariana-Violante-do-Grupo-32Leiria-da-Amnistia-Internacional</guid><pubDate>Sun, 12 Aug 2018 10:02:49 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Foste recrutadora do projecto “Face to Face” e já tens contribuído depois disso para o próprio projecto. Como tem sido estimulante dar a cara pelo mesmo? Através deste projecto, que ideias/ colaborações têm surgido?</div><div>1- O Face to Face foi a melhor porta de entrada que poderia ter tido para a minha participação na Amnistia Internacional. É um projecto exigente que nos obrigada a saber tudo, ou quase tudo, sobre o trabalho da Amnistia, para poder responder às dúvidas das pessoas que procuramos trazer como apoiantes para a organização. Com o Face to Face obtive um treino muito importante, que me permitiu ser coordenadora do grupo de Leiria e depois candidatar-me a órgãos sociais da Amnistia portuguesa. Tem sido, portanto, muitíssimo estimulante para o meu trabalho na organização.</div><div>Há cerca de 10 meses entrevistaram várias personalidades de Leiria sobre a situação dos refugiados do Médio Oriente e partilharam uma mensagem dos jovens do Colégio Dr. Luís Pereira da Costa para o governo, para que os refugiados não sejam tratados como mercadoria. Para ti, que importância tem abordar-se o tema dos refugiados e a sua constante miserável situação? Como é que iniciativas como estas podem ser uma mais-valia para se consciencializar a população acerca da situação dos refugiados?</div><div>2- Cada pessoa com quem falamos sobre a questão das pessoas refugiadas é um potencial novo aliado na luta por melhores condições de vida para todas as pessoas, e cada vez que falamos com a população portuguesa é uma oportunidade para esclarecer mitos que se vão cristalizando em alguns círculos menos esclarecidos quanto a esta questão. O nosso trabalho com as escolas é importantíssimo nesse sentido. E vale a pena dizer que Portugal é dos países europeus com a população mais acolhedora e onde a sociedade civil se vai organizando como pode para ajudar quem mais precisa. É, portanto, um bom país para se pressionar os governantes a fazer mais pelas pessoas refugiados, uma vez que ainda há muito por fazer.</div><div>No início deste ano foste com o José Tavares fazer uma sessão à Escola Calazans Duarte, sobre as Comemorações da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Houve uma apresentação de uma aluna sobre os direitos das mulheres (1). De que forma é que estas sessões e intercâmbios de ideias e projectos podem dar a conhecer a violência e os ataques aos direitos humanos e das mulheres? É importante e essencial?</div><div>3- O nosso grupo tenta fazer o máximo de acções em escolas, porque acreditamos muito no potencial da Educação para os Direitos Humanos (EDH). Desde o início, o tema da discriminação de género é um dos principais pontos de abordagem, através de várias campanhas da Amnistia, e temos tido várias sessões muito bem sucedidas neste campo. Também já fizémos uma exposição sobre o tema, “A Violência de Género Começa Numa Piada” que tem ainda hoje reações muito positivas e já passou por vários pontos do país. É um trabalho, a meu ver, absolutamente essencial para fazer pensar a violência a que as mulheres estão constantemente</div><div>sujeitas na nossa sociedade.</div><div>Estás inserida na Rede de Acção Jovem da Amnistia Internacional (ReAJ). Como é que tem sido esta experiência? Como coordenadora do Núcleo de Leiria e como colaboradora desta Rede, de que forma é que estes projectos são enriquecedores para os jovens?</div><div>4- Desde que regressei a Leiria que não faço parte da ReAJ, embora colaboremos com eles em algumas acções. O próprio grupo de Leiria é muito jovem e concebe sempre as duas acções a pensar na juventude, uma vez que acreditamos que a nossa força de Activismo será tanto maior quanto mais jovens participarem nela, uma vez que os jovens representam uma importante faixa etária da população e tem uma tremenda capacidade de mobilização. Além disso é para eles/as que queremos criar um mundo mais justo e de plenos direitos. Faz sentido que sejam as camadas jovens a tomar as rédeas do Activismo, dando o exemplo aos mais velhos e aos ainda mais novos.</div><div>O Núcleo de Leiria recomeçou há um ano, e estás na Amnistia desde 2012. De acordo com esta experiência, como é que tens visto a luta contra a violência, principalmente a violência exercida sobre as mulheres? O que tens aprendido e como é que as lutas que tens travado têm sido enriquecedoras para a tua formação enquanto mulher e enquanto coordenadora?</div><div>5- Neste momento já não sou coordenadora do grupo, mas independentemente disso, todos/as no grupo temos como uma das principais questões a tratar a violência de género. O nosso trabalho foca-se também em desconstruir o status quo societal que ainda permite tanta violência contra as mulheres. No meu caso pessoal, sinto que a Amnistia é uma organização que me permite defender os meus valores feministas com efeitos muito concretos nas vidas das mulheres que ainda sofrem várias discriminações e abusos. A abordagem da organização procura pôr de lado moralismos e ideologias, com o fim último de tratar dos problemas concretos das mulheres que são vítimas de violência doméstica, estatal, sistémica. Da mulher que sofre em casa em silêncio.</div><div>Da mulher que não tem agência sobre a sua vida e por isso não pode escolher se quer ou não casar e ter filhos. Da mulher que não pode decidir quando já não quer ter mais filhos, quer através de acesso a contraceptivos e cuidados de saúde, quer quando precisa de recorrer a um aborto. Da mulher que é vítima de tráfico sexual, porque a sociedade ainda não está preparada para falar abertamente sobre prostituição, empurrando-a para as profundezas da exploração. Tudo isso são temas com os quais trabalho na Amnistia, que são da máxima urgência. Aprendi e aprendo muito sobre esta realidade todos os dias.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>6- Para responder a esta pergunta não me chegava o tempo de antena que tenho, certamente! Tenho muitos sonhos. No que diz respeito aos Direitos Humanos, e mais concretamente aos Direitos das Mulheres, sonho com o dia em que os direitos que já estão consagrados na lei se traduzam em comportamentos. Com homens que sejam aliados das mulheres, em vez de se queixarem que andamos a ser chatas com esta conversa do feminismo. Com crianças que sejam educadas em casa e na escola para serem parceiras e solidárias, sem terem coisas de menino e de menina, num mundo completamente cristalizado a azul ou cor de rosa. E sonho que a luta das mulheres se transforme também numa luta interseccional, que abranja também as lutas LGBTQI+, as lutas das pessoas racializadas, as camadas esquecidas da população portuguesa, que não são poucas. Ainda há muitas lutas para fazer em Portugal, e em todas elas as mulheres terão um papel preponderante. </div><div>(1) Com o título “Todos os homens são iguais… mesmo as mulheres.&quot;</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Jú Matias</div><div>08 de Agosto de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a  Mário Cruz - Fotógrafo</title><description><![CDATA[O que o motivou a trabalhar com realidades como o tráfico e a exploração infantil do Senegal e da Guiné? O poder muito particular que a fotografia tem no que trata a constituir testemunho e prova. Percebi que uma das desculpas para a falta de resolução deste problema era precisamente a falta de prova. Sendo eu fotojornalista tornou-se evidente tanto a nível profissional como pessoal que eu teria de arriscar para conseguir obter essa prova, eventualmente criar os documentos que permitissem]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/04/30/Entrevista-a-M%C3%A1rio-Cruz---Fot%C3%B3grafo</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/04/30/Entrevista-a-M%C3%A1rio-Cruz---Fot%C3%B3grafo</guid><pubDate>Mon, 30 Apr 2018 12:35:23 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>O que o motivou a trabalhar com realidades como o tráfico e a exploração infantil do Senegal e da Guiné?</div><div>O poder muito particular que a fotografia tem no que trata a constituir testemunho e prova. Percebi que uma das desculpas para a falta de resolução deste problema era precisamente a falta de prova. Sendo eu fotojornalista tornou-se evidente tanto a nível profissional como pessoal que eu teria de arriscar para conseguir obter essa prova, eventualmente criar os documentos que permitissem originar discussão e por consequência ajudar a gerar medidas que enfrentassem este problema.</div><div>Realizou a reportagem Talibés, Escravos dos Tempos Modernos. Como é que se processou este trabalho?</div><div>Eu tive conhecimento do desaparecimento de crianças guineenses quando estava na Guiné-Bissau em 2009. Passados alguns anos e depois de ter acumulado experiência profissional através da realização de outros projetos pessoais decidi começar a investigar o que se passava. Quando descobri a subversão da tradição Talibé no Senegal comecei a construir uma rede de contactos que me permitiu o acesso a esta realidade. A reportagem conta a história de milhares de rapazes entre os 5 e os 17 anos de idade que são forçados a mendigar nas ruas senegalesas pelos seus falsos professores corânicos. É um problema que atravessa fronteiras e que não está no fluxo noticioso diário das nossas vidas. São mais de 50mil crianças nesta situação. Sofrem agressões físicas, são violadas e por vezes assassinadas numa sociedade que muitas vezes as ignora.</div><div>Em 2016, após ter recebido o prémio Temas Contemporâneos do World Press Photo e denunciado assim, a situação trágica das crianças senegalesas, considera que deu um passo muito importante, que contribuiu para um melhor futuro destas crianças?</div><div>Creio que sim. O World Press Photo apesar de não passar de um prémio de fotografia tem uma audiência muito grande, por ser o prémio maior do fotojornalismo acaba também por criar uma pressão direta e indireta sobre os assuntos que distingue.</div><div>Muitas das fotografias que foram premiadas são hoje distribuídas em boletins de alerta, distribuídos por forças policiais senegalesas. Mais, o objetivo desta reportagem foi sempre criar uma prova física em forma de livro que pressionasse as autoridades locais mas também internacionais. O mesmo livro está hoje presente em inúmeras escolas do Senegal e da Guiné-Bissau para que as futuras gerações percebam o que aconteceu e o que não pode voltar a acontecer. Nesta problemática dos Talibes o acesso à informação é da maior importância. </div><div>Falou em entrevista ao Público que a situação era preocupante e assustadora. Ao abordar a gravidade da problemática, o facto de ainda existirem situações horrendas, é a sua forma de combater e denunciar estas realidades através da objectiva?</div><div>Sem dúvida. O que despertou o meu interesse no fotojornalismo foi precisamente a sua capacidade em denunciar problemas e histórias que merecem a nossa atenção e uma mudança urgente. Iniciei os meus projetos pessoais precisamente para documentar temas escondidos e/ou ignorados.</div><div>Refere que há cada vez mais dificuldade em publicar trabalhos deste género. Como é que se pode mudar o paradigma, lutar por uma maior abertura e consciencialização das pessoas e dos meios de comunicação?</div><div>Começa por o público, nós – os consumidores de informação, exigir(mos) mais e melhor jornalismo. Há espaço para tudo, o que não pode faltar é espaço para jornalismo com profundidade e qualidade.</div><div>Quem assume as opções editorias e se queixa dos baixos números de leitores não percebe que a precariedade, o tudo para “última hora”, entrevistas sem conteúdo e apenas histórias para o entretenimento não são a base do jornalismo e acaba por desvirtuar e falhar o seu dever.</div><div>Para si de que forma é que se deve olhar, e analisar os trabalhos que tem feito sobre a miséria, escravidão?</div><div>Espero que sejam vistos como documentos que devem ser discutidos por aquilo que retratam. Tenho consciência que são temas que nos incomodam e isso quer dizer muito do que deve ser um trabalho jornalístico. Em primeiro e último desejo quero que as minhas fotografias criem reação.</div><div>Disse: “É muito gratificante ver famílias a observar estas fotos. Para elas é uma surpresa, mas o choque inicial depressa se transforma numa vontade de mudar as coisas”. Após o público ler o livro, qual a reacção que espera provocar, no sentido da mobilização para a alteração deste paradigma? Como pensa que a situação irá mudar?</div><div>Como já referi, o acesso à informação é imperativo. As famílias senegalesas e guineenses têm hoje uma ferramenta que permite prevenir que mais crianças sejam confiadas a falsos professores corânicos. As futuras gerações saberão o passado de milhares de rapazes e estarão munidas de informação para que este processo de subversão não se repita.</div><div>O livro é também utilizado por várias associações locais e ONG internacionais como prova da realidade talibe.</div><div>Depois destes trabalhos fotográficos de denúncia de realidades como a escravatura, os maus tratos e a exploração infantil, quais são os seus projectos para o futuro? O que pretende mostrar e denunciar?</div><div>Os meus projetos demoram tempo a realizar devido à complexidade dos temas. Passo muito mais tempo a investigar, a conhecer, a ganhar acesso e a criar confiança do que a fotografar. A única certeza que tenho é que no futuro tentarei manter este percurso de trazer visibilidade para aquilo que não se vê.</div><div>Quais são os seus sonhos para crianças que vivam nestas condições, para os países em desenvolvimento e para Portugal?</div><div>Não vivo numa utopia, mas acredito que o jornalismo de qualidade poderá ser o recurso mais valioso contra a violação dos direitos humanos em qualquer parte do mundo, inclusive, em Portugal.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Ana Bastos</div><div>30 de Abril de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Carla Ravazzini – Psicóloga e Formadora</title><description><![CDATA[Desde Novembro/2017 que é formadora de Educação, Género e Cidadania na Casa do Professor. Que importância tem tido, para si, ser formadora e trabalhar com estes temas tão importantes para a nossa sociedade? O que aprendeu desde que começou a estudar e a leccionar estes temas? R: Percebo o exercício da formação como uma oportunidade para desenvolver competências e fundir duas áreas profissionais, de que gosto particularmente. Se por um lado, a psicologia clínica possibilita a atuação com natureza]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/04/17/Entrevista-a-Carla-Ravazzini-%E2%80%93-Psic%C3%B3loga-e-Formadora</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/04/17/Entrevista-a-Carla-Ravazzini-%E2%80%93-Psic%C3%B3loga-e-Formadora</guid><pubDate>Mon, 16 Apr 2018 23:04:13 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Desde Novembro/2017 que é formadora de Educação, Género e Cidadania na Casa do Professor. Que importância tem tido, para si, ser formadora e trabalhar com estes temas tão importantes para a nossa sociedade? O que aprendeu desde que começou a estudar e a leccionar estes temas? </div><div> R: Percebo o exercício da formação como uma oportunidade para desenvolver competências e fundir duas áreas profissionais, de que gosto particularmente. Se por um lado, a psicologia clínica possibilita a atuação com natureza clínica e preventiva, enfatizando um processo desenvolvido a duas vozes, a formação privilegia o acesso a um grupo de pessoas e às sinergias que resultam dos grupos. E ainda que ambas as funções assumam objetivos distintos, dado que decorrem num contexto iminentemente relacional gozam de uma complementaridade que me fascina. Ministrar formação em igualdade de género, especificamente para professores e professoras, representa um compromisso e responsabilidade sobre o domínio dos conteúdos, uma vez que o fim último é a co construção de um sistema educativo cada vez mais plural e inclusivo. A escola, o currículo e os materiais pedagógicos são veículos de perpetuação de desigualdades e estereotipias de género, reproduzindo representações da ordem de género da época e do contexto socio politico onde os grupos e/ou indivíduos se inserem. Capacitar o corpo docente para que possam, de forma mais competente e eficaz, identificar e erradicar assimetrias e desigualdades junto de alunos e alunas é contribuir para a mudança sustentada de comportamentos. E isso é algo, porque acredito numa sociedade que se quer justa e não castradora de oportunidades, que acarreta responsabilidade mas dá-me um gozo particular. E muito ainda há fazer nesta matéria!</div><div>Prestou serviço comunitário como voluntária, no projecto &quot;Dar que Pensar&quot;, como gestora da pasta da comunidade entre Outubro de 2014 e Abril de 2015, participando no Alívio à pobreza, no Combate ao desperdício alimentar e na Erradicação da fome na comunidade local. Dedica-se igualmente ao activismo em Viana do Castelo, na Amnistia Internacional Portugal, desde Abril de 2016. De que forma têm sido determinantes e fundamentais para o seu desenvolvimento o projecto “Dar que Pensar”, o trabalho na Amnistia e o trabalho no alívio da pobreza? Como vê a possibilidade da erradicação total deste tipo de problemas? Por que motivo é importante reflectir e trabalhar em prol dos direitos humanos?</div><div> R: É indiscutível a minha apetência natural para intervir junto de públicos em situação de vulnerabilidade e os projetos que tenho vindo a abraçar, não só profissionalmente mas também na qualidade de voluntária e de forma desinteressada, espelham isso mesmo. Creio que a par desta predisposição, são as experiências e aprendizagens que resultam do contacto privilegiado com quem tudo perdeu (por vezes até a dignidade) que nos modificam como pessoa e assumem um valor inestimável. Durante dois anos fui psicóloga num projeto que atua junto de população na condição de sem abrigo e em risco de exclusão social, e asseguro-lhe que recebi tanto destas pessoas…foi uma experiência que me modificou por completo. Acredito (por muito “piroso” que isso possa parecer) que quando as pessoas se unem em prol de uma causa e/ou causas, o “mundo” pode tornar-se num lugar melhor. Por outro lado, dado que não concebo a existência de vida depois da morte, questiono-me frequentemente: se perder a capacidade de me inquietar com a violação de direitos fundamentais, com a injustiça social, com o preconceito e exclusão, será que efetivamente isso é viver???</div><div> Trabalhar em prol do combate à exclusão e alinhar o comportamento com aqueles que são os direitos humanos universais, não pode nunca assumir-se como uma atividade solitária ou um conjunto de medidas avulsas. Quando cada um/uma de nós perceber que a cidadania não se aprende por processos retóricos mas experienciais, estaremos verdadeiramente a congregar esforços para uma causa que se quer coletiva.</div><div>Participou no seminário Associação Vencer Autismo, na área de estudo Educação Especial com Ênfase em Pessoas com Autismo. De que modo foi para si enriquecedor ter participado neste seminário, e como foi determinante para o seu conhecimento sobre as pessoas com autismo? O que pode dizer-nos sobre a vivência com as pessoas com autismo?</div><div> R: A minha formação enquanto psicóloga habilita-me não só a identificar, diagnosticar e intervir nos défices que resultam do espectro, como amenizar o impacto que uma perturbação global do desenvolvimento exerce na pessoa e na sua família. Não creio que a participação neste seminário tenha desenvolvido mais essa competência, nem foi esse o propósito da minha inscrição. Essencialmente o que procurei foi “beber” do testemunho de quem sofre na primeira pessoa as inúmeras dificuldades que se colocam a pessoas, quando percebidas como “diferentes” e nesse sentido, o formato relativamente informal da palestra, facilitou a discussão e partilha. Nos projetos profissionais em que tenho colaborado não é expressivo o contacto com pessoas com patologia associada às perturbações globais do desenvolvimento. Eventualmente porque comparativamente com as perturbações de humor e ansiedade, são menos prevalentes.</div><div>Participou igualmente no IV Seminário - Associação de Paralisia Cerebral de Viana do Castelo. Como foi para si ter participado num seminário sobre esta lesão cerebral, um tema para o qual a sociedade ainda não está suficientemente aberta, existindo ainda muito desconhecimento sobre esta lesão? Como se pode mudar este paradigma e estes preconceitos?</div><div>R: Acredito que a forma mais eficaz de eliminar preconceitos, dado que estes emergem essencialmente do medo e ignorância, passa pela sensibilização, literacia e contacto. Uma criança e/ou adulto com paralisia cerebral é alguém que sofreu uma lesão e/ou anomalia cerebral, num período crítico do desenvolvimento do sistema nervoso central. A lesão afeta essencialmente o controlo da postura, movimento e equilíbrio, podendo coexistir, ou não, a presença de outros défices nomeadamente na cognição, comunicação, percepção, atenção e concentração. É necessário explicar às pessoas que a paralisia cerebral não é um défice intelectual, nem impede (dependendo da localização da lesão e extensão) a existência de uma inteligência “normal” e/ou acima da média. E isto é particularmente pertinente de desmistificar. A reabilitação e a integração da criança, jovem e adulto com Paralisia Cerebral, através do desenvolvimento máximo das suas potencialidades, exigem a erradicação de crenças erróneas, que frequentemente conduzem a ações paternalistas e assistencialistas, por parte de técnicos e profissionais. Não só no caso desta lesão particular, mas também no que se refere à saúde mental em geral, onde impera o estigma e preconceito, é imperioso perceber a pessoa e as suas potencialidades para alem daquilo que são os rótulos e/ou diagnósticos. As pessoas não são as suas doenças e/ou perturbações!</div><div>Foi oradora em 2017 na acção de sensibilização “Vamos falar de Depressão&quot;, foi líder de grupo nas Aldeias de Crianças SOS do Projecto &quot;face to face&quot; e foi oradora do Núcleo de Estudantes de Educação Básica da Universidade do Minho, numa acção de formação sobre luto infantil. De que forma é importante para si abordar o tema da depressão, trabalhar o luto infantil e trabalhar num projecto importantíssimo como as Aldeias de Crianças SOS?</div><div> R: São várias questões distintas… A depressão e o luto infantil integram temáticas que fazem parte do meu reportório de atuação, enquanto psicóloga clínica. Sendo que estas duas ações específicas, no grupo Antolin e no núcleo de Estudantes de Educação Básica, e ainda que com públicos distintos, tiveram o denominador comum da prevenção e capacitação. A depressão é atualmente a segunda principal causa de morte, de pessoas entre os 15 e 29 anos de idade. No ano de 2015, um total de 300 milhões de pessoas em todo o mundo sofreram de depressão (OMS, 2017). O elevado grau de incapacidade que a perturbação acarreta impõe, entre outras, medidas com enfase na prevenção. A possibilidade de dinamizar uma ação sobre a temática para trabalhadoras do setor fabril, a pedido da empresa, não me podia deixar mais satisfeita, sobretudo porque denota uma consciência pela problemática e o respeito pela saúde dos recursos humanos. Afinal as empresas são as pessoas! Relativamente ao processo de luto, especificamente no infantil, há um enorme desconhecimento sobre a temática, sobretudo na forma como a criança vive, sente e compreende o processo. Naturalmente que o luto infantil tem que ser sempre compreendido à luz do desenvolvimento cognitivo da criança e das suas características. Infelizmente ainda se acredita que a criança não compreende a perda e para a “proteger” esta deve ser poupada de a viver, quando na verdade a boa resolução do processo de luto implica necessariamente esse confronto. Contribuir para o aumento do conhecimento da temática junto de públicos estratégicos (futuras educadoras de infância) não só faz parte do compromisso que tenho com a minha profissão, como foi, pelas razões enumeradas, de extrema pertinência e importância. Relativamente à colaboração com o projeto Aldeias SOS, foi algo que me deu muita satisfação, ainda que a natureza das funções tenha sido fora da minha área de formação/atuação. As Aldeias SOS possuem um dos modelos de acolhimento de crianças e jovens mais diferenciadores do mundo, pois replicam uma aproximação com um modelo de família, do qual faz parte a figura da “mãe” SOS e de “irmãos/ãs”. É um projeto que procura dar uma “segunda oportunidade” a crianças e jovens que pelas mais variadas razões são afastados das suas famílias biológicas, e é impossível não nos rendermos à sua missão! Na base também é de direitos humanos que se trata. A organização utiliza uma metodologia internacional de angariação de fundos - o “face to face”. Este projeto operacionaliza a sua ação através do recurso a equipas de rua distribuídas por vários distritos do país, tendo eu tido o privilégio de integrar a equipa de Braga, que numa abordagem direta de pessoas em locais públicos, divulgam e informam sobre o trabalho da organização e convidam a comunidade a juntar-se à causa (amigos/as SOS). Reconhecendo que a sustentabilidade da missão da organização (à semelhança do que acontece com outras instituições/organizações do 3º setor) depende substancialmente da generosidade da comunidade, foi muito gratificante ter colaborado para esse propósito.Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div> R: Esta é uma questão difícil…são tantos…uns mais exequíveis que outros… Mas essencialmente desejo que as minhas filhas e o meu filho possam decidir, sem constrangimentos, construir o seu futuro no país de origem, sem que tenham que emigrar…desejo que possam ver os seus méritos e esforços reconhecidos, sem que tal dependa do seu sexo de pertença. Gostaria de poder viver o suficiente para ver o meu país ter apenas como contrastes: a paisagem, o relevo e o clima.Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: António Chagas Dias 16 de Abril de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à actriz Rita Brütt</title><description><![CDATA[Que significado teve para ti participar como actriz para o “Fá-las Curtas”, ao lado do Almeno Gonçalves e trabalhando com novos realizadores? Gosto muito de participar em curtas-metragens, sejam de escolas, programas ou profissionais. As das escolas têm a particularidade de poderes observar as dinâmicas cruas das equipas, ainda em aprendizagem e sem filtros e isso é muito bonito, aprendes imenso sobre o trabalho e sobre o teu lugar, como actor ali no meio. Os novos são os de amanhã, e estar]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/03/08/Entrevista-%C3%A0-actriz-Rita-Br%C3%BCtt</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/03/08/Entrevista-%C3%A0-actriz-Rita-Br%C3%BCtt</guid><pubDate>Thu, 08 Mar 2018 13:01:10 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Que significado teve para ti participar como actriz para o “Fá-las Curtas”, ao lado do Almeno Gonçalves e trabalhando com novos realizadores?</div><div>Gosto muito de participar em curtas-metragens, sejam de escolas, programas ou profissionais. As das escolas têm a particularidade de poderes observar as dinâmicas cruas das equipas, ainda em aprendizagem e sem filtros e isso é muito bonito, aprendes imenso sobre o trabalho e sobre o teu lugar, como actor ali no meio. Os novos são os de amanhã, e estar perto do que de novo surge é continuares a fazer parte do que se constrói, é essencial.</div><div>Que repercussões teve para ti em termos profissionais e pessoais a participação na série “Conta-me Como Foi”? O que é que aprendeste, especialmente sobre o 25 de Abril, através desta viagem histórica ao tempo da Ditadura?</div><div>O Conta-me foi o meu primeiro grande projecto, mal sabia eu que sorte me estava a cair ao colo! Rodeada de actores incríveis, de equipas escolhidas a dedo e de escritores que viveram a época e estavam cheios de referências, prontos a passá-las para o papel e, todos, para o pequeno ecrã, era fácil fazer um bom trabalho! Foi uma rampa de lançamento brutal, para mim. E aprendi desde o início da minha carreira que te podes posicionar e ter uma opinião, no início até era demasiado reivindicativa, com o tempo aprendi a escolher as minhas lutas.</div><div>Tens continuamente reciclado, através de cursos, foste aluna do António-Pedro Vasconcelos e do João Canijo, para além do processo de aprendizagem constante que recebes através dos trabalhos que tens. Que frutos tiras dessa aprendizagem contínua?</div><div>Acho que todos os profissionais se devem actualizar e continuar a explorar as suas técnicas e conhecimentos. Em Portugal ou fora, estudando coisas que tenham directamente a ver com o teatro ou não. Quanto mais seguires o que te interessa e aprofundares conhecimento, mais livre serás, e isso passa para o teu trabalho. Permanente procura, permanente descoberta.</div><div>Teres começado a trabalhar em comédia, com Rui Unas, Jorge Mourato e David Almeida (entre outros) foi um grande avanço para a tua aprendizagem e para te abrires a mais trabalhos como actriz?</div><div>Foi um projecto muito engraçado, não fazíamos ideia do que saíria dali, até um episódio musical fizemos! Pedi-lhes ajuda montes de vezes, era muito “natural” mas imensas vezes não sabia como fazer uma piada funcionar. Acho que no “Viver é Fácil”, aprendi a arriscar mais e a não me levar tão a sério.</div><div>Representaste para “Camada de Nervos” do Canal Q, um programa de rábulas de comédia. Na tua opinião, a comédia pode passar por ser um caminho a seguir com mais seriedade?</div><div>Acho que a comédia pode e deve ter imensas abordagens. E deveria estar mais presente na ficção portuguesa. É muito difícil de fazer bem, na medida certa, muito mais do que outros géneros. Poderíamos arriscar um pouco mais e fazer comédia de qualidade. Eu adoraria experimentar mais!</div><div>Participaste na série “Perdidamente Florbela”, como uma rapariga da rua, amante também da poesia. Deu-te um prazer maior representares esta personagem tendo como história uma das maiores poetisas?</div><div>Sim, claro! Gosto muito quando a História e a ficção se misturam. Tinha uma pequena cena nessa série, onde encontrava a Florbela (Dalila Carmo) e esse encontro mudava o curso da sua estória. A época é lindíssima e a série e o filme foram feitos com um cuidado e um elogio à beleza, que fazem com que, mesmo uma pequena cena, dê imenso prazer fazer. Em 2015 fiz outro filme de época e histórico, fiz a filha de um presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, estou desejosa de o ver.</div><div>Estudaste durante alguns meses fora do país. Quais foram as maiores diferenças que encontraste? E o que é que adquiriste quer dos cursos em que estiveste quer dos espectáculos que fizeste pela Europa?</div><div>Fiz o curso da École des Maîtres em 2012, aprendi que somos actores em qualquer lado do mundo e que nada nos está vedado. Aprendi também que o que se faz cá é muito bom, não que não soubesse isso, mas tive a confirmação. Esse curso deu origem a trabalho, e as pessoas em Itália e em França unem-se e produzem e fazem as coisas acontecer com outra agilidade, essa foi uma das grandes diferenças que notei. Fiz uma digressão com o espectáculo por muitos sítios em Itália e as pessoas juntam-se no final e vêm cear com os actores e conversar, aqui fazes um espectáculo fora da tua cidade e as pessoas juntam-se timidamente e falam pouco, acho poderiamos ser mais efusivos e partilhar mais as nossas opiniões.</div><div>Em teatro, tens feito peças de William Shakespeare e de Cervantes, também a “Ópera do Malandro” do Chico Buarque. Para o teu processo de enriquecimento como actriz, e também cultural, foi essencial trabalhar tão grandiosos autores?</div><div>Os autores de todos os tempos e séculos são incontornáveis e ensinam-nos imenso, mas os do nosso tempo também! Poder levar à cena um texto que foi escrito ontem, sobre o que se está a passar no mundo agora, parece-me essencial da mesma forma como manter vivos os textos de sempre, nos alimenta! O José Maria Vieira Mendes, a Lluïsa Cunillé e o Rafael Spregelburd (com quem trabalhei em Itália) tratam este tempo e de uma forma bem desafiante e desconcertante, espero que daqui a uns séculos continuem a ser levados a cena, quem sabe?</div><div>Segundo a cábula/currículo publicado no sítio da Leonor Babo Actores, já actuas desde 2001. O que cresceste até agora?</div><div>Vou trabalhando e crescendo, espero. Tenho tido sorte e tenho sabido aproveitá-la, também.</div><div>Tens talento para o tango, para o canto e para as danças renascentistas. Quando é que te podemos ver a viajar um pouco por estas artes?</div><div>Elas fazem parte da minha formação, estão cá nos meus gestos e passos, na minha voz, mas sim, seria bonito dançar um tango um dia destes!</div><div>O ano de 2013 foi um ano menos bom, como disseste numa entrevista ao Betrend. Como esperas superar esse facto?</div><div>Foi um ano com menos trabalho, mas onde fui estudar italiano por ter tempo e por querer aprender mais. Mais tarde deu origem a imenso trabalho em Itália. Acabou por não ser tão grave como na altura me pareceu. Aprendi a relativizar, entretanto.</div><div>Que projectos tens para o presente e para o futuro?</div><div>Tenho trabalhado muito em televisão e em teatro. Estes últimos três anos têm sido muito bons. Acabei esta semana uma digressão do Águas Profundas + Terminal de Aeroporto, do Simon Stephens encenado pelo Nuno M Cardoso, reencontrei-me com actores que adoro, a Maria João Luís, o António Durães e a Íris Cayatte e conheci outros, maravilhosos que já não largo...e foi o meu maior voo até agora, um monólogo estreado no Teatro Nacional São João. Cresci, ultrapassei-me e estou muito feliz. Neste momento continuo n´A Única Mulher com a Inspectora Laura, que gosto muito de fazer.</div><div>Gostaria que partilhasses connosco alguma história engraçada vivida ao longo destes anos de representação.</div><div>Ai são muitas… como escolher uma? Na última cena que gravámos do Conta-me Como Foi, estávamos a gravar em exteriores, à noite, à porta do café do Fanán (João Maria Pinto) e era a cena da despedida dos Lopes que iam sair do bairro. Nessa tarde tinha começado a ensaiar com os Artistas Unidos e numa dança maluca e improvisada com o Pedro Lacerda, parti um dedo do pé. No fim do ensaio sabia que tinha de ir gravar, muito gelo e lá fui. Nessa cena desatou tudo a chorar e aos abraços, que fazia parte da cena mas a emoção real da série estar a acabar misturou-se, então dei por mim (Maria Isabel) a dar um grande abraço ao Dino (Filipe Vargas) que foi dos grandes amigos que fiz naqueles anos de gravações, mas... não fazia sentido nenhum aquelas personagens caírem assim emocionados nos braços um do outro.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Um orçamento para a cultura, maior e melhor gerido. Que mais gente, desde mais cedo se interesse pela cultura do seu país. Que as pessoas não tenham medo de emitir opiniões. Que os espectáculos possam ser vistos por um maior número de pessoas em todo o país. Que as pessoas possam ser verdadeiramente livres e que tenham acesso à formação que querem e que possa haver emprego e um futuro menos precário para todos. Que as pessoas tenham orgulho no que são e no que construíram,</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Fátima Simões</div><div>14 de Junho de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>14 de Junho de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a António Chagas Dias</title><description><![CDATA[Entrevista a António Chagas Dias Activista Contra o Novo Acordo Ortográfico Numa conversa e observação sobre o acordo ortográfico e o Malaca Casteleiro, dizias-me: “O que me move é a própria ideia de Estado que está por trás de uma coisa assim. Um Estado que decide por cima das pessoas não as serve...” Para ti, quais são as razões para considerares e afirmares, que: "o estado está por trás de uma coisa assim?" Quais são as tuas motivações para combater este acordo? Como consideras que se pode]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/02/28/Entrevista-a-Ant%C3%B3nio-Chagas-Dias</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/02/28/Entrevista-a-Ant%C3%B3nio-Chagas-Dias</guid><pubDate>Wed, 28 Feb 2018 17:54:36 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista a António Chagas Dias Activista Contra o Novo Acordo Ortográfico </div><div>Numa conversa e observação sobre o acordo ortográfico e o Malaca Casteleiro, dizias-me: “O que me move é a própria ideia de Estado que está por trás de uma coisa assim. Um Estado que decide por cima das pessoas não as serve...” Para ti, quais são as razões para considerares e afirmares, que: &quot;o estado está por trás de uma coisa assim?&quot; Quais são as tuas motivações para combater este acordo? Como consideras que se pode deitar abaixo a enorme massa de aceitação e obediência que tem acontecido desde a sua imposição?</div><div>O modo como o AO90 entrou na nossa vida é reflexo de uma ideia de dirigismo cultural que não subscrevo, e que considero ultrapassada e menorizante da cidadania. Foi um estudo encomendado pelo poder político, contestado pelos pares dos especialistas que o elaboraram, e que sempre assentou em conceitos discutíveis, como a necessidade de aproximação ortográfica entre as variantes do português, a aproximação da escrita à fonética, e a responsabilidade do poder estatal na sua implementação. Cada um destes conceitos é discutível por si só, mas o terceiro é o mais insidioso, porque é sintoma daquilo a que os cidadãos são normalmente sujeitos: a uma programação assente no facto consumado, a um exercício de resignação, e a uma arrogância do poder político, travestida de tecnicidade e de intenções sonantes. Este estado de coisas deveria indignar qualquer pessoa que ama a liberdade. Por isso, a minha principal motivação para combater este acordo é que este documento, o tratado internacional que sustenta, e as estruturas que o promovem e difundem são emanações de uma realidade datada e ultrapassada, de onde está arredada a participação dos cidadãos e a racionalidade e responsabilidade mínimas exigidas à coisa pública. Na minha opinião, existem vários modos para contrariar a aceitação e obediência cegas, mas todos começam pela reflexão e pela informação. Este é um debate que facilmente resvala para o boçal, não por culpa do tema, mas porque não existe tradição de reflexão. E é isso que pretendo fazer com a minha acção: provocar a consciencialização, a reflexão, o debate, em suma, o envolvimento das pessoas.</div><div>Uma das tuas lutas é contra a ideia peregrina das pessoas que aderiram ao acordo ortográfico. Que dizem estar desfasado no tempo, que é tempo perdido politicamente, que os anti-acordo ortográfico não estudaram, que são Velhos do Restelo. Para além da má alusão aos Lusíadas de Camões, como vês este tipo de análise que se reflecte na maioria dos acordistas e como se pode fazer ver a realidade? Os argumentos mais espampanantes de parte a parte falham por vezes o alvo; quando defensores do acordo defendem que quem está contra o mesmo não o conhece, estão a discutir no mesmo nível dos opositores do acordo que manifestam a sua indignidade com exemplos de grafias absurdas, mesmo que inexistentes. Ambos estão, efectivamente, errados; os defensores do acordo defendem-no porque sim, tal como os opositores do acordo; a defesa ou oposição dependem da emoção, e não da racionalidade.</div><div>E a racionalidade do AO90 é nula por várias razões. Primeiro, porque os processos de evolução linguística não são idênticos no espaço onde se fala português. Isto implica que teremos sempre evoluções diferentes, e que, a haver ajustes à ortografia, estes serão aplicados necessariamente às variantes locais. Depois, porque assenta numa lógica supranacional que, vista por exemplo do lado de África, é uma lógica neo-colonialista. Ainda, porque o próprio documento abre azo a dúvidas quanto à aplicabilidade, abrangência e universalidade. Finalmente, porque o processo administrativo da sua aprovação e implementação não foi devidamente conduzido do ponto de vista da tramitação jurídica; e este ponto é importante: mesmo um processo completamente isento de irracionalidade (como o da implementação do AO90), ao ser submetido ao escrutínio e decisão públicos, não poderá nunca deixar a suspeita de que à sua entrada em vigor estão associadas dúvidas.</div><div>Estiveste envolvido na génese desta petição: Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990 e estás com um grupo a preparar uma plataforma contra o novo AO. De que forma pode ser impulsionador para a luta e desmistificar e/ou eliminar conceitos, preconceitos, erros e várias perspectivas erradas acerca deste acordo imposto?</div><div>É muito importante que as pessoas participem, e que sintam que existem plataformas onde podem reunir os seus pontos de vista. A luta contra o AO dura desde antes que este foi pela primeira vez apresentado e aprovado. Essa luta tem de ser conhecida e divulgada; a melhor forma de desmistificar e eliminar preconceitos é contar a história toda, tal e qual se passou e passa, e confrontar as pessoas com essa história, para que tomem posição no debate.</div><div>Referes numa discussão com o Malaca Casteleiro no Acordo Ortográfico em debate – TVI, &quot;que a forma política é a menos aplicável de todas as razões para a existência deste novo acordo.&quot; Todas as alterações, acordos e reformas anteriores a este acordo, foram igualmente políticas e tinham o mesmo propósito, de que forma todas estas alterações, imposições e falta de ligação ao povo pela língua, podem ter contribuído para este estado calamitoso da língua?</div><div>A razão política é a menos aplicável de todas as razões para este acordo porque, como referi, só intervém ao nível da imposição; não houve aqui qualquer “política”; não houve discussão pública prévia à decisão, e nem sequer se apresentou uma estratégia pública que enquadrasse esta decisão. Por isso é que, de todas as razões, a política é a menos adequada. As normas e convenções desenvolvidas antes deste acordo foram-no num tempo em que não vivíamos em liberdade e não podíamos revoltar-nos contra os desmandos do poder. Tentar que hoje as pessoas tenham o mesmo tipo de aceitação cega, e repetir essa mecânica, mesmo que mascarada de sugestão, é estrondoso. Além disso, o grau de literacia em Portugal nunca foi tão elevado; nunca se escreveram tantos artigos, estudos, livros e demais conteúdos em Portugal como agora; pensar que se pode impor uma alteração deste teor a uma sociedade sem existir previamente um envolvimento com quem usa o idioma todos os dias é só mais um reflexo do pensamento ditatorial que este AO90 tão bem corporiza.</div><div>E em que é que a ortografia se unificou e de que forma a ortografia/língua/cultura se tem denegrido desde a aplicação deste acordo e desde a reforma de 1911? Como tradutor de profissão, de que forma o novo acordo te tem prejudicado? E como tem prejudicado todo o processo de tradução e o trabalho de tradução nos seus vários formatos? Tendo em conta as várias variantes do AO, os vários vocabulários, as ortografias que continuam a ser usadas como português de Portugal e do Brasil, como facilita a tarefa dos tradutores e de outros profissionais que são ou possam vir a ser obrigados a trabalhar com o novo acordo?</div><div>A ortografia não se unificou; se antes subsistiam dois modelos/variantes (o modelo americano e o modelo europeu), agora existem pelo menos três (os anteriores e o “acordizado”), mas que são na verdade muitos mais, tantos quantos as decisões individuais de “ortografia” que este acordo prevê. Não sou apenas tradutor; essa é uma das actividades a que me dedico. Mas é inelutável que a introdução do AO veio agitar o sector da tradução. Para um tradutor, paradoxalmente, a existência de mais variantes é uma oportunidade de mercado: se antes traduzia apenas para português europeu, agora traduzo para português europeu pré-acordo e para português europeu pós-acordo. A tarefa dos tradutores tornou-se mais complexa, já que para além da excelência na tradução temos de preocupar-nos com a consistência da variante ortográfica, temos o dever de informar os nossos clientes quanto ao que está a acontecer, e temos de agir contra a nossa consciência nos casos em que nos solicitarem traduções em variantes com as quais não concordamos. De qualquer forma, devo aqui salientar que um bom tradutor para português distingue claramente os dois modelos/variantes que referi no início da resposta, de tal forma que no mercado internacional estas duas variantes continuam (e continuarão) a ser distintas; um bom tradutor para português europeu não é necessariamente um bom tradutor para português americano, e vice-versa; e esta realidade não é beliscada pela existência do AO.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Que se construa todos os dias, que o construamos pelo debate e pelo consenso até onde nos deixarem, e pela luta quando não nos permitirem outra solução.</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Carla Carniça</div><div>28 de Fevereiro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Francisco Miguel Valada</title><description><![CDATA[Entrevista a Francisco Miguel Valada, intérprete de conferência nas instituições comunitárias, mestre em Linguística e Estudos Literários pela Universidade Livre de Bruxelas (VUB) e activista contra o novo acordo ortográficoComo intérprete de conferência e como linguista, o que sente ao ver a língua portuguesa levar o caminho sinuoso de desastre total através do novo acordo ortográfico e das suas múltiplas interpretações?Em primeiro lugar, peço desculpa pela demora em aceitar dar-lhe esta]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/14/Entrevista-a-Francisco-Miguel-Valada</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/14/Entrevista-a-Francisco-Miguel-Valada</guid><pubDate>Sun, 14 Jan 2018 22:14:57 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista a Francisco Miguel Valada, intérprete de conferência nas instituições comunitárias, mestre em Linguística e Estudos Literários pela Universidade Livre de Bruxelas (VUB) e activista contra o novo acordo ortográfico</div><div>Como intérprete de conferência e como linguista, o que sente ao ver a língua portuguesa levar o caminho sinuoso de desastre total através do novo acordo ortográfico e das suas múltiplas interpretações?</div><div>Em primeiro lugar, peço desculpa pela demora em aceitar dar-lhe esta entrevista. O ano de 2017 foi um ano extremamente ocupado, como será, aliás, 2018. Por isso, eis-me já aqui. Não quis que esta minha dívida fosse saldada depois de Janeiro.</div><div>Quanto ao desastre – total ou parcial – está previsto há imenso tempo. No entanto, como vemos pela sua pergunta, as múltiplas interpretações estão aí, são uma realidade perceptível, o quadro teórico não é sólido, as formações foram uma anedota. Já escrevi acerca das opiniões de uma formadora, ainda por cima com responsabilidades associativas, que diz que a palavra Egipto pode ser objecto de dupla grafia, o que vai completamente contra a letra do texto do acordo ortográfico de 1990. Nem é preciso ir ao espírito, basta ir à letra. Se uma formadora desta dimensão comete calinadas destas, é muito natural que outros, contratados ad hoc e formados à pressa, as cometam. Além de o texto ser ambíguo, mas essas são contas de outro rosário. O que sinto? Sinto pena: pena da situação, pena de quem ainda não percebeu a gravidade da situação, pena de quem encolhe os ombros perante o problema.</div><div>Escreveu o livro Demanda, Deriva, Desastre – os Três Dês do Acordo Ortográfico. O que o levou a aprofundar o acordo ortográfico e escrever um livro para levar os leitores a debruçar-se sobre o que este novo acordo permitiu? O que tem aprendido desde então?</div><div>Tenho aprendido imenso. O livro cumpriu o seu papel em 2009. O debate andava demasiado circunscrito à retórica política e decidi dar o meu modesto contributo para que as questões linguísticas viessem ao de cima. Começou por ser um pequeno ensaio, mas depois acabei por escrever o livro. Infelizmente, desde então, muito tem acontecido neste dossier. Por exemplo, nos últimos anos, tenho aprendido que, independentemente dos factos, independentemente dos pareceres, independentemente da vontade de agentes políticos antes de serem eleitos para cargos, depois da eleição e da nomeação tudo continua exactamente na mesma.</div><div>Através do seu livro, das várias publicações no jornal Público e no Aventar onde publica frequentemente e do grupo Acordo Ortográfico Não, de que forma tem conseguido levar a que conheçam melhor o acordo, que o discutam e que reflictam nos prós e contras?</div><div>Apresentando os factos e mostrando que há agentes que se estão nas tintas para os factos. É verdade que há petições e audições. Contudo, aceite o pedido e ouvidas as partes, não há mais nada. E depois o processo repete-se. Mais uma petição, mais uma audição. E andamos neste rame-rame, neste faz-de-conta. Cumpro a minha parte de cidadão, mas do lado do poder a resposta é sempre vaga e ambígua. O enquadramento teórico e a perspectiva técnica são aspectos – peço desculpa por usar esta palavra neste contexto –facultativos. Mas é importante que se saliente esta área, para mim, a mais relevante.</div><div>Em 2012 disse em entrevista que o AO90 era um desastre e nas suas publicações apresenta imensos textos sublinhando as inúmeras palavras escritas de diversas formas consoante o jornal, a televisão ou outro. Desde então como vê os resultados da aplicação do acordo ortográfico em cada vez mais canais, jornais, e pessoas que têm aderido?</div><div>Com tristeza, porque já se previa que isto ia acontecer, mas ninguém com responsabilidades na matéria ligou aos avisos. Como agora a confusão está instalada, os responsáveis continuam a não ligar nenhuma, não vá alguém descobrir que a culpa é deles. Como é público, nem os principais responsáveis pela aplicação do acordo ortográfico de 1990 dominam a matéria. Vá a um motor de busca na internet e procure “agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa)”. Não se retractam (não se esqueça do cê, quando passar isto a limpo, se não ainda julgam que estou a falar de selfies) e andam por aí a espalhar a confusão.</div><div>“Os lemas em ‘-acção’ e a base IV do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990” – Em que se baseou para escrever este artigo? Na IV base do acordo ortográfico, na aprofundação das bases e do estudo feito também ao Ao45? Para si quais são as maiores incongruências? Quais são as falhas que têm resultado desde que começaram a fazer alterações na grafia?</div><div>Utilizei uma base de português actual e seleccionei um corpus, ou seja, um conjunto concreto de dados linguísticos para levar a cabo uma descrição de determinado padrão. Neste caso, extraí palavras terminadas em -acção e palavras terminadas em -ação, para elaborar um estudo comparativo. Tenho um certo orgulho neste texto, pois foi um estudo submetido a arbitragem por pares académicos, cuja identidade eu desconheço, os quais, por seu turno, também desconheciam a minha identidade: é aquilo a que os anglófonos - nativos ou adoptivos - chamam double blind peer review. Ou seja, o estudo foi publicado por se considerar que o conteúdo era, no mínimo, interessante para ser debatido cientificamente. Ao contrário do acordo ortográfico de 1990, elaborado em cima do joelho e aprovado por leigos na matéria.</div><div>O novo acordo assenta na base da unificação da língua. Na criação do acordo fizeram-se vários vocabulários ortográficos de apoio e dicionários, tendo em conta que a premissa seria unificar a língua. Desde que foi aplicado, foram ignorados pareceres, processos jurídicos e as próprias regras da CPLP. Em que é que a ortografia se unificou e de que forma a ortografia/língua/cultura se tem denegrido desde a aplicação deste acordo e desde a reforma de 1911?</div><div>Não consigo responder-lhe completamente a essa pergunta, sem estarmos um dia inteiro à volta dela, porque existe um interessante, até indispensável, contexto histórico a ter em conta. Há uns tempos, na inauguração da secção portuguesa da livraria Filigranes, em Bruxelas, quando entrevistei Jacinto Lucas Pires (um excelente escritor, uma pessoa espectacular, com óptimo gosto clubístico, mas com péssimo gosto ortográfico), lembrei-lhe o que aconteceria ao título de um livro dele, se optasse por O Aspecto da Recepção.</div><div>Só para que os leitores desta entrevista percebam a mentira da “unificação”, esse improvável título, em condições normais, ou seja, antes do acordo ortográfico de 1990, seria O Aspecto da Recepção em todo o lado: em Portugal, no Brasil, em Angola, em Moçambique, etc., etc. Todavia, com o acordo ortográfico de 1990, só no Brasil (repito: só no Brasil) se manteria O Aspecto da Recepção: em Portugal, em Angola, em Moçambique, etc., etc., passa a O Aspeto da Receção. Sublinho: esta divergência é causada pelo acordo ortográfico de 1990. A unificação ortográfica é uma falácia.</div><div>Quais são os seus sonhos para a língua portuguesa e para Portugal?</div><div>Para Portugal, no tempo actual, sonho com a adopção de bons exemplos nacionais ou estrangeiros e que a educação esteja no cerne da acção e não só do discurso. E desejo que os responsáveis políticos não se limitem a ouvir peticionários e a pedir pareceres. Sonho com um mundo em que aqueles que solicitam pareceres percam alguns minutos a lê-los e a reflectir acerca deles – e que, quando ouvem peticionários, não marquem audições em cima das sessões plenárias, se não, não conseguem escutar com atenção aquilo que os peticionários vão dizer, limitam-se a ouvir os colegas que ficaram a assistir e aprendem pouco sobre o que se passa cá fora. Quanto à língua portuguesa, desejo-lhe o mesmo que a si e a mim: paz e sossego.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>14 de Janeiro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>14 de Janeiro de 2018</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Beatriz Pereira – Mestre em Psicologia</title><description><![CDATA[Desde já agradeço a sua colaboração Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite para esta entrevista, fico muito lisonjeada por ter visto valor naquilo que faço. Gostaria de salientar que me encontro no início da minha carreira e, portanto, não sou nenhuma expert nos assuntos aqui falados. Responderei sempre com a minha maior sinceridade, humildade e com base na minha experiência pessoal e, principalmente, profissional. Também gostaria de referir que nunca estamos sozinhos nas nossas]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/08/Entrevista-a-Beatriz-Pereira-%E2%80%93-Mestre-em-Psicologia</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/08/Entrevista-a-Beatriz-Pereira-%E2%80%93-Mestre-em-Psicologia</guid><pubDate>Mon, 08 Jan 2018 21:31:10 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Desde já agradeço a sua colaboração </div><div>Primeiramente gostaria de agradecer pelo convite para esta entrevista, fico muito lisonjeada por ter visto valor naquilo que faço. Gostaria de salientar que me encontro no início da minha carreira e, portanto, não sou nenhuma expert nos assuntos aqui falados. Responderei sempre com a minha maior sinceridade, humildade e com base na minha experiência pessoal e, principalmente, profissional. Também gostaria de referir que nunca estamos sozinhos nas nossas realizações e, portanto, todos os projetos aqui referidos foram realizados com ajuda de pessoas incríveis que me têm ensinado muito e, por esse motivo, os méritos são também (e em muitos casos principalmente) dessas pessoas.</div><div>Em 2014, 2015, 2016 e 2017 participou no projecto “Coronado Em Férias” destinado a crianças dos 6 aos 14 anos. Nesta colónia de férias desenvolveu actividades lúdico-pedagógicas com as crianças.</div><div>1. De que forma considera importante para si ter desenvolvido estas actividades com crianças?</div><div>Entrei neste projeto criado pela Joana Viagem quando ainda era estudante do 2º ano de Psicologia com a missão de ocupar o meu tempo de forma útil, ajudando alguém. No entanto, foi devido a este projeto que descobri que o que eu queria fazer da vida era trabalhar com crianças, na educação das mesmas. Desenvolver estas atividades com crianças ajudou-me a perceber que podemos fazer a diferença no futuro delas como pessoas mesmo estando a “brincar”, porque, de facto, são ocasiões privilegiadas para trabalhar muitas competências importantes (sociais, cognitivas…). É incrível perceber que no espaço de semanas podemos ver evoluções muito positivas em diversos aspetos nestas crianças, porque aproveitamos o tempo delas com atividades com conteúdo educativo. Assim, acho mesmo que todos os campos de férias deviam ter uma lógica por detrás das atividades que se fazem com as crianças e não querer só ocupar o tempo delas, porque de facto podem fazer a diferença.</div><div>Trabalhou também como Monitora na Colónia de Férias de Trofa em 2015.</div><div>2. Descreva como todo o trabalho com crianças a tem feito aprender como Psicóloga e a faz adquirir melhores conhecimentos para avaliar e estudar melhor os comportamentos.</div><div>Vai muito ao encontro da questão anterior! Trabalhar com crianças faz-me compreender que todos podem mudar, aprender, evoluir… Algumas só precisam de mais um empurrãozinho, ou do empurrãozinho certo. Acho que acima de tudo, como psicólogos, temos de aprender a ouvir e observar sem julgar. Por exemplo, não podemos olhar para o comportamento de uma criança que não está atenta na aula e tirar de imediato a conclusão de que não está interessada ou não quer aprender! O que acontece quando tiramos essa conclusão precipitada? Desacreditamos na criança e não investimos nela. Assim, é importante procurar perceber o que levou ao comportamento e encontrar soluções.</div><div>“Projecto ProPsi – Observação de uma intervenção em grupo com pessoas com diabetes tipo II.” Participou nesta observação em 2015.</div><div>3. De que forma foi importante para si participar numa observação tão fundamental sobre esta doença que requer muita atenção e preocupação?</div><div>Primeiro, foi importante porque me ajudou a perceber que não é isto que quero fazer da vida (sim, porque para sermos bons profissionais temos de ser capazes de saber o que não queremos fazer ou ter a humildade de saber que não seremos assim tão bons nisso, e de facto trabalhar saúde com adultos não é o meu forte)! Por outro lado, foi muito importante porque percebi a importância das intervenções em grupo, não em específico para diabetes, mas para qualquer tipo de temática. A influência do sentimento de pertença e de suporte social é realmente muito impactante. Com crianças procuro sempre realizar dinâmicas de grupo porque esta partilha de experiências ajuda muito no processo de mudança, na motivação para a intervenção e na superação de barreiras.</div><div>Frequentou um curso webinário sobre o suicídio na adolescência.</div><div>4. Como Psicóloga considera fundamental estudar esta problemática?</div><div>Sim, com certeza. Mesmo não sendo a área de especialização, penso que todos os psicólogos de todas as áreas (educação, justiça…) devem perceber os fatores que envolvem esta problemática de forma a poder detetar sinais precoces e atuar ou reencaminhar para alguém que consiga atuar nesta área.</div><div>5. Como podemos avaliar esta “tragédia” e de que forma se pode reverter?</div><div>Frequentei este webinário para me enriquecer como profissional e poder saber reconhecer os sinais de uma possível ideação suicida e, assim, trabalhar multidisciplinarmente com alguém especializado nesta área. No entanto, não sou de todo a pessoa mais indicada para poder abordar esta questão de uma forma profissional. Mas há aspetos importantes, por exemplo, é importante ter atenção a sinais como alterações de humor, automutilação, isolamento, discurso de desesperança… e reencaminhar o caso para que se possa atuar o mais precocemente possível.</div><div>Integrou uma oficina sobre “Género e comunidades ciganas”, participou numa apresentação oral sobre o tema “Despertar para aprender: envolver alunos ciganos na escola“ integrado no grupo GUIA (1) e desenvolveu e defendeu a dissertação do seu mestrado uma investigação &quot;Mudanças de atitudes acerca da etnia cigana em crianças do 4º e 5º ano&quot;.</div><div>6. O que a motivou a conhecer melhor a etnia cigana e a sua integração nas escolas?</div><div>Aqui sim, começou um dos meus temas de paixão e a minha paixão pela investigação. O interesse pela etnia cigana acho que cresceu por vários fatores e quando surgiu a oportunidade de trabalhar com esta temática foi quase como instintivo e eu soube que queria seguir por aqui. Foi a curiosidade pelos valores e costumes muito peculiares e vincados e pelas questões de discriminação em todos os aspetos. Dizemos que somos um povo muito inclusivo, mas quando nos deparamos com algo “estranho” à nossa forma de viver, algo que não compreendemos, repelimos sem sequer conhecer ou tentar perceber. E quando toca à educação, eu acredito, sei com certeza até, que todos temos o direito à educação. Mas não acredito na igualdade na educação, mas sim na justiça social na educação, na equidade. Se uns estão num patamar e outros noutro, faz sentido darmos a mesma quantidade aos dois grupos? Não, porque continuarão em patamares diferentes, certo? É a mesma lógica. Não podemos dizer que integramos as minorias na escola simplesmente colocando-as lá. É necessário realmente fazer uma integração, e isso requer trabalho por parte de todos, dos alunos, dos professores, dos diretores, dos órgãos decisores… Por isso, é aqui que se encontra a minha motivação, em tentar fazer a diferença na verdadeira integração da etnia cigana nas escolas. Até porque é esta integração na escola que vai servir de ponto de partida para integração no mercado de trabalho e na sociedade por parte desta minoria.</div><div>7. O que aprendeu desde a oficina em que participou?</div><div>Tenho aprendido muita coisa! Que são uma etnia muito rica culturalmente e que vale a pena conhecer a sua história. E aqui entra outra coisa que aprendi, que um dos grandes motivos para as pessoas discriminarem é não conhecerem, julgarem sem saber ao certo o que estão a julgar (porque quando pergunto o porquê de “não gostarem de ciganos” as respostas são “porque não”, sem fundamento). Que a não inclusão nas escolas se deve a questões culturais (o casamento, as feiras…) mas também em grande parte à discriminação sentida e a falta de sentimento de pertença. Sim, imaginem que toda a vossa vida diziam que a vossa família era suja, roubava, entre outras coisas. Como reagiam? Eu com certeza que reagiria mal e também não iria ter a melhor resposta comportamental. É um efeito bola de neve… As pessoas excluem-me, eu ponho-me de parte, as pessoas não conhecem e voltam a excluir, e eu coloco-me ainda mais de parte! Também tenho aprendido que somos realmente todos iguais. As crianças ciganas gostam de brincar, querem aprender, têm sonhos. É, com certeza, frustrante quando uma rapariga cigana vai contra a sua cultura, esforçando-se para terminar o 12º ano e quando nas entrevistas de emprego percebe que a sociedade não quer saber e que afinal não valeu a pena a luta! E, portanto, aprendi que há um longo caminho a percorrer nesta caminhada da inclusão.</div><div>8. De que forma o seu estudo no mestrado a tem ajudado a compreender este povo, suas vivências, formas de estar e pensar?</div><div>Mais do que ler sobre o assunto, é a interação com a realidade que me tem ajudado a compreender a etnia cigana. Foi muito importante envolver a comunidade cigana na construção do próprio estudo e não me colocar numa posição de expert que sabe exatamente o que está a fazer. Assim, integrei-me na comunidade cigana do Bairro da Biquinha e interagi com as crianças e fui mostrando os materiais do estudo para me darem feedback (diziam se estava de acordo com a realidade deles ou não). Foi uma experiência muito rica e importante para mim como psicóloga e investigadora. Também a implementação do próprio projeto nas escolas tem-me ensinado muito, sobre as perspetivas das outras crianças acerca desta comunidade, de forma a perceber o que podemos fazer para contribuir para a integração.</div><div>No seu Estágio Curricular, o ano passado na Unidade de Internamento Pediátrico do Hospital de Braga, ao abrigo do projecto cresCIMENTE. Este projecto abrange diversas actividades educativas e de promoção de auto-regulação nas crianças.</div><div>9. Através do estágio, o que espera desenvolver e que conhecimentos pretende adquirir de modo a melhorar o seu trabalho e o desenvolvimento das crianças?</div><div>Com o trabalho que desenvolvi no meu estágio na Pediatria tive contacto com uma realidade que até então nunca tinha parado para refletir. De facto, as crianças internadas estão afastadas de todas as suas rotinas diárias e, principalmente, da escola. Este internamento pode prolongar-se por dias, semanas ou meses, sem que as crianças tenham contacto com a escola e sem que encontre uma medida que faça face a este afastamento. Assim, estas crianças podem perder certos estágios de desenvolvimento fulcrais e tornar a reintegração na escola difícil. O projeto CresciMENTE vem colmatar esta lacuna, tornando o Hospital num local de aprendizagem e aproveitando o tempo de internamento para que seja uma oportunidade de aprendizagem. Assim, foi possível trabalhar com estas crianças: questões de ansiedade relacionadas com a escola ou com o próprio internamento (os enfermeiros e os médicos já têm tantas tarefas que muitas vezes não conseguem explicar a situação de saúde à criança ou prepará-las para a cirurgia); problemas de aprendizagem; competências transversais, como a memória e a concentração, indispensáveis para o quotidiano; entre muitas outras coisas. Foi possível compreender que este trabalho da psicologia no internamento se torna indispensável, uma vez que melhora a experiência de internamento das crianças (não se torna algo traumático) e facilita o regresso à escola, para que não se note um desfasamento tão grande relativamente aos seus pares.</div><div>10. Neste momento é investigadora no GUIA onde está a desenvolver um projecto de alimentação para crianças do ensino básico com estratégias de auto-regulação de aprendizagem. Sabendo do seu grande interesse por crianças, em prol de um desenvolvimento livre e saudável, de que forma sente a importância de abraçar este projecto? De que modo estas estratégias poderão mudar a realidade das crianças na maneira como se alimentam? Como pretende levar este projecto a mais crianças? A obesidade e o excesso de peso são um cenário cada vez mais assustador na sociedade. De facto, esta problemática aumentou mais do que o dobro nos últimos anos e as pessoas só pensam realmente nela quando começam a aparecer as consequências mais graves. No entanto, o excesso de peso nas crianças tem um impacto no domínio não só da saúde, mas também no psicológico e social. Uma criança com excesso de peso não acompanha as mesmas brincadeiras, não tem o mesmo nível de concentração nas aulas, é estigmatizada, entre outras coisas com muito impacto no dia-a-dia. A boa notícia é que esta problemática pode ser modificada, na maior parte dos casos, com alimentação saudável e exercício físico. Já têm sido implementados vários programas neste sentido, o problema é que muitas vezes se focam apenas em transmitir conhecimento declarativo acerca da alimentação saudável e já está comprovado que apenas o conhecimento não chega. Uma criança pode saber que deve comer fruta, mas se lhe aparece um bolo à frente como é que tem capacidade para optar pela melhor escolha? Aí é que entram as estratégias de auto-regulação da aprendizagem: dotar as crianças de competências de criação de objectivos, de planeamento, de superação de obstáculos. Assim, a criança não sabe apenas quais são as melhores opções, como também tem as estratégias adequadas para enfrentar os distratores que a impedem de conseguir seguir um estilo de vida mais saudável. Estas estratégias são muito importantes porque a criança sente que tem controlo nas suas escolhas e que é eficaz a cumprir os seus objectivos. Quanto à expansão do projecto, este tem uma componente online, que para além de ajudar na motivação das crianças para se envolverem no mesmo, também permite que acedam à distância. Isto no futuro irá ajudar-nos, espero, a chegar ao maior número de crianças possível.11. Contou-me que continua a dar seguimento ao seu projecto sobre a etnia cigana. Depois de vários trabalhos, da sua tese de mestrado concluída, e de compreender melhor a comunidade cigana, estando familiarizada com os seus hábitos e cultura, o que lhe permite desenvolver uma melhor aproximação e inclusão? Quais são os novos objectivos? O que pretende ainda aprender e proporcionar à comunidade cigana? Vou começar pela questão do aprender. Aprender ainda tenho muito que aprender, há sempre mais para aprender. E só aprendendo mais e compreendendo melhor a cultura desta comunidade é que podemos desenvolver uma melhor aproximação e inclusão. Quando a abordagem de “inclusão” é tentar a aculturação da etnia cigana para que tenham os mesmos valores e costumes que a cultura dominante, está logo tudo errado! É importante que se valorize e respeite os valores da comunidade cigana para que seja possível a sua integração no meio escolar e na sociedade em geral. Quanto aos objectivos, continuam a ser trabalhar com os dois lados, tanto com a comunidade como com os mainstream, para que se promova cada vez mais a inclusão e a aceitação da diferença.</div><div>12. Por último, quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Eu acredito muito no meu país e nas pessoas do meu país e, por isso, acredito que os meus sonhos se tornem realidade! Sonho com uma educação que valorize mais a individualidade de cada um, sonho que realmente se invista nas nossas crianças porque são mesmo o nosso futuro e sonho que o país acredite mais nos ganhos que a psicologia pode trazer em todas as áreas!</div><div>- GUIA (Grupo universitário de investigação em autor-regulação)</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Vanessa Monteiro</div><div>08 de Janeiro de 2018</div><div>12 de Fevereiro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Paulo Pereira</title><description><![CDATA[Entrevista ao Paulo Pereira entre várias coisas Músico, Investigador, dinamizador cultural, Botânico, Biólogo e EcólogoComeçou o “Andanças” depois de ter tido conhecimento das danças através do Erasmus. De que forma foi importante a sua insistência com os seus amigos para a criação do “Andanças” e que importância tem para si a partilha de das danças tradicionais, teatro, música, através do Andanças e da “Pé de Xumbo” da qual foi presidente? De que forma estes trabalhos o fizeram crescer?O]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/02/Entrevista-ao-Paulo-Pereira-1</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2018/01/02/Entrevista-ao-Paulo-Pereira-1</guid><pubDate>Tue, 02 Jan 2018 19:18:55 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista ao Paulo Pereira entre várias coisas Músico, Investigador, dinamizador cultural, Botânico, Biólogo e Ecólogo</div><div>Começou o “Andanças” depois de ter tido conhecimento das danças através do Erasmus. De que forma foi importante a sua insistência com os seus amigos para a criação do “Andanças” e que importância tem para si a partilha de das danças tradicionais, teatro, música, através do Andanças e da “Pé de Xumbo” da qual foi presidente? De que forma estes trabalhos o fizeram crescer?</div><div>O objectivo inicial foi o de criar um movimento folk em Portugal, assente em três pilares: as danças (folk, populares, portuguesas), os instrumentos tradicionais e a música. Por isso a motivação foi sempre muito grande, porque sabíamos estar a partir pedra, a fazer algo de novo. Para a questão dos instrumentos foi criado mais tarde o encontro de tocadores, pequeno evento de grande impacto, já que contribuiu para a recuperação de instrumentos como a viola campaniça ou a flauta de tamborileiro. Mas para a música e dança, o Andanças foi e é um evento de referência em Portugal. Só por curiosidade, o meu critério de programação dos grupos nos primeiros 9 anos de Andanças tinha pouco a ver com as danças populares; convidei grupos que sabia que tocavam o tempo todo e pela noite adentro. Este facto foi muito importante para pegar o bichinho da música tradicional a muitos portugueses. O critério de programação para a dança tinha a ver com os mestres de dança convidados, que se queria o mais abrangente possível.</div><div>É investigador na área da Ecologia o que tem aprendido e através do “Andanças” do “Macromia”, Ideias Sustentáveis e outros projectos em que esteve e está inserido como foram fundamentais para a sua aprendizagem e partilha de conhecimentos?</div><div>Sim, sou biólogo, botânico e ecólogo. Tenho uma vertente mais técnica, onde por exemplo agora estou a trabalhar para fazer a Lista Vermelha da Flora de Portugal, mas tenho uma vertente de partilha de conhecimentos, que exerço através de projectos como a Rota da Água e da Pedra (http://rota-ap.pt) e também como guia (em eventos turísticos, de conservação de natureza, com amigos, festivais de natureza, etc). Esta partilha é para mim essencial, já que sou um apaixonado pela natureza, e esse fogo está sempre presente nos passeios interpretados que faço.</div><div>Tem o projecto “Macromia” em que dinamiza a Natureza, o ecoturismo, rotas, estudos ecológicos e ambientais. Para si como é enriquecedor e fundamental promover a natureza, a ecologia, a cultura, a valorização do património?</div><div>Sim, sem dúvida. Acredito que a partilha do nosso património natural e cultural é fundamental para desenvolver o gosto das pessoas por tudo o que nos rodeia. Essa vivência a meu ver é curativa, e aprofundarmos a nossa ligação às nossa raízes e às raízes da natureza é absolutamente fundamental para a nossa sobrevivência como espécie. Sou um radical militante, no sentido de aprofundarmos as nossas raízes à Terra e à Cultura.</div><div>Escreveu o livro “RIOS, Ecoguia para a descoberta do Vouga”. O que levou a querer dar a conhecer o Vouga através deste livro, e no Andanças dava a conhecer por exemplo as serras de S. Pedro do Sul. Como é enriquecedor podermos conhecer melhor as nossas terras e gentes?</div><div>É absolutamente necessário descobrirmos e conhecermos o nosso património. Só esse conhecimento nos permite olhar com respeito para tudo o que nos rodeia, em última análise, para o próprio universo. Fiz esse livro e mais tarde coordenei ainda o do património natural de Vouzela, onde a abordagem é semelhante. São projetos que resultam de um esforço para valorizar o território onde me encontro do ponto de vista natural, porque acredito que esse é um activo muito importante para o futuro desta região e das populações que aqui vivem.</div><div>Tem nas notas do seu facebook textos sobre os recibos verdes, porque foi e é crucial para si abordar este tema, como quem vive como trabalhador independente e como alguém criador duma empresa? O que podem e devem as pessoas conhecer sobre os recibos verdes?</div><div>Eheh. Sim, porque na minha vida activa trabalhei 95% a recibos verdes. Tem a ver com uma necessidade de justiça que me é quase patológica. No caso dos recibos verdes, finalmente começam a dar alguns passos para que sejam mais justos, mas até ao momento, éramos tipo os sem abrigo do sistema contributivo português. Pagamos muito e não temos direito a quase nada. Sou militante de causas que considero justas, como a floresta autóctone (em detrimento das plantações) ou a independência da Catalunha.</div><div>Esteve 12 anos nos “Uxukalhus”, esteve também no “NO MAZURKA BAND” e leva cerca de 20 anos a promover a música tradicional. O que representa para si tocar a música tradicional, música Folk, recriá-la e poder promovê-la? Como tem sido esta viagem da música pelos palcos de Portugal e além fronteiras?</div><div>A música para mim é e será sempre uma parte muito importante da minha vida. A música tradicional motiva-me por ter a ver com as nossas raízes, e o trabalho que tenho feito com esses grupos foi basicamente de reinvenção das nossas tradições. O gozo que isso me dá está muito para além dos concertos e das retribuições financeiras. A música tem para mim também uma importante dimensão espiritual, que permite estreitar a minha conectividade com o Universo. Curiosamente, nos últimos tempos tenho feito música de todo o mundo (norte de áfrica, Cabo Verde, América do Sul, ilhas do pacífico), composto para bandas sonoras de pequenos filmes de natureza, e tenho também feito mais música clássica. Para mim tocar música é absolutamente imprescindível, e é-me impossível estar mais de 3 ou 4 dias sem tocar. Cada vez mais, a síntese da minha vertente musical e natural é simples, e mesmo quando faço interpretação da natureza há sempre um momento musical.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal? </div><div>Sonhos de prosperidade e de progresso social. Poderia falar de muita coisa, mas acho que o mais importante por fazer é uma dinamização do interior e do campo, que pode ser feita de muitas maneiras, mas a regionalização seriam um bom primeiro passo. Sou um otimista compulsivo, e acredito que cada vez mais virá gente para o interior, para as aldeias e para as serras, se houver algum tipo de incentivo. A nova agricultura, o turismo, os empregos desde casa, a industria amiga do ambiente, estão hoje acessíveis fora dos grandes centros urbanos; se esta dinâmica for acompanhada por alguma modernidade (boa conectividade, apoio às famílias, escolas, apoio às empresas, etc), com certeza que muitas famílias saíram dos grandes centros urbanos. É que a qualidade de vida é infinitamente superior no Portugal rural. E é isso, o meu desejo para Portugal, um desenvolvimento para fora do litoral, harmonioso e em respeito pela natureza.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Paulo Tojeira</div><div>2 de Janeiro de 2018</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>02 de Dezembro de 2018</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a João Maria Pinto – Cantor e Actor</title><description><![CDATA[Este ano, com o grupo Teatro a Barraca, estrearam a peça “Tartufo”, de Moliére, uma peça com linguagem cómica que aborda as relações humanas que envolvem a religião, o poder, a ascensão social, a manipulação de valores e sentimentos e a falência da ética moral necessária para a solidez do tecido social da actualidade deste texto. Uma sátira que aborda o contraste/cumplicidade entre a hipocrisia e a credulidade. O que significa para si poder representar esta peça que aborda temas tão cruciais]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/15/Entrevista-a-Jo%C3%A3o-Maria-Pinto-%E2%80%93-Cantor-e-Actor</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/15/Entrevista-a-Jo%C3%A3o-Maria-Pinto-%E2%80%93-Cantor-e-Actor</guid><pubDate>Fri, 15 Dec 2017 13:12:45 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Este ano, com o grupo Teatro a Barraca, estrearam a peça “Tartufo”, de Moliére, uma peça com linguagem cómica que aborda as relações humanas que envolvem a religião, o poder, a ascensão social, a manipulação de valores e sentimentos e a falência da ética moral necessária para a solidez do tecido social da actualidade deste texto. Uma sátira que aborda o contraste/cumplicidade entre a hipocrisia e a credulidade. O que significa para si poder representar esta peça que aborda temas tão cruciais para a reflexão sobre a sociedade dos nossos dias?</div><div>TARTUFO</div><div>Os textos de Moliere são clássicos e como tal representam-se em qualquer época com a mesma carga crítica. Foi um êxito absoluto em Lisboa e em todos os locais onde foi representado este TARTUFO.</div><div>Para “A Barraca” também representou peças a partir de autores como Frederico Garcia Lorca, Gabriel Garcia Márquez, José Saramago ou Zé do Telhado: Querido Che, Pedro e Inês, Afonso Henriques… Esta última aborda, entre outros temas, duas realidades culturais. Como se sentiu por poder representar peças destes autores, e estes temas sobre guerreiros e revolucionários?</div><div>AFONSO HENRIQUES</div><div>É sempre um prazer revisitar temas históricos e construir personagens dessas época e distantes. Foi sobretudo uma aprendizagem. Neste lote de peças, tenho particular carinho pelo Zé do telhado que foi a minha estreia profissional como actor/músico e também inesquecível pelo contacto com o saudoso Zeca Afonso.</div><div>Participou nas séries Ballet Rose, Conta-me Como Foi, a curta Cowboys na António Maria Cardoso, o filme Assalto ao Santa Maria, As Ondas de Abril, a peça 1936 O ano da morte de Ricardo Reis, todos trabalhos sobre o fascismo ou relacionados com ele. Como lidou com o facto de representar nestes trabalhos sobre um período tão negro e horrível da nossa história? Que aprendizagens tirou destes trabalhos?</div><div>SOBRE O FASCISMO</div><div>Sou do tempo em que a luta contra o fascismo se fazia sentir e naturalmente tendo sofrido na pele os horrores de uma guerra a todos os título injusta, não podia deixar de me sentir confortável ao criticá-lo em diversas representações.</div><div>Representou também para as séries João Semana e Ferreirinha. Foi motivador e enriquecedor para si participar numa série sobre uma mulher que revolucionou o Douro e numa série sobre Júlio Diniz e a forma como faz ligação ao mundo moderno, mas hesitante e medroso?</div><div>FERREIRINHA</div><div>Fui educado numa família que possui fortes ligações ao Douro. Naturalmente defendo o papel da mulher em qualquer sociedade e foi com enorme prazer que trabalhei neste projecto.</div><div>O que sentiu ao dar vida a uma personagem em Velhos Amigos, nesta história/série de aventura, que trata temas como o direito que os idosos têm a viver, o abandono dos pais pelos filhos como é o caso da sua personagem, numa série que também vinca muito a amizade?</div><div>VELHOS AMIGOS </div><div>Velhos amigos foi mesmo um encontro muito especial de velhos amigos...Actores que admiro muito e com os quais adorei trabalhar. Embora defenda que os filhos não são para os pais, acho que abandoná-los muito novos é bastante criticável. O problema dos idosos é bastante difícil de solucionar numa sociedade tão cheia de valores materialistas....</div><div>Quando esteve na tropa, com outros seus camaradas criaram as canções do Niassa em Moçambique. Para si, foi crucial ter estado na origem destas músicas contra a guerra, contra o Estado Novo, e que representam um lamento e protesto pelas condições de vida da tropa? Hoje continua a cantar canções populares e de protesto como as de Fausto e a participar em iniciativas do AJA – Associação José Afonso. O que o faz continuar a cantar canções de protesto e que importância tem para si poder dar voz às canções populares?</div><div>CANCÕES DA GUERRA</div><div>Não sou responsável por nenhuma canção do Cancioneiro do Niassa, apenas me limitei a proceder à sua recolha e divulgação do qual fiz o mais que pude, tendo gravado imensas cassetes que circularam por todas as zonas de guerra e posteriormente gravei para a Emi/Valentim de Carvalho com a colaboração de vários cantores.</div><div>Toco viola desde muito novo e sempre que possível, participo também como músico nos espectáculos da Barraca. Músicas do Fausto, do Zeca, do Orlando Costa, etc. Fazem parte do meu repertório musical e sempre que surge uma oportunidade, não deixo de cantar as cantigas da guerra.</div><div>Representou para o filme Quarta Divisão que abordava o desaparecimento de crianças, a pedofilia e a violência doméstica. Que importância teve para si ter representado num filme com temas tão delicados e fulcrais para os dias de hoje?</div><div>BALLET ROSE</div><div>Temas que me tocam bastante. A pedofilia é sem dúvida a aberração mais difícil de suportar. Tenho dois netos e não posso sequer Imaginar que possam um dia sofrer esses horrores, sejam eles rapto ou pedofilia.</div><div>Malucos do Riso,Levanta-te e Ri, Maré Alta, Camilo-Presidente, Sagrada Família, Os Compadres, Donos Disto Tudo, Refrigerantes e Canções de Amor são vários trabalhos seus no registo de humor. De que forma é que trabalhar no humor é importante para si e fundamental para o público?</div><div>COMÉDIAS</div><div>O registo de comédia é-me sempre muito apetecível. Penso que todos os actores devem passar por ele de vez em quando. É difícil e muitas e muitas vezes não agradamos a determinado público, mas há sempre um dia em que os deuses favorecem a comunicação e a explosão do público nos invade a alma!</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>VOTOS</div><div>Costumo desejar aos meus amigos, Saúde, Paz e Amor!</div><div>Porque não desejar o mesmo para o meu País?</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>14 de Dezembro de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>13 de Dezembro de 2017</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Actor Carlos Paulo do Teatro a Comuna</title><description><![CDATA[Representou o Henrique Galvão no filme “Assalto ao Santa Maria” e disse à revista Visão que esse homem controverso o fascinava e que estudou todo o seu percurso como preso e como membro do regime. O que aprendeu sobre o estudo que fez para a personagem e também ao representá-la?1- Quando me debrucei na pesquisa sobre a vida e a obra de Henrique Galvão, fi-lo sobretudo, com a intenção de enfrentar fantasmas do meu passado familiar e encontrar o homem para lá do mito e da personagem]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/06/Entrevista-ao-Actor-Carlos-Paulo-do-Teatro-a-Comuna</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/06/Entrevista-ao-Actor-Carlos-Paulo-do-Teatro-a-Comuna</guid><pubDate>Wed, 06 Dec 2017 12:52:37 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Representou o Henrique Galvão no filme “Assalto ao Santa Maria” e disse à revista Visão que esse homem controverso o fascinava e que estudou todo o seu percurso como preso e como membro do regime. O que aprendeu sobre o estudo que fez para a personagem e também ao representá-la?</div><div>1- Quando me debrucei na pesquisa sobre a vida e a obra de Henrique Galvão, fi-lo sobretudo, com a intenção de enfrentar fantasmas do meu passado familiar e encontrar o homem para lá do mito e da personagem histórica.</div><div>Quando ocorreu o assalto ao Santa Maria, o meu pai, católico fervoroso e salazarista convicto, obrigava-nos em casa, depois do jantar, a rezar um terço colectivo para pedir a Nossa Senhora de Fátima o resgate do Santa Maria e a protecção de Salazar. Meses depois ali estava eu no Terreiro do Paço a ouvir o discurso de Salazar à Nação: “Temos o Santa Maria”.</div><div>Henrique Galvão passou a ser, então, um nome “maldito” no meu imaginário de criança.</div><div>Anos depois, já adolescente, iniciei a minha vida teatral, a fazer teatro radiofónico na antiga Emissora Nacional, participando em folhetins e programas para a juventude dirigidos por Odette de Saint-Maurice. E volta a surgir de novo o nome de Henrique Galvão, como o precursor deste tipo de programas, aquando da sua passagem como director da Emissora Nacional. Desta vez Galvão era-me falado como alguém de grande envergadura intelectual e empenhado em criar uma rádio oficial do regime, ligada à divulgação cultural através de programas de literatura, poesia e teatro.</div><div>O Henrique Galvão “diabólico traidor da pátria” transformou-se então no homem de carácter, cultura e merecedor da admiração e respeito daqueles que com ele viveram esse período de colaboração e contacto na Emissora Nacional.</div><div>Quando muitos anos mais tarde, o Francisco Manso me convida para interpretar a sua personagem no filme “O Assalto ao Santa Maria” eu percebi que era uma “oferta” para olhar para o mítico Galvão como homem, como ser humano e sobretudo como um idealista. Era também um desafio para melhor entender o meu país e um regime que tanto marcou a minha infância e adolescência e a minha vivência familiar.</div><div>E fiquei fascinado por conhecer o Henrique Galvão e dar-lhe voz e rosto, porque sempre acreditei que o ser humano é muito mais rico e complexo do que uma “imagem” ou um “símbolo”.</div><div>Teve oportunidade de conhecer algumas pessoas envolvidas do Assalto no Festival Internacional de Caracas, através do Grupo de Teatro a Comuna. Em que é que esta mais-valia foi essencial e facilitadora para a construção da sua personagem?</div><div>2 – Esse encontro com alguns dos elementos que tinham participado na equipa do assalto ao Santa Maria aconteceu em 1973 quando fomos pela primeira vez ao Festival Internacional de Teatro de Caracas, representar a peça “A CEIA”. Fomos então contactados por uma Junta Democrática Portuguesa que se nos apresentou como uma organização que estava a fazer um trabalho de ligação entre a comunidade portuguesa que ali vivia. Esse trabalho era feito sobretudo através da via cultural: a literatura, a poesia, a música e o teatro. Era também um local de tertúlia e de apoio das diversas comunidades portuguesas que começavam a aparecer na Venezuela.</div><div>Quando foram assistir ao nosso espectáculo fizeram questão de colocar uma placa alusiva à nossa presença nesse Teatro, para que a restante população emigrante portuguesa em Caracas sentisse a importância da nossa presença.</div><div>Depois convidaram-nos uma noite para uma tertúlia na sede da Associação para conversarmos informalmente, e então percebemos que a estrutura directiva dessa Junta Portuguesa era formada por uma série de elementos que tinham participado na aventura do Assalto ao Santa Maria, e que tinham escolhido Caracas como lugar de exílio, porque no Brasil onde o barco aportou, era mais difícil a sobrevivência, devido às ligações da PIDE portuguesa com a policia do regime do Brasil.</div><div>Foi aí que então ouvi pela voz dos seus protagonistas o que foi aquele acto de resistência e idealismo que transformaram o nome do navio em Santa Liberdade, e onde não houve uma gota de sangue ou falta de cuidado e atenção para com os passageiros, na maioria estrangeiros.</div><div>-2-</div><div>E foi também o conhecimento de um homem notável – Camilo Mortágua</div><div>que nos fez perceber e reviver essa epopeia que bem fez tremer a fachada do regime salazarista... A imprensa Mundial deu eco desse feito enquanto em Portugal nada se sabia pela censura permanente dos meios de comunicação. Dessa vivência com Camilo Mortágua nasceu uma amizade com a Comuna que ainda perdura, atravessando períodos tão disparos como o exílio em Caracas, o regresso no 25 de Abril, as ocupações, a Reforma Agrária, a criação das novas Cooperativas onde íamos representar os nossos espectáculos para angariação de fundos, o lançamento dos seus livros no espaço da Comuna, a partilha de amigos comuns e as tertúlias de que ainda hoje não abdicamos. Quando mais tarde vou então recriar a figura de Henrique Galvão tinha uma profunda confiança naquele ser que me foi transmitido com tanto entusiasmo e admiração. Era sim, um verdadeiro Líder e um homem português que merecia ser conhecido e admirado pelos seus pares. Um almirante que não se vergou!</div><div>É autor e coordenador dos espectáculos “A Palavra dos Poetas”, dedicados a poetas do séc. XIX e séc. XX. Como tem sido a experiência de dar voz às palavras dos poetas e que aprendizagem tem tido desde que começou a desenvolver este trabalho?</div><div>3 -A minha paixão pelo teatro começou por causa da poesia. Aos 14 anos descobri o Fernando Pessoa da “Mensagem”. Apaixonei-me por Camões aos 15 anos com Os Lusíadas e sobretudo com o poeta dos Sonetos. Com 16 anos assisti à peça “Bocage Alma Sem Mundo” de Luzia Maria Martins no Teatro Estúdio de Lisboa. Esta peça retratava a vida do poeta Bocage e descobri que afinal ele não era o homem das tiradas obscenas e de humor, mas sim um grande poeta. Vi esta peça 1, 2, 3, 10, 15 vezes. Dessa última vez pedi para falar com a directora da companhia Luzia Maria Martins e disse-lhe : Minha senhora depois de ver este espectáculo descobri que a minha vida vai ser esta – quero ser actor!!</div><div>Seis meses depois estava a ensaiar nesse Teatro Estúdio de Lisboa, a peça “A Nossa Cidade” sob a direcção da Luzia Maria Martins. Tinha 16 anos e a minha vida teatral começava ali.</div><div>E aprendi uma coisa essencial: eu apaixonei-me pelo teatro porque o vi, e apaixonei-me pela poesia porque a li – então a minha função passaria a ser essa – contaminar os outros,</div><div>fazê-los apaixonarem-se e como dizia o Jean Genet espalhar “como lepra” o milagre da criação. Daí a Palavra dos Poetas: a partilha de uma das maiores riquezas da nossa língua e da nossa cultura – a Poesia. A aprendizagem que retiro deste trabalho de que me ocupo há 20 anos é uma permanente descoberta e partilha que dá sentido à vida que escolhi: o teatro, a palavra, o prazer do texto.</div><div>E muitas vezes no final dessas sessões recebo jovens, com os 16, 17 anos que eu já tive, que me vêem agradecer por lhes ter dado a conhecer novos mundos e a descoberta de novos caminhos para a alma.</div><div>Passou pela Companhia do Teatro Estúdio de Lisboa, Teatro Vasco Santana, representou em várias companhias como Casa da Comédia, Paraíso Infantil/Vasco Morgado, Teatro Experimental de Cascais, Companhia de Laura Alves, Companhia Teatral de Angola, Teatro ABC, Companhia Teatral do Chiado, Filipe Lá Féria – Produções, Teatro Meridional, Festival de Teatro de Mérida – Espanha. Foi sócio fundador da Metrul - Teatro do Arco da Velha (1970), Os Bonecreiros - Teatro Laboratório de Lisboa (1971) e da Comuna-Teatro de Pesquisa (1972) onde está até ao momento. Em que é que todo este percurso tem sido essencial e enriquecedor para si, como actor e como homem?</div><div>4 – Quando me estreei no Teatro foi já no Teatro Profissional. Nunca frequentei um curso, e nunca tinha tido nenhuma aprendizagem específica relacionada com a representação. Queria ser actor – era tudo. Por isso os meus primeiros 5 anos de profissão foram o meu Conservatório: aprendi fazendo. Daí a diversidade de encenadores com quem trabalhei, porque eu tinha plena consciência de que tudo me iria servir como formação. Aprendi com os diferentes métodos de cada um, como aprendi com os erros e com as descobertas que ia fazendo. Também tive a sorte e graças à minha idade – 16 anos – de fazer todo tipo de Teatro: infantil, musical, experimental, pesquisa. Cada peça, cada nova experiência era como frequentar o meu curso no liceu: um dia chegaria ao 12º ano e poderia pensar: agora sim, já podes frequentar um Curso Superior. E isso viria a acontecer quando fundei a Comuna ao fim de cinco anos de intensa actividade profissional. E pensei: “Agora sim, sou um actor.”</div><div>-3-De cada encenador, de cada companhia, de cada projecto, ficou sobretudo a memória da aprendizagem permanente, da partilha deslumbrada com actores que tudo me ensinaram. Eles foram os meus Mestres que tudo me ensinaram e me deixaram tudo:</div><div>Luzia Maria Martins, Helena Félix, Laura Alves, Paulo Renato, Raul Solnado, Armando Cortez, Canto e Castro, Eunice Muñoz, e os meus “irmãos” Mário Viegas e Filipe La Féria, como depois na Comuna foram o João Mota e a Manuela de Freitas.</div><div>Hoje sei que tive muita sorte em partilhar todo esse crescimento com eles, mas também tenho a consciência de que tudo fiz para o merecer.</div><div>Tem feito todo o tipo de teatro desde o infantil, comédia, musical, drama, café-teatro, revista, mais de 80 peças e tem representado textos de pessoas tão ilustres como: Garcia Lorca, Shakespeare, Gil Vicente, Alves Redol, Natália Correia ou Samuel Becket. Trabalhou com Mário Viegas, João Mota e Armando Cortez. O facto de ter representado estes autores e com estes actores, e ter feito um pouco de tudo, tê-lo-á certamente feito crescer e aprender. Em que é que se reflecte esse crescimento e essa aprendizagem?</div><div>5– Aprendi sobretudo uma noção essencial – o Teatro contém tudo, como a vida: o drama, a tragédia, o humor, a fantasia, a infância, os sonhos.</div><div>Aprendi que o Teatro não tem molduras, nem géneros maiores ou menores. Que a diversidade é a maior riqueza desta forma de criação, tal como na vida em que a maior riqueza é a partilha. Viver e partilhar, tudo isso nos faz ser uma pessoa mais lúcida, mais sensível, mais livre e mais aberto ao mundo e aos outros.</div><div>Aprendi com o actor que dentro de mim tudo existe: o amor, o ódio, o ciúme, a maldade, a avareza, a inocência, o medo – tudo.</div><div>Aprendi que o crescimento como ser humano é sobretudo isso: a escolha permanente, o risco permanente. Mais do que julgar, condenar, criticar o Teatro ensinou-me a olhar, a perceber, a compreender, a aceitar, a amar os outros.</div><div>Ensinou-me também a humildade de aprender que cada nova peça é sempre um recomeço, que cada novo texto e cada novo autor são sempre uma nova descoberta, que cada novo personagem é um mergulho profundo e atento nos meus sentimentos, nas minhas crenças, nas minhas emoções.</div><div>Viver através da criação é ter a consciência plena do sagrado e do profano; do efémero e do eterno, do zero ao infinito.</div><div>E compreendi-vivendo o que Peter Brook nos dizia: “O actor é o espaço vazio onde habita um texto”. Tal como aprendi aquilo que Pessoa me ensinou: Saudades, só do futuro.</div><div>Foi professor de teatro nos vários cursos que a A Comuna realizou. O que significa para si partilhar o saber e a experiência de palco com os mais novos?</div><div>6 – Esses cursos têm sobretudo a riqueza de cultivar a partilha e a descoberta. Como homem e como actor exigem-me a disponibilidade absoluta de ver, ouvir, compreender e sobretudo, ter a consciência daquilo que o João Mota me ensinou: cada actor é um, tal</div><div>como cada pessoa é uma – não há dois iguais.</div><div>Nunca tive o desejo de ser encenador, mas compreendi e aprendi que poderia partilhar com os outros a minha experiência de criação como formador. Ajudá-los a descobrir todo o potencial que cada um de nós é portador e dar-lhes técnicas e ferramentas para o desenvolver sem sobressaltos, nem exames, nem testes. Com exigência, mas sobretudo com disponibilidade, com cumplicidade.</div><div>Aprendi que, tal como me ensinaram a mim, cada um de nós deve descobrir o seu caminho para atingir a plenitude única e irrepetível da criação. A capacidade de sermos mais do que aparentemente somos.</div><div>Para mim esses Cursos são sobretudo uma passagem de testemunho, de experiências e de aprendizagem, que me ajudaram a ser mais humilde e atento, cada vez mais disponível para ver, ouvir e perceber que a mudança é permanente e única. E que cada um é um – esta é a riqueza mais profunda e misteriosa do ser humano</div><div>Através de A Comuna participou nos mais importantes Festivais de Teatro de todo o mundo em mais de vinte países da Europa, América, África e Ásia. Que contribuição trouxeram para o seu trabalho de actor todas estas experiências, cultura e sabedoria obtidas nessas viagens?</div><div>7 – A maior riqueza que essa experiência me proporcionou, foi a aprendizagem da relativização. Tudo é relativo. Tínhamos em Portugal um público disponível, fiel, e entusiasmado.</div><div>-4-</div><div>Vivemos dois períodos políticos antagónicos: a ditadura – com censura e ameaças permanentes, e a democracia – com a descoberta colectiva da vida em liberdade.</div><div>Quando das nossas participações nos grandes festivais internacionais de Teatro, também sentimos esse antagonismo: antes do 25 de Abril atraíamos um público que queria perceber e sentir o que é fazer teatro num país com uma ditadura e uma guerra</div><div>permanente em África. Éramos então recebidos com curiosidade e admiração em países tão diferentes como a Polónia ou a Colômbia.</div><div>Depois do 25 de Abril éramos recebidos como os heróis de uma revolução sem violência e os portadores de uma nova mensagem: a festa dos cravos nas espingardas. E aí sim, sentimos que foi o mundo que se abriu para nos receber. Fizemos espectáculos em todos os grandes festivais de Teatro na Europa, na América e em África.</div><div>Para mim como actor e ser humano foi sobretudo a troca de experiências e a relação directa com outros criadores e outras culturas. Aprendi, também, que a língua não é um obstáculo para a relação com os outros – no Teatro a imagem e a presença física do actor estabelece todas as pontes para lá das diferentes línguas e culturas.</div><div>Vi e senti público emocionado com “A Ceia” na Hungria, em França, como na Costa Rica ou no México.</div><div>Também foi a ocasião única de conhecer e partilhar experiências com grandes criadores e curadores do Teatro em todo o mundo: Peter Brook, Dario Fo, Jack Lang, Grotowski, Nuria Espert e tantos outros. Percebi então que nós não éramos nem melhores nem piores – éramos nós, com a nossa paixão de criar espectáculos que fossem testemunhos da nossa vivência, das nossas descobertas, da nossa cultura.</div><div>Representou Aristides de Sousa Mendes - O Cônsul de Bordéus e Operação Outono. Ter participado em dois filmes sobre o Estado Novo/ 2ª Guerra Mundial e sobre o assassinato do General Humberto Delgado pela Pide foi uma forma de partilhar a História, representando-a. Até que ponto estas participações foram gratificantes para si?</div><div>8 – A minha participação nesses filmes foi sempre ditada pelo interesse e a riqueza dos temas propostos: factos reais da nossa história recente.</div><div>Houve durante muitos anos uma lacuna muito dolorosa na abordagem destes temas: se antes do 25 de Abril era impossível devido ao regime político, após a revolução deixou de haver desculpas. Por isso meu entusiasmo e vontade em participar nesses projectos. Na minha vida artística (49 anos) não fiz muitos filmes, mas os que aceitei fazer foi sempre essa razão principal: a história recente de Portugal, sem epopeias nem triunfalismos, mas com a reflexão e cuidado que ela merece. Henrique Galvão, Aristides de Sousa Mendes, Humberto Delgado merecem com toda a justiça essa evocação das suas vidas e obras.</div><div>Como actor era o prazer acrescido de estar a contribuir para uma maior compreensão e memória dessas vivências. O Teatro é efémero – vive e morre em cada noite, e só a memória de cada espectador o fará perdurar. O cinema, pelo contrário, ficará para sempre como um documento vivo. Daqui a cinquenta anos alguém poderá ver estes filmes e tomar conhecimento destas vidas e eu sentir-me-ei sempre recompensado por ter ajudado a perseverar esses testemunhos.</div><div>Ao longo de todos estes anos de representação, passou com certeza por muitas situações engraçadas. Quer partilhar alguma connosco?</div><div>9- Passei de facto por muitas situações especiais que, hoje com o tempo posso chamar de engraçadas. Uma que me lembro sempre – estávamos a fazer um espectáculo na Guatemala, “O Fogo”, num Festival de Teatro Internacional. O espectáculo foi representado num pavilhão enorme, a humidade era tão intensa que os projectores fumegavam e o chão da cena (um plástico acrílico branco) estava sempre molhado. Cada vez que um de nós entrava em cena escorregava ou caía. As quedas foram permanentes durante o espectáculo... mas nós actores sempre seguros como se nada tivesse acontecido. Chegámos ao fim destroçados. No dia seguinte no jornal mais importante da Cidade da Guatemala, saía uma crítica entusiástica, dizendo que o elenco da Comuna é composto por actores fantásticos e malabaristas e contorcionistas de classe internacional.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal? </div><div>10 – Os meus sonhos para Portugal, ou melhor o “meu sonho” é de que se cumpra o Quinto Império do Padre António Viera até Fernando Pessoa: que este país pequeno e único se transforme através da língua e da cultura numa pátria sem religiões, nem raças, nem diferenças, mas sim num espaço que sirva de exemplo para o mundo do que seria a verdadeira globalização. Todos iguais e todos diferentes. Com a riqueza única da partilha de culturas e civilizações.</div><div>Pedro,</div><div>espero que sirva para o seu trabalho e muito obrigado por se ter lembrado de mim.</div><div>Um abraço fraterno do</div><div>Carlos Paulo</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>09 de Novembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>09 de Novembro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Soraia Simões, Autora do Mural Sonoro, investigadora integrada no IHC (FCSH NOVA)</title><description><![CDATA[1) Colaboraste no projecto Memórias da Revolução através dos “Sons da Revolução” e canções. Como foi teres trabalhado neste projecto do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL em parceria e com a colaboração de diversas instituições? De que forma foi fundamental para ti teres colaborado no desenvolvimento do “Sons da Revolução”, um dos pilares da Revolução e do PREC? 1) Trabalhei tanto com o Memórias da Revolução como com o Extrema-Esquerda]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/05/Entrevista-a-Soraia-Sim%C3%B5es-Autora-do-Mural-Sonoro-investigadora-integrada-no-IHC-FCSH-NOVA</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/12/05/Entrevista-a-Soraia-Sim%C3%B5es-Autora-do-Mural-Sonoro-investigadora-integrada-no-IHC-FCSH-NOVA</guid><pubDate>Tue, 05 Dec 2017 13:58:47 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>1) Colaboraste no projecto Memórias da Revolução através dos “Sons da Revolução” e canções. Como foi teres trabalhado neste projecto do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da UNL em parceria e com a colaboração de diversas instituições? De que forma foi fundamental para ti teres colaborado no desenvolvimento do “Sons da Revolução”, um dos pilares da Revolução e do PREC?</div><div>1) Trabalhei tanto com o Memórias da Revolução como com o Extrema-Esquerda porque não fizémos a Revolução? ambos projectos que contaram com a colaboração do IHC e Mural Sonoro, o segundo da RTP com colaboração do IHC e do Mural Sonoro. O primeiro do IHC tendo como parceiro a RTP. O primeiro a convite da professora Fernanda Rollo (actual Secretária de Estado da Ciência e Ensino Superior) e o segundo a convite dos jornalistas Luís Marinho e Rosário Lira (RTP). O primeiro centrava-se especialmente nas transformações ocorridas no pós 25 de Abril de 1974, especialmente durante o Processo Revolucionário em Curso (PREC), nesse universo procurei desenhar o modo como as ideias de cultura politizada se materializaram nomeadamente através da música junto a um público urbano, mas também rural, em contexto pós-revolucionário, no segundo partindo da forma como alguns dos sujeitos da canção que entrevistei no âmbito das minhas investigações (algumas dessas entrevistas estão disponíveis em áudio na História Oral do portal Mural Sonoro) associados a uma cultura de resistência das décadas anteriores ao PREC, que se haviam posicionado quer contra o fascismo, a resistência à censura, à ditadura, à Guerra de Libertação ou Colonial, como preferirem, e até em críticas duras às indústrias de espectáculos e culturais acederam quer a um campo discursivo acerca de um Portugal rural no palco de transição democrática como a um conjunto de actividades culturais e criação de repertórios musicais que reflectiram essa mesma conjuntura, na qual o povo, enquanto sinónimo de trabalhador, rural ou operário é frequentemente convocado na transformação política e consolidação da democracia. Foi muito estimulante participar em ambos, especialmente porque os estudos sobre música e cultura são quase sempre o parente pobre das ciências sociais. É uma missão subjacente às investigações que tenho realizado também: procurar demonstrar que por via das canções e dos discursos desses actores da música em campanhas de dinamização cultural, no decorrer dos espectáculos ou nas suas criações musicais conseguiram-se inscrever vários desses assuntos da nossa história recente em vários campos sociais, atingir no fundo uma comunidade muito maior, que tendo como canal o conteúdo literário dessas músicas a eles se conectou.</div><div>2) Desenvolveste estes dois trabalhos sobre duas vertentes diferentes mas igualmente importantes do processo da música portuguesa «Geração Rock Rendez Vous», As Beiras, 1995. «'Punked'! Do 'Novo Rock' à Quimera 'Punk' em Portugal», Rua de Baixo, Edic. Agosto de 2009. Antes de teres criado o Mural Sonoro já trabalhavas com memórias musicais e culturais. Estes trabalhos sobre fases importantes da música e cultura foram o que impulsionou o seguimento ou o processo de criação do Mural Sonoro?</div><div>2) Estás bem informado! Esse pequeno artigo acerca do RRV esteve relacionado com um trabalho de área escola realizado durante a juventude liceal em Coimbra e que foi posteriormente publicado e adaptado num diário local para o qual escrevi em part-time (As Beiras) entre os 17 e os 20 anos, até crónicas de desporto local (risos) na verdade. Como vivi os anos 90 em Coimbra e acompanhei no terreno a emergência de grande parte das bandas «punk» e «rock» da minha cidade quis cruzar a experiência do RRV que começara uns anos antes na capital, a qual me era relatada pelo meu tio João que no fundo era quem conhecia esses grupos de Lisboa (pausa). Era uma adolescente, ouvi o Rolls Rock do António Sérgio mais tarde, no final dos anos 90, porque ele, e muitas das pessoas que fizeram parte de alguns desses grupos musicais, alguns de quem fiquei amiga, gravavam-no tal como o meu tio. Aí entendi que aquilo que o Sérgio passava nessa altura na rádio era o que nós em Coimbra andavamos a ouvir e a procurar recriar, as bandas especificamente, em espectáculos ao vivo. Essa génese musical e «subcultura» digamos assim. Digamos que o meu primeiro disco em português, herdado no fundo, foi o Sémen dos Xutos. Não era um disco. Era uma k7 gravada da rádio. Tempos existencialistas mas com alguma magia para uma miúda na adolescência numa cidade pequena.</div><div>Quando fiz essa reportagem alargada para o RDB (publicada em 2009) onde juntei o Zé Pedro (Xutos), o Pedro Coelho (Mata Ratos), o Almendra (Peste e Sida), o Jorge Bruto e Pinela (Capitão Fantasma), a Vanda Gonçalves, entre outros, o objectivo foi traçar por vida de história oral, das suas memórias, aquilo que foi o que muitos apelidaram de «movimento punk» cá e aí designei de «quimera punk». É um trabalho num registo culturalista, que era o que se pretendia dada a natureza da revista. Um dia publico, depois de ver como está o som, no portal Mural Sonoro essas conversas na íntegra com um enquadramento diferente. Foi uma tarde bem passada para esse trabalho, no largo do Carmo todos, à excepção do Zé Pedro com o qual combinei em Paredes de Coura o registo, pois iriamos lá estar os dois, no mesmo recinto de convidados.</div><div>A segunda metade dos anos 70, quando surgem os Xutos, e os anos 80, quando a maioria destes grupos começa a gravar são marcados por vários factores de ordem política, cultural e económica, desde logo: a entrada na CEE, o crescimento de publicações culturais, de editoras, algumas multinacionais, etc. É um período bastante interessante para este campo, que a indústria alcunhou de «boom do rock nacional». É um período de afirmação das próprias indústrias discográficas e de publicação de conteúdos junto do grande público. Não é à toa que surgem nos últimos anos tantas investigações científicas dedicadas a este período.</div><div>Respondendo concretamente à questão sobre o seguimento, a relação dos primeiros trabalhos com o Mural Sonoro (pausa)... Na prática trabalho sobre música há muitos mais anos que a minha vida académica acerca dela, se isto responde. Acho que sim (risos).</div><div>3) Publicaste em Junho a tua segunda obra, desta vez com a chancela da Editora Caleidoscópio, o audiolivro RAPublicar. A micro-história que fez história numa Lisboa adiada: 1986-1996 sobre os primeiros 10 anos do «rap português». Como foi esse processo de conversas e entrevistas? Referiste ao DN que querias demonstrar a dimensão desta prática na e para a sociedade e cultura popular com aquilo que foram alguns dos seus primeiros agentes e impulsionadores. Consideras um dever cumprido?</div><div>Considero que as vozes mais invisibilizadas ou os assuntos menos visíveis de alguns e de algumas desses e dessas protagonistas tiveram aí palco e ficam, desse modo, registados na primeira pessoa. Concorde ou discorde com algumas das suas perspectivas acerca dos assuntos que levanto, que são os assuntos da minha investigação neste campo. Considero esse objectivo cumprido. Custar-me-ia, reparando durante o meu trabalho de campo em alguns omissos e invisibilidades que não se podiam expor, deste modo, numa tese de natureza científica, que o meu contributo fosse apenas um conjunto de debates e uma tese académica, achei que isto era o melhor modo de devolver a disponibilidade destas pessoas comigo, e a importância dos assuntos que elas levantaram na cultura popular e por terem sido as primeiras a fazê-lo, à sociedade fixando para isso as suas memórias, isto é as entrevistas que realizei e algumas das conversas que mantive durante o trabalho de pesquisa.</div><div>Acho que um investigador deve fazer investigação, no seu sentido mais nobre, qualquer pessoa que vá para o campo à procura de se compreender então esqueça. Vá fazer uma auto-biografia. Isso não é investigação. Criar convivialidade com aquilo que não foi o nosso meio directo de crescimento ou de actuação, reforçar interesses, contactos, pontes, fontes e diálogos e contribuir para a inscrição de leituras renovadas no seguimento disso é o que se pretende a montante e a jusante de um investigador. Não numa perspectiva de reciclar e devolver à comunidade, mas de conseguir tirar da invisibilidade a importância, trazendo para o corpo de texto a nota de rodapé e permitindo que ela interaja, sendo parte desse processo. É o que acho.</div><div>3) Participaste numa oficina com o rapper Cadi a convite do Bloco de Esquerda intitulada “O Rap É Uma Arma”. Que conclusões desse trabalho se devem tirar e de que forma se deve ver o Rap? O que aprendeste com estas oficinas, discussões, palestras, entrevistas e toda a análise e investigação, todo o trabalho desenvolvido?</div><div>Digamos que reforcei o que tem sido a linha de orientação principal do meu trabalho com o Mural Sonoro, que é a da noção clara de que é na intersecção de domínios de conhecimento e de experiências que reside a riqueza deste tipo de encontros e projectos. Quanto às conclusões ao modo como se «deve ver o RAP» não tenho nenhuma conclusão, como podes imaginar, sobre aquilo que considero que deve ter uma natureza crítica, performática, cultural e musical plural, heterogénea, inortodoxa. Ou seja, não considero que deva haver um manual de «como se deve ver» seja o que for. Cada qual vê consoante as suas lentes e visões do mundo cultural, e assim é desejável que seja, numa sociedade democrática.</div><div>O projecto de tese que apresentei tem o título RAProduções de memória, afirmação, resistências:os primeiros passos do RAP feito em Portugal (1986 - 1998) e propõe aprofundar a reflexão crítica sobre questões como a experiência transatlântica, as temáticas das esferas das desigualdades sociais, identitárias, económicas e de novos modelos de educação junto da comunidade jovem das décadas de 80 e 90 tendo como vector principal o papel pioneiro assumido por esta prática durante a sua emergência no nosso país e consequente afirmação na cultura popular no geral, ou seja noutros domínios como: o cinema de autor, a televisão, a dança, as artes plásticas e de rua: breakdance, flygirls, graffitti, muralismo, e da música popular no século XX através da introdução de uma narrativa crítica nova na música popular produzida em Portugal e de modelos de representação sonoros, performáticos e discursivos igualmente principiantes em contexto português, como os beat box, Mcing, rapping, djing, spoken work.</div><div>A tese pretende mostrar que os assuntos do universo histórico, mas também social e político, como esses de que dei exemplo, marcaram a existência diária destas comunidades nas primeiras décadas da sua afirmação no cenário cultural nacional e que, com a sua chegada aos mass media no início da década de 90, tendo como canal a expressão do seu corpo, da sua música e das suas «identidades culturais» inferiram, em discurso directo, um protagonismo aos antagonismos, ou seja: a um modo cru de «cantar» essas experiências até aí presentes exclusivamente na rua e invisibilizadas do contexto de difusão mediática, do mesmo modo que auferem para uma franja da sociedade com pouca participação crítica ou política activa (a comunidade jovem nascida na década de 70 no geral, a comunidade africana e a descendente de vários tipos de imigração no contexto pós guerra em especial) um lugar de fala junto da indústria cultural — universos discográfico e de espectáculos —, da cidade de Lisboa e da sociedade contemporânea pós revolução.</div><div>Talvez mais tarde origine outra publicação, com a mesma Editora. Logo se vê.</div><div>4) Estiveste na 1ª Sessão do Ciclo de conferências e debates do projecto RAPortugal 1986 – 1999 - RAPoder no Portugal urbano pós 25 de Abril. Também estiveste na Associação José Afonso em Julho , em Grândola para o colóquio - concerto «Como se Fora seu Filho» e sei que apresentaste uma comunicação nesse dia intitulada «MusicAtenta e RAP. - ´Tudo depende da bala e da pontaria´: do exílio às ruas (1961 - 1994)». Fizeste outras sessões a partir do audiolivro. Para ti como tem sido discutires este estudo e partir do Rap , a partir das palavras que se cantam, explicar a história contemporânea do país? De que forma este estudo e estas vertentes são fulcrais para a reflexão e análise ou podem ser fundamentais ? Partindo do tema do colóquio, como é que o Rap se pode cruzar com a obrigação do exílio e a luta das ruas?</div><div>É como a canção do Zé Mário (José Mário Branco) no GAC dizia. No fundo qualquer cantiga, aliás isto é extensível a qualquer prática no universo das artes performativas não tem de ser a canção, é uma arma, tudo depende da bala e da pontaria. Depende do que diz cantando, da eficácia com que diz, e do meio, contexto, grupo social ou pessoa à qual se dirige. O RAP tem uma particularidade, começa por ser um conjunto de palavras digamos que cuspidas ou cantadas, se preferires, com ritmo mas sem melodia, foi esse o lado da abrangente «cultura hip-hop», como a definem com os vários pilares, os seus primeiros protagonistas, que me interessou e especificamente nesses anos. E esses anos são marcados por lutas mas também pela mercadorização destas e de outras práticas culturais e pelo modo como estes sujeitos actuam nos seus quotidianos e nas suas práticas artísticas face a isso. Há 3 trabalhos académicos sobre esta prática, todos no meu estado da arte naturalmente, o do António Contador, o da Teresa Fradique e um de fim de licenciatura do Rui Cidra, mas talvez por terem sido realizados numa fase em que as perspectivas eram de uma sociedade e tempo comuns todos colocam a sua lente na «mercadorização» dos produtos culturais e na sua legitimação por políticas socioculturais numa sociedade pós-colonial. Termo aliás que eu evito, uso com aspas e algum custo. Políticas essas, através das quais, parafraseando Teresa Fradique do seu livro editado em 2003 pela Dom Quixote, se «vendem» não só o «outro» como a experiência de sê-lo, que no caso desta prática artística se enforma na categorização: «afrocêntrica» e«americocêntrica» de geração e etnicidades, luso-africanismo e modelos culturais juvenis maioritariamente negros, como demonstra o trabalho do António Contador.</div><div>Ambas as investigações partem de uma análise sobre o «lugar do outro» e a partir de uma perspectiva comparativa com o modelo internacional, especialmente anglo-americano que lhes serviu de primeira referência, por outro lado descuram a inscrição dos assuntos narrados pelas primeiras mulheres a fazer RAP em Portugal, também elas descendentes na sua larga maioria de africanos a viver em Portugal. A não inscrição dos assuntos que elas levantam no decorrer destas investigações: o sexismo, o machismo e a violência doméstica em simultâneo com o racismo, invisibiliza uma das lutas travadas no seio da mesma prática cultural.</div><div>Mas, repara, a existência de subalternização de género dentro de grupos culturais subalternizados é invisível na bibliografia sobre este primeiro período. Apesar dela estar patente, quer no discurso destas protagonistas como nos repertórios e cassetes caseiras. O papel político, de uma política nem sempre visível, «infra-política» roubando aqui esta expressão a outro autor, e várias vezes incompreendida e, portanto invisível, da maioria dos rappers neste período é inexpressivo nas investigações sobre este período. Estando o foco mais na dependência e inevitabilidade do «epifenómeno» a partir de uma acção exterior. O que se pode também dever ao facto de serem ambos trabalhos de investigação que resultam de trabalhos de campo pioneiros, no momento em que a prática ainda dava os primeiros passos em território nacional, não existindo tempo suficiente para «mudar de lentes». Uma das coisas que aprendi numa sessão de Antropologia e Movimentos Sociais que a Paula Godinho dá é que às vezes a mudança de tempo também nos permite mudar de lentes. A discussão sobre género no campo do RAP não foi efectivamente feita neste período, como outras. O investigador deixa sempre uma ponta para o que vem a seguir. Somos assim. Passamos a vida a deixar uma conclusão e uma questão subentendida, tantas vezes, para o que vem a seguir procurar quiçá responder (risos).</div><div>5) Para ti, que tens dirigido o Mural Sonoro desde o seu início, como é que tem sido abordar, discutir, e mostrar o trabalho sobre música popular da última metade do século XX até meados dos anos 90, abordando vários estilos musicais através de tantos músicos, compositores e construtores de instrumentos - todo este trabalho musical popular, destes músicos, sobre a forma como todos se relacionaram com estes assuntos da sociedade portuguesa?</div><div>Em poucas palavras: o melhor que levo deste trabalho. Aquele ideia, que não é minha, mas que descaradamente reformulo e repito para mim: a de que a riqueza do nosso pensamento tido como «inovador» é não mais do que fruto da soma de muitas mentes.</div><div>6) Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Talvez por completar 41 anos de vida dia 7 de Dezembro tenho aberto um bocadito mais a pestana sobre as vidas nas cidades maiores, como Lisboa (pausa), então digamos que não são bem sonhos, talvez sejam desejos. Os de um país menos preconceituoso e mais receptivo a quem pense diferente, esteja ou não próximo das nossas crenças culturais, grupos ou colectivos de pertença, um país de menos amiguismos ou interesses que vão para além do bem comum, que premeie o outro pela verticalidade e espírito de trabalho ou competências e ajuíze apenas quem conhece e não pelo que aparentemente vê. O que vemos e reproduzimos de quem nem conhecemos pessoalmente é quase sempre um reflexo do modo como nos vemos no mundo. </div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Jú Matias</div><div>4 de Dezembro de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista a Sara Gouveia uma das fundadoras do Festival Humano e Investigadora</title><description><![CDATA[Em entrevista no É a Vida Alvim referia que o Festival HUMANO “é da comunidade para a comunidade”, e apela à liberdade de expressão, à criatividade, à apresentação de projectos de defesa dos direitos humanos. O que vos levou a criar um Festival para valorizar a liberdade de expressão, de criação, de ideias?Antes de mais, obrigada pelo interesse e pela entrevista. O Festival HUMANO foi uma ideia que me assaltou há pouco mais de um ano, paralelamente a um momento em que eu sentia existir um]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/11/10/Entrevista-a-Sara-Gouveia-uma-das-fundadoras-do-Festival-Humano-e-Investigadora</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/11/10/Entrevista-a-Sara-Gouveia-uma-das-fundadoras-do-Festival-Humano-e-Investigadora</guid><pubDate>Fri, 10 Nov 2017 01:21:40 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Em entrevista no É a Vida Alvim referia que o Festival HUMANO “é da comunidade para a comunidade”, e apela à liberdade de expressão, à criatividade, à apresentação de projectos de defesa dos direitos humanos. O que vos levou a criar um Festival para valorizar a liberdade de expressão, de criação, de ideias?</div><div>Antes de mais, obrigada pelo interesse e pela entrevista. O Festival HUMANO foi uma ideia que me assaltou há pouco mais de um ano, paralelamente a um momento em que eu sentia existir um profundo desconhecimento dentro da nossa sociedade actual mais jovem no que diz respeito à importância dos direitos humanos. Fazer um festival de divulgação e reinterpretação dessa mensagem foi como juntar 2+2 para mim, porque eu era profissional de gestão de eventos de profissão, e nos tempos livres fazia acção social. É um daqueles momentos em que acreditamos tanto no que estamos a pensar, que chega a ser assustador. É aí que intervém o Pedro Malveiro – ele tornou esta ideia possível, dando-lhe um nome, uma identidade mais comunitária, e um sentido totalmente social e voluntário no que toca ao próprio acontecimento do festival. Na prática, foi a ida ao café mais longa da minha vida, mais efusiva e avassaladora. Quando percebemos que tínhamos inventado algo que ainda não existia, sentimo-nos profundamente entusiasmados.</div><div>Desde que começaram a realizar o Festival o que conseguiram mudar e o que esperam conseguir mudar com a vossa mensagem e a vossa actividade?</div><div>O Festival pretende ser uma plataforma livre, de abertura a todo o cidadão, para expressar aquilo que bem entende serem os seus direitos, sempre que essa mensagem seja coerente com a actual Declaração Universal dos Direitos do Homem. Esta premissa começou por se repartir em actividades de entretenimento paralelas a uma feira de Organizações Não Governamentais, com ênfase nos direitos humanos. Ao longo do tempo, percebemos que esta montagem era profundamente inibidora. Notámos, na primeira edição, que o maior sucesso surgiu da abertura de um palco a pessoas que nunca tinham sido convidadas a subir. Então começámos a pedir às pessoas para EXERCEREM os seus direitos – “dá voz aos teus pensamentos, apresenta o que quiseres, mostra o que vales, sê quem tu quiseres” – vendemos sonhos. E esse resultado, sim, foi absolutamente inesperado e muito transformador. Sem-abrigos que vieram ao primeiro dia do festival, no segundo dia apareceram aperaltados. Pessoas que passavam na rua iam buscar os amigos para dançar. O projecto são tomense “Wake Up Africa”, que era até então uma ideia sem apoios, foi finalmente concretizado. Dar voz e projecção a quem nunca teve essa oportunidade, sem qualquer discriminação, foi a nossa maior vitória.</div><div>Diz o vosso website que “O Festival HUMANO surge como uma resposta à necessidade de consciencialização do ser humano para os seus direitos universais.1” Na sua perspectiva quais as necessidades existentes que conduzem ao apelo para a consciencialização. Por outras palavras que direitos se têm perdido e se podem perder por falta de consciência e mobilização social?</div><div>Creio que dar voz ao pensamento de qualquer cidadão, sem qualquer segregação e com um profundo sentimento de partilha que não é alvo de julgamento, foi a maior necessidade respondida. Hoje temos poucos festivais com uma forte componente conceptual e artística que tenha entrada livre. É o que se entende por um festival social, que já existe fora de Portugal, mas que pouco se exerce cá dentro. Quanto à divulgação dos direitos humanos, também é um objectivo presente, mas é para mim ainda um desafio – ainda precisamos de trabalhar em mais formas apelativas de chamar a atenção para este conjunto de informação fundamental ao crescimento dos nossos jovens. Atenção que o objectivo não é tornar todo o mundo a favor desta convenção dos DH – mas sim torná-la conhecida, acessível, e bem entendida por todos.</div><div>Contam com uma feira de Organizações Não Governamentais. De que forma a junção de várias lutas, objectivos sociais, culturas podem ser enriquecedoras e contribuir para passar a mensagem da consciencialização?</div><div>As ONGs trabalham em campos de intensa consciencialização das comunidades para problemas ligados ao nosso bem-estar social. É importante elas serem celebradas – apesar de ser enorme a controvérsia ligada à existência destas organizações, o nosso festival é a favor do seu crescimento e da proliferação do seu bom trabalho. Julgamos que colocá-las numa praça pública, ao alcance de todos, gera oportunidades de interacção que são fundamentais para que as comunidades se envolvam nos seus problemas comuns, e para que o próprio cidadão “encontre a sua causa”.</div><div>O Festival foi realizado em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Porque escolheram estes países?</div><div>Em Cabo Verde, o festival aconteceu porque a oportunidade surgiu. As Nações Unidas abriram um concurso à AIESEC, onde eu era voluntária, para organizar uma festa de celebração do dia mundial do voluntário. Apresentámos esta proposta, e foi aceite (e financiada). Viajámos então para São Tomé, porque 1 – o povo é extremamente receptivo, 2 – as actividades culturais ali têm uma enorme aceitação, e 3 – porque tínhamos imenso interesse em voltar a trabalhar com africanos com ascendências lusitanas, que poderia mais tarde tornar o festival um ponto de contacto muito feliz entre os PALOPs.</div><div>Para si e para o Pedro Malveiro como é realizar um Festival de direitos humanos e de apelo à criatividade e à cidadania activa? Como é que a comunidade e a cultura africana foram determinantes para a escolha do local?</div><div>Estes países têm populações muito acessíveis e proactivas. Os jovens respondem bem aos desafios, sem demasiadas perguntas ou receios. Apesar de a burocracia ser terrível pelos atrasos e, como diz a expressão são tomense, muito “leve-leve”, sabíamos que muito pior seria lançar este festival na Europa, pelas exigências legais tremendas. Também encontrámos pessoas menos globalizadas, menos individualistas, que davam o tom comunitário e participativo que queríamos associar ao festival. O que era importantíssimo, porque este festival é totalmente dependente dos projectos que as pessoas querem apresentar.</div><div>Tem uma marca de moda consciente, e de comércio solidário, a Sukupira. Num momento em que o capitalismo está cada vez mais forte com as “Cetas”, os “TTIPS” e as “Tisas”, a escravizar cada vez mais... De que forma o seu projecto é essencial e um grito contra o capitalismo que referi?</div><div>A SUKUPIRA é um escape a uma sociedade de consumo viciosa e absurdamente consumista, tentando alertar os consumidores de que é muito importante sabermos quem faz as nossas roupas, em que condições, e com que direitos. Não lhe chamaria um grito contra o capitalismo, porque a nossa principal mensagem não é de ataque, e também não queremos vender uma ideia demagógica sobre o que é o consumo num mundo extremamente dependente do capitalismo. Mas queremos apresentar uma alternativa, estender possibilidades – mostrar que há outras formas de fazer compras, que há preocupações a serem tidas, e que esse momento de regozijo que é ir às compras, muitas vezes narcisista e egocêntrico, pode-se tornar altruísta e mais responsável.</div><div>Integrou a equipa da Amnistia Internacional Portugal, frequentou um curso de direitos humanos e fez voluntariado internacional. Através da sua experiência como voluntária, do trabalho no Festival, e na Amnistia e o que aprendeu no curso, que mais respostas espera dar na defesa dos direitos humanos, no sentido de uma maior consciencialização e mobilização social?</div><div>Quem faz voluntariado ouve muitas vezes a frase “não vais mudar o Mundo, vais-te mudar a ti próprio”. E essa é a maior verdade. Esse alastrar de horizontes, que me proporcionou uma descrença no ser humano avassaladora, foi felizmente também pontuado por deliciosas surpresas e por um renovado optimismo. Eu descobri que há imensas respostas por dar. E que o desconhecimento desta área é grave, e que deve estar mais presente, porque nos afecta nas decisões mais repentinas e mais frequentes, sem que nós sequer tenhamos consciência disso. Para mim, é importante não me esquecer. E continuar a tocar neste assunto. Despertar a discussão. Forçar-me a receber novos pontos de vista. Ser mais responsável sobre as minhas decisões, para comigo, para com os que me rodeiam, e para com o meu redor. Ser mais compreensiva e ponderada para com o que me é desconhecido – seja uma religião, uma ciência, um grupo cultural, ou uma pessoa que cruza o meu caminho. E espero que essa tolerância seja entendida e que esse respeito tenha um crescimento exponencial, para lá da minha voz e da minha própria vontade. Projectos, esses, terão continuidade, com contornos ainda indefinidos, mas sempre entusiastas. </div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. </div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Ana Bastos</div><div>02 de Dezembro de 2016</div><div>1 Através das artes cénicas, plásticas e performativas, procura o desenvolvimento social participativo e a divulgação desses mesmos direitos fundamentais. Para acrescentar uma componente de pedagogia e de educação, promove paralelamente uma feira de Organizações Não Governamentais presentes no local, que são também convidadas a participar nas actividades do festival. O Festival HUMANO é um festival social, apartidário e sem fins lucrativos, com uma forte componente de integração das comunidades. Com esta candidatura,</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div> pretendemos levar o Festival HUMANO até São Tomé e Príncipe.</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à actriz e encenadora Fernanda Lapa, da Escola de Mulheres.</title><description><![CDATA[Começou no Teatro dos Alunos Universitários de Lisboa e na Casa da Comédia. Como é que esta passagem inicial por estes grupos foram determinantes para o seu percurso enquanto actriz? De que forma a motivaram a iniciar esse caminho pelo teatro?Quando na Faculdade de Letras comecei a fazer Teatro já a minha paixão por ele era muito clara. No Liceu de Oeiras já tinha tentado encenar uma obra de Garrett com alguns colegas, o que não veio a acontecer porque o Reitor queria que o fizesse com a]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/10/12/Entrevista-%C3%A0-actriz-e-encenadora-Fernanda-Lapa-da-Escola-de-Mulheres</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/10/12/Entrevista-%C3%A0-actriz-e-encenadora-Fernanda-Lapa-da-Escola-de-Mulheres</guid><pubDate>Thu, 12 Oct 2017 12:57:27 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Começou no Teatro dos Alunos Universitários de Lisboa e na Casa da Comédia. Como é que esta passagem inicial por estes grupos foram determinantes para o seu percurso enquanto actriz? De que forma a motivaram a iniciar esse caminho pelo teatro?</div><div>Quando na Faculdade de Letras comecei a fazer Teatro já a minha paixão por ele era muito clara. No Liceu de Oeiras já tinha tentado encenar uma obra de Garrett com alguns colegas, o que não veio a acontecer porque o Reitor queria que o fizesse com a Mocidade Portuguesa e eu recusei. Por essa altura eu não sabia muito bem o que fazer com o meu futuro profissional. Os meus Pais não autorizavam que eu entrasse para o Conservatório, apesar de a minha mãe ter lá feito o curso de piano e canto. É que nesses anos 60, bastava a chamada Instrução Primária para se poder fazer o curso de Teatro, e os meus Pais exigiam que eu fizesse um Curso Superior e fosse Doutora! Resolvi fazer testes no Instituto de Orientação Profissional. Parece que o resultado foi bastante “desorientador” e fui obrigada a ter uma entrevista com o Psicólogo. Apareceu-me um homem alto, com grandes óculos, uma boca com muitos dentes e grandes gargalhadas sonoras. Reconheci-o imediatamente, era o Bernardo Santareno! Ficámos amigos até ao fim dos seus dias e, claro, incentivou-me desde o primeiro momento a não desistir da minha paixão. Creio que foi ele que me levou mais tarde ao Fernando Amado, Director da Casa da Comédia, e a paixão cresceu e nunca morreu até agora, já lá vão 53 anos!</div><div>Obteve uma bolsa¹ em 79 onde estudou na Escola Superior de Encenação de Varsóvia e depois estagiou nos Teatros Laboratório de Grotowski, Contemporâneo de Wroclaw e no Stary de Cracóvia. Como é que foi a experiência? De que forma é que foi um importante incentivo para o seu percurso?</div><div>Foi também o Bernardo quem me incentivou a fazer um estágio de Teatro na Polónia dos finais dos anos 70. Três grandes inovadores pontificavam então no Teatro Polaco – Szajna, Grotowski e Kantor. Szajna trouxe a Lisboa a sua obra “Replika”, fruto da sua vivência como sobrevivente dos Campos de Concentração de Auschwitz e Buchenwald. Conheci-o nessa altura e ele convidou-me a ir até Varsóvia, não só para assistir ao seu trabalho com a sua Companhia, mas para fazer aulas de Encenação na Escola Superior de Teatro, da qual era um dos Directores. Uma vez conseguida a bolsa, resolvemos que seria enriquecedor partilhar de outras experiências, como as do Grotowski ou do Kantor ou de outros Teatros de grande qualidade artística mas mais convencionais. O sonho quase morreu quando regressei a Portugal, esperava-me o desemprego. Tinha três filhas adolescentes, uma casa para pagar, precisávamos sobreviver. Servi às mesas no restaurante de um amigo, dei aulas de teatro em várias Escolas, montei alguns espectáculos com dinheiros que ia conseguindo aqui e ali junto de algumas empresas mais generosas. Comecei a ser convidada para Encenar, raramente para trabalhar como actriz.</div><div>Criou o grupo de Teatro Escola de Mulheres, com Isabel Medina, com o intuito de quebrar o papel de sub-alternidade que a mulher tinha e tem no Teatro Português. Desde que criaram este grupo em 1995, que barreiras conseguiram ultrapassar, que mensagens têm conseguido passar?</div><div>Em 1993 e depois de algumas conversas com várias actrizes, entre as quais a Isabel Medina, a Cucha Carvalheiro e a Cristina Carvalhal (que tinha sido minha aluna) resolvemos fazer um estudo sobre a participação das Mulheres no Teatro Português. Chegámos a resultados impressionantes – raros textos de autoria feminina eram levados à cena, raríssimas as Encenações feitas por mulheres, raríssimas as mulheres com cargos técnico/artísticos (iluminação, cenografia, construção de cenários, etc), duas ou três mulheres em cargos de Direcção de Companhias apoiadas pelo Estado num panorama de mais de uma centena. A maioria das Mulheres de Teatro em Portugal esperava ser escolhida, nunca tinha a possibilidade de escolher quer o projecto, quer os seus colaboradores. Resolvemos então formarmos a Companhia “Escola de Mulheres” e juntaram-se a nós: uma Produtora - a Conceição Cabrita, uma Coreógrafa – a Marta Lapa e uma Secretária – a Aida Soutullo. Em 1995, depois de nos ser recusado apoio por parte da Secretaria de Estado da Cultura, tivemos a grata surpresa de sermos convidadas, pela então Directora dos Serviços ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian, a Professora Yvette Centeno, a apresentar “As Bacantes” nos Encontros ACARTE de saudosa memória! Desde então temos tido uma produção contínua de espectáculos e assistimos ao aparecimento de jovens Encenadoras, Autoras, Directoras de Companhia, Cenógrafas, Iluminadoras, Directoras Técnicas etc. Todas elas com a qualidade profissional e artística que se exige tanto a homens como a mulheres.</div><div>Participou em séries históricas como “Pedro e Inês”, o “Processo dos Távoras”, e da história mais recente sobre um dos maiores escândalos do Estado Novo: “Ballet Rose – Vidas Proibidas”. Para si abordar a História através da representação é muito enriquecedor para si? E ter participado numa série sobre uma das histórias mais negras sobre o Estado Novo foi muito importante para si?</div><div>Tenho saudades de algumas séries televisivas de qualidade em que participei. Relembro “O Processo dos Távoras”, “A Raia dos Medos”e “O Ballet Rose” entre outras. Eram séries de grande exigência artística, produzidas com rigor, seriedade e grande cuidado estético. Não eram produtos de consumo rápido e digestivo, faziam-nos reflectir sobre a nossa própria identidade nacional. Se nos “Távoras” assistimos a manobras políticas que acabam em actos bárbaros como a decapitação e a fogueira, no entanto somos obrigados a entender como a Aristocracia, que conspirava juntamente com a Igreja para manter os seus privilégios feudais, estava do lado errado da História e do Progresso. Os “Ballet Rose”, infelizmente truncados na edição final, mostram-nos como os políticos e os homens do capital acobertados pela hipocrisia do sistema salazarento não recuam a usar repugnantemente os seres mais fragilizados da humanidade – as mulheres e as crianças. Pelos vistos, o processo ficou a hibernar, mas as práticas continuaram em surdina até aos nossos dias, no mundo e no nosso País.</div><div>Trabalhou com o Almada Negreiros e representou uma peça² do Almada com encenação de Fernando Amado. Como é que foi a experiência? O que aprendeu?</div><div>Esses dois grandes Mestres, Almada e Fernando Amado, tão diferentes e tão unidos no amor pelas artes, deram-me sobretudo a humildade de entender que nunca poderia esgotar a capacidade de entender. A humildade de não ficar fascinada pelo elogio. A humildade de tratar o texto literário ou poético com respeito e paixão, investigando-o dramaturgicamente, mas investigando-o também com todo o corpo, corpo onde cabe a voz e a emoção. Nunca os esquecerei!</div><div>Deu formação no Chapitô e tem dado aulas nas mais variadas escolas superiores (em baixo, a listagem das escolas - 3) para si como é importante a partilha de saberes e experiências para as gerações vindouras?!</div><div>Dando aulas aprendo. Não é um lugar comum que estou a repetir, é realmente um confronto emotivo com jovens que estão a crescer e precisam de alguns pontos de partida para a longa caminhada para a profissão artística que escolheram. A Arte não se aprende, aprendem-se algumas técnicas, e são tantas e tão variadas! Aprende-se a pensar a Arte. Aprende-se a conhecer-se a si próprio. Aprende-se a conhecer o seu próprio corpo, (voz e emoções incluídas) e a usá-lo em função da personagem, da obra ou da estética proposta. Ensinar tudo isto não depende de um só professor: depende de uma equipe empenhada no jovem que quer ser Actor, depende do jovem que quer ser Actor. Mas é um desafio estimulante ver crescer para o Teatro, ao longo de várias gerações, tantos que foram nossos alunos. Nalguns deixámos marcas, tal como os meus Mestres me deixaram a mim. Outros, nem nunca mais se lembram que passei pelas suas vidas. Não importa, é apaixonante e é por isso que continuo com grande prazer a dar aulas de Teatro, agora na Escola Profissional de Teatro de Cascais, cujo Director é esse grande amante do Teatro – o Carlos Avilez.</div><div>Com Sinde Filipe foi co-autora do programa “Cancioneiro”, um programa de poesia na RTP. Para si, partilhar poesia e cultura para o público, como este programa e todo o seu trabalho como actriz e encenadora, é uma grande mais-valia? Como se pode e deve promover e ou lutar para que se volte a ter programas deste género? E mais força no Teatro na Cultura?</div><div>Fui sempre uma grande leitora de poesia – e recitadora compulsiva, para mim própria e para os poucos que gostavam de me ouvir! Tive a enorme sorte de poder privar com grandes poetas – o José Gomes Ferreira, o Carlos de Oliveira, a Sophia de Mello Breyner, o Joaquim Namorado, o Manuel Gusmão, a Maria Velho da Costa, o Orlando Costa, a Maria Teresa Horta, o Egipto Gonçalves, o Mário Dionísio, o Armindo Rodrigues, o Manuel da Fonseca, a Natália Correia, o Herberto Hélder, o Ary dos Santos etc. etc. No rescaldo do 25 de Abril, a maioria destes poetas, que estavam proibidos de ser ditos, eram quase desconhecidos do chamado público. A grande divulgadora da poesia portuguesa tinha sido a Maria Barroso e por isso os poetas tinham por ela um enorme sentimento de gratidão. Outro grande dizedor era o Mário Viegas que mais tarde veio a ter um programa de grande audiência – “As Palavras Ditas”. Era urgente na altura divulgar estes poetas da resistência. Fui convidada pela RTP a organizar uma série de programas sobre eles. Chamei o Sinde Filipe, também ele amante da Poesia e, em conjunto, preparámos uma série de programas com a colaboração dos Poetas ainda vivos, e o apoio discretíssimo do Carlos de Oliveira, sempre avesso a publicidade. Foi ele quem me falou do Políbio Gomes dos Santos que eu desconhecia e me propôs o seu grande Mestre, o Afonso Duarte. Infelizmente o programa foi cancelado ao fim de 8 ou 9 edições! Continuei a divulgar a poesia portuguesa e estrangeira, agora com Sessões organizadas por todo o País pelo extinto jornal “O Diário”,e sempre gratuitamente. Acompanhava-me sempre o Carlos Paredes. Que enorme privilégio! Neste momento, a minha Companhia – a Escola de Mulheres – tem vindo a desenvolver , há já alguns anos, uma série de sessões de leituras encenadas, onde a poesia, a música, os autores e os actores se conjugam para dar voz aos jovens Poetas. A coordenadora é a Marta Lapa e normalmente as sessões intituladas “Da Voz Humana” são apresentadas com entrada livre na livraria Ler Devagar, na LX Factory. É bom passarmos o testemunho!</div><div>Quais são os seus sonhos para o teatro especialmente do teatro feito por mulheres, e sobre as mulheres, para a cultura e para Portugal?</div><div>Diz o Poeta que “o sonho comanda a vida” e eu sou comandada pelo sonho a não ficar sentada à espera que o Futuro aconteça. Por isso continuo a lutar como posso, com a minha voz e juntando-me à voz dos outros, para que se cumpra o prometido na nossa Constituição – que a Cultura, a Arte e consequentemente o Teatro, seja um Direito adquirido por todos, quer na sua fruição quer na sua criação, independentemente de serem homens ou mulheres. E como não se pode “cortar as asas aos artistas”, cada criador deverá ser inteiramente livre para criar e humilde o suficiente para se sujeitar às críticas fundamentadas.</div><div>¹ Da Secretaria de Estado da Cultura</div><div>²Deseja-se Mulher</div><div>3 Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa na Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa e na Escola de Artes da Universidade de Évora, onde dirigiu o Departamento de Teatro e foi Professora Catedrática Convidada. Presentemente lecciona na Escola Profissional de Teatro de Cascais</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>15 de Novembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>15 de Novembro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Actor Ivo Canelas</title><description><![CDATA[Participou no filme “Florbela” e na série “Perdidamente Florbela”, de Vicente Alves do Ó, como irmão da Florbela Espanca. Para si, como foi dar vida ao Apeles Espanca e poder representar esta enorme ligação de amizade e conhecer melhor a obra da Florbela?Foi fantástico. Tive muito prazer em trabalhar com o Vicente Alves do Ó e com a Dalila Carmo (e com toda a equipa) esta complexa relação entre estes dois irmãos que tanto se amavam, como se pode ver pela sua correspondência.Já foi dirigido por]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/08/06/Entrevista-ao-Actor-Ivo-Canelas</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/08/06/Entrevista-ao-Actor-Ivo-Canelas</guid><pubDate>Sun, 06 Aug 2017 13:16:08 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Participou no filme “Florbela” e na série “Perdidamente Florbela”, de Vicente Alves do Ó, como irmão da Florbela Espanca. Para si, como foi dar vida ao Apeles Espanca e poder representar esta enorme ligação de amizade e conhecer melhor a obra da Florbela?</div><div>Foi fantástico. Tive muito prazer em trabalhar com o Vicente Alves do Ó e com a Dalila Carmo (e com toda a equipa) esta complexa relação entre estes dois irmãos que tanto se amavam, como se pode ver pela sua correspondência.</div><div>Já foi dirigido por Fernanda Lapa, Diogo Dória, José Wallenstein e Jorge Silva Melo. Tem trabalhado muito em Nova Iorque. Que experiências e aprendizagens tem adquirido dos seus estudos e trabalhos em Nova Iorque e do seu trabalho com estes e outros encenadores?</div><div>Cada trabalho é um processo diferente. Cada equipa cria a sua própria forma de trabalhar. Aprendi que é preciso estar muito disponível para criar com pessoas com quem nunca trabalhamos em processos com (normalmente) muito pouco tempo de preparação.</div><div>Na série “Liberdade 21”, representou o papel de Afonso Ferraz, um advogado depressivo e obcecado pelo trabalho e pela ex-mulher, com graves conflitos com ela e uma certa distância do filho. Como foi preparar e entrar nesta personagem com uma paixão enorme pela ex-mulher e pelo filho, mas com um grande conflito interior e incompreensão pelo facto de a ex-mulher seguir a sua vida?</div><div>Tentei não esconder muito do que naquele momento da minha vida estava a sentir. Por vezes,as circunstâncias da vida pessoal são semelhantes às do personagem e não é preciso criar muito. Basta não esconder.</div><div>Participou igualmente no filme “Os Mistérios da Estrada de Sintra” como Eça de Queiroz. Dar vida a um dos escritores mais importantes da nossa história tem algum significado para si? Foi enriquecedor poder conhecer melhor o seu trabalho e a sua vida?</div><div>Sem dúvida. Foi um enorme prazer investigar e representar uma personagem tão interessante como o Eça de Queirós</div><div>Já passaram alguns anos desde que entrou no Fura Vidas. O que é que este trabalho com o Canto e Castro, Miguel Guilherme e Ana Bustorff ainda representa para si?</div><div>Tenho muito carinho e amizade pelas pessoas com quem trabalhei neste projecto. Foi o meu primeiro trabalho em televisão.</div><div>Representou Bertolt Brecht, Shakespeare, A Rainha Margot e representou para Manoel de Oliveira, Jorge Paixão da Costa, Joaquim Leitão, Marco Martins... Que papel tiveram no seu desenvolvimento enquanto actor estas participações e o facto de ter contracenado com grandes nomes como os que foram mencionados acima?</div><div>Tentei aprender com todos eles (e com tantos outros).</div><div>Quais são os seus sonhos para o teatro, cinema, cultura e para Portugal?</div><div>Que continue a conquistar novos públicos. Que nos faça sonhar e pensar cada vez mais e melhor. E que nos faça sonhar e pensar cada vez mais, melhor e mais próximos uns dos outros.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. </div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Fátima Simões</div><div>26 de Março de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>26 de Março de 2017</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Bibliotecário Gaspar Matos</title><description><![CDATA[Foste funcionário bancário: o que te levou a quereres abraçar os livros e promoveres a leitura com comunidades de leitores, serviços da biblioteca para adolescentes, entre outros?Trabalhei na Banca de 1997 a 2004, e foi uma experiência positiva. No entanto, desgostava-me e desgastava-me o lado estritamente comercial das funções, sempre com uma enorme pressão para venda de produtos financeiros, seguros, etc. Dei por mim a pensar como seria bom ter um trabalho em que, ajudando as pessoas, não]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/07/19/Entrevista-a-Gaspar-Matos</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/07/19/Entrevista-a-Gaspar-Matos</guid><pubDate>Wed, 19 Jul 2017 22:52:56 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Foste funcionário bancário: o que te levou a quereres abraçar os livros e promoveres a leitura com comunidades de leitores, serviços da biblioteca para adolescentes, entre outros?</div><div>Trabalhei na Banca de 1997 a 2004, e foi uma experiência positiva. No entanto, desgostava-me e desgastava-me o lado estritamente comercial das funções, sempre com uma enorme pressão para venda de produtos financeiros, seguros, etc. Dei por mim a pensar como seria bom ter um trabalho em que, ajudando as pessoas, não tivesse de lhes cobrar ou vender nada. Daí às bibliotecas foi um pulo, não só por uma enorme vontade de trabalhar no sector da cultura, mas também por conversas que mantive à altura com o responsável da Biblioteca Municipal de Espinho (António Regedor), e que me entusiasmaram ainda mais. Frequentei então o curso de técnicos de biblioteca da Associação Portuguesa de Bibliotecários e, posteriormente, a Pós-Graduação em Ciências da Informação e da Documentação. Em 2005, ingressei nas Bibliotecas de Oeiras.</div><div>Como foi esta jornada de 12 anos pelas Bibliotecas Municipais de Oeiras, Sines e agora na Biblioteca da Faculdade de Psicologia e do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa?</div><div>Todas as três experiências foram (e estão a ser) altamente enriquecedoras: em Oeiras tive o privilégio de trabalhar com uma equipa altamente dinâmica, chefiada por um profissional visionário (Filipe Leal), e em que o poder autárquico apostava fortemente (pelo que as condições materiais e financeiras eram óptimas). Aí aprendi muito e confirmei que a minha opção em mudar de actividade profissional tinha sido a acertada. Em Sines encontrei uma biblioteca sui generis, pois diluía-se no todo que era o Centro de Artes de Sines. No entanto, penso que a mesma encontrou o seu lugar fruto de uma programação mais específica, não obstante o facto de ter ganho muito com o trabalho colaborativo com os outros serviços (e vice-versa). Também aí encontrei colegas muito válidos, políticos que sabiam bem qual o valor da biblioteca para a comunidade, e tive desafios que extravasaram o âmbito da Biblioteca (no domínio da actividade do Centro de Artes), e que muito apreciei. Já nesta experiência actual (Biblioteca da Faculdade de Psicologia e Instituto de Educação da Universidade de Lisboa), mais uma vez tive a sorte de encontrar uma excelente equipa de trabalho, sendo que o enfoque na formação de utilizadores, no atendimento e difusão de informação e nas actividades de promoção da leitura e dos serviços da biblioteca está a ser uma experiência muito boa.</div><div>Como podem e devem as bibliotecas e as instituições trabalhar para proporcionar cultura para todos?</div><div>Podem - e devem - fazê-lo através de um conjunto de medidas/atitudes: a gratuitidade no acesso à informação e à documentação (técnica ou de lazer) tem de ser mantida e devidamente actualizada (o poder político tem a obrigação de manter as dotações orçamentais, para que as colecções das bibliotecas não se tornem obsoletas); o bibliotecário tem de estar atento às inovações tecnológicas e ser o devido mediador de informação, ajudando os utilizadores a filtrarem o essencial do acessório, nomeadamente no meio do imenso “ruído” que a disseminação via internet produz; o bibliotecário tem de ser um leitor - um leitor ávido -, para que lhe seja reconhecido o papel de mediador de leitura; as bibliotecas devem ser espaços diferenciados dos demais, em que a aquisição de conhecimento e informação é o que as distingue dos restantes serviços ao público (serão igualmente locais de encontro, mas devem esforçar-se por não perder a sua característica mais tradicional e que, ao fim e ao cabo, é hoje uma das mais inovadoras: um espaço de estudo e silêncio, diferente da loucura sensorial de som e luz que são todos os outros espaços públicos actuais); devem ter uma programação diferenciada, em que assuntos de interesse geral sejam abordados, nomeadamente os relacionados com o exercício da cidadania.</div><div>Em Sines a biblioteca recorreu à arte de rua, homenageando o poeta Al Berto: porquê esta iniciativa?</div><div>O poeta Al Berto e Sines tiveram uma história comum, nem sempre de harmonia: existia como que uma relação de amor-ódio do autor para com a cidade (e vice-versa), que me parece crescer com a construção do complexo industrial; acresce que a poesia é género literário pouco ou nada estimado, no nosso país, e era precisamente nesse género em que Al Berto mais manifestava a sua veia criativa. Daí que a ideia de criar um mural enorme junto à Biblioteca/Centro de Artes foi o que me pareceu mais indicado: não só existia um apelo gráfico, visual, de fácil apropriação por quem passasse, mas igualmente a inserção na lateral de um excerto de um dos seus textos e que levou à leitura, por parte de todos os que lá passavam. Isso fez com que muita gente o lembrasse, relembrasse e - espero -, muitos o tenham voltado a ler (ou lido pela primeira vez). Tive muita sorte com a escolha do autor do mural - o Skran -, que fez um trabalho fantástico. Certo é que o Al Berto agora tem a sua presença reforçada na cidade, de forma indelével: está lá, faz parte daquela terra, e isso deveria - e deve -, ser um orgulho para todos os sineenses.</div><div>Desde 2010 que a Biblioteca Municipal/Centro de Artes de Sines marca o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, com exposições e palestras como Salvar Toda Aquela Gente - a acção de Aristides de Sousa Mendes, Crianças Austríacas da Cáritas em Portugal e Janusz Korczak - reformador do Mundo, entre outras: acha fundamental recordarem anualmente este trágico momento da história mundial? Porquê?</div><div>Tal como respondi acima, a Biblioteca tem um dever de informar sobre questões fundamentais de cidadania. Nesse sentido, alertar para os principais genocídios e conflitos armados que surgiram no planeta há menos de 100 anos e aqui tão perto de nós parece-me fundamental, numa lógica de consciencialização sobre a natureza humana, que pode ser tão cruel como heróica, e que papel querem as pessoas ter no mundo, no presente e no futuro, face a situações semelhantes (não nos esqueçamos do que aconteceu na Bósnia ou no Ruanda, há sensivelmente vinte anos). A título de exemplo, se na exposição de Janusz Korczak falávamos aos alunos das escolas sobre as atrocidades cometidas pelos nazis, igualmente dávamos a conhecer alguém que, no meio do horror, criou uma escola para crianças judias num gueto e, quando as mesmas foram enviadas para os campos de concentração, não as abandonou nunca, morrendo com elas. Este homem deu mostras de abnegação e coragem como poucos, em relação aos mais vulneráveis, e isso deve ser do conhecimento das gerações actuais. Igualmente aproveitámos a data para falar de outros acontecimentos, como foi disso exemplo a exposição de 2016 (da Biblioteca Municipal e do Arquivo) sobre o Tenente Seixas, um militar que salvou da morte centenas de republicanos fugidas às forças franquistas, durante a Guerra Civil de Espanha, acolhendo-os em Portugal. São estes os exemplos de cidadania e humanidade que se pretendem sublinhar, com essas iniciativas.</div><div>Por onde passaste sempre promoveste comunidades/grupos/clubes de leitores: o que tens aprendido com esta partilha e com este encontro de leituras e leitores? E o Contos de Tantos Mundos, iniciativa paralela do Festival Músicas do Mundo, surge porquê?</div><div>Quanto aos grupos de leitores, acima de tudo proporcionam momentos de partilha que voltam a humanizar as cidades, e isso é tão necessário - hoje em dia -, como água para a boca. Se pensarmos bem muitas vezes vamos ao cinema e, à saída, partilhamos as nossas ideias sobre o que vimos. A leitura, sendo uma experiência solitária, muitas vezes não permite esta troca de ideias subsequente. No entanto, tal é contrariado num grupo de leitores: as pessoas discutem a sua percepção sobre a obra que, tantas vezes, é díspar de quem leu precisamente a mesma obra e está sentado ao nosso lado. Quando trocamos estes diferentes pontos de vista todos ganhamos, porque conquistamos visões mais amplas; acresce que, quanto falamos do que lemos, estamos a falar de nós mesmos, porque a nossa interpretação é sempre um reflexo do que somos, tal como a escrita é um reflexo do que o autor é. Ora, se falamos sobre nós mesmos num grupo que, inicialmente, é constituído por estranhos, estamos a construir um sentimento de comunidade e de partilha que poucas iniciativas públicas permitem. Como dizia a Paula Moura Pinheiro, a propósito destas actividades: “religar a literatura à vida, é este o maior mérito das Comunidades de Leitores”. E essa é, de facto, a maior mais-valia, a que acrescem outras, como a experiência que se ganha por se aceitarem sugestões de outros participantes, aumentando substancialmente o nosso conhecimento literário.</div><div>Já os Contos de Tantos Mundos no Festival Músicas do Mundo surge em 2010 pois, existindo uma ligação enorme - neste evento - entre a palavra e a transmissão cultural, pensamos que a biblioteca poderia contribuir promovendo encontros com contadores de histórias, na rua. Assim, não só se aumentava o âmbito do Festival da palavra cantada para a palavra dita como, ao mesmo tempo, tal era feito num horário diurno, que era passível de ser apropriado por famílias e suas crianças. Igualmente se demonstrava a importância do contar aos públicos infantis, servindo tal de exemplo aos pais, em relação aos filhos. Fiquei com imensa pena por saber que esses encontros não se irão realizar, este ano, mas espero que retomem, em 2018.</div><div>No Dia Internacional da Mulher a Biblioteca de Sines cola poemas alusivos à Mulher nas montras da cidade e, no 25 de Abril, o exterior do Centro de Artes de Sines cola no chão poemas em grande formato, no âmbito da iniciativa Do Chão Brotam Palavras (excertos do FMI de José Mário Branco, passagem do Levantado do Chão, de Saramago, a letra do Acordai, de Fernando Lopes-Graça, ou um texto de José Luís Peixoto sobre a não-resignação). De que maneira é para ti importante e enriquecedora esta promoção? Consideras que aprofundam o gosto pela poesia e pelo conhecimento da realidade?</div><div>Sem dúvida. Temos de ter em mente que muitas pessoas têm um contacto reduzido com a literatura, com a palavra produzida de modo estético e poderoso. Quando o cidadão comum vai ao café e vê, na montra, um poema da Ana Hatherly sobre a Mulher, ou olha para o chão e, quando dá por si, está a ler Saramago, isso é uma forma quase natural de a cultura e o conhecimento se cruzarem com o quotidiano. Esta apropriação é valiosa, e atinge todos os públicos. Ao fim ao cabo, se a Biblioteca é um lugar para todos, a rua será sempre a sua extensão natural, pois é o espaço público por excelência.</div><div>Teres feito parte da organização do Festival Músicas do Mundo - um Festival de grande partilha e união das culturas de todo o mundo - de que forma te tornou mais rico?</div><div>Fui apanhado um pouco de surpresa pois, até ir para Sines em 2009, não sabia que era a Câmara que o organizava. Por inerência, todas as pessoas que trabalham na CM Sines acabam por trabalhar para o FMM, directa ou indirectamente. Foi uma experiência maravilhosa, porque o Festival é maravilhoso: desde a entre-ajuda entre todos os colegas, o sentimento de união entre todos os recursos humanos da Câmara - unidos por um objectivo comum -, ao contacto com a diversidade que representam não só os artistas, mas o público e inclusive os serviços contratados externamente. No meio do volume avassalador de tarefas - há muito trabalho, muita dedicação, muita responsabilidade -, vive-se um ambiente de paz e alegria entre todos, e isso é inesquecível. Fiquei contente por dar o meu contributo nomeadamente porque sei que, em algumas áreas em que trabalhei, os modos de funcionamento se tornaram mais eficientes, e tenho muito orgulho nisso. Tenho a certeza de que o FMM continuará a ser um dos grandes festivais deste país, quanto mais não seja porque todos os que nele trabalham vestem a camisola.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Que seja cada vez mais um espaço de paz, que saibamos preservar o que de bom temos - nomeadamente em termos de recursos naturais e de modo de estar e receber -, e que cada vez mais se veja progresso sustentado, principalmente para os que menos têm.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho. </div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Jú Matias</div><div>19 de Julho de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Realizador Diogo Vilhena</title><description><![CDATA[Tens feito os vídeos de promoção do Festival Músicas do Mundo, e filmas os concertos, és o homem por trás da câmara do Festival, desde 2009 que estás a trabalhar para o FMM, como é que tem sido esta experiência de poderes filmar esta reunião de todas as culturas presentes, de poderes mostrar a música do mundo que não é conhecida do público normal?Penso que qualquer pessoa ligada à imagem, seja ela fixa ou em movimento, gosta de viajar e este é o festival que nos leva numa viagem não só pela]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/07/19/Entrevista-ao-Realizador-Diogo-Vilhena</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/07/19/Entrevista-ao-Realizador-Diogo-Vilhena</guid><pubDate>Tue, 18 Jul 2017 23:04:43 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Tens feito os vídeos de promoção do Festival Músicas do Mundo, e filmas os concertos, és o homem por trás da câmara do Festival, desde 2009 que estás a trabalhar para o FMM, como é que tem sido esta experiência de poderes filmar esta reunião de todas as culturas presentes, de poderes mostrar a música do mundo que não é conhecida do público normal?</div><div>Penso que qualquer pessoa ligada à imagem, seja ela fixa ou em movimento, gosta de viajar e este é o festival que nos leva numa viagem não só pela música mas por todo o enquadramento visual único, dando o mesmo destaque a todos os músicos, sem etnocentrismos, nem fronteiras, transformando a experiência da música numa tomada de consciência universal, quebra de preconceitos e busca de conhecimento do mundo.</div><div>Para mim em termos musicais é o festival de referência em Portugal. Quanto ao público, é interessante ver artistas que actuam no festival a assistir aos concertos e pessoas do público que se tornam artistas em poucos anos. Penso que não é algo que se consiga ver em muitos lados, pois este é mesmo um festival de apreciadores de boa música, mas essencialmente um festival de gente curiosa e com sede de mundo.</div><div>É difícil definir este festival e a experiência de captar os “momentos” pois é algo que transcende a experiência da música e da imagem. Eu não procuro a &quot;pose&quot;, mas sim as emoções. Essencialmente é ver nos olhos de tanta gente a descoberta da música. É retratar uma aventura.</div><div>Realizaste o filme “Do Silêncio à Liberdade - O 25 de Abril em Sines” entrevistaste 6 sinienses com vasta experiência cívica e que lutaram por um país melhor. Para ti abordar a ditadura, o 25 de Abril, a liberdade, a luta pela liberdade contra a censura, os assassinatos, a pobreza, foi importante para ti? O que te motivou a falar sobre os 50 anos de ditadura portuguesa?</div><div>Com o apoio do Arquivo Municipal de Sines, realizei esse projecto de forma a documentar as vivências do 25 de Abril em Sines, o antes e o depois, daqueles que viveram na primeira pessoa estes tempos.</div><div>Para mim é um privilégio poder registar momentos singulares, nada forçado, nada criado, apenas aquilo que acontece num efémero ápice. Poder registar um testemunho que ficará para a história e que de outra forma iria acabar por ficar no esquecimento. Por norma os temas abordados não são temas considerados importantes no tempo presente, fazem parte do quotidiano e das nossas vivências como seres humanos por isso parece que não são importantes &quot;agora&quot; mas daqui a 20 anos foram esses momentos que fizeram a história social, tornando a conversa num relato transversal a uma geração.</div><div>Escutar na primeira pessoa as histórias de vida de quem sofreu e lutou contra um império de fantasmas e de medo é muito, mas muito mais do que uma simples entrevista, é algo que nos faz crescer como seres humanos. Registar a história que faz parte da nossa identidade como povo é algo que deveria ser fortemente apoiado, pois só assim é que se consegue entender a importância da cidadania e as motivações desta geração que conta agora no final da sua existência, as histórias de vida que fez de Portugal um país livre e democrático. Porque a revolução não foi feita num dia nem apenas pelos capitães de Santarém, a revolução foi feita por pessoas de norte a sul do país que estavam descontentes e que sentiam que tinham que fazer alguma coisa, uma geração que viveu também na clandestinidade.</div><div>Fizeste o filme “O tempo da fome”, Como foi para ti mostrar a realidade das gentes, das pessoas mais velhas e que viveram da agricultura por exemplo? Que importância tem para ti dar voz e mostrar como vivem estas pessoas que são esquecidas?</div><div>Este não é um projecto concluído, é sim um projecto que a pouco e pouco vou tentando levar a bom porto. A minha primeira entrevista foi ao meu avô, pois é a minha referência mais evidente e mais próxima. Esta gente viveu no tempo da ditadura, no tempo de escassez de oportunidades e de bens essenciais, passou fome. Há algo comum nos seus testemunhos, o seu espírito de resiliência ímpar, a sua força de vontade, às vezes penso que quase sobre-humana.</div><div>O meu avô, por exemplo, começou a trabalhar aos sete anos a guardar porcos, transportou gado bovino a pé do Cercal do Alentejo até Coruche, carregou pedras do mar em escarpas e falésias inacessíveis com burros no limite das forças e às vezes até da morte. A sua geração, para mim, é de verdadeiros heróis nacionais, porque foram eles que sofreram e lutaram pelo pais que hoje temos, livre, democrático e soberano. Mas também são estes os exemplos de gente que mesmo vivendo na miséria eram trabalhadores honrados, algo que está em declínio nos tempos que correm.</div><div>A par do Rui Pedro Lamy fizeram “Cinema Com Gente Dentro”. Esta experiência de mostrar um cinema já quase inexistente de dar cinema às pessoas das aldeias esquecidas foi fundamental para vocês? De que forma conseguiram repensar a situação de inexistência e passar a mensagem da importância desta e de outras formas de fazer cinema ligadas às gentes das aldeias?</div><div>Quando há dez anos eu e Rui Pedro Lamy estávamos a estudar em Caldas da Rainha na ESAD, em conjunto com alguns colegas num projecto colectivo para uma cadeira de documentário orientada por Catarina Mourão, eu lancei aos meus colegas o repto de filmar uma semana da vida de um dos últimos projeccionistas de cinema ambulante.</div><div>Fizémo-nos ao caminho rumo a Vila Nova de Milfontes, Odemira, Saboia, Santa Clara, Marmelete, mais de 500kms. Em busca de histórias de um ofício que antes da década de 70 do século XX era comum em Portugal, mas com o passar dos anos foi completamente extinto, agora só subsiste graças à carolice de António Feliciano que sempre foi um homem de convicções e um apaixonado pelo cinema. Por isso pensei em retratar esta vida ambulante de sonhos e de encontros de cultura nas aldeias. É sobretudo um retrato da vida de um homem que vive com cinema na alma, por isso o título Cinema Com Gente Dentro, e porque todo este imaginário fazia parte das minhas recordações de infância e não queria de forma alguma perder a oportunidade de as registar essa arte na primeira pessoa.</div><div>Recentemente realizaste o “Mar de Sines”. O que aprendeste sobre as vivências da vida das três gerações de pescadores que retrataste? Depois de várias exibições acreditas que já existe uma outra forma de ver a vida dura dos pescadores? O que é que estes trabalhos sobre a vida dura das pessoas, sobre o que pensam o que têm de passar, significam para ti? Que mensagens é que tentas passar para quem for ver os teus filmes?</div><div>Existe tanta coisa que se podia falar sobre o Mar de Sines, mas penso que o melhor é justamente começar pelo início.</div><div>Foi um projecto ambicioso que contou com uma equipa dedicada com mais de duas mil pessoas envolvidas e com muita gente talentosa e motivada em fazer um projecto conjunto, tanto pela sua relação com a comunidade como por ser algo que que ainda não tinha sido feito.</div><div>Entrevistámos 100 pessoas e filmámos ao todo 250 horas, entre testemunhos e saídas de mar, gravámos uma banda sonora com músicos locais sobre a direcção de Charlie Mancini, conseguimos recolher mais de 600 fotografias muitas delas inéditas ao público em geral, vídeos e tudo o que conseguimos reunir numa colecção que só por si contaria a história.</div><div>A isto tudo somamos o lado emocional e poético de quem vive e viveu do mar e estruturámos um projecto de cinema com a comunidade, com investigação, produção e assistência de realização de António Campos, projecto produzido pela Câmara Municipal de Sines e Co-financiado pelo programa Promar.</div><div>Este foi o grande desafio até agora. Todos os dias me fazia reflectir:</div><div>“- será que vale a pena todo o esforço? Noites sem dormir no mar? Entrevistar tanta gente num ano? Estar à procura de histórias numa comunidade à partida muito fechada?” Muitas dúvidas estiveram no caminho, mas fiquei surpreendido com a abertura da comunidade e o seu entusiasmo com este projecto. Não esquecerei o carinho como que receberam o filme no seu dia de estreia no Castelo de Sines onde foi exibido numa tela gigante para mais de 2000 pessoas. Foi um momento notável pois foi o reconhecimento da comunidade e a melhor distinção que poderíamos ter, mesmo tendo ganho um prémio de melhor filme etnográfico no Brasil e mesmo agora que continuamos a mostrar o filme e várias latitudes e longitudes. Este foi um filme sobre esta gente e mesmo os que não tiverem possibilidade de ir, conseguiram-se representar por um amigo ou um conhecido. Isso é de facto aquilo que procuro fazer com o meu trabalho, mostrar que a tecnologia usada para fazer um filme só serve para contar as histórias de pessoas reais, do seu quotidiano e das suas memórias, transformando-as em memórias colectivas e partilha de uma geração.</div><div>O filme é uma longa metragem de 71 minutos. Esse foi o maior dos problemas, sintetizar todas as histórias sem repetir uma única pessoa, criando um discurso coerente e lógico, assumindo desde o inicio que não iríamos na estreia apresentar o discurso de ninguém que já tivesse falecido, de forma a poder dar a oportunidade de todas as pessoas que foram entrevistadas de assistirem ao filme.</div><div>Gostaria de terminar com a nota de que este foi um projecto pensado ao longo de 4 anos antes da rodagem e de que houve outros projectos que levaram a este como é o caso do projecto Redes do Tempo do Museu de Sines e projectos como o referido em cima &quot;Do Silêncio à Liberdade&quot; com o Arquivo Municipal, pois esta lógica de trabalho cooperativo e multidisciplinar, foram os princípios em que todo este processo evoluiu e que tornou possível hoje ter um filme produzido por uma Câmara Municipal a correr em festivais de Cinema e de especialidades científicas como a etnologia, etnografia, história e outras áreas do conhecimento das ciências sociais.</div><div>Quais são os teus sonhos para o cinema, para estas e outras pessoas com que te identificas e retratas, e para Portugal?</div><div>O meu maior sonho neste momento é fazer um filme que tenho vindo a estruturar muito sobre o lado humano das profissões, e a forma crítica como olhamos para aquilo que criamos todos os dias, aquilo que fazemos e como fazemos.</div><div>Portugal tem um potencial enorme para este tipo de projecto. O problema são os financiamentos, o apoio a estas produções. Estes podem não ser os temas da ordem do dia mas são aqueles que de alguma forma podem instigar o sentido crítico para criar coisas novas sem necessidade de copiar modelos e referências de casos de sucesso. Nós temos de valorizar mais aquilo que somos e isso é aquilo que nos torna singulares, valorizando as pessoas e aquilo que elas são, como pensam, como vivem, com todas as suas memórias e valores é a nossa verdadeira identidade.</div><div>Para Portugal? Portugal está na moda, o problema é que a maioria das pessoas pensam que Portugal está na moda por ter tuk tuks em Lisboa, macarons no Porto e brunchs, sushi, tacos, mas não é por isso. Portugal está na moda porque é tudo isto de uma forma pitoresca e autêntica, porque tem 900 kms de costa continental com zonas tão distintas, com mais de uma dúzia de ilhas no Atlântico. Portugal é um dos lugares da Europa, por onde o tempo passou devagar, com uma das costas mais bem preservadas e com áreas de reserva natural no interior muito bem preservadas, e isso transforma este pequeno país num lugar diversificado e com uma riqueza cultural tão grande que é necessário um folgo gigante para começar a trabalhar nele. Começar a trabalhar num processo diário, e continuado de valorização das tradições e do património era o meu sonho para Portugal, pois seria um sinal de respeito e soberania cultural poder tomar esse folgo para podermos trabalhar bem aquilo que temos de melhor.</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Ana Brites</div><div>19 de Julho de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>18 de Julho de 2017</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Investigador Redy Wilson Lima</title><description><![CDATA[É sociólogo e investigador cabo-verdiano. Como é que vê a contínua violência que se vive em Cabo Verde? Tem estudado este flagelo, para si de que forma é que se pode reverter esta violência e criar uma onda de paz geral?Antes de mais convém realçar que olhando para a nossa história e os resquícios dela hoje, diria que não somos outra coisa senão um povo fruto da violência, sobretudo da violência simbólica. Contudo, embora se tende a falar de violência no singular, prefiro usar a expressão]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/03/30/Entrevista-ao-Investigador-Redy-Wilson-Lima</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/03/30/Entrevista-ao-Investigador-Redy-Wilson-Lima</guid><pubDate>Thu, 30 Mar 2017 02:34:32 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>É sociólogo e investigador cabo-verdiano. Como é que vê a contínua violência que se vive em Cabo Verde? Tem estudado este flagelo, para si de que forma é que se pode reverter esta violência e criar uma onda de paz geral?</div><div>Antes de mais convém realçar que olhando para a nossa história e os resquícios dela hoje, diria que não somos outra coisa senão um povo fruto da violência, sobretudo da violência simbólica. Contudo, embora se tende a falar de violência no singular, prefiro usar a expressão violências, uma vez que ao se colocar o conceito no plural, está-se a dar conta dos outros tipos de violências. Fala-se hoje muito de violência urbana referindo-se às atividades dos gangues de rua e das fações nacionais do narcotráfico internacional, mas quando se olha para os dados da polícia e das instituições de saúde, o tipo de violência que mais se destaca é a violência doméstica e a sexual. No entanto, convém frisar sobre a existência de continuuns de violência (domésticas, sexuais, armadas, sociais, económicas, etc). Ao pluralizar a violência urbana parto do pressuposto de que não existe uma única violência urbana, mas de um conjunto de violências urbanas, tantas quantas as suas manifestações. Portanto, ao considerar os membros dos gangues de rua simultaneamente como vítimas e agentes da violência, longe de estar a legitimar algumas das suas ações, como já fui acusado muitas vezes, estou a chamar a atenção para a existência dos outros tipos de violências (política e simbólica) que os torna vítimas, no entanto ignorada ou não considerada como tal. É importante realçar a necessidade da substituição do conceito violência estrutural ou social para o conceito violência política, uma vez que há que se ter em conta que, na maioria das vezes, os agentes políticos sabem dos fatores que levam estes jovens (e não jovens) a ter comportamentos que podem ser considerados criminosos, mas ao invés de realmente investirem em políticas públicas inclusivas, optam por as ignorar devido a outros interesses, insistindo numa abordagem policial e militar repressiva e violenta que nada faz senão reproduzir o ciclo de violência. Já há exemplos suficientes pelo mundo fora a mostrar que é ineficaz o combate da criminalidade somente com a polícia ou com militares. Infelizmente, tem-se erradamente insistido neste tipo de política e passados cerca de 12 anos em que se declarou oficialmente a criminalidade como um problema social em Cabo Verde, os dados oficiais apontam para o seu aumento se tomarmos como recorte temporal as últimas duas décadas. Acredito que este cenário de criminalidade urbana poderá ser minimizado caso se avance para as seguintes ações: uma aposta séria naquilo a que chamo uma política pública inclusiva e colaborativa, em que os agentes da violência, porque também vítimas, deverão ser tidos em conta diretamente na conceção e execução dessa política; fortalecer a articulação institucional através do combate ao protagonismo institucional e pessoal dos agentes judiciais; a criação de um incentivo aos vários street workers que através das suas estruturas informais e organizações de rua têm promovido uma cultura de paz em vários bairros; um trabalho sério de despartidarização das organizações da sociedade civil que trabalham nesse contexto; e uma aposta num outro tipo de modelo de policiamento de proximidade comunitário que seja capaz de promover uma segurança cidadã e solidária através da afirmação de uma cultura de prevenção da criminalidade ao invés da reafirmação de um Estado Policial/Militar, ela própria produtora e reprodutora da violência.</div><div>Escreveu este artigo: “A presença de Amílcar Cabral na música RAP na Guiné-Bissau e em Cabo-Verde”. O que o levou a fazer esta investigação? Para si, que importância tem este voltar a invocar um homem de acção, da revolução? Tendo escrito este texto e tendo investigado sobre Amílcar Cabral no Rap, como é sente que é motivador e o que tem levado o Rap a despertar consciências e a fazer agir?</div><div>Foi um artigo partilhado com o sociólogo bissau-guineense Miguel de Barros. Ele tem estudado a cultura rap na Guiné-Bissau há já algum tempo e perante o convite da Revista REALIS – Revista de Estudos AntiUtilitaristas e PosColoniais, resolvemos utilizar os resultados preliminares das nossas pesquisas em ambos os países e fazer um texto com a pretensão de analisar de que forma os jovens guineenses e cabo-verdianos recontextualizaram através do rap, na nova conjuntura dos dois países, o discurso pan-africanista e nacionalista de Amílcar Cabral, tendo em conta o risco de branqueamento da memória coletiva e histórica; a suposta traição dos seus ideais pelos atuais políticos dirigentes; a necessidade de o resgatar enquanto guia do povo; e de representá-lo como um MC (mensageiro da verdade). O foco da minha investigação nunca foi o rap, mas sim a cultura dos gangues de rua da Praia que me levou obrigatoriamente ao rap, que comecei a partir de 2010 a estudar paralelamente com os gangues, quando percebi que dificilmente se consegue desassociar estes dois fenómenos, tendo em conta o contexto em que a cultura hip-hop emergiu e a influência do rap, mais propriamente o gangsta rap, na disseminação da cultura gangsta, mais concretamente a partir dos anos de 1990, através do fenómeno denominado de corporate hip-hop. Aliás, o grande erro da criminologia tradicional foi ter ignorado na análise da violência dos gangues o fator hip-hop. A ligação com Cabral advém precisamente do denominado black atlantic hip-hop, antítese do primeiro, aqui designado de rap consciente. No continente africano, e não só, o rap tornou-se numa expressão cultural muito poderosa, por onde as velhas identidades africanas foram desconstruídas e/ou reconstruídas e, para muitos jovens ele tornou-se na voz de mudança e representação de um futuro de esperança e de unidade pan-africana. Ele simboliza a fala do subalterno e representa o “mundo de baixo”, uma nova forma de protesto juvenil oculto que os cientistas sociais, sobretudo os africanos e cabo-verdianos, devem estar atentos, uma vez que pode ser utilizado como uma lente com o qual se pode ler as contradições das nossas atuais sociedades e representa uma importante forma de resistência. Por outro lado, do ponto de vista da pesquisa e da produção do(s) conhecimento(s), ele proporciona a busca de novas ferramentas analíticas de compreensão dessa nova geração de jovens que se encontra em processo de indigenização e que diariamente tem reclamado por uma segunda descolonização. Igualmente, o seu estudo obriga os pesquisadores a mobilizarem o conceito raça que tem estado ausente nos estudos realizados em Cabo Verde, escolha essa por vezes propositada, visto que uma boa parte da produção teórica e ensaísta sobre as ilhas situa-se ideologicamente no primado do povo singular, fruto da síntese cultural perfeita, ao invés de problematizar sobre o encontrão cultural havido após o achamento das ilhas.</div><div>Tem o projecto STREET SOLDJAS, é universitário e estudou sobre “Thugs no feminino: um breve olhar sobre o fenómeno”. O que tem aprendido com estas investigações e projectos? A partir destes trabalhos, de que forma se podem adquirir aprendizagens para que o país Cabo Verde possa viver livre do narcotráfico, das associações criminosas norte-americanas e de todos estes e outros problemas do género?</div><div>“Street soldjas: processos de afirmação juvenil e apropriação do espaço urbano da Praia, Cabo Verde” é o nome do meu projeto de doutoramento em Estudos Urbanos, que espero concluir entre o final deste ano e o início de 2018. Comecei em 2006, no âmbito do Mestrado em Sociologia, a pesquisar sobre as crianças em situação de rua na cidade da Praia e a partir de 2008 desloquei o foco para os gangues de rua, os auto e hétero-denominados “thugs”, que transformei oficialmente num projeto de doutoramento em 2014. Ao longo da pesquisa etnográfica em alguns bairros da cidade da Praia fui percebendo a complexidade do fenómeno e a legitimação da sua violência pelos partidos políticos em época eleitoral, bem como a sua ligação com o narcotráfico nacional e internacional e com a questão das deportações de jovens cabo-verdianos dos EUA e da União Europeia. A minha tese é de que num país de parcos recursos, em que os jovens se deparam diariamente com a segregação de oportunidades, os gangues de rua, bem como as fações do narcotráfico nacional, surgem como espaços de afirmação social, e são grupos sociais que tal como os outros grupos, como por exemplo os partidos políticos, constroem a sua identidade de forma agressiva, em oposição ao outro, nessa disputa pelos escassos recursos existentes. A questão dos “thugs” no feminino foi uma reflexão que surgiu num dia em que fui questionado sobre a participação feminina da delinquência urbana coletiva na Praia. A meu ver, o que havia eram jovens do sexo feminino, em alguns casos, namoradas dos membros dos gangues, que de vez em quando, agrupavam-se com outras na mesma condição e respondiam às provocações das namoradas e/ou amigas de elementos dos grupos rivais dos seus namorados em festas e demais atividades lúdicas. Contudo, mais tarde comecei a perceber que, em muitos casos, eram mais do que isso e notícias recentes da presença de raparigas em dois grupos em atividade delinquente em dois bairros da cidade veio abrir novamente o debate sobre o papel das raparigas nos grupos “thugs”. Quando falamos de “thugs” estamos a falar exclusivamente de jovens do sexo masculino, visto que ela representa uma espécie de masculinidade negra e passa a ser encarado nas narrativas do gangsta rap como uma manifestação da “insubordinação agressiva”. Aliás, esta representação é visível na hipermasculinidade negra e glamour que 2Pac emitia nas suas narrativas, o que fez com que essa identidade fosse abraçada por muitos jovens fora dos EUA como modelo de masculinidade. É de salientar que a violência perpetrada em nome desta masculinidade não é tanto resultado de uma identidade, mas sim de uma tentativa de restabelecer o poder e, portanto, pertencer a um grupo valorizado, respeitado, que detém poder. Em Cabo Verde já há trabalhos interessantes de Lorenzo Bordonaro e Silvia Stefani que demonstram de forma inequívoca a reprodução deste modelo no contexto praiense, onde encontraram equivalência no modelo da masculinidade local, na medida em que reproduz as ideias de força pessoal, coragem e desafio de restrições sociais. A minha perspetiva vai no mesmo sentido desses autores. Daquilo que já se tem publicado sobre a temática da criminalidade urbana coletiva, em que tenho contribuído com alguns textos, penso que serve de base para uma adequação de políticas de segurança pública que atua nas causas do fenómeno e não apenas nos efeitos através de políticas reativas como se tem feito até à data.</div><div>Grande parte dos seus estudos está muito focada no rap. De que forma é que para si o rap pode ser uma força motivadora e impulsionadora para a luta pela cidadania, por um país melhor, por uma melhor cultura?</div><div>Jean-Marc Ela, sociólogo camaronês, afirma que os jovens africanos se encontram atualmente em rutura com as elites intelectuais e líderes políticos, optando por uma linguagem cujo desenvolvimento obedece a uma lógica “informal”, num contexto onde a imaginação é poderosa e ativa. Para mim, o rap cabo-verdiano faz parte desta linguagem “subalterna” que fala Ela e se constitui como uma nova forma juvenil de afirmação identitária, de resistência e de protesto, uma vez que é o reflexo da sociedade atual que se faz ouvir através do rap da qual não se pode ignorar nem o estilo nem a mensagem. O que lá encontramos são as preocupações da vida quotidiana, as esperanças e as feridas, os medos, as necessidades e as aspirações de uma sociedade submetida às pressões de correntes portadoras de valores contraditórios. Para além do rap funcionar como essa nova forma de afirmação, de denúncia e um espaço por onde a África estava a ser “(re)descoberta”, ele proporciona igualmente novas formas de socialização dos jovens, nas quais as sociabilidades produzidas ocupam um lugar central. Embora não considero que haja um movimento hip-hop em Cabo Verde, o que é patente no apelo da maioria das músicas à união, e saber das rivalidades ideológicas e estéticas existentes entre os vários grupos existentes na Praia em particular e em Cabo Verde no geral, reconheço que o rap conseguiu criar uma plataforma política pelo fato de ter tido a capacidade de sensibilizar e consciencializar uma grande parte da população juvenil para temas diversos. No caso cabo-verdiano, o rap foi uma das poucas expressões artísticas que deu contributos significativos em matéria do uso da liberdade de expressão e da ativação da cidadania política de muitos jovens, ao possibilitar que jovens em situação de marginalidade (e não só) pudessem reformular as suas críticas e se assumir enquanto protagonistas, procurando assim novos mecanismos emancipatórios, favorecendo a tomada de consciência do mal-estar social e político que se tem vivido no país nos último anos.</div><div>O seu trabalho envolve muito as questões sociais, os direitos humanos, a violência, o estado em que Cabo Verde se tem mantido. O que mais o fascina e mais o cativa para estudar e escrever sobre estes temas? Que importância tem para si aprofundar a história do rap, da cultura, das políticas como o exemplo deste estudo: &quot;Cultura de rua e políticas juvenis periféricas: aspectos históricos e um olhar ao hip-hop em África e no Brasil&quot;?</div><div>No campo epistemológico das ciências sociais, pratico aquilo a que Michael Burawoy chamou de sociologia pública e que eu prefiro ajustar e denominar de sociologia da transgressão. Num certo momento da prática da pesquisa, vi-me confrontado com questões epistemológicas sobre a legitimidade do uso do conhecimento científico para fins de emancipação social, questão essa que fui percebendo que se enquadrava numa discussão mais ampla sobre o papel que os cientistas sociais podem ou não desempenhar no campo da política e da intervenção na esfera pública. Comecei, portanto, a me orientar por uma postura e pensamento académico de que qual o interesse da ciência se ela não visar a ação. Sendo assim, comecei a tentar colocar em prática um saber, que sem recusar o escrutínio da academia, possa contribuir para uma ação política engajada, fora das influências partidárias, orientada para a discussão e a concretização de uma agenda emancipatória. Foi assim no estudo dos gangues de rua, bem como no estudo do rap e foi a partir da problematização destes estudos que surgiram questões sociais como o dos direitos humanos e das violência(s). No caso do artigo a que refere, surge na sequência do trabalho colaborativo com Miguel de Barros. O ensaio foi escrito a três mãos, eu, Miguel e a brasileira Rosana Martins, em que buscamos analisar as ações culturais do hip-hop no continente africano e no Brasil como possíveis mediações para novas práticas de sociabilidade e formas de representação diante dos diversos conflitos presentes no quotidiano dessas sociedades. Antes, já tinha escrito um artigo em que se encontra no prelo dando conta das continuidades culturais entre o rap, a sua forma primária, o griot, e o finason, que é um importante elemento de improvisação integrado no batuku. Na análise da música do rap nos nossos países é de primordial importância efetuar-se um histórico sobre a génese da música afrodescendente e da cultura hip-hop, que remonta desde os griots africanos, à diáspora negra, a Jamaica e aos EUA. Apesar de considerar o finason simultaneamente um griot moderno e um pré-rap cabo-verdiano, não quero com isso dizer que o rap que chegou a Cabo Verde nos finais dos anos de 1980 foi o griot que partiu nos barcos de escravos no passado. Aquilo que veio inicialmente nas malas dos filhos dos emigrantes nos EUA e num segundo momento via media é claramente o rap americano. Contudo, há que se ter em conta que só recentemente alguns rappers crioulos nas ilhas e na diáspora começaram a indigenizar o rap crioulo através da conexão orgânica com as tradições profundamente enraizadas no contexto cabo-verdiano. No campo político, os partidos políticos, as instituições públicas e algumas ONG’s, ao reconhecerem o poder da rua do hip-hop tentaram nalgumas ocasiões censurar os rappers mais politizados e na maioria dos casos buscaram a sua cooptação com vista à divulgação das propagandas partidárias e institucionais, garantindo assim que as suas mensagens cheguem a uma maior audiência. A importância do estudo do rap, como já referi anteriormente, encontra-se na sua capacidade de problematizar as contradições da nossa sociedade, por um lado, e, permitir aos jovens questionar sobre o porquê da sua história não esteja a ser ensinada nas escolas, a não ser a partir do olhar do colonizador.</div><div>Quais são os seus sonhos para Cabo Verde?</div><div>O meu sonho para Cabo Verde é ver os jovens politizados, entendido por mim como a única forma de se furtar à lógica político-partidária que os tem aprisionado e segregado as suas oportunidades.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Jú Matias</div><div>30 de Março de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>27 de Março de 2017</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Psicólogo e Neuropsicólogo Daniel Martins</title><description><![CDATA[Elaborou, em 2013, o estudo A Saúde Mental dos Cuidadores dos Doentes de Alzheimer, em conjunto com o Professor Doutor Luís Maia. O que é que o levou a focar-se na problemática da saúde mental dos cuidadores?Nas últimas décadas, tem existido um grande aumento na incidência do envelhecimento associado a doenças crónicas e degenerativas o que, concomitantemente se relaciona com um crescimento significativo de dependentes e, ao nível das políticas sociais e de saúde, uma crescente]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/03/06/Entrevista-ao-Psic%C3%B3logo-e-Neuropsic%C3%B3logo-Daniel-Martins</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/03/06/Entrevista-ao-Psic%C3%B3logo-e-Neuropsic%C3%B3logo-Daniel-Martins</guid><pubDate>Mon, 06 Mar 2017 23:18:16 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Elaborou, em 2013, o estudo A Saúde Mental dos Cuidadores dos Doentes de Alzheimer, em conjunto com o Professor Doutor Luís Maia. O que é que o levou a focar-se na problemática da saúde mental dos cuidadores?</div><div>Nas últimas décadas, tem existido um grande aumento na incidência do envelhecimento associado a doenças crónicas e degenerativas o que, concomitantemente se relaciona com um crescimento significativo de dependentes e, ao nível das políticas sociais e de saúde, uma crescente co-responsabilização da família na prestação dos cuidados. Sabemos que, cuidar de alguém permanentemente provoca uma grande pressão emocional e um desgaste físico intenso. Por este facto os cuidadores constituem um grupo de risco, vulnerável à perturbação afectiva e relacional, à desorganização pessoal, familiar e social, à doença física e mesmo à doença psiquiátrica e outra sintomatologia orgânica e/ou manifestação psicossomática. Sabendo que, o mal-estar do cuidador reflecte-se nos que deles dependem, assim como em diversas áreas da sua vida: familiar, social, profissional, financeira, física e emocional.</div><div>Também se tem dedicado à promoção da gestão do peso. Como psicólogo, neuropsicólogo quais os objectivos de trabalhar este tema?</div><div>A maioria das pessoas que se propõe a perder peso, geralmente tenta cumprir um plano nutricional, elaborado por um nutricionista, e inicia a prática de exercício físico. Todavia, a sua grande maioria que tenta não atinge os resultados pretendidos isso porque num plano para perder peso não é tido em conta os factores psicológicos/emocionais que influenciam o nosso comportamento alimentar. O que quero dizer é que emagrecer é um processo de aprendizagem sobre a alimentação, sobre o corpo e o comportamento, que exige tempo e perseverança.</div><div>Ex-combatentes e Familiares: Alguns dados preliminares sobre o possível impacto do estado emocional dos ex-combatentes em esposas e filhos, é o nome de um estudo desenvolvido em 2006 no qual participou em conjunto com outros autores e investigadores. Qual a pertinência e as grandes conclusões deste trabalho?</div><div>A realização desse estudo visou avaliar o impacto que a guerra colonial provocou, em termos psicológicos, não só nos ex-combatentes mas também nos seus familiares, na zona centro do país. O estudo concluiu que, tanto os Ex-combatentes como as esposas evidenciavam sintomas depressivos e ansiogénicos; sintomas esses que eram diminuidos nos filhos, pelo facto de estes serem mais influenciados pelas características emocionais das mães, do que pelos respectivos pais.</div><div>Através da sua ligação à Associação Portuguesa Árbitros, Oficiais de Mesa de Andebol, dedicou-se também a temáticas como: A importância da gestão das emoções na competição desportiva, A importância da intervenção psicológica na reabilitação de lesões e ainda ao Acompanhamento psicológico do árbitro na alta competição. Se tivesse de atribuir uma percentagem à importância da saúde psíquica/psicológica/mental para um bom desempenho de atletas e árbitros na resposta aos mais diversos desafios que a modalidade lhes impõe, que valor lhe daria e porquê?</div><div>É sabido que um bom desempenho desportivo, quer seja um jogador quer seja um árbitro, não depende só de uma boa condição física através do treino. Eu diria que, para um excelente desempenho/rendimento o factor psicológico terá que ser superior isso porque envolve a autoconfiança, a vontade e motivação, o saber lidar com a pressão e a ansiedade, manter a focalização e usar estratégias adequadas que permitam ser o mais consistente possível.</div><div>Os idosos também lhe têm merecido especial atenção. Como foi implementar o Programa de Estimulação Cognitiva para Idosos?</div><div>O envelhecimento populacional tem levado a um aumento na prevalência de doenças degenerativas crónicas, especialmente a demência. Sobretudo nos mais idosos, o Declínio Cognitivo Ligeiro (DCL), considerado como um estado intermediário entre o envelhecimento cognitivo normal e a demência leve, é cada vez mais reconhecido como um importante problema de saúde, associado a um aumento do risco de desenvolvimento de demência. A manutenção da saúde cognitiva tem uma importância fundamental na prevenção do compromisso cognitivo e no atraso da instalação do quadro demencial, da dependência e da (in)capacidade do idoso para se auto-cuidar.</div><div>Como é que estes projectos têm sido fundamentais para si e para sua evolução enquanto psicólogo e neuro-psicólogo?</div><div>Estes projectos permitiram-me adquirir experiências e ensinaram-me bastante na forma como encarar a vida, não só em termos profissionais mas também em termos pessoais.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Paula Lagoa</div><div>03 de Março de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Cantor Filipe Pinto</title><description><![CDATA[Como cantor, que aborda questões do ambiente, de que forma o prémio, como o MTV, é um grande incentivo para continuar a abordar temas e questões essenciais para a prevenção e cuidado com a natureza?O Passatempo Voices for climate foi uma iniciativa realizada pela MTV internacional na qual o vídeo Formula foi eleito o melhor vídeo na categoria escolha do público. Foi muito importante servindo como alerta para o problema que enfrentamos ano após ano relativamente aos incêndios florestais. No ano]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/01/09/Entrevista-ao-Cantor-Filipe-Pinto</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/01/09/Entrevista-ao-Cantor-Filipe-Pinto</guid><pubDate>Mon, 09 Jan 2017 19:38:00 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Como cantor, que aborda questões do ambiente, de que forma o prémio, como o MTV, é um grande incentivo para continuar a abordar temas e questões essenciais para a prevenção e cuidado com a natureza?</div><div>O Passatempo Voices for climate foi uma iniciativa realizada pela MTV internacional na qual o vídeo Formula foi eleito o melhor vídeo na categoria escolha do público. Foi muito importante servindo como alerta para o problema que enfrentamos ano após ano relativamente aos incêndios florestais. No ano de 2013 venci também o prémio Best Portuguese Actpela MTV que me permitiu nesse ano representar Portugal nos EMA em Amesterdão.</div><div>Fez um hino para uma associação internacional da Finlândia (ENOtreeplantingday), de apoio e plantação de árvores pelo mundo inteiro. Como é que foi para si dar voz a uma iniciativa de plantar um milhão de árvores? De que forma é que foi cativante construir o hino e importante promover esta enorme iniciativa?</div><div>Este contacto surgiu por iniciativa de um Engenheiro Florestal Finlandês que é o CEO desta escola online internacional. Para mim foi uma enorme surpresa quando me incentivaram a fazer essa canção de nome GreenWoods, da qual me permitiu ser convidado para a cerimónia que decorreu na Finlândia em Joensuu, e ao mesmo tempo actuar para todos os representantes dos diferentes países. A causa sendo nobre e identificando-me com ela fez todo o sentido para mim participar.</div><div>Tem o livro e o DVD “O Planeta Limpo do Filipe Pinto” e tem andado pelas escolas. Como é que para si tem sido esta aventura e esta forma de passar uma mensagem pelo futuro do ambiente? Que mensagens tem conseguido passar? E como é que este trabalho de prevenção e gestão dos recursos naturais e de atenção tem sido fundamental e mudado a forma de pensar de todas as pessoas envolventes nas escolas?</div><div>O projecto O Planeta Limpo do Filipe Pinto conta com a 7ª edição do livro e já percorremos inúmeras escolas num universo de 50 000 crianças. Esta aventura permitiu-me aperceber da importância que existe na continuidade destes projectos educativos… As questões centrais que abordamos através de sessões ambientais ou teatros dependendo do número de alunos, visam a compreensão da necessidade que temos em preservar a água e as florestas, entender que o Homem tem uma grande responsabilidade nas alterações do clima e consequentemente dos recursos que utilizamos dia a dia.</div><div>Neste momento lançamos um novo fascículo do planeta limpo do Filipe Pinto – Mais energia que centra atenção na eficiência energética e na importância das energias renováveis para um planeta mais sustentável e equilibrado. Além disso reforçamos a ideia neste mês de Janeiro e Fevereiro em dirigir às escolas interessadas em receber o projecto de forma gratuita para permitir chegar a um maior número de alunos e professores. Info: www.oplanetalimpodofilipepinto.com</div><div>Refere que na “Canção Tudo Gira” aborda que tudo passa na nossa vida, mas o amor e a amizade prevalecem e que gosta de passar a sensação das pessoas não desistirem dos seus sonhos. O que o leva a focar-se bastante na passagem de exemplos positivos, como a luta pelos sonhos, o amor, a amizade? </div><div>Considero ser essa a missão de cada um de nós que tem o privilégio de “visitar” este mundo… É a busca e conquista de sonhos e reforçar os laços da amizade e amor que são sentimentos nobres e de grandiosidade. Esta e outras canções do disco como (In)fortúnios; Abrigo, Baixa Estima, reforçam a ideia de que é preciso acreditar e superar barreiras que nos vão aparecendo ao longo da vida.</div><div>Para o Ídolos cantou Ornatos Violeta, José Afonso, Rui Veloso. Como é que estes artistas e banda portuguesas e Pearl Jam, Smashing, etc..., foram essenciais para a sua aprendizagem e para o seu caminho enquanto pessoa/cantautor? </div><div>São influências e fizeram parte de momentos diferentes na minha vida… Felizmente gosto de ouvir novas sonoridades e continuo também a ir buscar muitas influências da minha infância e adolescência.</div><div>Como é que o estudo da natureza/ambiente dos recursos naturais, a passagem pelo Ídolos, a aprendizagem em Inglaterra e o trabalho das músicas infantis o têm feito crescer como pessoa e cantautor e adquirir mais conhecimentos?</div><div>São projectos e vivências que me têm dado uma visão mais rica sobre o Mundo…</div><div>Creio que tem sido uma boa aventura e espero que continue a ter o apoio e carinho do público que de alguma forma acompanha o meu trabalho.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Mais amor, mais entreajuda entre os portugueses e sobretudo mais oportunidades e crença nas valências dos jovens.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>09 de Janeiro de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à Artista Ana Negrão</title><description><![CDATA[Pintaste várias personalidades importantes da nossa sociedade como o Gandhi, Édith Piaf, Charlie Chaplin e Miguel Torga. O que é que te inspirou nessas personalidades que te motivou a mostrar o teu apreço por elas e a pintá-las?Há personalidades que marcam pela sua coragem e determinação. Não sendo retratista, abraço sobretudo desafios e novas possibilidades ao pintá-las.A tua forma de transmitir os valores que são dignificantes para ti é dando grande relevância aos pormenores da vida, aos]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/01/06/Entrevista-%C3%A0-Artista-Ana-Negr%C3%A3o</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2017/01/06/Entrevista-%C3%A0-Artista-Ana-Negr%C3%A3o</guid><pubDate>Fri, 06 Jan 2017 16:30:41 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Pintaste várias personalidades importantes da nossa sociedade como o Gandhi, Édith Piaf, Charlie Chaplin e Miguel Torga. O que é que te inspirou nessas personalidades que te motivou a mostrar o teu apreço por elas e a pintá-las?</div><div>Há personalidades que marcam pela sua coragem e determinação. Não sendo retratista, abraço sobretudo desafios e novas possibilidades ao pintá-las.</div><div>A tua forma de transmitir os valores que são dignificantes para ti é dando grande relevância aos pormenores da vida, aos sentimentos, à força e à partilha?</div><div>“ Ninguém nasce feito, é experimentando-nos no mundo que nó nos fazemos. “</div><div>A arte tem sido uma experiência magnífica, movida na partilha de alegrias e sofrimentos, sentimentos que nos minam e nos fazem sentir vivos. A mensagem que passo é uma reflexão sobre as minhas experiências onde transmito uma linguagem universal despertando nos outros todos esses valores.</div><div>Trabalhas como professora/animadora de ATL. De que forma é que as várias actividades e jogos que fazes com as crianças e o facto de estares com eles diariamente te inspiram? É uma forma de aprendizagem para o trabalho que fazes na pintura e poesia?</div><div>A minha relação com as crianças passa essencialmente pela partilha de saberes. Inspiram-me pela sua genialidade ainda imaculada e essa pureza reflecte-se em alguns dos meus trabalhos. Em relação às actividades praticadas preocupo-me não em ensinar mas em transmitir a importância e o valor que cada uma delas tem enquanto seres humanos.</div><div>Tens dois trabalhos alusivos ao 25 de Abril, um deles feito para a EB1 da Branca. Consideras que é essencial abordar o tema do 25 de Abril para quem vê as tuas pinturas e principalmente para as crianças? De que forma é que a revolução e esta data são importantes para ti?</div><div>Estagiei nesta escola durante nove meses evoluindo diariamente de forma pessoal, estive receptiva às diferenças de cada criança no seu próprio universo e por respeitar isso acabei por lhes transmitir os valores da Liberdade, que não é mais do que a união de uma comunidade.</div><div>Hoje faço voluntariado na mesma escola pois sinto-me responsável pela continuidade desse trabalho, que me mantém viva.</div><div>Tens várias fotos em que o corpo feminino está representado. Qual é a tua motivação para mostrares os corpos nus femininos? Para ti é essencial mostrar o corpo e a sua naturalidade?</div><div>Para além de ser mulher é no corpo que exploro e vivencio novos despertares de que todos fazemos parte sem olhar o nu com preconceito, aceitando essa naturalidade e tudo o que ela representa na sua total dignidade.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Citando Bob Marley, “só há uma coisa que eu quero muito, que a Humanidade seja unida”.</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>06 de Janeiro de 2017</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à Comunista Ana Pato</title><description><![CDATA[No XIX Congresso do PCP falou sobre a luta anti-fascista e da forma como o fascismo se apresenta, sempre de forma renovada. De que forma podemos aprender com as experiências passadas do fascismo? Com as lutas anti-fascistas dos comunistas?O fascismo confirmou-se no século passado como uma forma particularmente violenta de regime (ou de regimes, atendendo às especificidades nacionais sem, no entanto, querer branquear, como alguns convenientemente pretendem, traços comuns e gerais).Acho que uma]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/12/27/Entrevista-%C3%A0-Comunista-Ana-Pato</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/12/27/Entrevista-%C3%A0-Comunista-Ana-Pato</guid><pubDate>Tue, 27 Dec 2016 02:39:26 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>No XIX Congresso do PCP falou sobre a luta anti-fascista e da forma como o fascismo se apresenta, sempre de forma renovada. De que forma podemos aprender com as experiências passadas do fascismo? Com as lutas anti-fascistas dos comunistas?</div><div>O fascismo confirmou-se no século passado como uma forma particularmente violenta de regime (ou de regimes, atendendo às especificidades nacionais sem, no entanto, querer branquear, como alguns convenientemente pretendem, traços comuns e gerais).</div><div>Acho que uma das principais lições que podemos tirar dessas experiências passadas, em relação com as experiências actuais, é que o capitalismo tem uma grande capacidade de adaptação às circunstâncias e de fazer valer formas de regime e formas de governo que melhor garantam a sua preservação enquanto sistema. É isso que fundamentalmente sempre está em causa.</div><div>Se, em determinados momentos e lugares, a social-democracia é o melhor garante para, por via do poder do Estado, promover a apropriação privada da riqueza criada, noutros momentos e lugares, as formas ditatoriais são o recurso necessário. Aliás, são conhecidas as ligações desses Estados fascistas às grandes empresas.</div><div>Dessas experiências podemos aprender como o capitalismo é um sistema económico capaz dos piores horrores contra os seres humanos, individualmente considerados, e contra a humanidade.</div><div>Mas podemos também aprender – e isto não é uma proclamação de boas intenções: é um facto – que é possível derrotar os piores projectos, mesmo quando a correlação de forças nos parece (e é) extremamente desfavorável. E isto dá-nos uma perspectiva histórica e de futuro.</div><div>A derrota do nazi-fascismo é uma lição contra a desistência e contra a abdicação. Essa luta mostrou-nos como os homens e as mulheres são capazes dos maiores feitos, sobretudo se inseridos num colectivo que confira sentido e poder à sua acção.</div><div>Essa luta mostrou-nos como os comunistas estiveram na linha da frente contra o fascismo e na defesa da democracia e como foram capazes de promover as alianças que na altura se impunham com os demais sectores democráticos.</div><div>Refere que é preciso combater os seus ideais. Tendo em conta a História Europeia, Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, as principais ditaduras fascistas em que os seus regimes foram derrotados, o que falhou e falha para que se consiga derrotar definitivamente a ideologia?</div><div>Não há, creio, uma resposta única e simples: a situação é, por natureza, complexa. Mas, pelo menos para situar o problema, é preciso termos em contra três coisas: o fundamento material da ideologia, a sua autonomia relativa face a esse fundamento e a sua função prática. Não nos esqueçamos que (peço desculpa por relevar algo que é tão bem sabido) a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. E é este sistema que promove tal ideologia. Por isso, verdadeiramente, não se pode falar da derrota definitiva da ideologia fascista sem se ter em conta a derrota definitiva das suas causas.</div><div>E, mesmo assim, a complexa mediação que existe entre as causas objectivas e o conjunto das representações da consciência que aquelas originaram (em que a ideologia se insere, seja ela verdadeira ou mistificadora) faz com que o desaparecimento das causas não implique imediatamente o desaparecimento definitivo de determinada ideologia.</div><div>(E, já agora, permita-me este parêntesis, uma forma mistificadora de apresentar o problema do fascismo e da sua ideologia passa por apresentá-lo como resultado de indivíduos, além do mais loucos, escondendo as suas verdadeiras causas: os interesses objectivos colectivos de determinada classe)</div><div>Mas, sem dúvida, que se pode e deve (é, aliás, um imperativo, uma tarefa primeira dos comunistas!) falar de combater, no quadro da actual situação, a ideologia fascista. É um problema de correlação de forças (no plano objectivo e subjectivo). Uma das funções práticas da ideologia fascista é dividir a classe trabalhadora, de que estas encontrem nos seus inimigos de classe um seu falso representante. Pois os comunistas sabem bem que é na unidade de todos os trabalhadores que reside a sua força e capacidade transformadora.</div><div>Como referi, fez uma abordagem sobre o fascismo, para a juventude comunista, de forma geral, o que podemos aprender sobre a nossa ditadura fascista, sobre a luta comunista, as privações, a fome, a tortura e o apoio a Hitler...?</div><div>Para além do que foi dito acima de forma geral, acho que, apesar dos mais de 40 anos que nos separam do 25 de Abril (e 40 anos é muito para um jovem de 15 anos, por exemplo), existe ainda memória histórica na juventude portuguesa, pelo menos junto de algumas camadas, do que foi a ditadura e a resistência a ela. Os comunistas são tidos – e justamente – como os principais (embora não únicos) resistentes antifascistas em Portugal. Para isso muito contribui, de forma insubstituível, a JCP, o PCP e também a URAP. Para a preservação da memória, para a denúncia, para que não mais se repita.</div><div>O caso português mostra também muito bem como o fascismo se tratou de aplicar pela força e recorrendo ao poder do Estado a aceleração da concentração de capitais: mas deste aspecto, por exemplo, creio que não há uma percepção generalizada, e ainda menos na juventude.</div><div>A tarefa de hoje não é só a da preservação da memória; é também o do combate ao branqueamento e à reescrita da história. E este trabalho de branqueamento e reescrita avança, tem resultados, e os meios de combate são desiguais: desde logo as orientações dos manuais escolares (seja por via da omissão ou da deturpação ou da utilização de categorias históricas de carácter duvidoso) e o papel da comunicação social dominante, nas mãos de grande grupos económicos.</div><div>&quot;… é preciso contrariar a ideia errada de que anti-fascista é aquele que lutou antes do 25 de Abril” De que forma é que vê como errada esta ideia? Que perspectiva tem sobre quem lutou durante os 50 anos (1) de ditadura e hoje passou para o lado do 25 de Novembro/cia/fmi...Como se pode mudar esse paradigma de falta de luta?</div><div>Antifascista é aquele que lutou no passado e aquele que luta no presente contra o fascismo. São os velhos e são os novos. As principais tarefas que se impõem hoje são, no entanto, talvez diferentes das do passado. E, creio, que um dos aspectos centrais da luta antifascista hoje é o da preservação da memória por um lado (é também um trabalho de denúncia) e, por outro lado, o do combate ao branqueamento e reescrita da história pelas classes hoje outra vez dominantes (e que tremeram com a revolução dos cravos). Deste ponto de vista, é um trabalho sobretudo ideológico. Mas passa também pela defesa (ideológica e também prática) do conteúdo democrático do regime tão fortemente atacado: passa por lutar contra o impedimento da acção dos sindicatos, o impedimento de manifestações, de Reuniões Gerais de Alunos, etc.</div><div>Em todos os momentos históricos houve traidores dos interesses dos trabalhadores e das causas proclamadas. Nuns casos houve mudança do lado da barricada, noutros casos não. E isso é desde logo uma lição que se transporta do passado para o futuro.</div><div>Não creio que haja falta de luta. Mas isto não quer dizer que o nível dessa luta esteja ao nível da ofensiva. Não está. É necessário intensificar e agudizar essa luta. Porém, há sim a disseminação da ideia geral de que não há luta. E essa ideia visa paralisar. No entanto, é uma afirmação que não corresponde à prática. Veja-se, por exemplo, as grandes acções da CGTP, as pequenas lutas nos locais de trabalho, as lutas da juventude, as acções do movimento da Paz ou mesmo acções de carácter político-partidário promovidas pelo PCP e pela CDU.</div><div>A sua dissertação de mestrado foi: «Materialismo e Idealismo na Física do Final do Século XIX e Início do Século XX a partir de Materialismo e Empiriocriticismo de Lénine. O caso exemplar da interpretação bohriana da mecânica quântica» O que aprendeu? Para quem não tem conhecimentos sobre as teorias Leninistas em traços gerais o que significa e como podemos aprender sobre estas teorias e estudos?</div><div>Ao ler Materialismo e Empiriocriticismo ficamos – eu pelo menos fiquei – com a percepção da imensa actualidade e pertinência daquelas ideias. E as razões são várias. Aquele debate trata-se de uma disputa historicamente localizada, mas, a partir dela, sobressai todo o conjunto da teoria materialista e dialéctica do conhecimento. E isso seria já de si suficiente. Mas lá transparece também por que não é indiferente, de um ponto de vista prático, a adopção de um ou outro ponto de vista filosófico. Seja isto na filosofia, na ciência ou na política. Veja-se, pois, como Lénine considerou relevante estudar um enorme conjunto de obras para intervir polemicamente num debate motivado por uma situação em que o posicionamento político e o posicionamento filosófico dos intervenientes não coincidia em muito casos.</div><div>A partir da exposição da teoria do conhecimento que nesta obra de Lénine é exposta, na qual se inclui uma abordagem ao idealismo na física do seu tempo, eu olhei para os textos de Bohr, um dos fundadores da mecânica quântica, e concluí que neles perpassava um conjunto de interpretações idealistas e agnósticas dos resultados desta disciplina científica, cujos problemas filosóficos se transportam para os dias de hoje.</div><div>De que forma é que este estudo a desenvolveu enquanto comunista e enquanto investigadora de História e Filosofia?</div><div>Não há nada que dispense um comunista de estudar. Um comunista que não estude, que não aprenda infelizmente não está a cumprir o seu papel. Não estou a dizer que isso seja apenas uma responsabilidade individual. É também colectiva.</div><div>Não estou a falar daquela aprendizagem que se obtém na intervenção prática, que é, não haja dúvidas, imprescindível e insubstituível. Estou a falar da aprendizagem da teoria revolucionaria. Isto porque a vanguarda tem de estar munida do conhecimento científico do desenvolvimento da história e da sociedade para se saber situar nela e saber orientar a acção das massas. E isto não é algo que, por si, se obtenha nas tarefas e na intervenção diária. Achar isso é um engano.</div><div>Não estudar significa deixar-mo-nos orientar não por um entendimento científico dos processos, mas sim ficarmos à mercê do chamado senso comum que não é mais do que os valores da ideologia burguesa que paira no ar em tudo o que fazemos. Significa deixar estagnar a teoria revolucionária, em face de um mundo em desenvolvimento.</div><div>O facto de ter sido a partir de uma situação académica que pude ler aquela obra de Lénine teve a grande vantagem de, por um lado, me obrigar ao estudo cuidado e rigoroso das ideias, de me ter proporcionado o tempo e acrescentado outro tipo de motivação e de, por outro lado, de poder tentar contribuir para a divulgação do materialismo dialéctico e das suas potencialidades – pelo menos assim espero. A partir daqui, tenho o objectivo de olhar para as diferentes interpretações da mecânica quântica e tentar perceber em que medida elas correspondem à oposição, mais fundamental, entre materialismo e idealismo.</div><div>Como devemos e podemos ver a queda da RDA/União Soviética, o rumo de muitos partidos comunistas para o euro-comunismo, a fuga das democracias para o capitalismo puro e duro como em Portugal e Espanha? Através da História e da Filosofia como podemos aprender e desenvolver o país e o mundo para o progresso?</div><div>Como se diz, o século XX não foi o da “morte do comunismo”, mas sim o do nascimento do comunismo como forma nova e superior da sociedade.</div><div>E a construção dessa nova forma de sociedade tem os seus revezes. E a derrota da URSS e dos países socialistas foi um grande revés, não só para esses povos, mas para todo o mundo. Significou mais guerra, mais pobreza, menos direitos sociais, políticos, económicos... Resumindo: um retrocesso civilizacional à escala global. Com a existência da URSS, disseminou-se a ideia de que havia a possibilidade de uma transição pacífica do capitalismo para o socialismo e importantes Partidos assimilaram essa ideia programaticamente. Foram, de facto, mais depressa ou mais devagar, abdicando de uma perspectiva revolucionária e transformando-se em ou aliando-se à social-democracia. E isso deixa a classe trabalhadora desarmada.</div><div>Aquilo que podemos aprender a partir da História e da Filosofia é a tal perspectiva revolucionária (teórica e prática) de que falava acima. Mas esta não é a que se ensina, de forma geral, nas escolas.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Resumindo: o socialismo. Com tudo o que isso comporta. Só que despedido de uma perspectiva utopista. Marx, Engels e Lénine deram-nos esse contributo, o que nos coloca mais próximo da sua realização.</div><div>(1) Ditadura militar e a Ditadura do Estado Novo</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>27 de Dezembro 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>26 de Dezembro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Rapper Valete</title><description><![CDATA[Em Mulheres da Minha Vida que canta com Orlando Santos, produzido por Dario & M, aborda a falta de respeito da esposa e da filha pelo pai, que levam o pai recém falido ao suicídio. O que o levou a abordar um tema tão delicado sobre a falta de apoio, de respeito e de compreensão por parte das mulheres deste homem, que o levaram ao suicídio?A ideia para este tema surgiu depois da crise de 2008 e à invasão da Troika em Portugal. Via muitas pessoas que não se divorciavam porque simplesmente não]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/12/03/Entrevista-ao-Rapper-Valete</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/12/03/Entrevista-ao-Rapper-Valete</guid><pubDate>Sat, 03 Dec 2016 14:00:21 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Em Mulheres da Minha Vida que canta com Orlando Santos, produzido por Dario &amp; M, aborda a falta de respeito da esposa e da filha pelo pai, que levam o pai recém falido ao suicídio. O que o levou a abordar um tema tão delicado sobre a falta de apoio, de respeito e de compreensão por parte das mulheres deste homem, que o levaram ao suicídio?</div><div>A ideia para este tema surgiu depois da crise de 2008 e à invasão da Troika em Portugal. Via muitas pessoas que não se divorciavam porque simplesmente não tinham condições para suportarem uma casa sozinhos.</div><div>Disse em entrevista à Rádio AfroLis que gostava de profissionalizar a sua veia produtora e focá-la no Rap e na música negra. De que forma é que para si é importante apoiar a música negra e o Rap através duma produtora?</div><div>Criei recentemente uma editora chamada Periferia. O objectivo é mesmo esse, tentar encontrar talento, principalmente dentro da sonoridade do Soul e do Rap, de forma a, mostrar esse talento ao mundo. Os cantores de Soul, principalmente, precisam muito duma estrutura sólida para poderem lançar as suas carreiras. Há artistas que só cantam, precisam de tudo o resto, letristas, compositores, produtores etc. A ideia é ter uma estrutura que disponibilize isso.</div><div>Nessa entrevista, abordaram uma resposta que deu a outra entrevista sobre o Homem, a luta racial, o machismo e a homofobia e disse que há muitos movimentos de esquerda e marxistas leninistas que são racistas ou homofóbicos... Porque é que acha que ainda hoje existe esta forma de estar e a pouca luta (como referiu) para se combater o racismo e os preconceitos?</div><div>O que quis dizer foi que há muita gente nos movimentos de esquerda que ainda não está curada do racismo, do sexismo e da homofobia. Nas sociedades ocidentais todos nascemos racistas, sexistas e homofóbicos e temos que ter essa noção de que é preciso fazer um trabalho longo e duro para nos curarmos dessas doenças sociais. Muita da luta desses movimentos nesse campo é frágil precisamente porque incluem muita gente que ainda não está curada a fazer esse pseudo-combate.</div><div>Ouvia o Rap norte-americano que idolatrou e que foi uma referência para si. De que forma é que essa referência foi essencial para começar a cantar e como o ajudou a superar os problemas que sentia por ser filho de imigrantes? Como é que se deu o processo de mudança de referências? Até que ponto elas foram importantes e conclusivas para o seu processo de criação como rapper?</div><div>Comecei por ouvir rap americano porque era praticamente o único rap que me chegava mas, culturalmente, o rap americano é muito diferente do português e da minha realidade. O rap americano sempre esteve muito centrado na marginalização da comunidade negra e a minha realidade era mais ampla, mais misturada também. Daí uma identificação mais forte e natural com os grupos de cá.</div><div>Durante o desenrolar da legislatura anterior criticou imenso o percurso do governo de Passos Coelho. Como artista/rapper/produtor amador, considera essencial essa luta por um Governo melhor, que esteja do lado do povo?</div><div>Considero essencial as pessoas perceberem que os governantes não são nossos patrões mas sim nossos empregados. Têm mandatos para representarem as pessoas e para resolverem os nossos problemas. Se como muitas vezes acontece percebemos que as pessoas não estão em primeiro deve haver consequências e o protesto tem que ser viril.</div><div>Em “Fim da Ditadura” aborda a política internacional e a destruição de muitos países por parte dos Estados Unidos através das suas inúmeras guerras, que triplicaram. Para si, é imperioso retratar esta problemática da política dos Estados Unidos e a vida internacional?</div><div>Não, não é nada imperioso. A minha relação com a escrita é muito simples e visceral. Dificilmente não escreverei sobre coisas que sinto, sobre coisas que me incomodam. Obviamente que esse tipo de temas acabam por surgir naturalmente porque sabemos que tudo está interligado. Um drone a voar em Damasco, uma eleição da Front National , uma crise de refugiados, tem tudo a ver connosco e tudo nos afecta.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro MarquesCorrecção: Fátima Simões</div><div>24 de Novembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Actor José Boavida</title><description><![CDATA[Em 1999 participou no documentário “A Hora da Liberdade” de Emídio Rangel, em 2000 “Capitães de Abril” de Maria de Medeiros. O que é que significou para si participar na revisitação sobre a história da Revolução dos Cravos? Foi essencial para si fazer parte de dois trabalhos que mostraram a luta dos capitães e do povo que saiu à rua?JB: Sim e acima de tudo como trabalho de actor foi gratificante pois as duas personagens que representei eram diametralmente opostas. Na hora da Liberdade tive a]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/11/23/Entrevista-ao-Actor-Jos%C3%A9-Boavida</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/11/23/Entrevista-ao-Actor-Jos%C3%A9-Boavida</guid><pubDate>Wed, 23 Nov 2016 16:38:06 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Em 1999 participou no documentário “A Hora da Liberdade” de Emídio Rangel, em 2000 “Capitães de Abril” de Maria de Medeiros. O que é que significou para si participar na revisitação sobre a história da Revolução dos Cravos? Foi essencial para si fazer parte de dois trabalhos que mostraram a luta dos capitães e do povo que saiu à rua?</div><div>JB: Sim e acima de tudo como trabalho de actor foi gratificante pois as duas personagens que representei eram diametralmente opostas. Na hora da Liberdade tive a honra de ser apresentado no fim do documentário ao capitão de Abril que “dei” vida Bicho Beatriz que tomou o Quartel General em Lisboa. Claro que todas as personagens me deram experiência e sabedoria e deixaram-me mais atento e a uma visão mais real do que foi 25 de Abril.</div><div>Em “Liberdade 21” desempenhou o papel dum médico que tinha que fazer um parto em que o bebé tinha dado de novo a volta e precisava de acompanhamento mas no seu turno havia excesso de trabalho e a grávida foi mal analisada e esquecida, o relatório tinha sido aldrabado... Como foi representar e abordar um assunto tão delicado como este? Como lhe permitiu crescer enquanto actor e enquanto pessoa?</div><div>JB- São sempre difíceis estes papéis. Temos que nos despir e ir procurar dentro de nós sentimentos que não são os que mais queremos, mas um actor tem que representar com verdade. Quando acabamos sentimos que o trabalho está cumprido e bem feito no brilho dos olhos do público.</div><div>Participou no documentário “Herança do Silêncio” de José Meireles, uma homenagem às mulheres assassinadas e vítimas de violência doméstica. Participar numa homenagem com esta importância pela luta contra o fim da violência e pela igualdade de géneros é importante para si? O que retirou deste trabalho?</div><div>JB – Trabalhar com o meu amigo José Meireles foi um enorme prazer e esta personagem deu-me a possibilidade de conhecer uma grande actriz que é a Rita Martins que teve de suportar a violência da minha personagem. Mas denunciar estas violências é cada vez mais imperioso.</div><div>Em 2010 entra no filme “A Noite do Fim do Mundo” (RTP), sobre a eminente implementação da República. Conhecer a história do golpe ao ministro do grupo em que a sua personagem estava inserida, e viver os dias e as vidas dessas pessoas, foi importante para si? Tem algum significado ter mostrado um pouco da história recente?</div><div>JB –Estas personagens que contam as histórias e a história de Portugal são aquilo que eu chamo de um mimo para um actor Este director do Diário Notícias, o Alfredo Miranda, foi um grande presente . Espero ter cumprido, porque criei a personagem um pouco com humor e alguma irascibilidade.</div><div>Em 2005 entra no filme “Até Amanhã Camaradas” de Joaquim Leitão e obra de Manuel Tiago/Álvaro Cunhal, tal como participa numa homenagem a Álvaro Cunhal. Tem algum significado especial primeiro fazer parte da história que retracta a vida clandestina dos comunistas e por homenagear um homem que lutou bastante pela Liberdade deste país?</div><div>JB- Adorei trabalhar com o Joaquim Leitão que considero um dos melhores realizadores portugueses Fazer parte da equipa do Até amanhã camaradas fez-me lembrar a minha infância, porque também eu tenho histórias e histórias na minha família de resistência anti-fascista.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>A poesia, a escrita surgem desde a infância se bem que não me considero poeta nem escritor. Como actor que sou gosto de contar histórias boas histórias e o meu sonho… que Portugal nunca esconda o seu sorriso.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: J.M.</div><div>27 de Julho de 2015</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Ivo Miguel Barroso</title><description><![CDATA[Entrevista ao Docente universitário, Jurista que se tem manifestado contra o “Acordo Ortográfico” de 1990, Ivo Miguel Barroso.Uma das suas Causas é pugnar pela reversão do “Acordo Ortográfico” de 1990 (= AO90). Como é que embarcou nesta luta?IMB – Sem prejuízo de ser espectador das notícias, a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo, em Maio-Julho de 2008, passou-me despercebida, por estar muito envolvido num projecto académico.Só em Dezembro de 2011 tive consciência do AO90, uma vez que foi]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/14/Entrevista-ao-Ivo-Miguel-Barroso</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/14/Entrevista-ao-Ivo-Miguel-Barroso</guid><pubDate>Fri, 14 Oct 2016 17:47:45 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Entrevista ao Docente universitário, Jurista que se tem manifestado contra o “Acordo Ortográfico” de 1990, Ivo Miguel Barroso.</div><div>Uma das suas Causas é pugnar pela reversão do “Acordo Ortográfico” de 1990 (= AO90). Como é que embarcou nesta luta?</div><div>IMB – Sem prejuízo de ser espectador das notícias, a ratificação do 2.º Protocolo Modificativo, em Maio-Julho de 2008, passou-me despercebida, por estar muito envolvido num projecto académico.</div><div>Só em Dezembro de 2011 tive consciência do AO90, uma vez que foi imposto pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011, para vigorar na Administração Pública a partir de 1 de Janeiro de 2012.</div><div>Desde logo, fiz uma queixa do Provedor de Justiça, em 20 de Dezembro de 2011 (queixa que, até ao momento, Outubro de 2016 - 5 anos e 10 meses -, não teve resposta).</div><div>Tinha uma conta pessoal no Facebook desde Junho de 2010. A rede social do Facebook, as Páginas e Grupos então criados, com notícias diárias, “em tempo real”, sobre tudo o que dizia respeito ao AO90 – designadamente à decisão de VASCO GRAÇA MOURA ter mandado desaplicar o AO90 ao Centro Cultural de Belém, foram essenciais, para que pudesse ter acesso a todas as informações e para que entrasse no tema do AO90, também do ponto de vista científico (em 2016, designadamente, foi defendida uma Dissertação de Doutoramento, na Faculdade de Letras, que incidia só sobre os artigos de opinião, publicados em 2012 em Portugal, sobre o AO90).</div><div>Foi um tempo muito profícuo em artigos de opinião e nas redes sociais, até ao momento…</div><div>Fiz parte de três Grupos anti-AO90: “Voluntários da ILC contra o Acordo Ortográfico, nas Feiras do Livro”, em Abril de 2012; “Em aCção contra o Acordo Ortográfico”, no último quartel de 2012; e, depois, em 6 de Dezembro de 2014, «Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990», conjuntamente com outras pessoas, designadamente o meu Colega e Amigo, também Jurista, Dr. ARTUR MAGALHÃES MATEUS.</div><div>Há muitos Grupos no Facebook contra o AO90, o que é demonstrativo da impopularidade do AO90. Salientaria também “Professores contra o Acordo Ortográfico”.</div><div>Saliento também várias outras Páginas do Facebook: “Tradutores contra o Acordo Ortográfico”; uma Página com o mesmo nome do Grupo (Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990); a Página “Referendo contra o “Acordo Ortográfico” de 1990”; e “Brasil &amp; Portugal contra o Acordo Ortográfico”.</div><div>O que é que o levou a ser contra o “Acordo Ortográfico” de 1990? Desde que foi imposto pelo 2.º Governo de José Sócrates, quais foram os problemas que este “Acordo” causou e de que forma tem prejudicado a língua e a cultura?</div><div>Ivo Miguel Barroso – Resumidamente, razões jurídicas, razões linguísticas e razões de cidadania.</div><div>Na minha opinião, o Tratado do AO90 é inconstitucional, na sua totalidade, por violação do artigo 43.º, n.º 2 da Constituição: o Estado não pode programar a cultura e a educação segundo quaisquer “directrizes estéticas, políticas, ideológicas” (sic); entendo que é inconstitucional que o Estado – e, muito menos, o Governo-administrador - legisle sobre ortografia; entendo que é um dos limites ao poder do Legislador ordinário, dado que, v. g., incide sobre a autonomia privada.</div><div>Esta Reforma foi implementada contra os estudos prévios realizados. Ora, é recomendável que qualquer reforma empreendida pelo Estado seja respaldada por um forte respaldo científico, precedido de discussão pública, neste domínio da linguagem escrita, de que a ortografia faz parte.</div><div>As razões linguísticas e filológicas contra o AO90 encontram-se explicadas em Pareceres e em trabalhos publicados.</div><div>Saliento, a este respeito, os três livros do Professor ANTÓNIO EMILIANO sobre o assunto (Babel); os de FERNANDO PAULO BAPTISTA (Edições Piaget); o de FRANCISCO MIGUEL VALADA (Textiverso).</div><div>O AO90 tem ainda várias inconstitucionalidades parciais:</div><div>A mais grave é a de o assim auto-intitulado “Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” ter inventado palavras que não existem no Português do Brasil: “conceção” (por “concePção”) e “receção” (por “recePção”) (Base IV, n.º 1, al. c); e “Nota Explicativa” do próprio AO90 (!)).</div><div>Isto contribui para o caos ortográfico entre nós, uma vez que “conceção” passou a ser frequentemente confundida com “concessão” (de créditos, por exemplo); e “receção” com “recessão” (económica, por exemplo); isto até por altas instituições universitárias (como é comprovado pela investigação aturada da Página do Facebook “Tradutores contra o Acordo Ortográfico”, https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/photos/a.212426635525679.35361.199515723483437/884787051622964/?type=3&amp;theater).</div><div>Existem centenas de outras palavras inventadas, como “espetador” (em lugar de “espectador”); “deceção”, em lugar de “decepção”; palavras essas que também não existem em Português do Brasil.</div><div>As múltiplas facultatividades (duplas ou múltiplas grafias) do AO90 são a continuação da Reforma da Academia Brasileira de Letras, emitida em 1943 e aplicada a partir de 1955. São um aspecto muito pernicioso, uma vez que eliminam o “conceito normativo de ortografia” (segundo referem os mais reputados especialistas, como IVO CASTRO / INÊS DUARTE, ANTÓNIO EMILIANO, ISABEL PIRES DE LIMA).</div><div>A supressão das consoantes “mudas” “c” e “p”, se não articuladas, por parte da Reforma brasileira de 1943, veio afastar a ortografia do Português do Brasil da maioria das línguas europeias, em que essas consoantes, não só são grafadas, mas também, amiúde, articuladas. Isto é muito grave, pois é um autêntico assassinato da Reforma de 1911, que mantinha essas consoantes antes das vogais “a”, “e” e “o”, desde que fossem eventualmente proferidas ou se contribuíssem para manter a família de palavras.</div><div>Assim, verifica-se que o AO90 não traz qualquer benefício para a Comunidade luso-brasileira, bem pelo contrário: não há quaisquer estudos científicos, nem de impacto – após a aplicação -, que demonstrem ou comprovem as alegadas vantagens políticas e económicas do AO90.</div><div>Por sinal, o livro “O potencial económico da Língua Portuguesa”, coordenação do Reitor do ISCTE LUÍS RETO — um trabalho de investigação conduzido por uma equipa de investigadores do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE-IUL), a pedido do Instituto Camões —, que o Professor MARCELO REBELO DE SOUSA apresentou em 5-12-2012 (v. https://www.youtube.com/watch?v=KYVuMdqK0is), não menciona, uma única vez, o AO90. Pelo contrário, o livro regista as transacções entre Portugal e, por outro lado, Angola e Moçambique, que não ratificaram o AO90.</div><div>Nomeadamente por estas razões, o AO90 não unifica a ortografia das variantes Portuguesa e Brasileira da nossa Língua (veja-se a rejeição do Projecto do AO de 1986, que preconizava uma unificação forte ao nível ortográfico, inclusivamente ao nível da acentuação); e muito menos unifica (nem, de resto, é seu propósito) outros aspectos da Linguagem escrita, tais como o léxico, a morfologia, a sintaxe, a morfo-sintaxe, a pragmática e a semântica).</div><div>De resto, uma união linguística mais ampla do que a ortográfica não é possível. Mesmo que tal “unificação forte” fosse possível -, não seria benéfica. A pretensa unificação, ao nível de toda a língua, não é exequível, nem, de resto, é o que o que o AO90 se propôs (v. “Nota Explicativa”).</div><div>Fazer com que o AO90 retroceda é uma questão de civilização, de forma a termos um ensino e uma ortografia robustas, sem erros “oficializados”; cientificamente bem construído, com proscrição de facultatividades; e sem a escrita depender da oralidade (critério há muito ultrapassado) e, por isso, mantendo consoantes que, até aqui, eram escritas.</div><div>Com isto, não estou a veicular que a ortografia pré-AO90 fosse perfeita. No dizer de ANTÓNIO EMILIANO, não há ortografias perfeitas.</div><div>Desde as introduções das Reformas ortográficas, o que se perdeu enquanto língua e cultura? O que se tem perdido nesta batalha e o que se pode aprender para não se cometer os mesmos erros?</div><div>IMB – A Reforma de 1911 mudou profundamente a fisionomia da ortografia portuguesa, para o bem e para o mal. Talvez tenha sido a principal herança da I República, posto que está invisível. Aproximou-nos em larga medida do Castelhano (a principal fonte de inspiração e de admiração do Linguista GONÇALVES VIANNA, Relator da Reforma de 1911), mas afastou-nos deliberadamente do Inglês, do Francês, do Italiano, do Romeno (só para citar algumas línguas de cultura mais importantes).</div><div>Em minha opinião, ter-se feito 7 Reformas ortográficas (1911, 1920, 1931, 1940 – Reforma “soft law” -, 1943-1944 – esta não tinha normas ortográficas -, 1945 e 1973) foi um erro.</div><div>Porém, essas Reformas não tinham os erros do AO90.</div><div>Do cômputo geral das Reformas aludidas – que, no essencial, terminaram em 1945, quando o número de escreventes alfabetizados era ainda escasso, comparativamente com os números dos anos 70 e com os actuais -, resultou, em todo o caso, uma ortografia estabilizada, costumeira e padronizada.</div><div>Na minha opinião de cidadão, basta de “mexer” – ainda para mais, arbitrariamente – na nossa variante da ortografia do Português europeu. É tempo de aceitar o que está, independentemente de a ortografia costumeira pré-AO90 não ser perfeita (de resto, não existem ortografias perfeitas), a pensar no bem comum e nas gerações futuras.</div><div>O carácter incongruente do AO90 e os erros que, consequentemente, decorrem da sua “aplicação” têm feito multiplicar as manifestações de rejeição e repúdio pelo AO90.</div><div>Tem-se perdido “ideias claras e distintas” (para citar DESCARTES) quanto à ortografia; e tem-se alastrado um caos ortográfico a todos os níveis.</div><div>Ocorrem novos erros de hipercorrecção – antes inexistentes -, em função do “critério pronúncio-cêntrico” do AO90, em virtude da eliminação indevida de consoantes que se pronunciam, levando a “palavras” aberrantes como “adatação”, “inteletual”, “exeto” (por “excepto”), entre muitos outros exemplos; e, pior do que isso, ocorrem erros em que tenta “compensar-se” a falta das consoantes ditas “mudas” com a colocação indevida de acentos agudos em sílabas não tónicas: “létivo” (https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/photos/a.645077242260614.1073741827.199515723483437/854733977961605/?type=3&amp;theater); “elétricidade”.</div><div>A hifenização do AO90 é caótica (tal como é em Português do Brasil) (embora a hifenização anterior não fosse perfeita).</div><div>A agravar o caos ortográfico, verifica-se amiúde mistura de ortografias pré-e pós-AO90, no mesmo texto; o que, em parte, deriva das facultatividades do AO90, que geram multigrafias pessoais (por ex., pode escrever-se “objectivo” e “aspeto”, sem “c”); palavras que existem como na ortografia brasileira, com ou sem dupla grafia — como “fato” em lugar de “facto”, “contato” em lugar de “contacto”; “seção”, em lugar de “secção”; “Netuno” em lugar de “Neptuno” — , mas que a Base IV, n.º 1, al. c), do AO90, a meu ver – mas mal – permite; “contato”, que em Português do Brasil é uma facultatividade, em paralelo com “contacto”; e, em larga medida, da não assimilação das pseudo-regras do AO90.</div><div>Não é de estranhar que exista, pois, uma esmagadora maioria da população que é “totalmente contra” o AO90 (após consulta a 81.730 pessoas, mais de 94% manifestaram opinião contrária (amostra significativa desde 16 de Setembro de 2011 (dados consultados em 30 de Janeiro de 2016), publicada em https://www.facebook.com/questions/214510845276359/, Página do Facebook “Pela Língua Portuguesa contra o Acordo”).</div><div>Publicou “Inconstitucionalidades orgânica e formal da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011”¹. O que é que o levou a estudar a forma ilegal com que o “Acordo Ortográfico” de 1990 foi levado avante e como foi introduzido indevidamente no sistema educativo? Sente que é cada vez mais imperioso e essencial que se conheça os meandros deste pretenso “Acordo Ortográfico” de 1990, através do seu trabalho?</div><div>IMB – Comecei por estudar, não o Tratado do AO90, mas a “implementação” do AO90 em 2012, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 8/2011 (bem como as edições das Constituições, segundo a ortografia das várias Reformas ortográficas).</div><div>Com efeito, no nosso sistema jurídico, os Tratados não são sindicáveis ou impugnáveis directamente pelos cidadãos afectados. A respectiva Jurisdição cabe ao Tribunal Constitucional. Ora, o acesso, para se lá chegar, é virtualmente impossível, uma vez que não existe o instituto do “recurso de amparo” (ou “acção constitucional de defesa”), como há nos Direitos alemão e espanhol.</div><div>Só existe a excepção de uma norma do AO90 ser desaplicada, em sede de fiscalização concreta (a propósito de um litígio judicial), incidentalmente, num pleito cujo objecto é diverso (art. 204.º da Constituição). Ora, em mais de 4 anos de “implementação” do AO90 em Portugal, só houve um caso em que tal sucedeu: no caso do Juiz RUI TEIXEIRA, que interpôs uma acção judicial para avaliar da pena disciplinar de advertência, que lhe foi aplicada pelo Conselho Superior da Magistratura. Ou seja, apenas um caso em mais de 4 anos, e nem sequer num domínio – o judicial - em que o AO90 fosse obrigatório!</div><div>Isto demonstra a falibilidade do nosso sistema de fiscalização da constitucionalidade, como o Professor JORGE REIS NOVAIS demonstra à saciedade, no livro Direitos fundamentais e Justiça Constitucional (2012).</div><div>Como disse, concluí que a RCM n.º 8/2011 se tratava de um regulamento administrativo independente, eivado de múltiplas inconstitucionalidades.</div><div>Com vista a intentar uma acção judicial, o AO90 não poderia ser impugnado, directamente e a título principal, junto dos tribunais, pelas razões aludidas.</div><div>Porém, o nosso sistema jurídico permite que os cidadãos possam instaurar acções judiciais populares contra regulamentos e normas administrativas regulamentares (art. 268.º, n.º 5, em conjugação com o art. 52.º, n.º 3, al. a), da Constituição), como é o caso da RCM n.º 8/2011.</div><div>Para além dos elementares direito de resistência contra normas inconstitucionais, segundo o art. 21.º da Constituição, e do exercício quotidiano da liberdade de expressão, designadamente nas redes sociais, a estratégia, delineada pelo Grupo do Facebook «Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990» com o objectivo de fazer reverter o AO90 e o facto consumado inconstitucional, desenvolve-se em duas vias:</div><div>1) As vias jurisdicionais de luta contra a “aplicação” do AO90 são realizadas através de acções judiciais junto da Justiça Administrativa.</div><div>Em Maio de 2016, foi intentada uma acção judicial popular, visando impugnar a “aplicação” do AO90 na Administração directa estadual mais próxima, incluindo Ministérios, Direcções-Gerais e escolas públicas.</div><div>2) A via política da Iniciativa de Referendo ao AO90, em curso desde final de Junho de 2015, tendo já obtido 32.300 assinaturas (até Setembro de 2016), em papel, de um total de 60.000; ou seja, mais de metade.</div><div>As folhas de assinaturas estão disponíveis “on line”, directamente em https://referendoao90.wordpress.com/documentos-para-recolha-de-assinaturas/;</div><div>bem como no Grupo do Facebook “Cidadãos contra o “Acordo Ortográfico” de 1990”, que está a dinamizar a recolha de assinaturas: https://www.facebook.com/groups/acordoortograficocidadaoscontraao90/.</div><div>Os Cidadãos podem subscrever a Iniciativa de Referendo, descarregando o folheto; colocando neste o seu nome completo, número de bilhete de identidade ou cartão de cidadão e assinando.</div><div>Após preenchidas e assinadas, as folhas de assinaturas deverão ser digitalizadas e enviadas para o email: referendoao90@gmail.com.</div><div>Em alternativa, as folhas de assinaturas — devidamente impressas, preenchidas e assinadas — poderão ser enviadas por correio, para o Centro de Estudos Clássicos ou para o Centro de Estudos Comparatistas (ambos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), conforme está referido no folheto e no blogue da Iniciativa de Referendo.</div><div>Tem feito trabalho em Direito Constitucional, mais concretamente dos Direitos Fundamentais como casamento entre pessoas do mesmo sexo. O que o motivou a enveredar pelo Direito Constitucional e pelos Direitos Fundamentais? É importante para si ter um papel nesta abertura na lei sobre as questões das associações que pugnam pelos direitos dos homossexuais?</div><div>IMB – O meu interesse pelo casamento remonta a final de 2009, à discussão da Lei n.º 9/2010, que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em Janeiro de 2010. Desde já, friso que nada tenho contra as relações entre pessoas do mesmo sexo. Entendo que elas são lícitas, desde que entre pessoas maiores de idade e praticadas em liberdade. Em Direito Privado, “o que não é proibido entende-se permitido”. E não existe um bem jurídico que justifique a criminalização da homossexualidade. Na Medicina, a homossexualidade não é catalogada como doença desde a década de setenta do século XX.</div><div>Porém, em termos jurídicos e sociológicos, historicamente o casamento foi sempre, desde há 80.000 anos, heterossexual, ou seja, entre “homem e mulher”, tal como decorre do artigo 16.º, n.º 1, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948 (cujas normas adquiriram valor consuetudinário, segundo o Professor EDUARDO CORREIA BAPTISTA, Especialista em Direito Internacional Público). Trata-se de um direito de titularidade entrecruzada (o elemento sistemático de interpretação, bem como o elemento genético, constituído pelos trabalhos preparatórios, depõem neste sentido). Daí que, até derrogação, desaplicação e subsequente formação de norma costumeira em contrário, existe uma norma de “Ius Cogens” (Direito Internacional imperativo de base costumeira) que postula que o casamento é entre homem e mulher. Os movimentos em favor dos direitos dos homossexuais datam de 1989. Até 2016, passaram menos de três décadas.</div><div>Tenho o mesmo entendimento sobre o “casamento” entre pessoas de mesmo sexo em relação à Constituição-norma Portuguesa de 1976. Com efeito, o artigo 36.º, n.º 1, refere que “Todos têm o direito de contrair casamento (…)”.</div><div>Ora, existe uma regra hermenêutica/interpretativa da Constituição: o artigo 16.º, n.º 2. Segundo esta, os preceitos constitucionais relativos a direitos fundamentais (como é o caso) devem ser interpretados de harmonia com a Declaração Universal de 1948. Ora, se assim é, o inciso “Todos” (constante do art. 36.º, n.º 1, da Constituição) deve ser interpretado à luz do aludido artigo 16.º, n.º 1, da Declaração Universal: assim, deve entender-se que o casamento é celebrado entre “homem e mulher”.</div><div>Sem prejuízo deste entendimento, de considerar que o casamento, como instituição milenar, é sempre heterossexual, entendo que podem existir lacunas ocultas no regime associado ao casamento, que não deve ser aplicável, pelo menos “in toto”, a pessoas do mesmo sexo (embora mantenha que o conceito de casamento é heterossexual); por exemplo, ao nível do regime sucessório ou outros.</div><div>Neste sentido, propugno a criação de um instituto alternativo – tal como existe no Direito alemão -, a união civil registada, de que tanto pessoas do mesmo sexo, como pessoas de sexo diferente, podem usufruir para conformar as suas relações e para que o Direito tutele e colmate as referidas “lacunas ocultas”.</div><div>A ausência de positivação das liberdades de reunião e de associação no Direito Português, entre 1820 e 1870 ². O que se pode aprender com este trabalho e com a realidade destas cinco décadas do século XIX?</div><div>IMB – Trata-se de um excerto de um estudo mais lato sobre a História Constitucional das liberdades de reunião e de associação.</div><div>Não obstante serem hoje direitos associados aos “direitos de primeira geração” – os direitos negativos, típicos do constitucionalismo liberal -, eles não foram reconhecidos no Direito positivo português durante muito tempo – exceptuados os cerca de cerca de 4 anos de vigência da Constituição de 1838. Só em 1870, durante um Governo ditatorial chefiado pelo DUQUE DE SALDANHA, e seguindo a consagração em Espanha, foram consagrados em dois decretos ditatoriais com força de lei, por influência de um proeminente Ministro desse Govêrno, Doutor DIAS FERREIRA (antepassado da Dra. MANUELA FERREIRA LEITE).</div><div>Porém, verifica-se que havia um desfasamento entre a teoria e a prática, uma vez que há estudos aprofundados sobre os “clubs” durante o vintismo, bem como durante a época Setembrista, a partir de 1836; bem como mais tarde.</div><div>A liberdade de reunião é congénita ao homem. O respectivo conceito abrange encontros fortuitos, concertos, espectáculos, etc., sem prejuízo de nem todas as reuniões em lugares públicos ou abertos ao público estarem sujeitas ao regime previsto no Decreto-Lei n.º 406/74, de 29 de Agosto (diploma ainda hoje em vigor, com pequenas alterações).</div><div>Este estudo foi um trabalho em memória do Professor ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS, de quem fui discípulo, como Assistente-estagiário, na disciplina de Direito Comparado, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, entre 2002 e 2003.</div><div>Infelizmente para mim e para todos os seus amigos e conhecidos, o Professor ANTÓNIO MARQUES DOS SANTOS viria a falecer em 2003, deixando uma grande saudade, pois era uma pessoa muito generosa, afável, amiga, e que recolhia simpatia geral. A sua morte prematura causou-me uma profunda mágoa. Deixou-me muitas saudades, pelo Amigo, pela Pessoa e pelo Universitário que é.</div><div>A natureza do sistema de governo na Constituição de 1911³ grande parte do seu trabalho é sobre a história da organização do poder político. É para si a melhor forma de se contribuir para um futuro melhor e uma aprendizagem mais satisfatória?</div><div>IMB – Sim. O estudo, publicado numa Obra colectiva da Assembleia da República em 2011 (organizada pelos Professores JORGE MIRANDA / ALEXANDRE SOUSA PINHEIRO / PEDRO LOMBA, nas Comemorações do Centenário da Constituição de 1911), procura destrinçar entre duas visões sobre o sistema de governo (isto é, as relações entre os órgãos que exercem a função politica:</div><div>i) A visão que parte do texto da Constituição de 1911. Aqui, existe a consagração de um Executivo monista, no essencial: o Executivo é constituído pelo Presidente e pelos Ministros, por influência brasileira e, indirectamente, norte-americana.</div><div>Só num artigo 53.º, proposto tardiamente nos trabalhos preparatórios e defendido por SIDÓNIO PAES, foi consagrada – a meu ver, contraditoriamente com os artigos precedentes, a figura do “Presidente do Ministério” (equivalente à figura do Primeiro-Ministro). Por outro lado, inexistiam mecanismos de responsabilidade política do Executivo perante o Congresso (o nome dado ao Parlamento, então, por influência da Constituição brasileira de 1891). Portanto, com o devido respeito, não acompanho a visão da generalidade dos autores, que considera que o sistema de governo teria sido parlamentar de assembleia (ainda que porventura atípico). Não é isso que resulta da Constituição-norma. Tratava-se de um sistema de governo atípico (um pouco como o resultante da Constituição de 1822).</div><div>ii) Na prática institucional (ou, Constituição “não oficial”, se se quiser utilizar a expressão do Professor PAULO OTERO), o sistema deslizou para uma omnipotência do Congresso, que fazia e desfazia os Governos, aproximando-se algo do sistema parlamentar de assembleia, que vigorou, na prática institucional, entre 1875 e 1940, em França (que, curiosamente, também o não consagrava nas Leis Constitucionais de 1875). No entanto, o sistema de governo parece estar a meio caminho entre o sistema parlamentar de assembleia e o sistema de governo convencional (que vigorou, sem Constituição, entre 1792 e 1795, em França; conforme descrevo num artigo publicado na Revista “O Direito”, de 2011, III). Em suma, trata-se também de um sistema de governo atípico.</div><div>Tem igualmente outros trabalhos sobre os direitos e liberdades no Estado Novo e na actualidade. O que o fascina e motiva trabalhar estes temas e o que é que tem aprendido?</div><div>IMB – A História em geral e a História Constitucional, em particular, são apaixonantes. É de facto fascinante estudar História Constitucional, portuguesa ou outra, designadamente a História francesa, que muito influenciou muitas experiências de outros Estados e as teorias jurídico-políticas.</div><div>Estudar Direitos Fundamentais na actualidade, em termos dogmáticos, à luz da Constituição Portuguesa de 1976, é também uma paixão, ainda que não inteiramente desenvolvida.</div><div>Já leccionei a disciplina, como colaborador, por duas vezes, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (2003 e 2014). Há aspectos interessantíssimos, que pude estudar aquando da Tese de Mestrado e posteriormente.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>IMB – Tenho uma Página no Facebook, para além do perfil, intitulada “Ivo Miguel Barroso. Jurista. Cidadão”, em que publico os assuntos que acho mais relevantes do meu percurso pessoal.</div><div>Tenho também no Facebook uma Página intitulada “Direito Constitucional – Portugal”.</div><div>Que tenhamos um País mais livre, sem prejuízo de ser responsável (não há liberdade sem responsabilidade). Que tenhamos cidadãos mais cientes e responsáveis.</div><div>Que tenhamos uma Ciência Jurídica mais evoluída, abandonando o sistema de o Curso de licenciatura Direito estar confinado a 4 anos, devido à implementação do “Processo de Bolonha”.</div><div>As desvantagens superam largamente as poucas vantagens; sobretudo em Cursos como Direito, muito ligados à realidade cultural de um País, e que não permitem de modo nenhum saídas profissionais fáceis noutros Estados.</div><div>Tal que tem gravíssimos prejuízos para a qualidade de ensino; a prazo, terá consequências muito nefastas, em termos de desenvolvimento científico. Portugal deve estar na linha da frente da Ciência, designadamente ao nível do Direito, ao invés de se fazer um nivelamento por baixo.</div><div>É essencial termos uma cultura de exigência e de qualidade. Infelizmente, hoje não existe (quem, como eu, experimentou leccionar nos dois sistemas e compara, sabe que isso corresponde à verdade), e depaupera o sistema de “avaliação contínua”, que existe em várias Faculdades, como na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.</div><div>Os alunos de Direito chegam ao final do Curso e sabem cerca de um terço do que sabiam até 2007, quando o Curso tinha 5 anos. Não estou com isto a dizer que a responsabilidade seja deles.</div><div>Na maioria das cadeiras do Curso de Direito, designadamente no 1.º ano, os conteúdos das aulas práticas foram reduzidas ao básico dos básicos. Com o sistema de Bolonha, raramente pude aprofundar as matérias.</div><div>O problema é que não há “qualidade de ensino”. Existe uma involução no sentido contrário à “elevação do nível educativo, cultural e científico do país” e à existência de “quadros qualificados (para citar o art. 76.º, n.º 2, da Constituição), com um Curso apenas com 4 anos, com 10 cadeiras semestrais por ano, com cadeiras optativas; muito poucas aulas práticas; com o sistema de avaliação em vigor, das &quot;frequências&quot;, que, na prática, são exames.</div><div>E esta nova geração tem muita mais matéria para aprender derivado à evolução do Direito, como é o caso do direito constitucional, que para além da sua evolução terá que respeitar o direito internacional e o Direito da União Europeia, etc..</div><div>O que menciono para o Curso de Direito (sem prejuízo de dever haver uma aprendizagem contínua ao longo da vida) é perfeitamente transponível para outros Cursos.</div><div>Como é que é possível haver uma Licenciatura em Filosofia em 3 anos, por exemplo?</div><div>O &quot;Mestrado de Bolonha&quot; onera os alunos; tem um grau de exigência muito mais baixo do que um &quot;Mestrado científico, “pré-Bolonha”, que continua a existir.</div><div>Que o bom senso impere e que o retrocesso do AO90 seja uma realidade, pelas razões aludidas.</div><div>Que tenhamos uma Democracia participativa semi-directa, com Iniciativas Legislativas de Cidadãos e Iniciativas de Referendo a poderem ser subscritas informaticamente (fui proponente de uma Petição nesse sentido, junto da AR, tendo obtido um resultado em parte satisfatório).</div><div>Que tenhamos boas leis, em particular nos domínios dos Direitos Constitucional, Administrativo, Processual Penal, bem como no Direito Privado.</div><div>Que possamos vir, um dia, a ter um “Estado de direitos humanos” (para citar o pensamento do Professor PAULO OTERO). Poucos séculos antes, KANT teorizou uma Organização universal que garantisse a “Paz Perpétua”; e esse sonho viria a ser concretizado com a Organização das Nações Unidas, no século XX, no segundo pós-guerra.</div><div>Que tenhamos uma União Europeia mais justa.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Mário Martins</div><div>13 de Outubro de 2016</div><div>¹ que mandou aplicar o ‘Acordo Ortográfico da «Língua Portuguesa»’ à Administração Pública e a todas as publicações no “Diário da República”, a partir de 1 de Janeiro de 2012, bem como ao sistema educativo (público, particular e cooperativo), a partir de Setembro de 2011.</div><div>² in Estudos em Memória do Professor Doutor António Marques dos Santos, volume II, coordenação de JORGE MIRANDA / LUÍS DE LIMA PINHEIRO / DÁRIO MOURA VICENTE, Almedina, Coimbra, 2005, pgs. 173-202;</div><div>³ in Assembleia Constituinte e a Constituição de 1911, Assembleia da República, Centenário da República, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, coordenação de JORGE MIRANDA / ALEXANDRE PINHEIRO / PEDRO LOMBA, Lisboa, 2011, pgs. 337-393;</div><div>Inconstitucionalidades e ilegalidades ‘sui generis’ do conversor ‘Lince’ e do ‘Vocabulário Ortográfico do Português’, Verbo Jurídico,</div><div>in O Direito, 2013, I / II, pgs. 93-179; continuação in O Direito, 2013, III, pgs. 439-521.</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Actor Miguel Hurst</title><description><![CDATA[Como foi participar no filme e série “Njinga, Rainha de Angola”, acerca de uma das mulheres mais importantes deste país?A participação no filme foi um processo de construção muito interessante e complexo. Falo não só da construção do meu personagem, Njali (conselheiro e amigo de infância da Rainha), mas de todo um processo de estudo histórico do enredo, que tive o prazer de assistir de perto.O meu personagem foi mencionado numa obra holandesa do século XVII. Foi difícil arranjar referências]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/08/Entrevista-ao-Actor-Miguel-Hurst</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/08/Entrevista-ao-Actor-Miguel-Hurst</guid><pubDate>Sat, 08 Oct 2016 11:42:26 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Como foi participar no filme e série “Njinga, Rainha de Angola”, acerca de uma das mulheres mais importantes deste país?</div><div>A participação no filme foi um processo de construção muito interessante e complexo. Falo não só da construção do meu personagem, Njali (conselheiro e amigo de infância da Rainha), mas de todo um processo de estudo histórico do enredo, que tive o prazer de assistir de perto.</div><div>O meu personagem foi mencionado numa obra holandesa do século XVII. Foi difícil arranjar referências que-me pudessem ajudar a construir o mesmo de um ponto de vista mais psicológico, pois pouco havia escrito sobre ele. Esta foi a primeira dificuldade.</div><div>Ultrapassada, através de recorrência a outras ferramentas, senti que tinha algo concreto para animar o Njali.</div><div>Houve uma parte de treinos físicos e de treino de armas como a Zagaia (arco e flecha), lança e espada que completaram este processo de construção.</div><div>Neste sentido fui, e tenho a impressão que os meus colegas também, muito bem preparado para enfrentar a palavra “Acção”.</div><div>Foi enriquecedor estar envolvido no ambiente do parque da Kissama, onde estivemos semanas a fio, no meio de macacos, elefantes, hipopótamos, crocodilos, rio, sanguessugas, mosquitos etc... etc... etc...</div><div>Foi sentir o ambiente das aldeias, que outrora devia ser muito parecido. Portanto estivemos a filmar em condições, únicas na minha carreira, ideais par dar veracidade à estória.</div><div>A importância de participar nesta produção que, do ponto de vista histórico, é um dos pontos altos da História de Angola, foi para mim um dos pontos altos da minha carreira. Assim, claro que foi preenchedor e enriquecedor. Gostei do personagem e senti-me honrado de poder participar nesta aventura. A qualidade técnica e de representação dos colegas, complementaram esta minha satisfação</div><div>Disse em entrevista ao Novo Jornal “Estamos a criar uma classe de artistas incultos”. Como se pode mudar este paradigma? O que é preciso mudar para que a cultura chegue a todas as profissões e se consiga realmente aprender com ela?</div><div>Sim, afirmei-o, pois na altura o ensino artístico ainda não era uma realidade concreta no nosso país. Hoje em dia temos duas escolas (média e superior) que, nos seus passos iniciais, estão a tentar colmatar esta lacuna. O ensino, a informação, as políticas direccionadas e sustentadas, são a solução para resolver este paradigma.</div><div>Não basta ter talento e uma história cultural muito rica. O investimento nestes valores através de políticas apropriadas, essas da responsabilidade do estado e dos órgãos de tutela, que se devem responsabilizar pela implementação do ensino (que deve começar no sector primário), dos apoios (que devem ser constantes), da divulgação de criações nacionais (a nível nacional e internacional), da preservação e manutenção da nossa memória colectiva (que tem de ser prioritária), são a chave para termos sucesso no mundo artístico-cultural e podermos falar numa “Imagem de arte e cultura angolana”, numa cultura visual angolana.</div><div>Entrou na série “Riscos”. Como foi participar numa série que mudou a ficção nacional e que marcou a juventude, ao ponto de ainda hoje muita gente se recordar por ter sido uma série muito importante?</div><div>Bem... Sem dúvida que esta série marcou toda uma geração, tanto em Portugal (de onde é oriunda), como em Angola (onde foi vista diversas vezes).</div><div>A minha participação, soube-me muito bem. Foi a primeira vez em que-me foi dado a liberdade de poder representar como eu sentia o personagem. Com isto eu quero dizer que me foi permitido um campo de acção muito vasto. Dei-me muito bem com os realizadores e estes apostaram na minha criatividade. Foi um dos passos mais importantes na construção, que continua, de mim como actor.</div><div>Este ano entrou no filme “A Ilha dos Cães”, uma ilha com um nome do qual não se conhece o significado, que tem uma fortaleza que foi a prisão dos inimigos e que passadas algumas décadas está a servir para a construção de uma estância turística. (1) Para si representar neste filme onde se fala sobre a prisão, sobre a vida dos pescadores, sobre o capitalismo a sobrepor-se às gentes e a fazer esquecer a história dramática e penosa dos pescadores e presos é fundamental? Que significado tem para si entrar nestes filmes que abordam temas tão importantes?</div><div>Claro está que, do ponto de vista sócio-político, antropológico, ético, humanista, ambientalista. etc... etc... etc... É sempre importante participar neste tipo de “statements”.</div><div>Mas não nos podemos esquecer que sou actor. Fui chamado a interpretar um personagem, ao qual tive que dar vida, veracidade... O qual tive que sentir, para poder ser possível, estas questões postas na sua pergunta, fazerem sentido.</div><div>Assim sendo; foi dos personagens mais fortes que fiz até hoje. Pedro Mbala foi um dos maiores desafios que enfrentei até agora. Penso que aprendi muito com o Jorge António (realizador) com o Toni (dir. fotografia), com a minha super colega Ciomara Morais, com o José Eduardo óptimo actor, enfim... Aprendi imenso sobre a arte da representação. Fiquei mais humano!!!!!!</div><div>Deu a cara e a voz ao filme da Diana Andringa “Operação Angola: Fugir para Lutar”, sobre a fuga clandestina de 60 estudantes das ex-colónias portuguesas e de Portugal. Para além de querer conhecer melhor a história dos seus pais, o que mais o motivou e o que aprendeu com as histórias que ouviu, e com o processo de investigação para poder contar este acontecimento tão fracturante para esses estudantes, para os seus filhos e para outras gerações angolanas?</div><div>Cresci num meio de ideais revolucionários únicos, quando abordados do ponto de vista da história da luta de independência dos países africanos de expressão portuguesa.</div><div>A história já a conhecia, pois os meus pais tiveram uma participação activa nela. Foi por causa dela, que eu nasci na Alemanha.</div><div>Há razões, que na resposta anterior mencionei, que para mim foram de vital importância:</div><div>Não podemos nem devemos deixar lacunas na nossa História. Temos obrigações, como artistas, de deixarmos testemunhos que possam servir de referência às gerações futuras.</div><div>Como crescer sem as mesmas? Como construir sociedades com uma identidade particular, sem exemplos de tenacidade de vontade de afirmação absoluta? Não se pode!!!!!</div><div>Portanto, o que me motivou em primeira instância, foi a vontade “egoísta” de fazer uma homenagem aos meus pais. O que me empurrou para esta aventura, obrigado Diana, foi a necessidade intrínseca do meu ser, de contar a nossa História e deixar esta documentação a alimentar a nossa memória colectiva!!!</div><div>Foi director do Instituto de Cinema em Angola, trabalhou também no Elinga Teatro com António Ole e foi director do departamento do elenco da TPA. De que forma é que estes trabalhos foram enriquecedores para si, o que aprendeu e como é que estes trabalhos e os acima referidos foram determinantes para a sua formação enquanto pessoa e enquanto actor?</div><div>Trabalhei com o António Ole (“meu mestre” e nessa altura cenógrafo e designer) num projecto que, como Director e co-fundador do Grupo de Teatro Pau Preto, produzi e encenei. A co-produção com o Elinga Teatro foi, nesse ano, a primeira. Nunca trabalhei para o Elinga, só em regime de colaboração e com muito prazer.</div><div>Foi a minha primeira encenação em território angolano. O que me introduziu profundamente no mundo “da tábua” nacional.</div><div>A experiência no IACAM (6 anos) e na TPA (4 anos) ajudaram-me a conhecer melhor o meu país, ajudaram-me a entender melhor o interior e a complexidade de estruturas estatais angolanas. Tive a oportunidade de contribuir tanto no campo legislativo (Lei de cinema) e criativo (FICLuanda) como no lúdico (lancei muitos actores na TV) deste país.</div><div>Todos os trabalhos em que participei de corpo e alma, marcaram o meu desenvolvimento como pessoa e como actor óbviamente.</div><div>Será que como pessoa fiquei mais satisfeito? Mais amargo? Mais adulto? Mais reflexivo? Mais sozinho?... Quem sabe, acho que foi de tudo um pouco. Tenho uma certeza: Fiquei mais EU!!</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal e para Angola?</div><div>Este tipo de pergunta são sempre um pesadelo de responder...</div><div>Paz, amor, prosperidade, liberdade, coerência. Deixem-nos ser como somos e aproveitem o bom que podemos dar ao país. Não desperdicem. Não somos eternos...</div><div>Luanda, 30 de Setembro, 2016</div><div>(1) http://filmpt.com/a-ilha-dos-caes/</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Jú Matias</div><div>30 de Setembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à Rapper Capicua</title><description><![CDATA[Diz que o seu Maria Capaz é para satirizar o facto de as mulheres que são rappers serem consideradas como Marias Rapazes. Desde que começou a cantar e desde que lançou este álbum Maria Capaz, tem sentido alguma mudança na visão sobre as rappers, vendo-as mais como capazes do que como rapazes? O que é que é preciso para que se consiga quebrar esta visão machista?Acho que tudo o que está fora da norma provoca estranhamento e isso é normal. E acredito que, à medida em que começa a haver mais]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/07/Entrevista-%C3%A0-Rapper-Capicua</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/10/07/Entrevista-%C3%A0-Rapper-Capicua</guid><pubDate>Fri, 07 Oct 2016 18:57:26 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Diz que o seu Maria Capaz é para satirizar o facto de as mulheres que são rappers serem consideradas como Marias Rapazes. Desde que começou a cantar e desde que lançou este álbum Maria Capaz, tem sentido alguma mudança na visão sobre as rappers, vendo-as mais como capazes do que como rapazes? O que é que é preciso para que se consiga quebrar esta visão machista?</div><div>Acho que tudo o que está fora da norma provoca estranhamento e isso é normal. E acredito que, à medida em que começa a haver mais visibilidade e exemplos de mulheres no Rap, o exotismo esmorece. A tendência será a de começar a haver mais miúdas que começam a fazer música e para quem nem se põe essa questão... Até porque o género não é critério válido para catalogar e avaliar a música de ninguém e haverá certamente uma evolução progressiva nesta matéria...</div><div>Já tem 11 anos de percurso como cantora rapper militante no underground. Em que é que esse percurso contribuiu para o sucesso destes álbuns como Capicua?</div><div>Se não fosse esse percurso no circuito Hip Hop, não teria as ferramentas que tenho hoje (quer técnicas, quer humanas) para fazer o meu trabalho. Aprendi muito com o Hip Hop, a cultivar o espírito DIY, a desenvolver a auto-superação, a praticar a competição saudável entre pares, entre muitas outras coisas que são importantes para quem quer desenvolver a sua capacidade de trabalho e o seu espírito criativo. Para além disso, foi o Hip Hop que me fez apostar na minha vocação para a escrita e, anos mais tarde, num percurso profissional ligado à música.</div><div>Que bagagem é que lhe deu a participação em Ep.s, ter feito mixtape sozinha e ter colaborado com produtores e rappers?</div><div>Deu-me a experiência e a segurança necessária para me aventurar para um primeiro disco “a sério”!</div><div>O seu álbum Sereia Louca fala muito sobre as mulheres, sobre as bonitinhas e sobre a realidade que as mulheres vivem. Qual é a sua motivação para protestar através das letras e nas entrevistas sobre a vida da mulher e da sociedade em geral?</div><div>A minha música espelha as minhas preocupações, causas e bandeiras. Como mulher e defensora dos direitos humanos, o feminismo é, obviamente, uma delas. E como tal, tem grande protagonismo nas minhas canções. Sou daquelas românticas que ainda acreditam que a música é uma ferramenta para a mudança do mundo.</div><div>Teve a ideia para o nome do projecto da Marta Bateira – Beatriz Gosta e contribuiu para o formato do projecto. Como vê o sucesso deste trabalho? Como se sente por ter contribuído de alguma forma para a sua construção?</div><div>Muito orgulhosa. Fiz e faço parte da equipa que está por trás do canal Youtube e vejo com muito entusiasmo o seu desdobramento em outros formatos e meios. Fico muito feliz porque sempre acreditei no talento da Marta e gosto muito de ver o seu trabalho em TV e rádio. Ela merece tudo isso e espero que possa vir a fazer muitas outras coisas como Beatriz Gosta!</div><div>Começou aos 15 anos a fazer graffitis. O que representou para si fazer arte de rua e poder intervir através dessa arte?</div><div>Foi uma fase muito enriquecedora. Não só porque é sempre bom desenvolver um trabalho criativo, mas porque através do Grafitti estreitei muito a minha relação com o espaço da cidade. Aprendi a mover-me com muita liberdade na cidade, durante a adolescência e a sentir-me em casa.</div><div>Hoje a sua intervenção/protesto é através das letras que escreve. Como vê a importância de intervir em várias frentes e como vê o seu processo de aprendizagem quer na luta social, quer na música ao longo destes anos?</div><div>Acho que a música me deu a confirmação de que as minhas palavras têm um impacto e que posso exercer a minha cidadania através delas. Além disso, tem aberto outras portas, para que possa estender a minha acção e influência, como por exemplo nas conferências e debates para que me convidam, nas crónicas na revista Visão, em projectos sociais em que estou envolvida, como o OUPA (integrado no programa “Cultura em Expansão” da CMP), etc.</div><div>Cresceu a ouvir Zeca Afonso, José Mário Branco e Sérgio Godinho. Hoje partilha o palco com Gisela João e M7. Qual a influência que todos estes artistas tiveram / têm em si? O que é que adquiriu através dos seus trabalhos que lhe permitiu evoluir?</div><div>A música que os meus pais ouviam e que marcou a minha infância levou-me a associar palavra e música como indissociáveis. E palavra não apenas enquanto objecto estético, mas enquanto veículo de discurso, enquanto forma de posicionamento. Acho que foi por reconhecer o mesmo poder no Rap, anos mais tarde, que me envolvi com a cultura Hip Hop!</div><div>Já tocou com intérpretes de diversos estilos, inclusive de outro tipo de rap. Em que é que essa partilha de vivências, experiências e saberes culturais, sociais e musicais contribuíram para o seu crescimento enquanto pessoa e enquanto artista?</div><div>É sempre bom fazer música com outras pessoas, porque aprendemos sempre muito e experimentamo-nos na aproximação a outras linguagens. É muito inspirador!</div><div>Refere que as mulheres têm muita dificuldade em assumir que gostam do que fazem, que falta uma socialização das mulheres para conquistar o espaço público, que há falta de noção para a falta de direitos e para a repressão das mulheres por se viver numa sociedade patriarcal. Como se pode consciencializar as mulheres para lutarem contra a violência, para lutarem para conquistar o seu espaço, o seu trabalho?</div><div>Eu não disse que as mulheres têm dificuldade em assumir que gostam do que fazem, eu digo é que as mulheres não são estimuladas a fazer o que gostam! Há uma pressão social para que priorizemos os relacionamentos, a família, o cuidado com o corpo e outras coisas que nos desviam do desenvolvimento dos nossos talentos e projectos pessoais. E acho que, para combater esta e outras formas de condicionamento, temos de desconstruir as bases da nossa cultura patriarcal e começar a falar sobre isto, a fazer diferente e a estimular-nos a nós próprias, umas às outras e aos nossos filhos, a viver de uma forma mais livre!</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>Que consigamos ultrapassar estes anos difíceis dando prioridade às pessoas e não aos números. Que ponhamos o interesse comum, acima do interesse de alguns e que tenhamos em conta que é preciso pensar o país e a Europa segundo um novo paradigma.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Fátima Simões</div><div>10 de Outubro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>07 de Outubro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Animador e encenador João Augusto</title><description><![CDATA[Que importância atribuis à aprendizagem, à formação e ao teatro/animação? São tudo coisas diferentes, todas elas importantes, mas cada uma à sua maneira! Ora a aprendizagem é um processo que acompanha toda a vida. Um cérebro que se recusa a aprender é um cérebro que caminha para o definhamento, pois as nossas células cinzentas foram feitas para não parar de trabalhar. A formação, por sua vez é também um processo de aprendizagem, mas que serve objectivos bem mais concretos, ou como a própria]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/09/22/Entrevista-ao-Animador-e-encenador-Jo%C3%A3o-Augusto</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/09/22/Entrevista-ao-Animador-e-encenador-Jo%C3%A3o-Augusto</guid><pubDate>Thu, 22 Sep 2016 00:33:46 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Que importância atribuis à aprendizagem, à formação e ao teatro/animação?</div><div>São tudo coisas diferentes, todas elas importantes, mas cada uma à sua maneira! Ora a aprendizagem é um processo que acompanha toda a vida. Um cérebro que se recusa a aprender é um cérebro que caminha para o definhamento, pois as nossas células cinzentas foram feitas para não parar de trabalhar. A formação, por sua vez é também um processo de aprendizagem, mas que serve objectivos bem mais concretos, ou como a própria palavra indica, dá-nos forma. Uma outra forma, principalmente de “pensar” mas também de “fazer”. Importantíssimo na “Formação” é também o papel do formador, um técnico “in”formado em dar forma aqueles que se permitem a tal. Falando do Teatro, da importância que lhe atribuo, e tentando explicar-me de forma simples. O Teatro é importante em todos os níveis, porque simula e educa a Vida. Desde todo o trabalho de equipa que tem de existir para o Teatro acontecer, até aos momentos em que se prepara o Teatro, até ao momento em que o Teatro acontece à vista dos outros sem rede nem possibilidade de pausar, rebobinar ou avançar o Mundo, o Teatro é a Vida em todo o seu esplendor. A animação já por si é mais que uma curiosidade, área de estudo e um trabalho para o qual (modéstia à parte) tenho bastantes competências. A animação é também, no seu sentido mais alargado, a magia de transformar uma ideia em realidade, de dar vida a pensamentos e possibilidades, de dar ânimo às ideias que tenho ou que outros têm. Aplicar as mais variadas técnicas das mais variadas áreas para: (como há uns anos dizia a uma grande amiga minha) fazer acontecer.</div><div>Tens investido bastante na tua formação e tens procurado fazer coisas novas como produtor de eventos, foste consultor para um restaurante, és professor de música e de inglês. Sentes que é essencial apostares em coisas novas e ires mais além da tua formação inicial?</div><div>Ter tido formação e aprendizagens nas mais variadas técnicas das mais variadas áreas permite-me acolher e trabalhar nos mais variados projectos. Por vezes porque é por aí que vou ter rendimento para pagar a renda da casa, outras porque se potencia a possibilidade de trabalho e não sou de dizer que não a um desafio novo.</div><div>Como correu a experiência de seres consultor para um restaurante de Artes, o Tuá Tuá – CozinhArtes?</div><div>Uma delícia. Correu uma delícia e ainda hoje lamento que a sobrevivência da maioria dos projectos em Leiria esteja mais dependente das pessoas que conhecemos e das influências de que daí retiramos, do que do mérito dos espaços, é um amargo de boca. Mas o espaço e a proposta que este tinha foi fresco, inovador (por vezes até visionário) e marca uma época do centro histórico de Leiria (como tantos outros espaços o fazem e o vão fazer). Terá pecado por ingenuidades mas valia-se do esforço e dedicação dos que por lá passaram e principalmente dos que o geriram.</div><div>Do teu estágio no Académico de Leiria o que mais gostaste foi do João Coelhão? O que aprendeste com o estágio e com a formação que deste para o Curso de Animadores Juvenis – Plaforma, FAJDL, Centro de Emprego?</div><div>O meu estágio no Académico de Leiria foi um estágio profissional, apesar de já ter alguma experiência na profissão e de já ter tido emprego como Coordenador do Espaço de Juventude de S. João da Madeira- O Sítio. Foi uma experiência da qual ainda hoje me valho, que me permitiu acima de tudo lidar com a parte menos “elitista” da animação, lidar com equipas de animadores pouco, mal ou não formados (e muitas vezes deslocalizados de competências) e ao mesmo tempo como era recém-chegado a Leiria, permitiu-me rapidamente entrar em contacto com a realidade de Leiria e arredores. Mais uma vez foi uma equipa de gestão com quem tive o privilégio de trabalhar que era muito esforçada e ia bem acima das suas competências naturais trabalhando no duro para colmatar essas dificuldades. Tive a sorte de ser teu formador no Curso de Animadores Juvenis – Plaforma, FAJDL, Centro de Emprego e digamos que aprendi que com o incentivo e paixão certos, conseguimos contribuir para a aprendizagem e até para a formação das pessoas mais improváveis.</div><div>Estiveste envolvido no Projecto do Novo Mercadinho. Como foi a construção deste projecto? Conseguiram mobilizar o povo e mudar as mentalidades, fazendo-as acreditar que há alternativas e que as mudanças são possíveis?</div><div>Fui convidado a envolver-me com o Novo Mercadinho de Leiria e na altura foi mais um envolvimento com amigos que tinham uma ideia e que a queriam pôr em prática (coisa que já confessei que é meio caminho andado para eu querer envolver-me). Do Novo Mercadinho não serei a pessoa indicada a falar, mas do grupo de pessoas que envolveu, suas proveniências e diferentes áreas sociais só tenho de bom a dizer. E lamento a falta de apoio e por vezes o manifesto desapoio e concorrência que a Câmara de Leiria fez ao Grupo que iniciou esta Iniciativa Cidadã. O facto de ser um projecto desenvolvido por cidadãos e não por nenhuma Associação nem Grupo apoiado por nenhum Partido ou movimento “de boas famílias” Leirienses, fez muitas vezes aqueles que participaram nos Novos Mercadinhos, acreditar que era (e foi) possível construir um espaço para os produtores “informais” e novos produtores sem termos de obedecer a nenhum critério que não seja o de ter trabalho ( ou mesmo tralha lá por casa) para mostrar e vender (nem de amiguismo, nem de protagonismos, nem de dinheirismo) na cidade de Leiria.</div><div>Estes grupos e projectos do Mercadinho têm desenvolvido um trabalho interessante na agricultura, na dinamização dos espaços verdes e protecção da natureza e uma procura de alternativas. Achas provável que estes grupos comecem a ser procurados por todos e que isso passe a ser algo natural e de continuidade?</div><div>A agricultura é do presente, do passado e do futuro, pois enquanto houver fome há necessidade de cultivar comida, portanto falta só a parte de consciencialização à qual este grupo e projectos vêm contribuir de forma determinante. Para mim esta consciencialização faz parte do processo evolutivo das sociedades e só demonstra que os Portugueses estão a fazer o seu caminho para uma sociedade mais Consciente, como outras sociedades mais evoluídas.</div><div>O que tens aprendido com as tuas passagens pelo “O Nariz Grupo de Teatro”?</div><div>Muito, porque pertencer de qualquer maneira à estrutura d’O Nariz é uma experiência de vida, é o Teatro numa das suas possibilidades mais verdadeiras como um Grupo de Teatro Profissional numa capital de Distrito com as vicissitudes que Leiria tem. Mas acima de tudo é com orgulho que me associo a esta marca teatral conhecida e reconhecida a nível nacional.</div><div>A tua experiência pelos campos de férias foi essencial para a tua aprendizagem e importante para os teus trabalhos posteriores?</div><div>Trabalho em Campos de Férias desde os meus 16 anos e já assumi todos os diferentes papéis nos mais variados Campos de Férias para (quase) todas as idades nos mais diferentes pontos do País. Sublinho a experiência e aprendizagem que trabalhar vários dias, 24 horas por dia com o público-alvo à tua frente dá. Já para não falar nos momentos e pessoas com que nos vemos envolvidos.</div><div>Foste encenador num grupo de teatro na Escola Superior, estiveste envolvido no Pinhal das Artes com Permacultura, és igualmente contador de histórias nos Contos ao Pôr-do-Sol é fundamental para ti participares em várias e distintas actividades, o que retiras?</div><div>A minha área de formação é a Animação Cultural, com principal incidência para as Artes e a produção artística. E esta área obriga-me a estar sempre actualizado e a envolver-me nos mais variados projectos. É ainda importante considerar o País em que vivemos que para podermos trabalhar nas áreas da produção e arte, temos de por vezes trocar o que queremos por o que vamos arranjando. Mas por acaso em todos os exemplos que referes, foram casos em que pude associar ou a minha formação ou uma área à qual me dediquei a aprender com algo que pude ajudar a fazer acontecer.</div><div>Neste momento estás a representar a peça Audiência de Václav Havel, o que nos podes dizer sobre a tua personagem, como é participar numa peça sobre Liberdade, Direitos Humanos, Resistência, Procura de Ideais?</div><div>Na “Audiência” sou um Cervejeiro numa Cervejaria de uma Checoslováquia Comunista. Um Homem comum com problemas muito sérios e comuns. O texto é brilhantemente bem construído e é um dos mais difíceis e exigentes trabalhos que alguma vez fiz em palco. Havel é um humanista e a “Audiência” é um texto que demonstra esse forte pensamento anti-opressão e anti-totalitarismo de ideias e ideais. Há sempre alguma dificuldade em olharmos para o lado negro das nossas existências as feridas que transportamos todos os dias, mas nesta encenação do texto de Havel acredito que conseguimos fazê-lo de uma forma simples, directa, por vezes divertida até sem apontar um dedo acusador a ninguém em concreto, nem mesmo ao público.</div><div>Estás a trabalhar neste momento no Portugal dos Pequenitos, como é que sido esta experiência, como animador, como te tem enriquecido?</div><div>O Portugal dos Pequenitos é uma instituição de dimensão nacional, só por si o desafio e exposição do meu trabalho sofre de fenómenos de grandeza (e responsabilidade) maiores. O meu trabalho é agora visto por dezenas de milhares de pessoas, de todas as idades e das mais variadas proveniências. Os visitantes merecem o nosso melhor todos os dias, pois todos os dias, todo o dia são novos no espaço. E como lidar, de forma profissional, com toda essa consistência tem sido a melhor curva de aprendizagem deste último ano.</div><div>Quais são os teus sonhos para Portugal?</div><div>Tenho uma filha com 5 anos, bastantes (demasiados até) amigos emigrados e penso frequentemente no que anseio que seja o rumo do meu País. Acima de tudo que nos seja permitido evoluir para um País civilizado, com cidadãos civilizados e informados, capazes de acreditar e investir (principalmente a um nível emocional) num dia a dia melhor para todos.</div><div>Obrigado pelo teu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div>Entrevista: Pedro Marques</div><div>Correcção: Fátima Simões</div><div>22 de Setembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>21 de Setembro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista à actriz Carla Chambel</title><description><![CDATA[Em 2009, esteve em digressão com a peça “Xerazade Não Está Só” com encenação de Maria João Trindade. A peça é sobre a Xerazade contar a história de Simbade, o Marinheiro, reflectindo a sua situação e da sua irmã. A peça já foi apresentada há algum tempo, mas o que aprendeu ao dar voz a esta personagem e abordar a situação de refugiado? Tendo em conta as constantes situações de refugiados, como é que se pode tirar lições desta peça?O António Torrado consegue sempre de uma forma simples introduzir]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/09/21/Entrevista-%C3%A0-actriz-Carla-Chambel</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/09/21/Entrevista-%C3%A0-actriz-Carla-Chambel</guid><pubDate>Wed, 21 Sep 2016 01:42:16 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Em 2009, esteve em digressão com a peça “Xerazade Não Está Só” com encenação de Maria João Trindade. A peça é sobre a Xerazade contar a história de Simbade, o Marinheiro, reflectindo a sua situação e da sua irmã. A peça já foi apresentada há algum tempo, mas o que aprendeu ao dar voz a esta personagem e abordar a situação de refugiado? Tendo em conta as constantes situações de refugiados, como é que se pode tirar lições desta peça?</div><div>O António Torrado consegue sempre de uma forma simples introduzir nos seus textos questões importantes sobre a humanidade, os valores, os perigos que assaltam a nossa sociedade. Neste XERAZADE NÃO ESTÁ SÓ ele brinca com o clássico das Mil E Uma Noites. Em vez da Xerazade contar histórias à sua irmã para iludir o Sultão homicida, ela conta as histórias para iludir os sons da guerra. É com essas histórias que, sozinhas, conseguem vencer o medo do perigo e as mantêm unidas. Na célebre questão que se propagou nos últimos tempos sobre &quot;o que levarias na mochila se tivesses que partir como refugiado&quot;, penso que, se o pão é tão importante para o estômago, então a cultura, a música, as histórias, qualquer forma de arte, serão igualmente fundamentais para alimentar o cérebro e a alma nos momentos difíceis.</div><div>Já foi encenada por João Perry, Fernanda Lapa, João Mota, João Lourenço e Carlos Avilez. E representou peças de William Shakespeare, Berolt Brecht, Almeida Garrett, Dostoievski, Luís Sepúlveda. Tendo trabalhado com estes encenadores e com peças destes autores o que lhe proporcionaram em termos de aprendizagem? Como a fizeram crescer enquanto actriz?</div><div>Essa experiência é o que me caracteriza como freelancer. O facto de ter trabalhado sempre com encenadores diferentes, companhias diferentes, registos diferentes, permitiu-me apreender formas diferentes de trabalhar, pensar, de fazer arte. Isso para mim é das maiores riquezas que um artista pode ter. Permite não estagnar, obriga a ter sempre a disponibilidade alerta para estar pronta para um novo trabalho sem preconceitos.</div><div>Representou Iva Delgado, filha de Humberto Delgado, em “Operação Outono”, como participou no filme “Julgamento” e na série “Até Amanhã Camaradas”. Como é para si poder representar a história sombria de Portugal do Estado Novo através da clandestinidade e sobre o momento trágico da morte do Humberto Delgado, ou de “Julgamento”?</div><div>Primeiro de tudo uma enorme honra. Depois aproveitei para conhecer melhor a história do nosso país e nada como uma forma lúdica para ser mais divertido fazê-lo. Ao tentar colocar-me no lugar de cada um daqueles personagens permitiu-me ganhar consciência da distância que temos hoje em dia daquela forma de vida. O dado adquirido da Liberdade é de repente posto em causa e fez-me reavaliar a importância e o respeito que lhe devo. E um enorme agradecimento que devemos àquelas pessoas que deram a sua vida por nós.</div><div>Em 2008, fez de Celeste Rodrigues para “Amália – O Filme”. Como foi para si ter representado uma grande fadista e participar num filme sobre a Amália, que marcou gerações de fadistas e ainda contínua a marcar? O que é que significou este trabalho para si?</div><div>Este trabalho significou conhecer um outro lado desta família que respira o Fado. O lado da cumplicidade entre as duas irmãs, as dificuldades que passaram, mas também os momentos divertidos que viveram pois ambas tinham excelente sentido de humor. Essa relação também se reflectiu no meu trabalho com a Sandra Barata Belo (Amália) em que a generosidade e o respeito que tínhamos ambas pelas personagens e entre nós, fez com que mergulhássemos num processo muito bonito de inter-ajuda. Mais do que o lado mais visível destas figuras da nossa cultura, procurámos também os seus lados lunares mais ocultos e isso aproximou-nos, ficámos mais cúmplices. E por fim entregámos isso ao público que, muito generosamente também, deu-nos os melhores feedbacks.</div><div>Claro que depois é muito interessante ver o percurso profissional da Amália e de como isso se repercutiu na sua família, mas para nós o percurso foi o dos afectos.</div><div>Em 2014, foi convidada pelo projecto “Fingerprint” para ser a júri portuguesa para o desafio proposto a jovens dos 16 aos 25 anos para que identificassem obstáculos que os rodeassem sobre o exercício dos direitos humanos na UE. O que a motivou a abraçar este projecto através de júri? De que forma é que é importante esta atenção pelos Direitos Humanos pela situação diária do país, do mundo?</div><div>Julgo que a abordagem dos temas que preocupam a sociedade através de uma forma criativa é a melhor forma de despertar o colectivo e fazer com que a humanidade reflicta sobre as suas acções. Abracei de imediato esta proposta pois acredito que, como artista e como cidadã, também devo ter um ponto de vista sobre estes temas. O facto de ter tido a oportunidade de ver curtas-metragens de jovens europeus permitiu-me estar mais próxima das suas preocupações, perceber os seus pontos de vista e como incrivelmente surgem mensagens comuns embora venham de países diferentes.</div><div>Foi, a par de Paulo Pires, a personagem principal do filme “Quarta Divisão”, de Joaquim Leitão. Para si como foi dar vida e voz a este problema tão delicado e tão pouco retratado e discutido em Portugal como é o desaparecimento duma criança?</div><div>Todo o filme foi um desafio. Primeiro o facto de interpretar uma sub-comandante da polícia já foi só por si algo único na minha carreira. Um personagem duro, objectivo, com características específicas como luta, porte de arma, etc, obrigaram-me a fazer um claro desvio daquilo que sou habitualmente no meu dia-a-dia. Foi muito intenso e divertido. Depois o filme tratava de vários temas: o desaparecimento de uma criança, mas também de pedofilia, violência doméstica tanto nos meios pobres como nas elites. Neste ponto o filme tinha o objectivo de alertar para cada uma destas temáticas em geral. E para cada uma destas situações importava que a minha personagem Helena tivesse sensibilidade suficiente para os tratar distintamente. E no final o objectivo era fazer-se justiça, encontrar os culpados e condená-los, mas como não há provas, a minha personagem decidiu fazer justiça pelas suas próprias mãos, o ato que a desmistifica como heroína desta história.</div><div>Participou, igualmente, na série “João Semana”, no filme “20.13 Purgatório”, de Joaquim Leitão, no filme “O Mistério da Estrada de Sintra”, de Jorge Paixão da Costa, e na série “Pedro e Inês”. Representar sobre a História de Portugal, sobre a História da Guerra do Purgatório, da Paixão de “Pedro e Inês” e do conto dum dos maiores escritores portugueses é para si muito importante e enriquecedor?</div><div>Sem dúvida. &quot;Fazer época&quot; é um dos sonhos da maioria dos actores. E não se trata de o fazer para vestir roupas diferentes, de outros tempos, trata-se acima de tudo de fazer uma verdadeira viagem no tempo e respirar outra forma de vida, outros hábitos, outras tecnologias, outros comportamentos. Um leque riquíssimo de caminhos por descobrir e tornar nossos quando fazemos aqueles personagens. Por outro lado abordar temas da nossa história faz com que conheçamos melhor aquilo que somos, de onde vimos, como chegámos até aqui. Recordar grandes escritores, personalidades da nossa história, momentos marcantes da nossa vida, é valorizar a nossa cultura, a nossa identidade. Tantos mais há aí por descobrir!</div><div>Quais são os seus sonhos para a cultura, para a representação e para Portugal?</div><div>Ui. Essa pergunta é três em uma! Desejo que os portugueses amem e respeitem cada vez mais a nossa cultura. Julgo que já ultrapassámos aquela ideia de vergonha que em tempos tínhamos (do Galo de Barcelos às cores da bandeira). Hoje em dia vê-se um despertar em todo o lado de amor pela nossa identidade que se reflecte no artesanato, na gastronomia, na música, etc, no turismo em expansão. Mas também desejo que estejamos abertos a outras culturas e que orgulhosamente sejamos um país que recebe os outros de mãos dadas. Desejo que a cultura se torne cada vez mais uma razão de investimento e de desenvolvimento económico em vez de ser só vista como uma subsídio-dependente. Vemos as marcas a investir nos festivais de música, por exemplo. É um princípio. Mas seria bom que olhassem também para as artes que têm correntes de público mais pequenas: a dança, o teatro, por exemplo. Vejo a minha geração a chegar aos lugares importantes. Um Tiago Rodrigues como director do TNDMII, ou um Nuno Lopes a ganhar um Leão em Veneza. Isto dá-me um enorme orgulho mas também a consciência de que este é o Meu tempo. O tempo de agir em prol da minha arte, da minha cidade, do meu país.</div><div>Quanto à representação desejo que o público continue crescente. Os teatros têm feito um esforço para se aproximar do público nos últimos 20 anos e isso tem trazido frutos. Vejo hoje em dia as salas cheias, de todas as idades. A oferta diversificou-se, desde os espectáculos para bebés aos espectáculos com séniores. Há uma riqueza imensa que só peca por estar restrita à grande Lisboa e Porto. Falta chegar ao resto do país com a mesma &quot;fervilhância&quot; que vejo na grande cidade. Quanto à ficção, que muitas das vezes se intitula de qualidade, (e o é efectivamente porque é feita por excelentes profissionais), só desejo que tenha melhores condições de trabalho, que os orçamentos dos canais para as produtoras não sejam tão à justa, que os timings de entrega dos trabalhos não se imponham para ontem, que a carga horária não seja de 60h semanais. Esta é a história comum a todos os trabalhos que tenho feito em televisão e por isso os resultados que vemos no ecrã são verdadeiros milagres, fruto da dedicação de equipas inteiras, desde a realização à figuração, passando por todas as áreas técnicas e artísticas, sem excepção.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Obrigada eu, grande abraço.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>21 de Setembro de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>20 de Setembro de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao actor, encenador e pintor Júlio César</title><description><![CDATA[Participou nos filmes “20.13 Purgatório” e “Inferno”, de Joaquim Leitão. Um sobre a frente de guerra no conflito colonial e o outro sobre ex-combatentes na Guiné. Como é que foi para si participar nestes filmes onde se abordam as vivências no na guerra no pós-guerra, os traumas e as perdas?Num e noutro filme ressalta sobre tudo a amizade, o companheirismo, as vivências e conflitos em situações de stress. Tive a sorte de não viver a guerra colonial no teatro de operações. Socorri-me de]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/07/08/Entrevista-ao-actor-encenador-e-pintor-J%C3%BAlio-C%C3%A9sar</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/07/08/Entrevista-ao-actor-encenador-e-pintor-J%C3%BAlio-C%C3%A9sar</guid><pubDate>Fri, 08 Jul 2016 11:28:44 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Participou nos filmes “20.13 Purgatório” e “Inferno”, de Joaquim Leitão. Um sobre a frente de guerra no conflito colonial e o outro sobre ex-combatentes na Guiné. Como é que foi para si participar nestes filmes onde se abordam as vivências no na guerra no pós-guerra, os traumas e as perdas?</div><div>Num e noutro filme ressalta sobre tudo a amizade, o companheirismo, as vivências e conflitos em situações de stress. Tive a sorte de não viver a guerra colonial no teatro de operações. Socorri-me de testemunhos e indicações, preciosas, de muitos amigos e colegas que viveram o drama da guerra. Depois houve a direcção do Joaquim Leitão que é muito preciso e exigente naquilo que pretende. É um dos realizadores com quem mais gosto de trabalhar. Ele sabe o que pretende de cada personagem e tem o filme &quot;construído&quot; com muito rigor, antes mesmo de começar a rodar. Foram trabalhos que me marcaram muito e aos quais dei o melhor de mim. Gostei do resultado final.</div><div>É um homem das artes. O que é que as artes lhe têm ensinado e de que forma é que têm sido importantes para si como uma pessoa que vive das artes há algumas décadas?</div><div>Não se é das artes por acaso. Ser das artes não significa viver delas mas para elas. Tenho,ao longo da minha vida, tentado dar ao meu trabalho artístico o que de melhor sei fazer. Não sei se tenho conseguido mas acredito que sim. Estar com seriedade na profissão que escolhi é motivo que me orgulha e me dá mais força para continuar a aprender ...</div><div>Em 2007 participou no filme “Julgamento”. O filme centra-se entre três amigos que foram resistentes anti-fascistas, um deles tem uma filha advogada que vai fazer o seu primeiro julgamento. O pai da advogada vai assistir ao julgamento e apercebe-se que o cliente da filha tinha sido seu carrasco/pide e decide vingar-se... Foi um filme e papel importante para si? Como viveu na ditadura fascista de Salazar e Caetano, ter representado neste filme foi imperioso pelas mensagens que passaram e a reflexão sobre a justiça que não foi cumprida e que deve ser cumprida?</div><div>O &quot; Julgamento &quot; é um filme de muitas leituras. Denunciador da ditadura e da policia politica do regime Salazar/Caetano aborda também aquilo a que podemos chamar Justiça / Vingança. Esta confusão pode causar divisão na opinião do espectador e isso enriquece o filme. Pode parecer um filme de tese. &quot; Se me torturou posso torturar &quot; e esta questão fez dividir muitos cinéfilos. O argumento foi adaptado para Portugal, já que o original denunciava a policia politica brasileira durante a ditadura. Lá como cá os métodos eram semelhantes. No essencial penso que o filme é um bom documento, denunciador dos fascismos e perturbador quanto aos métodos de os combater. Foi um trabalho de que gostei imenso e me trouxe à memória muitos dos que lutaram toda a vida e morreram pela Liberdade.</div><div>Recentemente representou para a reedição d’ “O Leão da Estrela”. Como é que foi representar a reedição daquele que foi um marco do cinema de comédia em Portugal?</div><div>A minha participação no Leão da Estrela foi acidental. A indisponibilidade, à última hora, do actor que estava contratado para o filme motivou um telefonema do Leonel Vieira convidando-me para o substituir. Lá fui e achei piada.</div><div>Na entrevista que deu ao Daniel Oliveira, em “Alta Definição” da SIC, abordou o trabalho que teve quando foi para Lisboa com 11 anos e referiu que era escravatura infantil. Porque é que para si foi essencial abordar a sua situação para denunciar e referir o modo em que as crianças viviam no Estado Novo?</div><div>O Alta Definição é um programa Maior! O Daniel é um mestre conversador e arranca ao entrevistado memórias que nos dançam nos olhos. Naquele momento a conversa levou-nos para o tempo dos calções e lembrei-me de mim. Em como a vida era dura e difícil. Em que o trabalho infantil era um dado adquirido. Eram tempos de fome e grandes dificuldades, que se mantêm, e que é preciso combater. Penso que, apesar de tudo, os dias hoje são mais risonhos mas não podemos cruzar os braços. Há muito para fazer e acredito que vamos conseguir abraçar um futuro melhor ...</div><div>Referiu igualmente que o Raul Solnado foi pai e uma pessoa muito marcante para si. De que forma é que toda a vivência, e todo o trabalho a seu lado foi determinante para o seu processo de aprendizagem enquanto actor/artista e enquanto pessoa?</div><div>O Raul foi um mestre e um irmão mais velho. Foi um amigo de uma vida. Uma pessoa muito presente em todo o meu trajecto. Viajámos muito, rimos muito, aprendi com ele os caminhos da profissão. É das pessoas mais importantes da minha vida e todos os dias o recordo com uma enorme saudade.</div><div>Inventou uma máquina de projectar enquanto criança. De que é que esta veia de inventor lhe foi enriquecedora para o seu trabalho enquanto encenador nos Casinos e nas pinturas?</div><div>As invenções de criança ficam sempre na nossa memória. É natural que tenha aplicado algumas dessas &quot;invenções&quot; ao longo da vida. Sem ter consciência disso elas continuam cá, a bailar, e com certeza que surgem sem eu mesmo dar por isso ...</div><div>Em 1974 partilhou os palcos com o Nicolau Breyner, Ivone Silva, Fernando Tordo, Helena Isabel e Ary dos Santos. Como foi a aprendizagem nesses tempos e como foi importante e enriquecedor para todo o percurso no teatro e na televisão que tem vindo a fazer?</div><div>Em 1974 o Parque Mayer fervilhava de criatividade. Penso que o Ary dos Santos, Tordo, Nicolau, César de Oliveira e tantos outros eram figuras de primeira água e enorme talento. Operaram na altura a grande renovação da Revista à Portuguesa no ABC de Sérgio de Azevedo. Penso que, anos mais tarde, consegui aplicar no Casino Estoril muitos dos ensinamentos que então apreendi. Há uma estética que fica dentro de nós e que se põe em prática quando se tem grandes mestres. Tive a sorte de os conhecer e reconhecer que eram enormes artistas. Vultos maiores do espectáculo em Portugal.</div><div>Quais são os seus sonhos para as artes, para o teatro e cultura portuguesa e para Portugal?</div><div>Às artes o que é das artes. A cultura portuguesa tem sido muito mal tratada. Portugal tem tratado mal os agentes culturais. É preciso alguém que entenda que vale mais um teatro aberto, uma banda de música, um livro publicado, um piano afinado, um filme exibido, um concerto, um cantor, um disco ... do que dois submarinos fundeados.</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>08 de Julho de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao actor Rogério Rosa</title><description><![CDATA[Disse, em 2010, numa mensagem para a Rádio Comercial que o Teatro Profissional e Amador têm sido muito maltratado em Portugal. Quais têm sido os problemas que ambos vivem e para si de que forma se pode mudar este paradigma?Quer o teatro profissional, quer o amador, estão maltratados. O Profissional, porque não há ajudas do Governo, que cada vez quer saber menos da Cultura e com a crise, leva muito menos gente ao teatro. No segundo caso, o amador, então nem se fala. Apoio um grupo de teatro]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/07/05/Entrevista-ao-actor-Rog%C3%A9rio-Rosa</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/07/05/Entrevista-ao-actor-Rog%C3%A9rio-Rosa</guid><pubDate>Tue, 05 Jul 2016 15:34:01 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Disse, em 2010, numa mensagem para a Rádio Comercial que o Teatro Profissional e Amador têm sido muito maltratado em Portugal. Quais têm sido os problemas que ambos vivem e para si de que forma se pode mudar este paradigma?</div><div>Quer o teatro profissional, quer o amador, estão maltratados. O Profissional, porque não há ajudas do Governo, que cada vez quer saber menos da Cultura e com a crise, leva muito menos gente ao teatro. No segundo caso, o amador, então nem se fala. Apoio um grupo de teatro amador chamado Acreart-Artes Cénicas, composto por actores cegos e de baixa visão, nunca são nem acarinhados, nem divulgados. Cada vez mais, a nossa sociedade tem grandes preconceitos quanto a deficientes serem artistas. Há actores, há músicos, há professores com limitações e nem assim, as pessoas vão ver. Em cada estreia deste grupo, não há nem salas cheias,nem divulgação na imprensa, e os que lá vão, são amigos e familiares dos intérpretes. Eu, sempre que tenho oportunidade de ir á televisão em entrevista, procuro levá-los e mostrar, que existem e são tão bons como os os outros.</div><div>Começou a gostar de Teatro depois de uma monitora lhe ter dado o papel principal em “O Astro”. De que forma é que foi positivo ao ponto de lhe mudar a opinião, tendo em conta a má experiência que tinha tido anteriormente? O que é que esta mudança, pela positiva, deu-lhe de motivação pelo teatro e pela vontade da representação?</div><div>Comecei na peça de Gil Vicente em&quot;Auto dos Três Reis Magos&quot; por obrigação escolar. Não gostei da experiência porque nunca foi um sonho ser actor. Depois de facto, no ano seguinte ou seja, em 1978, mesmo não gostando, acabei por aceitar entrar na peça&quot;O Astro&quot; de Janet Clair. O que mudou? Não mudou grande coisa. Como a novela tambem ela estava a começar a dar, acabei por me aproximar mais da representação e da maneira como os actores falavam. Li as entrevistas deles e sabia de cor os verdadeiros nomes de todos e isso para mim era um grande estímulo, mas sem a consciencia de que aquilo não era nada comparado com o que mais tarde constatei. Acabei por alimentar, o pequenino bicho da representação.</div><div>Em 1984 representou para o Festival da Malta promovido pelo Diário de Notícias com a peça “Marco” que retratava a sua experiência como sem-abrigo. Mesmo partindo duma vivência não tão positiva para si, como conseguiu dar vida à peça e à personagem? Foi fácil?</div><div>Quando me colocaram &quot;entre a espada e a parede&quot; para poder participar nesse Festival da Malta-84, foi um grande risco. Não sabia o que escrever nem conhecia o termo monólogo. Então, lembrei-me do que passei, e passei mesmo assim para o papel e depois foi de improviso até ao fim. Tornou-se muito mais fácil para mim, na Academia de Santo Amaro.</div><div>A partir desta peça foi o início da sua grande aventura pelo mundo do espectáculo. Como foi importante e determinante para essa aventura?</div><div>Foi muito importante, porque a partir daqui, estava a tomar o gosto pela representação. O motivo, foi sem dúvida a maneira com que via os actores brasileiros, e lia as entrevistas. Despertou-me a atenção, os movimentos, expressões e a realidade que passavam.</div><div>Não foi fácil entender-se como marchante. No entanto, lá se entendeu e fez um brilharete e convidaram-no de novo. Como é que foi a experiência de ter trabalhado como marchante? De que forma é que foi enriquecedor para a sua cultura e para o seu progresso no mundo do espectáculo?</div><div>Estava no teatro quando me deparei com os ensaios da Marcha de S. Vicente em 97. Pensei, como seria eu ali nos ensaios, será que era capaz, que via para aquilo? Teria de experimentar pelo menos. Quando dei por mim, em 1998, estava eu ali, a ensaiar. Muito duro. Foi uma experiência absolutamente extraordinária. As marcações, os desfiles no Pavilhão Carlos Lopes e no Atlântico. Para um deficiente visual poder desfilar numa marcha, foi um momento único. Foi importante conhecer os bastidores de uma marcha e fazer parte dela e isso, para a minha formação cultural foi uma mais-valia.</div><div>Trabalhou para as séries “Vila Faia”, “Liberdade 21”, “Inspector Max” e “O Dia do Regicídio”. Como foi para si primeiro participar na primeira telenovela portuguesa e representar com actrizes e actores tão importantes da representação?</div><div>Participei no remake &quot;Vila Faia&quot;. Foi muito divertido ver como numa novela, que relembra a novela original de 1982. Nesta não houve os actores daquele tempo, Mariana Rei Monteiro, Ruy de Carvalho ou Nicolau Breyner, mas em lugar deles, tive a honra de lidar com Simone de Oliveira, Virgílio Castelo ou Albano Jerónimo. Fiz 60 episódios, entre o rigor e a disciplina,entre os ensaios de uns e as cenas que eu tinha de gravar. Aprendi a gostar cada vez mais, e não tendo sido um sonho, estava a transformar-se num objectivo, que estava a alcançar. Estes que fizeram a novela, foram pessoas amáveis, sociáveis, almoçávamos todos juntos, o que permitia um são convívio de aprendizagens uns com os outros.</div><div>O Dia do Regicídio foi uma data importante para Portugal. Para si foi determinante representar um dia histórico português?</div><div>Foi mais do que importante. A mini-série&quot;Regicídio&quot;, permitiu-me &quot;viver&quot; uma época histórica que na realidade aconteceu. Entrei nos episódios 4 e 6, com outra personagem, mais próxima até do Príncipe Luís Filipe. Uma oportunidade de fazer parte de um documentário histórico em série para as escolas e faculdades.</div><div>Participou em filmes de grande relevância, como “O Barão”, “Conexão”, “As Variações de Casanova/Giacomo” e “Contrato”. De que forma é que todos estes trabalhos foram enriquecedores para o seu progresso enquanto actor e para a sua experiência?</div><div>Para mim na área do cinema, permitiu-me mostrar que era capaz. Fiz formação de actores e uma cadeira extra curricular de direcção de actores. Vários filmes que entrei, já conto 18 filmes e 7 dos quais como principal. Ainda faltam estrear 2 longas metragens. Uma delas, quero destacar por ter sido a mais difícil de sempre. Chama-se &quot;O Esquema&quot; do realizador italiano Alberto Rocco. A minha personagem &quot;Boris&quot;, era um papel pequeno e que foi crescendo ao longo do filme e teve a particular importância de ter acabado o filme igualado ao protagonista. Muito difícil, pois filmámos em 3 meses, fora os ensaios e em várias localidades. Era um personagem mau, um vilão, uma espécie de jihadista russo, mas que, não sendo drama, é uma comédia, logo a personagem apenas goza um pouco com os jihadistas. Depois, outro filme que está por estrear, do Edgar Pêra, o mesmo realizador de&quot;O Barão&quot;, chamado &quot;Adeus Carne&quot;, que reúne um elenco de luxo, para alem de mim, Nuno Melo, Sofia Ribeiro, José Raposo, entre muitos outros. Foi muito gratificante, ser recebido por eles, ser acarinhado por todos como se eu também fosse de tv.</div><div>Quais são os seus sonhos para o teatro, para a representação e para Portugal?</div><div>Não tenho sonhos como actor, pois como disse, apenas se transformou num objectivo já cumprido. Fiz mais 4 filmes &quot;Reflect Spot&quot;, &quot;Nada Sucede Por Acaso&quot;, &quot;About Red&quot;, &quot;Vidas com Sentido&quot; e &quot;Outro Filme da Morte&quot;. Todos acrescentam à minha carreira,por serem diferentes, e por me enriquecerem como actor, pessoa e curricularmente. No teatro, preparo uma peça, que retrata um ambiente de rádio, onde se grava uma novela radiofónica. Baseado num velho folhetim &quot;Simplesmente Maria&quot;. Espero continuar no teatro e como cronista em wattpad.</div><div>www.wattpad.com/user/RogerioRosa</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>05 de Julho de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>5 de Julho de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Blogue O Marxista Leninista</title><description><![CDATA[O seu blogue está ligado ao PCR. Como partido revolucionário, como é que vêem a situação que se passa no seu país, Brasil, da tentativa de golpe de estado fascista contra o PT?ML: O golpe em curso no Brasil acontece em meio à maior crise do sistema capitalista desde 1929. Não é mera coincidência que esta crise política aconteça justamente em meio a uma crise econômica. A classe média, que pedia nas ruas a saída da presidente Dilma Rousseff sob acusações de corrupção, está agora calada diante dos]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/06/19/Entrevista-ao-Blogue-O-Marxista-Leninista-1</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/06/19/Entrevista-ao-Blogue-O-Marxista-Leninista-1</guid><pubDate>Sun, 19 Jun 2016 17:20:15 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>O seu blogue está ligado ao PCR. Como partido revolucionário, como é que vêem a situação que se passa no seu país, Brasil, da tentativa de golpe de estado fascista contra o PT?</div><div>ML: O golpe em curso no Brasil acontece em meio à maior crise do sistema capitalista desde 1929. Não é mera coincidência que esta crise política aconteça justamente em meio a uma crise econômica. A classe média, que pedia nas ruas a saída da presidente Dilma Rousseff sob acusações de corrupção, está agora calada diante dos escândalos do governo golpista, deixando claro aquilo que já era denunciado pelas forças progressistas: que a bandeira contra a corrupção servia apenas para mascarar, para encobrir, para esconder os verdadeiros motivos do golpe. O objetivo deste golpe é jogar sobre as costas da classe trabalhadora o ônus da crise capitalista. Os industriais e os banqueiros não querem mais perder nenhuma fatia de seus gordos lucros, e pretendem fazer com que os trabalhadores paguem por uma crise que não é deles. O governo Dilma Rousseff, embora sendo um governo de conciliação de classes, ainda hesitava levar adiante certas reformas trabalhistas exigidas pelos industriais e banqueiros, e por isso era vista por eles como não-confiável, como um obstáculo que deveria ser removido de seu caminho. Estas são as causas mais profundas do golpe em curso no Brasil.</div><div>Tem dedicado muitos textos sobre Stalin. Tendo ele sido o Líder da União Soviética e um dos comunistas mais odiados, foi o que lhe suscitou interesse em estudar melhor sobre ele e poder dar uma outra visão e aprendizagem para comunistas, democratas e cidadãos que tenham esse interesse?</div><div>ML: Sempre suspeitei da forma como Stálin é retratado pela mídia ocidental. Esta imagem do “ditador-monstro” e “irmão gêmeo de Hitler” sempre me pareceu muito caricatural e inverossímil. Por me considerar discípulo de dois pensadores considerados os “mestres da suspeita”, que são Marx e Freud, decidi estudar mais profundamente sobre Stálin, e nosso blog busca trazer alguns resultados destas pesquisas e fazer um contraponto à avalanche de desinformação propagada sobre o líder soviético. Autores como Ludo Martens, Robert Thurston, Domenico Losurdo e Grover Furr estão entre aqueles que, a nosso ver, mais têm contribuído para a desmistificação da figura de Stálin. De forma resumida podemos afirmar que quase tudo o que se divulga sobre Stálin no ocidente são ecos da forma como a história soviética era contada aqui no ocidente ainda no período da guerra fria. A verdadeira história soviética ainda está para ser contada no ocidente.</div><div>“Revolução Russa para crianças - Paz, Pão e Terra” é uma publicação sobre uns desenhos animados que referem ser uma forma de mostrar o anti-stalinismo. Como é que vê a deturpação da realidade? Ao transmitirem, esta mensagem como pode prejudicar o comunismo e a verdade sobre a União Soviética?</div><div>ML: Esta animação da Warner Bross é mais um exemplo de anti-stalinismo. O desenho conta a história da revolução russa de forma até simpática, menos no que se refere a Stálin. Na verdade, a versão da história soviética refletida neste curta, na qual Trótsky era o braço direito de Lênin, Stálin era um burocrata desconhecido que repentinamente tomou de assalto o partido e instaurou uma “ditadura” no país, simplesmente não faz sentido. Quem conhece o funcionamento interno de uma organização leninista sabe que as coisas não funcionam desta forma. Além do mais, uma biografia menos tendenciosa da juventude de Stálin, como “A vida privada de Stálin”, de L. Marcou, mostra por que Stálin tinha a confiança do partido e foi designado\eleito sucessivas vezes, desde o princípio, para os cargo que ocupou.</div><div>Abordou na sua página sobre a ditadura de Pinochet e as sucessivas tentativas de cancelamento do jogo por parte da União Soviética, devido ao campo de futebol do Chile ter passado a Campo de Concentração Fascista, que não é uma ditadura largamente discutida e ensinada. Como é que o exemplo da URSS pode ser uma forma de aprendizagem? O que os povos não podem esquecer da ditadura Chilena? Como podem os povos tomar atenção, e consciencializar-se para que não se repitam ditaduras?</div><div>ML: Este episódio envolvendo as seleções da URSS e do Chile é apenas um exemplo da solidariedade do povo soviético com os povos oprimidos de todo o mundo. Sabemos da importância da URSS no processo de descolonização de vários países no século XX e de seu apoio a todos aqueles que viviam sob ditaduras fascistas como a chilena. Uma importante lição que podemos tirar da ditadura chilena é que o proletariado não pode hesitar em levar a luta de classes às suas últimas consequências como hesitou Salvador Allende. Não se pode confiar na democracia burguesa ou nas suas instituições, pois a própria burguesia é a primeira a desrespeitar estas instituições ao ver seu poder ameaçado.</div><div>No tópico sobre a crise aborda a fome na Somália, a luta dos trabalhadores Espanhóis da Iveco, o recorde de pobreza nos EUA e sobre a crise global. De que forma é que é possível mudar este paradigma? Tendo em conta que o seu blogue é Marxista Leninista, através das teorias de Marx e Lenin como se pode ver este contínuo retrocesso, esta contínua divisão de classes, e aumento da riqueza por um lado e miséria e desigualdade por outro?</div><div>ML: O capitalismo não tem meios de resolver suas contradições internas. Apenas o avanço para um tipo de sociedade superior, que mantenha as conquistas efetuadas pelo capitalismo ao mesmo tempo em que supere as contradições deste sistema, pode resolver problemas tão graves e tão básicos de serem solucionados como o da fome. Este sistema superior, que Marx denominou comunismo, é a única alternativa ao capitalismo colocada hoje para a humanidade. Todas as tentativas de supostas “terceiras vias” são apenas atenuações do capitalismo, propostas de um capitalismo mais brando ou menos selvagem, como se isso fosse possível. Isso é, tais propostas não são um terceira via, mas apenas uma reafirmação do capitalismo. Marx havia demonstrado ainda no século XIX que a lógica interna do capital leva à acumulação da riqueza em um pólo e à pobreza no outro. Por isso os marxistas não foram surpreendidos pela recente notícia de que hoje os 1% mais ricos do mundo possuem sozinhos mais de 50% da riqueza existente no planeta.</div><div>Através dos vários processos revolucionários da América Latina, da ex-URSS, Marx, Lenin, o que tem aprendido e de que forma podem ser úteis para o presente e futuro da luta proletária de todos os povos que vivem em regimes capitalistas ou autoritários?</div><div>ML: A principal lição é que a classe trabalhadora precisa se constituir como uma classe independente, com seu próprio projeto de sociedade e que o momento de ruptura com a sociedade burguesa é inevitável. É preciso se preparar para tal momento e ser consequente até o final.</div><div>Quais são os seus sonhos para o Brasil e para Portugal?</div><div>ML: A emancipação da classe trabalhadora destes dois países mediante uma revolução comunista. </div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e ObrasEntrevista: Pedro MarquesCorrecção: Mário Martins</div><div>19 de Junho de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>19 de Junho de 2016</div></div>]]></content:encoded></item><item><title>Entrevista ao Professor, Maestro e Mestre da Cultura Paulo Tojeira</title><description><![CDATA[Tendo em conta que o Tocándar é um projecto importante, como é que é possível que há anos estejam com dificuldades em encontrar um espaço com condições dignas para os alunos, e sejam constantemente esquecidos e desprezados pela autarquia? Como é que tem conseguido aguentar o barco e conquistar cada vez mais jovens?Na verdade, com muita persistência e imaginação, vamos conseguinto manter este projecto em funcionamento. Foram dados passos no sentido de se arranjar uma solução definitiva para a]]></description><dc:creator>Pedro Marques</dc:creator><link>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/06/07/Entrevista-ao-Professor-Maestro-e-Mestre-da-Cultura-Paulo-Tojeira</link><guid>https://projectovidaseobras.wixsite.com/blog/single-post/2016/06/07/Entrevista-ao-Professor-Maestro-e-Mestre-da-Cultura-Paulo-Tojeira</guid><pubDate>Tue, 07 Jun 2016 17:46:20 +0000</pubDate><content:encoded><![CDATA[<div><div>Tendo em conta que o Tocándar é um projecto importante, como é que é possível que há anos estejam com dificuldades em encontrar um espaço com condições dignas para os alunos, e sejam constantemente esquecidos e desprezados pela autarquia? Como é que tem conseguido aguentar o barco e conquistar cada vez mais jovens?</div><div>Na verdade, com muita persistência e imaginação, vamos conseguinto manter este projecto em funcionamento. Foram dados passos no sentido de se arranjar uma solução definitiva para a nossa instalação. É uma solução que não nos agrada, mas foi a solução possível. Entretanto, estamos em instalações provisórias, cedidas pela câmara municipal. Ensaiamos no Parque da Cerca (um dos parques da Marinha Grande), o que até nos agrada, excepto quando chove! Nessas alturas, temos de usar de artes de magia, para conseguirmos cumprir satisfatóriamente os objectivos traçados. Temos actividades abertas a todos às quartas e aos sábados e temos núcleos em escolas do 1º ciclo e na APPACDM.</div><div>“Projecto Identidade na Diversidade” como é que surgiu este projecto em parceria com a APPACDM? Para o Paulo é importante promover actividades culturais com estas pessoas especiais? Ao longo de 10 anos com os utentes da APPACDM o que é que tem aprendido, tem sido uma experiência enriquecedora?</div><div>Um belo dia, estávamos a ensaiar perto da APPACDM e vários utentes vieram ver o que se passava... Fui convidá-los para integrarem o nosso projecto! E tem sido um caminho muito interessante, com aprendizagens mútuas.</div><div>Mas creio que se quem de direito assegurasse um pouco de condições, poderiamos realizar um trabalho ainda mais interessante, tanto na APPACDM, como nas escolas do 1º ciclo e na Associação de Reformados, onde tivemos já um núcleo (o Kotandar).</div><div>Já leva 16 anos à frente dos Tocándar. Como se sente ao dar alegria aos jovens, a permitir-lhes mais aprendizagem, darem largas aos seus sonhos, criarem mais amizades?</div><div>Provavelmente, darei alguma coisa aos jovens com quem percorro estes caminhos. Mas eles dão-me também muito! Trata-se, portanto, de uma troca em que ambas as partes se sentem felizes e realizadas. E o que nós inventamos todas as semanas, ninguém imagina! Fico com a certeza de que a juventude é a melhor coisa do mundo! Quando conseguimos ter cumplicidades, estamos a construir os homens e as mulheres de amanhã! E, por outro lado, é muito interessante criar linguagens comuns, a partir do estudo das nossas tradições.</div><div>Apresentou recentemente o espectáculo de homenagem a Adriano Correia de Oliveira. Ter-se solidarizado à homenagem a este homem fulcral da música popular portuguesa e de protesto teve um sabor especial? Foi gratificante?</div><div>É uma honra ser convidado a participar como apresentador num espectáculo de homenagem a um grande expoente da cultura. Até porque tive também a honra de partilhar o palco com o Adriano. Guardo dele a figura de um “doce gigante”. Eu coordenava um grupo de jovens, muito jovens e andávamos de norte a sul a participar em iniciativais culturais, no pós 25 de abril de 1974. Faziamos parte do concerto, que normalmente era encerrado por ele. Convidáva-nos sempre a tocarmos alguma coisa em conjunto. Era para nós um grande orgulho... e era impressionante aquela modéstia...</div><div>Como é que nasceu o gosto pelas tradições, pela cultura? Desde que se dedicou à partilha dessas tradições e à sua descoberta o que é que tem recolhido que queira referir?</div><div>Eu sempre me conheci a “rimar” com as diversas artes tradicionais. Esse apetite vem certamente das minhos opções de vida e certamente apuradas pelo fecto de ter vivido 11 anos no estrangeiro, onde estudei. Quando fui viver para o estrangeiro, Bulgária, decidi, com alguns colegas, “montar” um grupo de música portuguesa, sobretudo tradicional e um rancho folclórico. Como “vale mais cair em graça, que ser engraçado”, foi um sucesso. Realizámos grandes espcetáculos por todo o país, divulgando a nossa cultura. Durante esse período, tive oportunidade de estudar melhor diversos aspectos da nossa identidade.</div><div>Desde a existência do grupo têm trocado experiências com outras bandas e colaborado em Cds. É um trabalho essencial para si e para os jovens, para o conhecimento da música, e pela troca de experiências?</div><div>Temos colaborado na gravação de alguns Cds e editámos também dois CD´s nossos. Para além de dois DVD´s. Fomos , aliás, o primeiro projecto português a editar um DVD de percussão.</div><div>Diz na entrevista ao blogue anteriormente referido que o maior obstáculo que tem encontrado nos Tocándar é a enorme falta de cultura existente, como é que se combate esse grande problema?</div><div>Para alterar essa realidade, é necessário trabalhar em multiplas direcções. As escolas têm um papel muito importante. Provavelmente, chegará o dia em que todos os alunos terão educação musical até ao 9º ano... e terão a possibilidade de aprender dança... etc. Mas as colectividades e as autarquias, também têm um papel muito importante. Algumas assumem o seu papel. Outras, nem tanto... Para algumas autarquias, nomeadamente, é muito mais “proveitoso” dar “pão e circo” ao povo, do que trabalhar em prol de uma identidade cultural.</div><div>Até onde podia chegar se a Associação Tocándar tivesse mais reconhecimento?</div><div>Provavelmente teriamos já uma intervenção regular ao nível das escolas do 1º ciclo no nosso concelho. E poderiamos até “replicar” a nossa experiência por outras cidades. A percussão é uma espécie de “vírus”: espalha-se com uma enorme facilidade. Apesar de todas as limitações, creio que temos desenvolvido um trabalho assinalável.</div><div>Uma das suas últimas publicações no blogue Grizalheiro é sobre a ex-URSS e sobre um ciclo de filmes. O que é que o fascina na ex-URSS? Para si a extinção das Repúblicas Socialistas foram um grave percalço para o progresso do mundo?</div><div>Eu estudei na Bulgária, mais precisamente na República Popular da Bulgária, que considero a minha segunda Pátria. Tive a oportunidade de fazer uma licenciatura, uma especialidade e um doutoramento. Tive também o privilégio de conhecer centenas de jovens de todo o mundo, hermanados na busca de um saber científico, social, cultural, político. A R. P. da Bulgária não era um país perfeito. Não haverá certamente países perfeitos... Mas creio que muitas necessidades essenciais estavam bem resolvidas: acesso gratuito a uma educação de qualidade, em todos os níveis de ensino; acesso gratuito a cuidados médicos; habitação a preços controlados e indexados aos vencimentos; bens de primeira necessidade a preços controlados; etc. Mas, naturalmente que nem todas as soluções encontradas para a realidade búlgara eram do meu agrado.</div><div>A questão que refere e sobre a qual escrevi no Grizalheiro, tem a ver com a Grande Guerra Patriótica. É uma série de filmes (6), que dão pelo nome de “Libertação” – Osvobojdenie. Retratam a epopeia do Exército Vermelho no combate ao nazi-fascismo, que termina com a tomada do Reichstag. Nele são evidenciados o heroísmos dos soldados e dos povos soviéticos e a extraordinária capacidade de organização e liderança dos oficiais superiores e de Stalin. Creio que é um documento essencial para se entender o curso da guerra, sobretudo na actual realidade, em que se pretende reescrever a história. O que me fascina… tudo o que é humano me fascina! E creio que, sem o envolvimento da URSS, os seus povos, exércitos e liderança, todo o decurso posterior da história teria sido muito diferente…</div><div>Depois da desintegração da URSS o mundo não ficou melhor… antes pelo contrário. E um dia, com o distanciamento temporal adequado, pensadores insuspeitos farão a análise que hoje já é perceptível ao nível de alguns teóricos de vanguarda: o fim da URSS originou, objectivamente, um extraordinário retrocesso civilizacional; os erros e até traições decorrentes do processo de construção e desintegração da URSS, oferecem inesgotáveis fontes de ensinamento aos povos de todo o mundo.</div><div>Quais são os seus sonhos para Portugal?</div><div>O “25 de abril de 1974” é uma “revolução inacabada”! Sabemos todos que as revoluções não têm data marcada... As lutas dos povos têm altos e baixos. Mas é certo que não podemos ficar como a nêspera, “que estava na cama, deitada, muito calada, a ver o que acontecia”… O nosso povo tem de ser agitado, informado, organizado e a parte mais consciente e activa deste povo, há-de tomar as rédeas na construção de uma sociedade de “novo tipo”, incomparavelmente mais democrática que as anteriores…</div><div>Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.</div><div>Projecto Vidas e Obras</div><div><div>Entrevista: Pedro Ma</div>rques</div><div>Correcção: B.T</div><div>07 de Junho de 2016</div><iframe src="//static.usrfiles.com/html/c3afa3_5167ae5dda3731277d186ee8ff4abe51.html"/><div>07 de Junho de 2016</div></div>]]></content:encoded></item></channel></rss>